sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Esta é mesmo verdadeira

UM "ATENTO"...DESATENTO
...e passou-se numa representação do nosso GTF, mais precisamente numa representação da peça "Um Diabo Bom Rapaz".
Já há muito que o grupo tinha abolido a "caixa do ponto" esse obsoleto e incomodativo traste colocado a meio da extremidade do "proscénio" hoje, felizmente, banido de todos os palcos do mundo, pelo menos dos palcos onde se pretende fazer teatro de qualidade. Abolido o "caixote", fora, também, abolido o indivíduo que nele "morava" e que dava pelo pomposo nome de "ponto". E, se bem que a palavra "ponto" ainda não tinha sido riscada do vocabulário teatral, a verdade é que tal já não existe hoje: em sua substituição foi eleita uma ou mais pessoas que, estrategicamente colocadas nos "bastidores", têm a obrigação de acompanharem, caladas, a leitura da peça, só intervindo quando pressentem algum lapso de memória do actor em cena, o que facilmente acontece. Porque têm de estar com toda a atenção a estes contratempos, chamam-se, com toda a lógica, "atentos", embora os programas insistam em considerá-los "pontos", quando inseridos na ficha técnica.
Naquela altura, estava de "atento" à representação a que acima referi o meu querido amigo António Vieira, hoje bem conhecido em Freamunde pelas suas feiras do móvel moderno com que, anualmente, alegra a pacatez do nosso burgo.
No palco, o "Diabo" (Nélson Lopes) tentava convencer o aparvalhado "José Luís" (Alberto Graça) com conceitos filosóficos que este se esforçava por destruir. Mas eis que a este lhe falta o termo exacto com que devia interpelar o seu intercolutor e esperou que o "atento" Vieira o socorresse. De resto o "atento" encontrava-se bem situado para o efeito, pois estava entre "bastidores" na "esquerda-baixa", mesmo por trás do actor aflito, a talvez menos de um metro de distância.
Mas o, neste caso, pouco "atento", entretido com a representação, talvez...nada. Em cena, o embaraçoso silêncio que o "ofício" dos actores presentes tentava dissimular com movimentos e atitudes não marcadas, enquanto Alberto Graça, apavorado, fazia aflitivos sinais ao Vieira, sem dele receber o almejado auxílio que, insistentemente, lhe pedia. Vieira, indiferente e satisfeito, gozava com a situação e, em vez de "atirar" a frase em falta diz, quase ao ouvido do mais que desesperado Alberto Graça:
-"Estás à rasca, estupor!..."
FERNANDO SANTOS - "ESTA É MESMO VERDADEIRA" - JULHO DE 2001

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