segunda-feira, 31 de outubro de 2016

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Uma perspectiva

Uma perspectiva sobre a Avenida do Centro de Saúde, desde o monumento ao Capão e à cidade de Freamunde. Um monumento situado na Praça 19 de Abril, da autoria de Gusto Ramos, inaugurado em 2001.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A sina dum revoltado

MINHA VIDA DE VERSOS

A poesia é o sol da minha vida,
que me alimenta a alma, dia a dia.
Traz-me a paz e os momentos de alegria
nas horas mais difíceis desta vida.

Cada verso que eu faço é uma luz
que vem iluminar o meu caminho,
que não passa dum espaço, dum cantinho
onde eu vou carregando a minha cruz!

Dou tudo quanto tenho de melhor
p'ra matar a paixão da minha dor,
nem que p'ra isso tenha que puxar

as orelhas às musas desta fonte,
p'ra que, depois de mim alguém vos conte
os versos que eu ao mundo vim cantar!

RODELA - "A SINA DUM REVOLTADO" - MARÇO DE 2016

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Mendonça Pinto deixa comando dos Bombeiros de Freamunde ao fim de 30 anos

Mendonça Pinto deixa comando dos Bombeiros de Freamunde ao fim de 30 anos
 “Ninguém tem nada que me agradecer. Eu é que tenho que agradecer por me terem deixado estar nos bombeiros e fazer aquilo que sempre quis: ajudar os outros”
A sua história de vida confunde-se com a dos Bombeiros Voluntários de Freamunde. António Mendonça Pinto, o comandante com mais anos de serviço do distrito do Porto, deixou o comando da corporação freamundense e passou ao quadro de honra, por força da lei, mas a paixão por servir e por ajudar os outros mantém-se.
Por isso, se passar pelo quartel dos Bombeiros Voluntários de Freamunde e vir o “comandante” Mendonça Pinto por lá, não estranhe.
Aos 66 anos, e com mais de 35 anos dedicados aos bombeiros, primeiro nos corpos dirigentes e depois no comando, este homem promete continuar a defender o lema “Vida por Vida”.
“Ninguém tem nada que me agradecer. Eu é que tenho que agradecer por me terem deixado estar nos bombeiros e fazer aquilo que sempre quis: ajudar os outros”, garante.
António Mendonça Pinto nasceu em Felgueiras, mas foi em Lousada que viveu toda a infância e juventude. Com os pais e os quatro irmãos viveu aquilo que designa como “uma infância acima da média” para aquela altura. “Os meus pais não eram ricos, viviam do trabalho, mas tínhamos um bom nível de vida. O meu pai tinha carro, o que era raro naquela altura, e saíamos para passear”, recorda. Viviam no centro da vila, junto ao quartel dos Bombeiros Voluntários de Lousada. Talvez esteja aí a semente da sua paixão pelos soldados da paz.
Em Lousada, fez o percurso escolar até por volta dos 15 anos, foi jogador de hóquei e fez parte dos corpos dirigentes da Associação Desportiva de Lousada. Depois de deixar a escola, fez alguns biscates, num alfaiate e como tarefeiro dos CTT até ir para a tropa. Ingressou nos paraquedistas e depois foi para a Guiné, entre 1972 e 1975, onde ainda participou em operações de combate. Mas como sabia dactilografar, acabou por ficar a fazer secretariado. Só voltaria a Portugal já depois do 25 de Abril.
Estava desempregado, mas não cruzou os braços, conta. “Escrevi uma carta ao Correio-Mor a dizer que andava à procura de trabalho e fui chamado ao Largo 1.º de Dezembro, no Porto, num sábado. Perguntaram-me se queria ficar a trabalhar logo nesse dia”, diz Mendonça Pinto. Ficou. Nesse e nos dos próximos cerca de cinco anos em que se dedicou à indexação de cartas que ajudava a separar a correspondência.
Entretanto casou e foi viver para Freamunde, terra que adoptou como sua há mais de 40 anos. Foi então que se candidatou a um concurso para trabalhar na área das telecomunicações e foi colocado em Penafiel, onde foi administrativo e passou por vários cargos de chefia da Portugal Telecom até se reformar, há cerca de 12 anos.
Não chegou aos bombeiros pela parte operacional. Integrou primeiro os órgãos directivos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Freamunde, há cerca de 35 anos.
Só mais tarde, foi recomendado para ocupar o lugar de 2.º comandante. Ocupou essas funções durante quase um ano, até que, pela saída do comandante da altura, foi novamente convidado para assumir a liderança da corporação. Aceitou. E comandou os Bombeiros Voluntários de Freamunde nos últimos cerca de 30 anos. Passou agora ao quadro de honra, por força da lei, por estar acima dos 65 anos. “Por mim continuava, embora reconheça que é bom que venham pessoas mais novas e com outras ideias”, confessa.
Deixou a parte operacional, mas não a directiva. Continua a ser tesoureiro da associação humanitária até ao final do ano. Também não deixou o quartel nem a segunda família – de cerca de 180 elementos – que tem nos bombeiros. Todos os dias passa lá, como antes, como sempre.
“Preocupei-me sempre em servir as pessoas, é para isso que estamos ali. Temos que tratar as pessoas como gostaríamos de ser tratados. Enquanto lá estiver vou lutar sempre por isso”, garante.
Serviu as pessoas também na política, assumindo funções na Junta de Freguesia e Assembleia de Freguesia de Freamunde.
E foi de luta e persistência que se fizeram os anos de Mendonça Pinto na liderança desta corporação. Os bombeiros e o quartel mudaram muito nos últimos 30 anos. Cresceu o corpo activo, cresceram as instalações e o número de veículos.
Durante o seu comando, o quartel sofreu duas ampliações, sempre por necessidade, sustenta. “Há cerca de 25 anos, cresceu para o dobro para poder alojar as viaturas. A última obra, inaugurada há cerca de dois anos, também teve o mesmo fim, mas quis também dar melhores condições às camaratas dos bombeiros”, acrescenta o “comandante”. E há ainda um terreno adquirido, da parte detrás do quartel, onde pretendem construir alguns anexos (lavandaria, oficina, estação de serviço) e aumentar o espaço da parada.
“Não vai ser preciso mais ampliações no quartel dos Bombeiros de Freamunde e já não se justifica construir um edifício novo”, acredita.
Mas para chegar até aqui a luta foi grande. Sem se vangloriar, não esconde que foi o seu empenho que ajudou a conseguir estas últimas obras, financiadas pelo QREN, e a aquisição de algumas viaturas necessárias ao longo dos últimos anos. “Reuni muitas vezes com a câmara, com o QREN, fui muitas vezes a Lisboa”, recorda.
Esse seu empenho foi lembrado no último aniversário dos Bombeiros Voluntários de Freamunde e está mesmo fixado nas paredes do quartel, numa placa de agradecimento.
Quem saiu sacrificada foi a família, que, no entanto, sempre compreendeu a sua devoção à causa dos bombeiros. “Antes de ia para o trabalho ia ao quartel, quando saía passava lá e depois do jantar ainda voltava. A minha mulher dizia-me muitas vezes que passava mais tempo no quartel do que em casa. Agradeço sempre por me terem compreendido e por terem percebido que era algo de que eu gostava”, explica.
A dedicação aos bombeiros foi contínua. Só esteve afastado da corporação há cerca de 10 anos, quando atravessou um grave problema de saúde. Foi operado de um dia para o outro, teve que retirar o estômago e complicações deixaram-no em coma durante quatro meses. A recuperação foi demorada e teve que passar por várias cirurgias.
“Foi um período muito difícil da minha vida”, reconhece. Hoje está totalmente recuperado e pode fazer uma alimentação sem restrições. Mas algo mudou, concorda. A forma de ver a vida é agora diferente. “Fiquei mais desprendido dos bens materiais e gosto ainda mais de estar com a família e amigos e de sair. Dou valor a outras coisas”, sustenta Mendonça Pinto.
Da sua acção como comandante não guarda arrependimentos. Haveria no entanto coisas que, a esta distância, poderia ter feito de forma diferente, reconhece. Guarda sobretudo muitas histórias, nem todas com final feliz. Mas prefere destacar as boas. Como as vezes em que, levado pela paixão de ajudar o próximo, levava a filha no seu trabalho de bombeiro. “Mais do que uma vez vinha do trabalho, em Penafiel, com a minha filha ainda pequena, e, antes de ir para casa, ainda passava pelos bombeiros. Aconteceu chegar lá e dizerem-me que havia um incêndio. Arranquei para lá com ela no carro e quando cheguei entreguei-a às pessoas que estavam por ali a assistir e que não conhecia para tomarem conta da menina”, conta. Talvez por isso, Ana seja hoje também bombeira da corporação. “Desde pequena que andava sempre comigo, quando eu ia para os bombeiros agarrava-se a mim e dizia que também queria ir”, recorda.
Incêndios difíceis também fazer parte das suas lembranças. O mais complicado foi mesmo um que combatiam na zona centro do país, quando integravam o dispositivo nacional de combate a incêndios. O fogo parecia controlado quando um pequeno reacendimento no fundo de um vale acabou por provocar um susto. “O incêndio vinha a subir lentamente pela encosta e não era preocupante. Limitamo-nos a molhar uma casa por prevenção e estávamos a tentar evitar que atravessasse a estrada. Mas em alguns minutos, começou a arder com tal velocidade que obrigou todos a fugir, bombeiros e jornalistas que estavam no local. A minha preocupação foi ver se alguém estava ferido. Foi a maior situação de desespero que vivi. Tive muito receio, mas tudo acabou bem”, congratula-se.
O que vai guardar destes mais de 30 anos no comando? “As amizades e o facto de ter ajudado pessoas”, responde Mendonça Pinto. “Ninguém tem nada que me agradecer. Eu é que tenho que agradecer por me terem deixado estar nos bombeiros e fazer aquilo que sempre quis: ajudar os outros”, sustenta.
Até ao final do ano vai ainda continuar ligado aos bombeiros pelas funções directivas. Mas diz-se disponível para ajudar com a sua experiência onde for preciso.
Em breve, deverá ser substituído no comando por José Domingos, actual segundo comandante, nome proposto para assumir a liderança. “O quartel fica bem entregue. É uma pessoa competente e responsável. Por isso o escolhi para segundo comandante e me acompanhou estes 30 anos. Ele conhece os bombeiros e é merecido que seja ele”, conclui Mendonça Pinto.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Coronel Barreiros

  (10-8-1893 / 23-8-1965)
De nome próprio: José Baptista Barreiros.
Do enlace com D. Maria da Conceição Alves da Cruz (irmã, entre outros, de Dr. Alberto e Arnaldo Cruz), da Casa da Igreja, Freamunde, resultou o nascimento de duas filhas: Maria Elvira e Maria Cristina.
Muito novo, frequentou as Faculdades de Ciências (Matemática) e Direito, em Coimbra, e tirou o curso superior da Escola de Guerra (1916/1917).
De uma crónica assinada por A.M., de Braga - pessoa autorizada e com conhecimento de fontes capazes de melhor ficarmos a conhecer a personalidade do distinto Coronel, de talhe bem militar, metódica, calma, distinta, e arrumada na interpretação dos factos históricos a que por muito tempo ligou seu nome em ribalta de grande responsabilidade deixada por Rocha Martins -, e publicada no jornal regionalista "Gazeta de Paços de Ferreira", alguns respigos, como preito de admiração e gratidão a tão ilustre figura, que dispensou a Freamunde larga predilecção:
« (...) Os lugares que exerceu em Braga, onde fez uma grande parte da sua carreira militar, alguns por mero acidente, como os de presidente da Junta Distrital, pouco interessam para a compreensão da sua figura, que era estruturalmente a de um patriota, a de um republicano e a de liberal, embora, por vezes, circunstâncias fortuitas o houvessem aparentemente desviado do caminho de uma plena afirmação de princípios e atitudes.
Tinha, porém, um pronunciado sentido do dever e da capacidade de servir e assim, posto que afastado, por convicção, das actividades políticas directas desde 1926 (era então comandante da P.S.P. do distrito), nunca recusou a sua colaboração, mostrando maior ou menor entusiasmo, em benefício dos valores morais e culturais do povo e da Pátria através da defesa e da proclamação dos seus direitos tanto na sua própria conduta pessoal como nos seus trabalhos de pesquisador e de ressuscitador de velhos textos, em que bebia a força alentadora do seu testemunho de português consciente.
Após a sua passagem à reserva, em 1953, consagrou-se apaixonadamente com devoção e persistência, a uma fecunda tarefa de historiógrafo positivista, escrevendo magníficos ensaios e elucidativas crónicas sobre relevantes acontecimentos e vultos nacionais.
Possuía aptidões natas de investigador, um raciocínio claro, um sólido bom senso, uma lucidez penetrante no comentário, um critério esclarecido, uma segura prudência no avançar julgamentos e no extrair conclusões, uma prosa correntia de expositor, uma larga soma de conhecimentos especializados, um arreigado gosto pelas coisas singelas ou fabulosas do passado.
(...) Não deixou uma obra de envergadura, susceptível de traduzir o conjunto dos seus méritos e das suas possibilidades, decerto porque o não permitiram as limitações da sua existência. Em todo o caso coligiu subsídios e exumou documentos de real importância.
Premiado diversas vezes pelos seus trabalhos publicados na "Revista Militar", onde assiduamente colaborou, o coronel Barreiros, que também foi professor nos Altos Estudos Militares, era um técnico abalizado, com a excepcional competência de quem ocupa jubilosamente um lugar para cumprir uma missão em favor da grei: filho do povo, rendeu sempre a sua homenagem ao povo, com inalterável respeito.
Foi episódico o seu trânsito pela Santa Casa da Misericórdia - aí quis também por inteiro colocar-se ao lado do povo, mas acabou por renunciar ante um mundo de dificuldades e de inibições a que o seu temperamento e a sua educação de militar não se adaptavam de ânimo leve - e a sua presidência na Junta Distrital, quase desde logo assinalada pela doença, não lhe deu oportunidades, por tão curta, de empreender um novo programa de realizações.
Mas a sua acção de patriota, livre de compromissos, à frente da delegação da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, cuja criação e desenvolvimento quase exclusivamente se lhe devem, conquistaram-lhe um prestígio tangível, sem benevolências nem convencionalismos, que se prolongou até final».
Foi de sua iniciativa a compra do Palácio dos Biscainhos para instalação do Museu de História, Arte e Etnografia, a promoção de Feiras, Exposições, Congressos, manifestações de carácter patriótico para comemorar datas nacionais.
Destaque para as condecorações de Comendador de Grande Oficial da Ordem Militar de Avis e a Medalha de Mérito Militar.
A notícia do seu súbdito desaparecimento, calou fundo no sentimento de todos os habitantes da Vila de Freamunde, já escassa de valores.
Esta Terra, concelho incluído, mereceu-lhe sempre um carinho especial, sendo alvo de vários e aprofundados estudos.
Deve-se-lhe a monografia de Freamunde, de alto valor histórico.
Em edição da Associação de Socorros Mútuos Freamundense foi publicada, em 1957, uma comunicação da sua autoria, apresentada ao Colóquio Bracarense de Estudos Suévicos Bizantinos, sob o título "Uma povoação Suévica da Chã de Ferreira - A Vila de Freamunde".
"Portugal de ontem e de hoje na sua missão histórica", foi a legenda de uma notável conferência pronunciada em Junho de 1961, na sede daquela Associação de Socorros, a que presidiu o Chefe do Distrito, Brigadeiro Gonçalves da Silva. Este trabalho foi depois editado pela Câmara Municipal.
Em 1957, a direcção do Clube Recreativo propôs sócio benemérito da Colectividade, o coronel Baptista Barreiros, pela valiosa colecção de livros que gentilmente ofereceu (onde param?), para o enriquecimento da Biblioteca, decisão aprovada por unanimidade e aclamação.
 É, pois, «altamente gostoso o sentimento que Freamunde, de lés-a-lés, devota ao saudoso coronel José Baptista Barreiros. Adventício da terra, teve por ela amor estranho e por ela queimou muitos dos poucos vagares em busca de elementos para a história de Freamunde».
Em 1983, por alturas das comemorações da elevação de Freamunde a Vila (Cinquentenário), o seu nome ficou eternizado em placa toponímica: Rua do Coronel Barreiros (da Rua D. Mercedes Barros à Rua Brigadeiro Alves de Sousa).

 JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Poesia de Freamundenses

CORRENTES QUE SE FUNDEM

Caminhas pela margem ininterrupta
Em busca de correntes que te escapam,
Por entre marés de nostalgia.

Navegas ao sabor de quantos sonhos
Outrora vividos, bem reais,
Procuras aquele mar vermelho em delírio
De onde tal como tu
Também eu esperava muito mais.

Embarquemos de novo de mãos dadas
E deixemos de sonhar a Primavera
Para de novo aportarmos neste cais
Onde como outrora uma tarefa nos espera.

Sem ceder nos princípios que norteiam
Esta luta que é de todos afinal
Naveguemos de mãos dadas coo o povo
E com ele defendamos Portugal.

JOSÉ LEAL - "ALMA FREAMUNDENSE - POESIA COLECTIVA" - JULHO DE 2004

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Em tons sépia

Uma imagem em tons sépia do coreto localizado no centro cívico de Freamunde. A sua construção, por iniciativa do Clube Recreativo Freamundense (fundado em 1926), é um exemplar existente no Jardim Arca d' Água, na cidade do Porto. A construção esteve a cargo de um empreeiteiro de Negrelos, de seu nome Garcia.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Coisas Minhas

A CAPELA DE FRADELOS
Desde menino que conhecia aquela capela, sem nunca lá ter entrado. De resto, não me lembro de a ter encontrado aberta, mais me parecendo uma propriedade particular do que um templo cristão. Se não fosse a sua torre sineira, dir-se-ia uma residência, modesta e recatada, com as suas cortinas rendadas nas janelas, sempre fechadas, o seu jardinzinho a rodeá-la, denotando evidentes sinais de carinhoso tratamento e asseio, defendido por um simpático muro com não menos simpático gradeamento e portão em ferro trabalhado, que nunca tinha visto aberto até ao dia em que, num descarado convite que aceitei, pela primeira vez se me apresentou escancarado.
Não sei quando, nem porquê, ali foi erigida a graciosa capela de Fradelos, nem em louvor de que santo, promessa ou devoção assenta a sua origem. Sei que sempre me habituei a vê-la naquele local, por onde eu passava a caminho de casa ou a caminho de inconfessáveis deambulações e actividades nocturnas que fazia com que a rua em que se encontrava fosse imprópria de ser nomeada junto de senhoras ou em locais de maior respeitabilidade...Na verdade, a rua de Guedes de Azevedo era, no tempo da minha juventude, juntamente com as ruas do Estevão, do Alferes Malheiro e a viela do Ferraz, os locais de perdição da cidade Invicta, onde o pecado tinha assentado arraiais à sombra de uma prostituição legalizada, que pagava licenças e taxas, estava sujeita a coimas, a fiscalizações e inspecções semanais e, se na altura já houvesse algum Cadilhe, cobraria IVA e andaria a estas horas aflita para compreender o IRS, o IRC, e todas as reformas fiscais com que o Governo nos brinda para nos facilitar a vida e defender os nossos interesses económicos...
Hoje tudo mudou: a cidade cresceu, a rua Sá da Bandeira estendeu-se, preguiçosamente, até à de Gonçalo Cristóvão e, para tal, prédios ruiram e outros - muito maiores e mais altos - se foram construindo, ocupando todos os espaços possíveis e despersonalizando artérias, como a de Guedes de Azevedo que, de escura, comprometida e quase sinistra, se cosmopolitizou e hoje fervilha de comércio e movimento. Só a simpática capelinha de Fradelos aguentou, modesta, o furacão do progresso e das demolições e ali se manteve, simples, calada e quase comprometida, verdadeira ilha da virtude e santidade perdida num avassalador mar de negócios, de interesses de todas as ordens e de um desenfreado e caótico trânsito, que lhe veio substituir as tristes Marias Madalenas, que a miséria lhe dera por vizinhas, sem que da troca resultasse grande compensação para a moral e a paz de espírito.
Quando por lá passei, há dias, na companhia da minha mulher, surpreendeu-me o portão escancarado e a meiga luz que do templo vinha através da porta, também aberta convidativamente, e decidimos entrar. Simpáticos passeios, entre pequenos canteiros à espera de uma Primavera que os alegre, guiaram nossos passos até ao interior do pequeno templo. Celebrava-se a Santa Missa naquele fim de tarde e duas surpresas nos aguardavam: a beleza e graciosa elegância do seu interior, com um altar-mor artística e ricamente entalhado e uma maravilhosa azulejaria nos laterais, e a figura do celebrante, distinto freamundense a quem, pela primeira vez, iria ouvir uma missa, devido à curiosidade a que o meu gosto pelas obras de arte me leva a fazer entrar em todas as igrejas: o Padre Leonel Barnabé Oliveira. Foram duas muito agradáveis surpresas: nunca imaginei um interior tão precioso e artístico e nunca pensei poder encontrar naquela casa uma cara amiga e conhecida. Tive a sensação de ter reconhecido, entre aquela meia dúzia de senhoras que ali se entregavam à devoção.Julgo mesmo que o padre Leonel alterou a sua homilia por nossa causa, quando se referiu à admiração que poderia causar a estranhos aquele templo, que nele entrassem, a alegre festa que daquela celebração faziam os tão poucos que ali se encontravam, como se enorme multidão fossem e em grande festividade estivessem. Com efeito o ambiente era, verdadeiramente, festivo e acolhedor e nele me senti calorosamente bem. Tão bem que até os cânticos daquelas poucas senhoras, tão comovedora e ingenuamente desafinados, me pareceram deverem ser assim e me soaram aos ouvidos divinamente. E, quando da saudação, uma delas se desloca do seu lugar, ainda afastado,e vem direita a mim, de mão estendida, para me saudar em Cristo, senti-me indigno daquela franqueza e comprometido por ali estar...Eu: uma montanha de pecados!...
Já cá fora, nem o ar frio da noite me despertou da sensação que trazia daquela minha velha amiga que, até ali, só conhecera pelo exterior. Inconscientemente um pé me descai do passeio e logo acordo com uma buzinadela e uma voz rude que me grita dentro de um carro:
- "Ó parolo! Vai para o passeio!..."
Nessa altura, já bem acordado, julgo que a montanha cresceu um pouco, pois devo ter voltado a pecar por pensamentos, palavras, actos, e - sobretudo - omissões...
FERNANDO SANTOS - "COISAS MINHAS"

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Gente da Nossa Terra

CANDEEIRO - MAXIMINO

Eis aqui o Candeeiro!...
Se o Freamunde ganhar,
vai cantar o dia inteiro
enquanto outro não chegar.

Se perde é tanta a tristeza,
que, enquanto a dor não passar,
ele senta-se a uma mesa
e bebe até a afogar.

É mesmo assim deste jeito
este homem de azul ao peito:
c'uma bandeira na mão

e um copinho na mente
põe a cantar toda a gente...
Freamunde é campeão!...

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Uma imagem

Uma imagem da Rua da Paz. Uma rua que homenageia valores universais, e é também um dos lemas de Freamunde: "Terra de Cultura, Trabalho e Paz".

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Feira dos Capões de outros tempos

Um belíssimo registo fotográfico da Feira dos Capões de outros tempos. Desconheço o ano desta feira que se realiza anualmente a 13 de Dezembro, no dia em que a liturgia católica venera Santa Luzia, a protectora da visão. Esta feira, cuja instituição oficial remonta a 3 de Outubro de 1719, por provisão D'El Rei D. João V, "rezestada na chancellaria Mor da Corte e Reino no livro de offícios a mercês a folhas quarenta e oito; em Lisboa occidental dois de Novembro de mil setecentos e dezanove (...)”.  Porém, alguns historiadores indicam-no como costume medieval, e de que há mesmo notícias em documentos do séc. XV, muito anterior, portanto, à provisão atrás citada. É  a feira em que o Capão é rei e senhor....
Fotografias gentilmente cedidas por Jorge Leão.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A preto e branco

Uma imagem a preto e branco do monumento aos Combatentes do Ultramar, da autoria do freamundense Augusto Ramos. Um monumento que homenageia os heróis da "Guerra das Ex-Colónias".