segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Mendonça Pinto deixa comando dos Bombeiros de Freamunde ao fim de 30 anos

Mendonça Pinto deixa comando dos Bombeiros de Freamunde ao fim de 30 anos
 “Ninguém tem nada que me agradecer. Eu é que tenho que agradecer por me terem deixado estar nos bombeiros e fazer aquilo que sempre quis: ajudar os outros”
A sua história de vida confunde-se com a dos Bombeiros Voluntários de Freamunde. António Mendonça Pinto, o comandante com mais anos de serviço do distrito do Porto, deixou o comando da corporação freamundense e passou ao quadro de honra, por força da lei, mas a paixão por servir e por ajudar os outros mantém-se.
Por isso, se passar pelo quartel dos Bombeiros Voluntários de Freamunde e vir o “comandante” Mendonça Pinto por lá, não estranhe.
Aos 66 anos, e com mais de 35 anos dedicados aos bombeiros, primeiro nos corpos dirigentes e depois no comando, este homem promete continuar a defender o lema “Vida por Vida”.
“Ninguém tem nada que me agradecer. Eu é que tenho que agradecer por me terem deixado estar nos bombeiros e fazer aquilo que sempre quis: ajudar os outros”, garante.
António Mendonça Pinto nasceu em Felgueiras, mas foi em Lousada que viveu toda a infância e juventude. Com os pais e os quatro irmãos viveu aquilo que designa como “uma infância acima da média” para aquela altura. “Os meus pais não eram ricos, viviam do trabalho, mas tínhamos um bom nível de vida. O meu pai tinha carro, o que era raro naquela altura, e saíamos para passear”, recorda. Viviam no centro da vila, junto ao quartel dos Bombeiros Voluntários de Lousada. Talvez esteja aí a semente da sua paixão pelos soldados da paz.
Em Lousada, fez o percurso escolar até por volta dos 15 anos, foi jogador de hóquei e fez parte dos corpos dirigentes da Associação Desportiva de Lousada. Depois de deixar a escola, fez alguns biscates, num alfaiate e como tarefeiro dos CTT até ir para a tropa. Ingressou nos paraquedistas e depois foi para a Guiné, entre 1972 e 1975, onde ainda participou em operações de combate. Mas como sabia dactilografar, acabou por ficar a fazer secretariado. Só voltaria a Portugal já depois do 25 de Abril.
Estava desempregado, mas não cruzou os braços, conta. “Escrevi uma carta ao Correio-Mor a dizer que andava à procura de trabalho e fui chamado ao Largo 1.º de Dezembro, no Porto, num sábado. Perguntaram-me se queria ficar a trabalhar logo nesse dia”, diz Mendonça Pinto. Ficou. Nesse e nos dos próximos cerca de cinco anos em que se dedicou à indexação de cartas que ajudava a separar a correspondência.
Entretanto casou e foi viver para Freamunde, terra que adoptou como sua há mais de 40 anos. Foi então que se candidatou a um concurso para trabalhar na área das telecomunicações e foi colocado em Penafiel, onde foi administrativo e passou por vários cargos de chefia da Portugal Telecom até se reformar, há cerca de 12 anos.
Não chegou aos bombeiros pela parte operacional. Integrou primeiro os órgãos directivos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Freamunde, há cerca de 35 anos.
Só mais tarde, foi recomendado para ocupar o lugar de 2.º comandante. Ocupou essas funções durante quase um ano, até que, pela saída do comandante da altura, foi novamente convidado para assumir a liderança da corporação. Aceitou. E comandou os Bombeiros Voluntários de Freamunde nos últimos cerca de 30 anos. Passou agora ao quadro de honra, por força da lei, por estar acima dos 65 anos. “Por mim continuava, embora reconheça que é bom que venham pessoas mais novas e com outras ideias”, confessa.
Deixou a parte operacional, mas não a directiva. Continua a ser tesoureiro da associação humanitária até ao final do ano. Também não deixou o quartel nem a segunda família – de cerca de 180 elementos – que tem nos bombeiros. Todos os dias passa lá, como antes, como sempre.
“Preocupei-me sempre em servir as pessoas, é para isso que estamos ali. Temos que tratar as pessoas como gostaríamos de ser tratados. Enquanto lá estiver vou lutar sempre por isso”, garante.
Serviu as pessoas também na política, assumindo funções na Junta de Freguesia e Assembleia de Freguesia de Freamunde.
E foi de luta e persistência que se fizeram os anos de Mendonça Pinto na liderança desta corporação. Os bombeiros e o quartel mudaram muito nos últimos 30 anos. Cresceu o corpo activo, cresceram as instalações e o número de veículos.
Durante o seu comando, o quartel sofreu duas ampliações, sempre por necessidade, sustenta. “Há cerca de 25 anos, cresceu para o dobro para poder alojar as viaturas. A última obra, inaugurada há cerca de dois anos, também teve o mesmo fim, mas quis também dar melhores condições às camaratas dos bombeiros”, acrescenta o “comandante”. E há ainda um terreno adquirido, da parte detrás do quartel, onde pretendem construir alguns anexos (lavandaria, oficina, estação de serviço) e aumentar o espaço da parada.
“Não vai ser preciso mais ampliações no quartel dos Bombeiros de Freamunde e já não se justifica construir um edifício novo”, acredita.
Mas para chegar até aqui a luta foi grande. Sem se vangloriar, não esconde que foi o seu empenho que ajudou a conseguir estas últimas obras, financiadas pelo QREN, e a aquisição de algumas viaturas necessárias ao longo dos últimos anos. “Reuni muitas vezes com a câmara, com o QREN, fui muitas vezes a Lisboa”, recorda.
Esse seu empenho foi lembrado no último aniversário dos Bombeiros Voluntários de Freamunde e está mesmo fixado nas paredes do quartel, numa placa de agradecimento.
Quem saiu sacrificada foi a família, que, no entanto, sempre compreendeu a sua devoção à causa dos bombeiros. “Antes de ia para o trabalho ia ao quartel, quando saía passava lá e depois do jantar ainda voltava. A minha mulher dizia-me muitas vezes que passava mais tempo no quartel do que em casa. Agradeço sempre por me terem compreendido e por terem percebido que era algo de que eu gostava”, explica.
A dedicação aos bombeiros foi contínua. Só esteve afastado da corporação há cerca de 10 anos, quando atravessou um grave problema de saúde. Foi operado de um dia para o outro, teve que retirar o estômago e complicações deixaram-no em coma durante quatro meses. A recuperação foi demorada e teve que passar por várias cirurgias.
“Foi um período muito difícil da minha vida”, reconhece. Hoje está totalmente recuperado e pode fazer uma alimentação sem restrições. Mas algo mudou, concorda. A forma de ver a vida é agora diferente. “Fiquei mais desprendido dos bens materiais e gosto ainda mais de estar com a família e amigos e de sair. Dou valor a outras coisas”, sustenta Mendonça Pinto.
Da sua acção como comandante não guarda arrependimentos. Haveria no entanto coisas que, a esta distância, poderia ter feito de forma diferente, reconhece. Guarda sobretudo muitas histórias, nem todas com final feliz. Mas prefere destacar as boas. Como as vezes em que, levado pela paixão de ajudar o próximo, levava a filha no seu trabalho de bombeiro. “Mais do que uma vez vinha do trabalho, em Penafiel, com a minha filha ainda pequena, e, antes de ir para casa, ainda passava pelos bombeiros. Aconteceu chegar lá e dizerem-me que havia um incêndio. Arranquei para lá com ela no carro e quando cheguei entreguei-a às pessoas que estavam por ali a assistir e que não conhecia para tomarem conta da menina”, conta. Talvez por isso, Ana seja hoje também bombeira da corporação. “Desde pequena que andava sempre comigo, quando eu ia para os bombeiros agarrava-se a mim e dizia que também queria ir”, recorda.
Incêndios difíceis também fazer parte das suas lembranças. O mais complicado foi mesmo um que combatiam na zona centro do país, quando integravam o dispositivo nacional de combate a incêndios. O fogo parecia controlado quando um pequeno reacendimento no fundo de um vale acabou por provocar um susto. “O incêndio vinha a subir lentamente pela encosta e não era preocupante. Limitamo-nos a molhar uma casa por prevenção e estávamos a tentar evitar que atravessasse a estrada. Mas em alguns minutos, começou a arder com tal velocidade que obrigou todos a fugir, bombeiros e jornalistas que estavam no local. A minha preocupação foi ver se alguém estava ferido. Foi a maior situação de desespero que vivi. Tive muito receio, mas tudo acabou bem”, congratula-se.
O que vai guardar destes mais de 30 anos no comando? “As amizades e o facto de ter ajudado pessoas”, responde Mendonça Pinto. “Ninguém tem nada que me agradecer. Eu é que tenho que agradecer por me terem deixado estar nos bombeiros e fazer aquilo que sempre quis: ajudar os outros”, sustenta.
Até ao final do ano vai ainda continuar ligado aos bombeiros pelas funções directivas. Mas diz-se disponível para ajudar com a sua experiência onde for preciso.
Em breve, deverá ser substituído no comando por José Domingos, actual segundo comandante, nome proposto para assumir a liderança. “O quartel fica bem entregue. É uma pessoa competente e responsável. Por isso o escolhi para segundo comandante e me acompanhou estes 30 anos. Ele conhece os bombeiros e é merecido que seja ele”, conclui Mendonça Pinto.

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