quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Padre Francisco Augusto Peixoto

 26-1-1865 / 17-5-1940
Filho de António Ferreira de Brito Peixoto, negociante, natural de Freamunde, e de Augusta Rosa, costureira, (menina exposta no adro da capela de S. Francisco e criada por Maria Ferreira, mulher de António Teles, de Figueiras, moradores no lugar da Feira, Freamunde), recebeu as bênçãos dos padrinhos de baptismo, o Fidalgo da Casa Real de Ribas ou Casa do Passal, Francisco Vaz Guedes Pinto Bacelar, solteiro, representado pelo procurador Joaquim Pacheco, e a sua nobre mana Dona Maria Eugénia, solteira, representada pela procuradora Gertrudes Ferreira. Aos mesmos ficou devendo a sua formatura. Foi ordenado presbítero em 1886.
Teve cinco irmãos: Miguel, José, Angelina, Libório e Ana Augusta.
Como chegou a referir o Professor Manuel Vieira Dinis, «o Padre Francisco Peixoto - o Padre Moça, alcunha já vinda do Seminário - debruçara-se muito sobre o passado da sua terra; pôs praticamente a descoberto as raízes ou origens dos primeiros núcleos humanos por estes sítios.
O Reverendo chegou mesmo a mencionar a existência de uma necrópole da idade do ferro num local elevado, mais tarde denominado de S. Martinho. A mesma informação foi corroborada pelos achados de Martinho Nunes "Catano", que procedeu a escavações no local, no início do século XX, e ali encontrou mós, um cunhal duma porta, parte de uns degraus de uma escaleira em pedra e outros materiais entretanto sorvidos pela ignorância e pela indiferença dos povos».
Capela de S. Francisco em cujo adro foi exposta a mãe do Padre Francisco
Os seus trabalhos como historiador, poeta, memorista, jornalista, cronista, investigador, publicista (No jornal "A Pátria", importantíssimo diário democrático da capital, de tendência republicana, sob direcção superior de José Benevides, pode ler-se um artigo da sua responsabilidade, datado de 1900, sobre Religião e República)..., revelaram-no notável polígrafo.
Sempre ligado, de forma apaixonada, aos movimentos literários e culturais, revelado nos seus estudos sobre várias monografias, sobretudo a de Freamunde, possuía na casa onde habitava, que já nem existe, demolida que foi, uma biblioteca particular com cerca de dois milhares de obras primas da literatura portuguesa e estrangeira, entre elas; "Ilíada", em francês e português; "A Messiada"; "D. Quixote" (edição de luxo), "A Odisseia"; "Os Lusíadas"; "O Inferno", de Dante..., que doou, em 19 de Março de 1916, à Associação de Socorros Mútuos Freamundense, de quem fez parte, entre 1901 e 1918, dos vários orgãos sociais. Foi muito justamente homenageado, em sessão solene do 19 de Março de 1927, no salão da referida Associação Benemérita, com colocação e descerramento de fotografia por José Maria Pinto de Almeida.
Revelou, também, predisposição para ensaios de poesia, através do seu livro "Horas de Ócio". Que é feito desse espólio tido como suas jóias predilectas? Mais tarde, para a biblioteca do Clube Recreativo também dispensou imensos exemplares. Onde estão?
Momento para lamentar, infelizmente, a perda de muitas pesquisas, dispersas no seu lar, eventualmente deitadas ao lixo ou queimadas, a partir da sua senilidade. Este distinto orador e erudito arqueólogo, com o seu precioso oferecimento patenteou o grande amor que consagrava à sua terra natal, Freamunde.
Antiga casa do Padre Francisco Peixoto
Diz quem melhor o conheceu que junto dele ventilavam-se frequentemente intricados assuntos religiosos, teológicos e filosóficos, como se ventilavam, também, assuntos referentes à História (Monografias), à Poética, à Política... (Liberal exaltado e audacioso, integrou as primeiras comissões municipais republicanas do concelho, criadas em 1895, lideradas pelo Dr. Leão de Meireles), conservando sempre a nitidez das ideias. Após a implantação da República e os efeitos que daí advieram com a laicização, teve no "colega" de Sousela, padre Cunha, um feroz opositor, com insinuações constantes no "Jornal de Lousada", como fez eco a edição de 22 de Outubro de 1911, p.1, nº 220:  «...consta que a susceptibilidade nervosa, feminina, do meu sempre estimado vizinho anda muito irritada por causados republicanos haverem faltado à conhecida promessa de o fazerem bispo quando subissem ao poder. Daí a sua novíssima evolução para monarchico ferrenho, daí supor-se alvejado pelo apitheto de bispinho».
O padre Francisco, ainda abade de Covas, respondeu-lhe, no mesmo jornal, uma semana depois: «...eu nunca pedi a republicano favores de qualidade alguma..., que sou, de motu próprio, republicano, anterior ao 31 de Janeiro de 1891, por convicções hauridas em alguns livros da nossa história..., que desde que sahiu a lei da separação, vendo que essa lei se propõe a oppressão dos cathólicos e a extirpação do sentimento religioso..., a tenha combatido..., por entender que ella é um mal para a sociedade e para a pátria portuguesa, que, enfim, é falsíssima a minha evolução para monarchico, como sua Rv.mª afirma». 
Igreja de São João de Covas
Mas já a 5 de Novembro de 1911, a redacção do "Jornal de Lousada" termina com o "espectáculo" ao afirmar que «...o Reverendo Parocho de Covas é um dos raros republicanos históricos deste concelho, tendo até bastante soffrido pela causa da República. Effectivamente, por ocasião da malograda revolta de 31 de Janeiro de 1891, contra aquele nosso amigo foi passada ordem de prisão que, se não chegou a realizar-se, foi devido à benevolência das autoridades locaes. Este facto é suficiente para comprovar os seus sentimentos republicanos».
O seu verbo era eloquente e dominador. Então nas sessões solenes do 19 de Março, na Associação de Socorros Mútuos Freamundense...!
Da sua actividade religiosa, conhecem-se passagens, em 1895, como capelão na freguesia de Paços de Ferreira, e, em 1902, pela Paróquia de Frazão, como pároco encomendado. Atribulações políticas, com repercussões no periódico regionalista "Jornal de Paços de Ferreira" (os monárquicos - Regeneradores e Progressistas - e os Republicanos gladiavam-se), causaram a sua exoneração. Políticas e pessoais porque, segundo o próprio padre Francisco, o principal responsável de toda aquela situação chamava-se "Tartufo" - o padre Pedro -, que naquela freguesia pretendia colocar o sobrinho, depois de tentativas frustradas em Ferreira e Vilela. Em 1907, exercia o seu "mónus" pastoral na freguesia de Covas-Lousada, lá permanecendo até 1915, aproximadamente.
Além de sacerdote, era um grande curioso por tudo o que dissesse respeito a Freamunde. Nos quinzenários "Jornal de Paços de Ferreira" e "O Progresso de Paços de Ferreira", aí por volta de 1906, foi assíduo e apreciado colaborador, deixando, também, no "Jornal de Lousada", inúmeros escritos, muitas crónicas sobre etimologia e evolução histórica das freguesias do concelho e poemas de rara beleza. Um dos relatos mais curiosos encontrados  nas páginas de uma edição do "Jornal de Lousada":
O Padre Francisco (3º, em baixo, a contar da esquerda) com sócios do Clube Recreativo
«ACONTECIMENTOS QUE FIZERAM HISTÓRIA. INVASÕES FRANCESAS: Em meados de Maio de 1809, 15.000 homens de Soult, na sua retirada do Porto, passaram por Penafiel, Nespereira, Lousada, Covas, Freamunde e Guimarães, em direcção a Orense, Galiza. Não consta que horda dos ferozes sicambros praticassem por aqui grandes atrocidades ou roubos. Apenas alguns soldados, ao passarem no lugar da Costa Velha, Covas, encontraram aberta a porta de uma cozinha, entraram, tiraram e comeram a carne que estava a cozer numa panela e tentaram matar uma galinha, arremessando-lhe um cavaco». "Peixoto, Padre Francisco. Lousada - Sua origem e antiguidades. Jornal de Lousada, 25-10-1914". A ele se deve, também, várias alusões aos monumentos e sítios arqueológicos, cenas pitorescas e referências sobre várias personalidades. Passou, então, a viver do rendimento de algumas propriedades rústicas que possuía em Freamunde. Outras já as havia doado. Segundo o jornal "O Pacense, de 1 de Dezembro de 1931, «...por escritura pública de 13-11-1930, foi feita doação pelo Reverendo Padre Francisco Augusto Peixoto, ao Reverendo Cónego da Sé Catedral do Porto, do Campo e Leira da Eira e duma casa em construção, no lugar da Igreja, Freamunde, terrenos estes que pertenceram ao antigo Passal desta mesma freguesia e que o doador  havia adquirido por compra à Junta de Freguesia, sendo esta doação feita com o fim de na referida casa habitar o pároco da freguesia (o que veio a acontecer) e nos anexos se criar uma creche para crianças e um asilo para inválidos (estas últimas "vontades não passaram de boas intenções). Como insigne orador sacro, sempre fluente em estilo, sempre redundando o seu discurso a um ideal supremo e profícuo em toda a sua forma, o renome granjeado levou-o, em dias festivos e por encomenda, a várias localidades do distrito, onde os sermões eram ouvidos com respeito e admiração. 
Porém, os honorários que cobrava pela participação, mal chegavam para o sustentar.
Um dia, viu-se abandonado. Ou quase. As economias que amealhara durante vários anos foram-se pouco a pouco.
A pobreza aproximou-se a passos lestos. Depois dos campos, a casa, já hipotecada, teve de ser vendida por "tuta e meia". À sua porta começaram a bater os credores. Onde estavam os amigos?
Foi-se o último tostão. Tinha começado a fome. Quando chegara a hora de comer, nada na prateleira.
O padre definhou. Conservava, porém, lá no fundo a sua dignidade, a estrutura sólida de homem honrado.
Contudo, não foi preciso pedir esmola. Afinal, ainda havia gente boa nesta terra; uma malga de sopa quente e uma "aletria" bem doce para enganar o estômago e acalmar o espírito, apareciam sempre. Dos vizinhos, sobretudo de Esmeraldina Gomes Taipa; da extremosa Olívia "Merrei", que o acompanhou com dedicação e cuidados infatigáveis, aconchegou, afagou, até à morte; da comadre (Fernanda Pinto Gomes Bessa), da afilhada (Maria Julieta Bessa Pinto Gomes)... A "verdadeira família" que ainda possuía. Não a única.
Com virtudes e defeitos, quem os não tem ?!, cometeu, dizem, um ou outro "pecadilho". Será que tais factos deviam ser ignorados? Fazerem parte daquela metade oculta do perfil de tamanha personalidade? É claro que tudo isso teve pouco que ver com os valores humanos que profundamente partilhou; mas o que ele fez está feito. Nunca o renegou; nunca quis disfarçar as suas responsabilidades nesses tempos. Mesmo sabendo que, mais tarde, estaria sujeito a que lhe "cravassem algumas punhaladas póstumas".
Aconselharam-me a relatar toda a verdade, porque, disseram-me, no decorrer dos anos, todos aprenderam a respeitá-lo e se reconciliaram com a imagem inicial que dele guardaram. Assim fiz.
O padre Francisco Peixoto, através de documento, demonstrou que era senhor e possuidor de campa perpétua, situada à entrada do portão, no passeio principal do cemitério, comprada à Câmara Municipal, administradora naquele tempo dos cemitérios do concelho.
E porquê ali? Após a morte, todos o pisassem eternamente por uma situação que lhe atormentava a alma: o tiro de zagalote, disparado acidentalmente mas que matou um rapazinho entretido a colher fruta no seu quintal (era a fome, certamente).
No dia 17 de Maio de 1940, com 75 anos de idade, desapareceu o homem que representa e personifica épocas importantes da história de Freamunde.
A sua biografia, bem explorada, daria assunto para mais algumas páginas. Limitei-me a mostrar de fugida esta personagem, figura curiosa de um freamundense de gema.
Foi homenageado, por muito que Freamunde deve à grande figura mental de padre Francisco, durante as comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a Vila (Maio de 1983), ficando o seu nome perpetuado em placa toponímica: "Rua Padre Francisco Peixoto" - (Começa no Largo de Santo António e acaba em Xistos).
O Padre Meireles descerra a placa toponímica

Nenhum comentário: