quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Coisas Minhas

A CAPELA DE FRADELOS
Desde menino que conhecia aquela capela, sem nunca lá ter entrado. De resto, não me lembro de a ter encontrado aberta, mais me parecendo uma propriedade particular do que um templo cristão. Se não fosse a sua torre sineira, dir-se-ia uma residência, modesta e recatada, com as suas cortinas rendadas nas janelas, sempre fechadas, o seu jardinzinho a rodeá-la, denotando evidentes sinais de carinhoso tratamento e asseio, defendido por um simpático muro com não menos simpático gradeamento e portão em ferro trabalhado, que nunca tinha visto aberto até ao dia em que, num descarado convite que aceitei, pela primeira vez se me apresentou escancarado.
Não sei quando, nem porquê, ali foi erigida a graciosa capela de Fradelos, nem em louvor de que santo, promessa ou devoção assenta a sua origem. Sei que sempre me habituei a vê-la naquele local, por onde eu passava a caminho de casa ou a caminho de inconfessáveis deambulações e actividades nocturnas que fazia com que a rua em que se encontrava fosse imprópria de ser nomeada junto de senhoras ou em locais de maior respeitabilidade...Na verdade, a rua de Guedes de Azevedo era, no tempo da minha juventude, juntamente com as ruas do Estevão, do Alferes Malheiro e a viela do Ferraz, os locais de perdição da cidade Invicta, onde o pecado tinha assentado arraiais à sombra de uma prostituição legalizada, que pagava licenças e taxas, estava sujeita a coimas, a fiscalizações e inspecções semanais e, se na altura já houvesse algum Cadilhe, cobraria IVA e andaria a estas horas aflita para compreender o IRS, o IRC, e todas as reformas fiscais com que o Governo nos brinda para nos facilitar a vida e defender os nossos interesses económicos...
Hoje tudo mudou: a cidade cresceu, a rua Sá da Bandeira estendeu-se, preguiçosamente, até à de Gonçalo Cristóvão e, para tal, prédios ruiram e outros - muito maiores e mais altos - se foram construindo, ocupando todos os espaços possíveis e despersonalizando artérias, como a de Guedes de Azevedo que, de escura, comprometida e quase sinistra, se cosmopolitizou e hoje fervilha de comércio e movimento. Só a simpática capelinha de Fradelos aguentou, modesta, o furacão do progresso e das demolições e ali se manteve, simples, calada e quase comprometida, verdadeira ilha da virtude e santidade perdida num avassalador mar de negócios, de interesses de todas as ordens e de um desenfreado e caótico trânsito, que lhe veio substituir as tristes Marias Madalenas, que a miséria lhe dera por vizinhas, sem que da troca resultasse grande compensação para a moral e a paz de espírito.
Quando por lá passei, há dias, na companhia da minha mulher, surpreendeu-me o portão escancarado e a meiga luz que do templo vinha através da porta, também aberta convidativamente, e decidimos entrar. Simpáticos passeios, entre pequenos canteiros à espera de uma Primavera que os alegre, guiaram nossos passos até ao interior do pequeno templo. Celebrava-se a Santa Missa naquele fim de tarde e duas surpresas nos aguardavam: a beleza e graciosa elegância do seu interior, com um altar-mor artística e ricamente entalhado e uma maravilhosa azulejaria nos laterais, e a figura do celebrante, distinto freamundense a quem, pela primeira vez, iria ouvir uma missa, devido à curiosidade a que o meu gosto pelas obras de arte me leva a fazer entrar em todas as igrejas: o Padre Leonel Barnabé Oliveira. Foram duas muito agradáveis surpresas: nunca imaginei um interior tão precioso e artístico e nunca pensei poder encontrar naquela casa uma cara amiga e conhecida. Tive a sensação de ter reconhecido, entre aquela meia dúzia de senhoras que ali se entregavam à devoção.Julgo mesmo que o padre Leonel alterou a sua homilia por nossa causa, quando se referiu à admiração que poderia causar a estranhos aquele templo, que nele entrassem, a alegre festa que daquela celebração faziam os tão poucos que ali se encontravam, como se enorme multidão fossem e em grande festividade estivessem. Com efeito o ambiente era, verdadeiramente, festivo e acolhedor e nele me senti calorosamente bem. Tão bem que até os cânticos daquelas poucas senhoras, tão comovedora e ingenuamente desafinados, me pareceram deverem ser assim e me soaram aos ouvidos divinamente. E, quando da saudação, uma delas se desloca do seu lugar, ainda afastado,e vem direita a mim, de mão estendida, para me saudar em Cristo, senti-me indigno daquela franqueza e comprometido por ali estar...Eu: uma montanha de pecados!...
Já cá fora, nem o ar frio da noite me despertou da sensação que trazia daquela minha velha amiga que, até ali, só conhecera pelo exterior. Inconscientemente um pé me descai do passeio e logo acordo com uma buzinadela e uma voz rude que me grita dentro de um carro:
- "Ó parolo! Vai para o passeio!..."
Nessa altura, já bem acordado, julgo que a montanha cresceu um pouco, pois devo ter voltado a pecar por pensamentos, palavras, actos, e - sobretudo - omissões...
FERNANDO SANTOS - "COISAS MINHAS"

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