terça-feira, 30 de agosto de 2016

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
IV
PRIMEIRA PARTE
Acordei cedo, como sempre! Olho o tecto da minha casa velha, tão velha como os meus sonhos de menina, quantas vezes a desfazer-se em noites de vendavais, embatendo nas janelas com as vidraças fumadas e esfumadas no tempo que nem sempre filtra os gnomos e os fantasmas...Tive de me levantar. A minha cama, às vezes tem espinhos. Mas na parede não está o letreiro da Floresta Branca de José Gomes Ferreira -: "É proibida a entrada a quem estiver espantado de existir".
Espantada fiquei eu, ao verificar como me vesti hoje!...De verde e azul. Na minha juventude dizia-se "azul e verde, escarro na parede". Hoje o entendimento é outro. Mas eu não costumo misturar essas cores. Hoje, talvez se deva a um repentino daltonismo ou ao aflorar duma simbologia recalcada no meu subconsciente. É que seria crucial e desejável um melhor entendimento entre Freamunde e Paços. Todos dizemos que temos amigos do outro lado e eles devolvem-nos a simpatia. De que não gostamos? "Amigos, amigos, negócios à parte", eu sei. Aqui negócios significa desenvolvimento e isso faz (fez sempre) despertar a emolução  e a competição. De parte a parte. Lá dizia o meu avô, o sr. Antoninho Douro, na Lixa "olha filha, ninguém pode ver um farrapo lavado no corpo do vizinho" e "o argueiro que seja no olho dele!"
Falo de Lixa, onde nas férias do meu tempo de estudante, aprendia a bordar. Aqui, falamos muito nessa terra, por similitude nas aspirações e na situação. Até no bairrismo!...
Mas...ainda há bairrismo em Freamunde? Bairrismo rima com egoísmo. Lá estão os ismos. Como o Freamundismo que tantas vezes tento fazer aflorar. Sem ser contra algo ou alguém. Como espírito e garra!
Chove! A minha viagem real e física fica prejudicada. Ah! Esta vontade irreprimível de partir!
A chuva refresca a cabeça e é bom sorver o ar tépido a subir da terra em efervescência pelos últimos calores inusuais. Mas...em busca de quê?
Subo pela avenida nova que culmina na Praça 19 de Abril. É a data da nossa cidade. Dou comigo a hesitar entre o desejo de voltar a ser vila e o orgulho de ser cidade. Fui contra e fui a favor. Sou contra e sou a favor. Não vale a pena explicar o paradoxo global. Global? Como tudo é agora, economia, cultura...É ou tende a ser?
Mas ia eu na praça ou praceta. Por onde ir? Subi até ao café Malheiro e recordei o poeta das caçadas e das reuniões de amigos. Parei no cruzamento. As subidas cansam. Segui a rua do Arnaldo Brito, outro poeta celebrado na nossa toponímia. Poeta da família e autarca prudente! Fui até à igreja. Ali quase nada mudou. Afinal há quem e o que resista à mudança horaciana. São geralmente as coisas e os lugares sagrados que resistem às investidas dos tempos e às modas. Representam valores perenes. Só em Jerusalém, onde se sucederam três religiões, as bombas e as intifadas vão destruindo relíquias do passado, marcas culturais que são vencidas pelos ódios e as tentativas fanáticas de domínio.
Ali apeteceu-me rezar e chorar...
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Gente da Nossa Terra

 BERNARDINO MACHADO

É mesmo daqueles tais:
a terra acima de tudo!...
Nasceu a ouvir o canudo,
não o largou nunca mais...

Este filho cá da gente,
tem a vida organizada
lá prós lados de Arreigada,
mas vive aqui permanente.

Tem o seu lugar cativo
no Clube Recreativo
desta terra que ele abraça!...

E jura com alegria,
também vir a ser, um dia,
um símbolo da nossa raça!

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

São Sebastião

Uma fotografia do mártir São Sebastião. Uma estátua mandada erigir pela Comissão de Festas Sebastianas de 1992, no adro da Capela de São Francisco.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Banda de Freamunde ( XIII )

Em Novembro de 1936, assumiu a regência o sargento reformado da G. N. R., Miguel Moreira, em substituição de António Tavares da Silva Santos, entretanto radicado na cidade do Porto (em 1938, foi regente da Banda de Pinheiro da Bemposta).
Miguel Moreira fixou residência em Freamunde, numa casa de António Taipa Coelho de Brito, antigo industrial de peles envernizadas e sapataria, pai de Arnaldo e Ernesto Gomes Taipa, ali p'rós lados de Freamunde de Cima. Casou no dia 13 de Agosto de 1937 com Emília Coelho Teixeira, de Amarante. De três filhos, o primeiro, Fernando, nasceu cá. Ainda do velhinho livro de apontamentos de Américo Pereira Gomes, repleto de documentos felizmente recuperados, prontinhos que estavam, como tantos outros, a serem atirados para os domínios do esquecimento, descortinámos esta curiosa referência: «No dia 28 de Novembro de 1936, Miguel Moreira fez o 1º ensaio, à noite, tratado por 250$00 mensais, a principiar em Janeiro de 1937».
A Banda continuava a ser uma instituição respeitada, mantendo os seus homens a força galvanizadora de que se ufanavam.
Continuava a ser disputada para os principais arraiais, para importantes cerimónias. Sem a banda de música, os actos públicos não tinham o luzimentos que se impunha.
A vigência de Miguel Moreira à frente da banda (5 anos) coincidiu com um dos momentos mais áureos da mesma, sempre sequiosa de glória. Não são muito os registos, mas alguns, extraídos do "Heraldo", são por demais elucidativos quanto à real valia da banda que continuava a passear classe.
(...) 19-20-21 de Setembro de 1936: A Banda de Freamunde abrilhantou as importantes festas da Senhora da Ajuda, em Espinho, onde tocou com as mais afamadas bandas do país, sendo a mais ovacionada por todos os apreciadores presentes nos concertos.
Outro evento a que tivemos acesso durante as pesquisas sobre a vida musical da Banda de Freamunde, transporta-nos ao mítico "Carvalhal", em dia de festa, no longínquo ano de 1939.
(...) Em 2 de Abril, o "Carvalhal" engalanou-se para uma festa desportiva promovida pela Direcção do Freamunde Sport Club e que constou dum "match" de "football" entre o grupo local e o Pedrouços. Mas festa sem música não teria o brilhantismo desejado. Assim, pelas 14:00, deu entrada a afamada Banda Freamundense que, sob regência do maestro Miguel Moreira, interpretou trechos lindíssimos do seu vasto e requintado repertório. A execução, magistral, agradou por inteiro aos exigentes apreciadores.
Mas - e há sempre um mas...-, a cara não condizia com a careta. As condições disponíveis ao nível de instrumentos e fardamentos eram bastante precárias. Os uniformes mostravam-se desabotoados, rotos, sujos...Havia necessidade de melhorar a indumentária, sobretudo. Carolas? Existiam, alguns. Mas só abriam os cordões à bolsa cobrando uns juritos. A 8% ao ano. Até o padre Castro tinha "aberto os olhos". Ele e o Claudino "do Pacheco". Mas que abonavam sempre, lá isso abonavam!
Tanto assim, que por alturas do Santo António (13 de Junho) foi estreado um belo e novo fardamento, confeccionado na alfaiataria de Américo Pereira Gomes - está lá tudo bem expresso no livro que este ilustre freamundense nos legou e ao qual recorremos frequentemente -, exibido e passeado nas festas ao Mártir São Sebastião, do ano de 1939.
JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS" - 2012

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Uma imagem

Uma imagem do monumento ao soldado da paz, da autoria do escultor Manuel Pereira da Silva, inaugurado em 13 de Julho de 2007.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Jubileu sacerdotal de D. António Taipa

Entrevista a D. António Taipa, Bispo Auxiliar do Porto, publicada no Jornal Gazeta de Paços de Ferreira na edição de 4 de Agosto.
D. António Taipa foi ordenado padre a 15 de Agosto de 1966, na Sé Catedral do Porto, por D. Florentino Andrade e Silva, na altura Administrador Apostólico. Em 21 de Fevereiro de 1999 foi nomeado Bispo Auxiliar do Porto. A ordenação episcopal aconteceu a 18 de Abril de 1999, na Sé Catedral do Porto.
No próximo dia 15 de Agosto comemora o seu jubileu sacerdotal. 50 anos ao serviço da Igreja.
Imagens gentilmente cedidas pelo Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Bombeiros Voluntários de Freamunde ( VII )

2.2 A QUESTÃO DO NOME
Instituída na povoação de Freamunde, concelho de Paços de Ferreira, por tempo ilimitado, a nova associação é baptizada como Associação dos Bombeiros Voluntários de Freamunde, logo no 1º dos seus estatutos.
Porém, desde há muito tempo que vem usando o termo Humanitária na sua designação, sem que de facto existisse documento jurídico que o suportasse. Nas actas de 1942, era dirigente o Padre António Alves Pereira de Castro, aparecem as primeiras referências à Associação Humanitária dos Bombeiros. Em 1948 é feita uma alteração aos estatutos, é o próprio Governador Civil que se refere à instituição como sendo a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Freamunde. Dadas as características e valores que este tipo de instituições defende, foi um nome adoptado sem qualquer oposição e correspondendo até à realidade. Aliás, até se pode dizer que nesse período, os bombeiros sem farda foram além dos seus objectivos quando, em Outubro de 1948, decidiram fazer assistência social ao promoverem "uma subscrição pública no sentido de angariar donativos para pagamento de passaporte do açoriano Manuel Cabral que vivia miseravelmente em Freamunde".
O nome da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Freamunde está hoje aprovado pelos sócios da instituição, por força da assembleia-geral de 28 de Setembro de 2004 que aprovou uns estatutos completamente novos.
Os Voluntários de Freamunde em frente ao quartel (Rua do Comércio)
2.3 A QUESTÃO DA DATA DA FUNDAÇÃO E DOS ANIVERSÁRIOS
Várias são as datas que marcam o início da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Freamunde, mas é no mês de Julho que sempre se comemorou o aniversário da instituição.
Se considerarmos fundação como o seu princípio puro e simples, pode então considerar-se o dia 28 de Outubro de 1928. Porém, se entendermos fundação como os alicerces ou os fundamentos de um edifício, então teremos de considerar o dia 9 de Fevereiro de 1929, data em que foram aprovados os primeiros estatutos da corporação de bombeiros de Freamunde. Ou então poderia ainda considerar-se o dia em que o Governo Civil passou o alvará que reconhece personalidade jurídica à instituição.
De facto, a instituição estaria fundada no dia em que teve as fundações para se auto construir, mas se não fosse dotada de um corpo de bombeiros operacional, era o mesmo que se não existisse. Daí que outros acontecimentos concorram para que sejam considerados como os da data de fundação: desde logo a primeira incorporação de bombeiros, que é posterior a 30 de Outubro de 1930, data em que são aprovadas pelos sócios as pessoas que vão fazer parte do conselho de incorporação; assim como a data da inauguração do seu quartel e dos seus meios. Em Freamunde, a data considerada para efeitos de comemoração do aniversário da corporação de bombeiros é esta última. Embora o primeiro quartel dos bombeiros de Freamunde, situado em São Francisco, tenha sido inaugurado e patenteado ao público a 13 de Junho de 1931, é no mês seguinte que se comemora o aniversário. A justificação para que tal suceda é o facto de ser no segundo fim-de-semana de Julho que se realiza, em Freamunde, um dos seus dois grandes acontecimentos anuais: as Festas Sebastianas. Em 1931 também assim aconteceu. Os dirigentes de então decidiram inaugurar e benzer o Pronto-Socorro, numa festa própria com um programa a rigor no dia da festa do Mártir São Sebastião. Estava assim o corpo de bombeiros pronto a construir o seu próprio edifício. Por várias vezes, a meados de Julho ainda nos anos 1930, a Liga enviou cartões de saudações desejando as maiores prosperidades pela passagem de mais um aniversário.
2.4  O CINQUENTENÁRIO
A direcção e comando da corporação de Freamunde já puderam festejar o cinquentenário da sua existência em casa própria. A 12 de Julho de 1980 foi organizada e realizada uma festa para qual foram convidadas cerca de centena e meia de pessoas.
O Comando solicitou à Liga dos Bombeiros Portugueses, para o Dr. Jaime Barros, presidente da direcção, a medalha de ouro - duas estrelas, pelos relevantes serviços prestados à associação. Pelo mesmo comandante, Carlos Felgueiras, e ainda com aprovação da direcção, por ocasião deste emblemático aniversário, foi assinada a ordem de serviço número 14 que determina que os comandantes das corporações de Felgueiras (José Júlio da Costa Guimarães), Lousada (Amílcar Abílio Leite Neto), Baltar ( Carlos Alfredo dos Santos), Paços de Ferreira (Francisco Pereira Lino) e Vizela (António Montenegro Mendonça Pinto) fossem considerados comandantes honorários da corporação de Freamunde.
 JOÃO VASCONCELOS - "BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE FREAMUNDE - 75 ANOS" - 2005

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A sina dum revoltado

A sina dum revoltado é um livro da autoria do freamundense António "Rodela", lançado em Março de 2016. 
António Alberto Ribeiro Taipa (Rodela) nasceu em Freamunde, a 24 de Março de 1946. Completada a instrução primária, logo ingressou no mundo do trabalho.
Orgulha-se da sua origem e não esconde as suas limitações académicas.
Também, muito cedo, começou a sentir a sua vocação para a poesia.
Em Junho de 1987 fez parte dum trabalho de recolha de poesia de conterrâneos seus, editado por Fredemundus - Freamunde e o Sentimento Popular.
Numa edição de um Colectivo Freamundense, é lançada em Abril de 1988 a sua primeira obra «a solo» - Escola da Vida. Volta a ser editado em Abril de 1992, desta vez numa edição da AALF, num livro que divide com outra poetisa de Freamunde, Rosalina Oliveira - Labaredas. Em Abril de 1997, conjuntamente com a Câmara Municipal de Paços de Ferreira e Junta de Freguesia de Freamunde, é lançada a obra Nacos de Vida. Em Junho de 2001, juntamente com Inô Vitor (Vitorino Ribeiro) é lançada a obra de poesia ilustrada Pedaços de Nós. Em Setembro de 2013, outra vez conjuntamente com Inô Vitor, sai a obra de poesia ilustrada Gente da Nossa Terra.
A pureza e autenticidade da sua poesia não cansa. Por isso, os livros vão surgindo e muitos serão certamente os amigos que esperam sempre mais um,...mais um...e mais um!...E quem sabe se ele não deixará de lhes satisfazer essa vontade...

A SINA DUM REVOLTADO

A sina dum revoltado
Não é mais que a minha sina,
Por sempre ter renegado
Aceitar uma doutrina.

Eu também tive uma mãe
E que bem que me educou.
Até fez de mãe e pai,
Mas o fruto não vingou.

Pelas suas próprias mãos
Ninguém se faz, meus irmãos,
E eu nasci p'ra ser assim:

Acompanhado ou sozinho,
Deixem-me ir p'lo caminho,
Não tenham pena de mim!

ANTÓNIO RODELA - "A SINA DUM REVOLTADO" - MARÇO DE 2016

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Padre Francisco Augusto Peixoto

 26-1-1865 / 17-5-1940
Filho de António Ferreira de Brito Peixoto, negociante, natural de Freamunde, e de Augusta Rosa, costureira, (menina exposta no adro da capela de S. Francisco e criada por Maria Ferreira, mulher de António Teles, de Figueiras, moradores no lugar da Feira, Freamunde), recebeu as bênçãos dos padrinhos de baptismo, o Fidalgo da Casa Real de Ribas ou Casa do Passal, Francisco Vaz Guedes Pinto Bacelar, solteiro, representado pelo procurador Joaquim Pacheco, e a sua nobre mana Dona Maria Eugénia, solteira, representada pela procuradora Gertrudes Ferreira. Aos mesmos ficou devendo a sua formatura. Foi ordenado presbítero em 1886.
Teve cinco irmãos: Miguel, José, Angelina, Libório e Ana Augusta.
Como chegou a referir o Professor Manuel Vieira Dinis, «o Padre Francisco Peixoto - o Padre Moça, alcunha já vinda do Seminário - debruçara-se muito sobre o passado da sua terra; pôs praticamente a descoberto as raízes ou origens dos primeiros núcleos humanos por estes sítios.
O Reverendo chegou mesmo a mencionar a existência de uma necrópole da idade do ferro num local elevado, mais tarde denominado de S. Martinho. A mesma informação foi corroborada pelos achados de Martinho Nunes "Catano", que procedeu a escavações no local, no início do século XX, e ali encontrou mós, um cunhal duma porta, parte de uns degraus de uma escaleira em pedra e outros materiais entretanto sorvidos pela ignorância e pela indiferença dos povos».
Capela de S. Francisco em cujo adro foi exposta a mãe do Padre Francisco
Os seus trabalhos como historiador, poeta, memorista, jornalista, cronista, investigador, publicista (No jornal "A Pátria", importantíssimo diário democrático da capital, de tendência republicana, sob direcção superior de José Benevides, pode ler-se um artigo da sua responsabilidade, datado de 1900, sobre Religião e República)..., revelaram-no notável polígrafo.
Sempre ligado, de forma apaixonada, aos movimentos literários e culturais, revelado nos seus estudos sobre várias monografias, sobretudo a de Freamunde, possuía na casa onde habitava, que já nem existe, demolida que foi, uma biblioteca particular com cerca de dois milhares de obras primas da literatura portuguesa e estrangeira, entre elas; "Ilíada", em francês e português; "A Messiada"; "D. Quixote" (edição de luxo), "A Odisseia"; "Os Lusíadas"; "O Inferno", de Dante..., que doou, em 19 de Março de 1916, à Associação de Socorros Mútuos Freamundense, de quem fez parte, entre 1901 e 1918, dos vários orgãos sociais. Foi muito justamente homenageado, em sessão solene do 19 de Março de 1927, no salão da referida Associação Benemérita, com colocação e descerramento de fotografia por José Maria Pinto de Almeida.
Revelou, também, predisposição para ensaios de poesia, através do seu livro "Horas de Ócio". Que é feito desse espólio tido como suas jóias predilectas? Mais tarde, para a biblioteca do Clube Recreativo também dispensou imensos exemplares. Onde estão?
Momento para lamentar, infelizmente, a perda de muitas pesquisas, dispersas no seu lar, eventualmente deitadas ao lixo ou queimadas, a partir da sua senilidade. Este distinto orador e erudito arqueólogo, com o seu precioso oferecimento patenteou o grande amor que consagrava à sua terra natal, Freamunde.
Antiga casa do Padre Francisco Peixoto
Diz quem melhor o conheceu que junto dele ventilavam-se frequentemente intricados assuntos religiosos, teológicos e filosóficos, como se ventilavam, também, assuntos referentes à História (Monografias), à Poética, à Política... (Liberal exaltado e audacioso, integrou as primeiras comissões municipais republicanas do concelho, criadas em 1895, lideradas pelo Dr. Leão de Meireles), conservando sempre a nitidez das ideias. Após a implantação da República e os efeitos que daí advieram com a laicização, teve no "colega" de Sousela, padre Cunha, um feroz opositor, com insinuações constantes no "Jornal de Lousada", como fez eco a edição de 22 de Outubro de 1911, p.1, nº 220:  «...consta que a susceptibilidade nervosa, feminina, do meu sempre estimado vizinho anda muito irritada por causados republicanos haverem faltado à conhecida promessa de o fazerem bispo quando subissem ao poder. Daí a sua novíssima evolução para monarchico ferrenho, daí supor-se alvejado pelo apitheto de bispinho».
O padre Francisco, ainda abade de Covas, respondeu-lhe, no mesmo jornal, uma semana depois: «...eu nunca pedi a republicano favores de qualidade alguma..., que sou, de motu próprio, republicano, anterior ao 31 de Janeiro de 1891, por convicções hauridas em alguns livros da nossa história..., que desde que sahiu a lei da separação, vendo que essa lei se propõe a oppressão dos cathólicos e a extirpação do sentimento religioso..., a tenha combatido..., por entender que ella é um mal para a sociedade e para a pátria portuguesa, que, enfim, é falsíssima a minha evolução para monarchico, como sua Rv.mª afirma». 
Igreja de São João de Covas
Mas já a 5 de Novembro de 1911, a redacção do "Jornal de Lousada" termina com o "espectáculo" ao afirmar que «...o Reverendo Parocho de Covas é um dos raros republicanos históricos deste concelho, tendo até bastante soffrido pela causa da República. Effectivamente, por ocasião da malograda revolta de 31 de Janeiro de 1891, contra aquele nosso amigo foi passada ordem de prisão que, se não chegou a realizar-se, foi devido à benevolência das autoridades locaes. Este facto é suficiente para comprovar os seus sentimentos republicanos».
O seu verbo era eloquente e dominador. Então nas sessões solenes do 19 de Março, na Associação de Socorros Mútuos Freamundense...!
Da sua actividade religiosa, conhecem-se passagens, em 1895, como capelão na freguesia de Paços de Ferreira, e, em 1902, pela Paróquia de Frazão, como pároco encomendado. Atribulações políticas, com repercussões no periódico regionalista "Jornal de Paços de Ferreira" (os monárquicos - Regeneradores e Progressistas - e os Republicanos gladiavam-se), causaram a sua exoneração. Políticas e pessoais porque, segundo o próprio padre Francisco, o principal responsável de toda aquela situação chamava-se "Tartufo" - o padre Pedro -, que naquela freguesia pretendia colocar o sobrinho, depois de tentativas frustradas em Ferreira e Vilela. Em 1907, exercia o seu "mónus" pastoral na freguesia de Covas-Lousada, lá permanecendo até 1915, aproximadamente.
Além de sacerdote, era um grande curioso por tudo o que dissesse respeito a Freamunde. Nos quinzenários "Jornal de Paços de Ferreira" e "O Progresso de Paços de Ferreira", aí por volta de 1906, foi assíduo e apreciado colaborador, deixando, também, no "Jornal de Lousada", inúmeros escritos, muitas crónicas sobre etimologia e evolução histórica das freguesias do concelho e poemas de rara beleza. Um dos relatos mais curiosos encontrados  nas páginas de uma edição do "Jornal de Lousada":
O Padre Francisco (3º, em baixo, a contar da esquerda) com sócios do Clube Recreativo
«ACONTECIMENTOS QUE FIZERAM HISTÓRIA. INVASÕES FRANCESAS: Em meados de Maio de 1809, 15.000 homens de Soult, na sua retirada do Porto, passaram por Penafiel, Nespereira, Lousada, Covas, Freamunde e Guimarães, em direcção a Orense, Galiza. Não consta que horda dos ferozes sicambros praticassem por aqui grandes atrocidades ou roubos. Apenas alguns soldados, ao passarem no lugar da Costa Velha, Covas, encontraram aberta a porta de uma cozinha, entraram, tiraram e comeram a carne que estava a cozer numa panela e tentaram matar uma galinha, arremessando-lhe um cavaco». "Peixoto, Padre Francisco. Lousada - Sua origem e antiguidades. Jornal de Lousada, 25-10-1914". A ele se deve, também, várias alusões aos monumentos e sítios arqueológicos, cenas pitorescas e referências sobre várias personalidades. Passou, então, a viver do rendimento de algumas propriedades rústicas que possuía em Freamunde. Outras já as havia doado. Segundo o jornal "O Pacense, de 1 de Dezembro de 1931, «...por escritura pública de 13-11-1930, foi feita doação pelo Reverendo Padre Francisco Augusto Peixoto, ao Reverendo Cónego da Sé Catedral do Porto, do Campo e Leira da Eira e duma casa em construção, no lugar da Igreja, Freamunde, terrenos estes que pertenceram ao antigo Passal desta mesma freguesia e que o doador  havia adquirido por compra à Junta de Freguesia, sendo esta doação feita com o fim de na referida casa habitar o pároco da freguesia (o que veio a acontecer) e nos anexos se criar uma creche para crianças e um asilo para inválidos (estas últimas "vontades não passaram de boas intenções). Como insigne orador sacro, sempre fluente em estilo, sempre redundando o seu discurso a um ideal supremo e profícuo em toda a sua forma, o renome granjeado levou-o, em dias festivos e por encomenda, a várias localidades do distrito, onde os sermões eram ouvidos com respeito e admiração. 
Porém, os honorários que cobrava pela participação, mal chegavam para o sustentar.
Um dia, viu-se abandonado. Ou quase. As economias que amealhara durante vários anos foram-se pouco a pouco.
A pobreza aproximou-se a passos lestos. Depois dos campos, a casa, já hipotecada, teve de ser vendida por "tuta e meia". À sua porta começaram a bater os credores. Onde estavam os amigos?
Foi-se o último tostão. Tinha começado a fome. Quando chegara a hora de comer, nada na prateleira.
O padre definhou. Conservava, porém, lá no fundo a sua dignidade, a estrutura sólida de homem honrado.
Contudo, não foi preciso pedir esmola. Afinal, ainda havia gente boa nesta terra; uma malga de sopa quente e uma "aletria" bem doce para enganar o estômago e acalmar o espírito, apareciam sempre. Dos vizinhos, sobretudo de Esmeraldina Gomes Taipa; da extremosa Olívia "Merrei", que o acompanhou com dedicação e cuidados infatigáveis, aconchegou, afagou, até à morte; da comadre (Fernanda Pinto Gomes Bessa), da afilhada (Maria Julieta Bessa Pinto Gomes)... A "verdadeira família" que ainda possuía. Não a única.
Com virtudes e defeitos, quem os não tem ?!, cometeu, dizem, um ou outro "pecadilho". Será que tais factos deviam ser ignorados? Fazerem parte daquela metade oculta do perfil de tamanha personalidade? É claro que tudo isso teve pouco que ver com os valores humanos que profundamente partilhou; mas o que ele fez está feito. Nunca o renegou; nunca quis disfarçar as suas responsabilidades nesses tempos. Mesmo sabendo que, mais tarde, estaria sujeito a que lhe "cravassem algumas punhaladas póstumas".
Aconselharam-me a relatar toda a verdade, porque, disseram-me, no decorrer dos anos, todos aprenderam a respeitá-lo e se reconciliaram com a imagem inicial que dele guardaram. Assim fiz.
O padre Francisco Peixoto, através de documento, demonstrou que era senhor e possuidor de campa perpétua, situada à entrada do portão, no passeio principal do cemitério, comprada à Câmara Municipal, administradora naquele tempo dos cemitérios do concelho.
E porquê ali? Após a morte, todos o pisassem eternamente por uma situação que lhe atormentava a alma: o tiro de zagalote, disparado acidentalmente mas que matou um rapazinho entretido a colher fruta no seu quintal (era a fome, certamente).
No dia 17 de Maio de 1940, com 75 anos de idade, desapareceu o homem que representa e personifica épocas importantes da história de Freamunde.
A sua biografia, bem explorada, daria assunto para mais algumas páginas. Limitei-me a mostrar de fugida esta personagem, figura curiosa de um freamundense de gema.
Foi homenageado, por muito que Freamunde deve à grande figura mental de padre Francisco, durante as comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a Vila (Maio de 1983), ficando o seu nome perpetuado em placa toponímica: "Rua Padre Francisco Peixoto" - (Começa no Largo de Santo António e acaba em Xistos).
O Padre Meireles descerra a placa toponímica

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A preto e branco

A igreja matriz de Freamunde, ou a igreja do Divino Salvador, a preto e branco num dia deste Verão  quente que há muito não se via...Mais uma fotografia da igreja, agora num outro enquadramento.