terça-feira, 30 de agosto de 2016

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
IV
PRIMEIRA PARTE
Acordei cedo, como sempre! Olho o tecto da minha casa velha, tão velha como os meus sonhos de menina, quantas vezes a desfazer-se em noites de vendavais, embatendo nas janelas com as vidraças fumadas e esfumadas no tempo que nem sempre filtra os gnomos e os fantasmas...Tive de me levantar. A minha cama, às vezes tem espinhos. Mas na parede não está o letreiro da Floresta Branca de José Gomes Ferreira -: "É proibida a entrada a quem estiver espantado de existir".
Espantada fiquei eu, ao verificar como me vesti hoje!...De verde e azul. Na minha juventude dizia-se "azul e verde, escarro na parede". Hoje o entendimento é outro. Mas eu não costumo misturar essas cores. Hoje, talvez se deva a um repentino daltonismo ou ao aflorar duma simbologia recalcada no meu subconsciente. É que seria crucial e desejável um melhor entendimento entre Freamunde e Paços. Todos dizemos que temos amigos do outro lado e eles devolvem-nos a simpatia. De que não gostamos? "Amigos, amigos, negócios à parte", eu sei. Aqui negócios significa desenvolvimento e isso faz (fez sempre) despertar a emolução  e a competição. De parte a parte. Lá dizia o meu avô, o sr. Antoninho Douro, na Lixa "olha filha, ninguém pode ver um farrapo lavado no corpo do vizinho" e "o argueiro que seja no olho dele!"
Falo de Lixa, onde nas férias do meu tempo de estudante, aprendia a bordar. Aqui, falamos muito nessa terra, por similitude nas aspirações e na situação. Até no bairrismo!...
Mas...ainda há bairrismo em Freamunde? Bairrismo rima com egoísmo. Lá estão os ismos. Como o Freamundismo que tantas vezes tento fazer aflorar. Sem ser contra algo ou alguém. Como espírito e garra!
Chove! A minha viagem real e física fica prejudicada. Ah! Esta vontade irreprimível de partir!
A chuva refresca a cabeça e é bom sorver o ar tépido a subir da terra em efervescência pelos últimos calores inusuais. Mas...em busca de quê?
Subo pela avenida nova que culmina na Praça 19 de Abril. É a data da nossa cidade. Dou comigo a hesitar entre o desejo de voltar a ser vila e o orgulho de ser cidade. Fui contra e fui a favor. Sou contra e sou a favor. Não vale a pena explicar o paradoxo global. Global? Como tudo é agora, economia, cultura...É ou tende a ser?
Mas ia eu na praça ou praceta. Por onde ir? Subi até ao café Malheiro e recordei o poeta das caçadas e das reuniões de amigos. Parei no cruzamento. As subidas cansam. Segui a rua do Arnaldo Brito, outro poeta celebrado na nossa toponímia. Poeta da família e autarca prudente! Fui até à igreja. Ali quase nada mudou. Afinal há quem e o que resista à mudança horaciana. São geralmente as coisas e os lugares sagrados que resistem às investidas dos tempos e às modas. Representam valores perenes. Só em Jerusalém, onde se sucederam três religiões, as bombas e as intifadas vão destruindo relíquias do passado, marcas culturais que são vencidas pelos ódios e as tentativas fanáticas de domínio.
Ali apeteceu-me rezar e chorar...
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

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