quarta-feira, 30 de novembro de 2016

XI Semana Gastronómica Capão à Freamunde

São 13 os restaurantes que, este ano, participam na Semana Gastronómica do Capão à Freamunde, em Paços de Ferreira.
De 1 a 13 de Dezembro, quem quiser degustar esta iguaria gastronómica pode fazê-lo nos restaurantes Aidé – Paços de Ferreira Hotel; A Presa; Adega Regional – Quim Cancela; Bom Garfo; Casa Anhinho; Casa de S. Francisco Wine Bar; Lareu’s; A Parilhada; O Gusto; O Telheiro; O Penta2; O Tarasco e S. Domingos.
O objectivo da iniciativa é promover o capão, produto já certificado com Indicação Geográfica Protegida.
À semelhança de anos anteriores, realiza-se, no dia 12, um concurso gastronómico que vai eleger o melhor Capão à Freamunde. O prémio será entregue durante o jantar de Gala promovido pela Associação de Jovens Ao Futuro, com o apoio da Confraria do Capão, da Associação de Criadores de Capão e da Junta de Freguesia de Freamunde, na Quinta do Pinheiro.
No dia 13, realiza-se a tradicional Feira de Santa Luzia, conhecida por “Feiras dos Capões”, onde será eleito o melhor capão vivo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Poesia de Freamundenses

PRIMAVERA

O campo despe a veste acinzentada
É Primavera! Agora só flores e nardos
O Sol que enche o Céu lança seus dardos
E a terra sente-se assim acalentada.

E pus rosas bem cheirosas no cabelo
E rosmaninho e tomilho e alfazema
Meu corpo tão franzino tão pequeno
Ficou assim mais atraente e belo.

E meu rosto assim iluminado
Cheio o cabelo de rosas e laços coloridos
Parece um roseiral em tarde ensolarada.

Vermelha cor-de-rosa ou amarela?
Deixa-me adivinhar a que melhor me fica
Deixa-me sentir que sou a mais amada.

MARIA FERNANDA FELGUEIRAS - "TERRAS DE FERRARA - NÓS E A PAISAGEM" - 2003

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Joaquim Carneiro da Silva "Quim Loreira"

 (27-02-1927/17-02-1993)
Filho de Joaquim Carneiro da Silva e de Joaquina de Sousa, era membro de uma família humilde, modesta mas considerada de Freamunde, "Os Loreiras", nascida e criada na Gandarela, lugar emaranhado de ruelas e becos, na época em que o facto constituía um drama, querendo dizer, simplesmente, ser pobre.
Também lá nasceram, certamente, advogados, médicos..., mas a maioria era "pé descalço".
De corpo franzino e seco, bigode à Clark Gable, rosto marcado por uma vida de dura luta, certo dia, em animada cavaqueira junto ao Café Teles, falou, para um grupo de amigos, das suas aventuras e dos caminhos que trilhou. Dos tempos difíceis.
Antes, levantou e rodou ligeiramente a gorra que sempre trouxe. Sei lá quantas vezes! Nem os dias amenos o faziam destapar a cabeça, senão dentro de casa ou nas saudações às pessoas "respeitáveis".
Depois, lá desembuchou: - «Sabem, nesta nossa terra, neste nosso país, nas décadas de quarenta, cinquenta, sessenta..., onde os pobres viviam com evidentes sacrifícios, onde os árduos trabalhos lhes estavam destinados, também eu comi o pão que o diabo amassou. Corri o mar e a marinha à cata dessa coisa que é viver. A juventude de hoje não faz a mínima ideia do sofrimento da maioria das pessoas desse tempo».
Lembra-se de ir à escola, de conhecer as letras do alfabeto, mas não suficiente para ter aprendido a ler.
A memória não lhe chegava, sequer, para precisar a idade que tinha quando foi trabalhar: treze, catorze anos..., talvez.
Educado nos valores tradicionais - seu pai trabalhava a pedra como ninguém -, "empurraram-no" para outra actividade correlativa: ainda menino entrou para mineiro. Aqui e ali, biscates de pedreiro ou calceteiro. Mas sobretudo mineiro.
De farnel ao ombro, o gasómetro numa mão e a ferramenta na outra, os picos logo lhe ocuparam o tempo como aprendiz, escavando metro após metro, numa vida inteira feita de risco e de força..., risco que fazia parte do seu dia a dia. Trabalhava descalço sob o lodo e pedras afiadas, até sol posto. O ofício exigia experiência e lucidez, caso contrário podia ficar soterrado. A alguns nem Santa Bárbara lhes valeu. Outros ficaram com sequelas irreversíveis, sobretudo nos pulmões.
É que por aqui pouco mais havia. Nem todos podiam ir laborar para a "Fábrica Grande" ou do "Calvário".
Mas foi assim que começaram a "entrar" em casa alguns tostões. Numa família com muitos filhos toda a ajuda era pouca. Os poços matavam, é verdade, mas também davam de comer.
A morte inesperada do pai foi um rude golpe para o "nosso" Joaquim, abruptamente desligado da pessoa de quem dependia emocionalmente. Sobrava-lhe o apego tão intenso à mãe. Sempre solteiro, será que alguma vez namorou?
Os anos foram passando sem nunca ter diminuído o ritmo de trabalho, sem vacilar às armadilhas do tempo. Mas a vida, tantas vezes injusta, pregou-lhe uma partida, deixando-o quase cego. Porém, só tarde, a conselho médico, fora afastado do ambiente sórdido, duro, doentio, onde passava o tempo e a saúde se lhe esvaía.
Elogiar as capacidades cívicas e humanas de Quim "Loreira" não é difícil. Nos olhos, nunca lhe vislumbrámos lágrimas de tempos dolorosos. Era alguém que gostava de viver, um indivíduo alegre, bem disposto. Era alguém profundamente contagiante. Não havia conterrâneo que o desprezasse.
Bairrista dos sete costados, inteligente, de fino humor, com "veia" de artista, Quim "Loreira" sabia, mesmo sem "letras", usando a ironia, analisar a sociedade, retratar muito bem Freamunde e os seus "agentes" da segunda metade do século XX.
Empenhado também em manter o seu apelido nas bocas do mundo, assinou momentos inesquecíveis, chegando mesmo, em momento de inspiração, a gravar todo o seu vasto "repertório".
Música - sem que tocasse qualquer instrumento ou integrasse a filarmónica, cantava o fado por excelência, com "arranjos" da sua autoria - e poesia, declamada a preceito, eram assunto sobre o qual Quim "Loreira" não se fazia rogado.
Deixou-nos "matéria", o que é estimulante.
De temperamento tímido, libertava-se com o "copito", raras vezes em demasia, sem provocar desacatos, sem desbaratar na taberna e no vício do tabaco, que estragavam a saúde e prejudicavam a família.
Quando morreu, o funeral foi concorridíssimo e deu para ver quanto o estimavam.
Jaz no cemitério nº 2 de Freamunde, Terra que ele amou e exaltou como ninguém.
Com o desaparecimento de Quim "Loreira", morreu um pouco do nosso torrão, foi-se uma das suas matrizes mais puras e originais. Um ramo da "nossa" palmeira.
A melhor homenagem será lembrá-lo de vez em quando. Uma das razões para o esquecimento é, quase sempre, a fraca memória das nossas gentes, o estrato social (não era rico, pelo contrário), e a "tendência" para a ingratidão.
Deixou saudades, o QUIM "LOREIRA".

 JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A preto e branco

Uma imagem a preto e branco. Uma perspectiva do parque de lazer de Freamunde, a preto e branco.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Banda de Freamunde ( XIV )

Entretanto, eclodia a Segunda Grande Guerra Mundial, um dos mais trágicos acontecimentos do século XX. Uma grande parte das nações, designadamente da Europa, envolveu-se numa luta devastadora, vivendo os horrores da destruição e morte. Mesmo os que tinham optado pela neutralidade, como Portugal, nem por isso deixaram de sentir os nefastos efeitos duma guerra destruidora: sectores produtivos paralisados, empresas e comércio em dificuldades, desemprego galopante...Por cá, as consequências do conflito também foram sentidas. Os freamundenses foram atingidos por uma grave crise alimentar, devido à escassez de bens essenciais e ao aumento dos preços. Tudo era racionado. A vida não estava mesmo para brincadeiras.
Alguns músicos passaram naturalmente por algumas privações.
Havia muitas bocas carentes. Os tempos, bem difíceis, de incerteza prolongavam-se. Mas nem tudo foi negativo. Mesmo com a economia em apuros, os convites para festas "choviam" de todo o lado. Que alívio! Com as bolsas vazias, fazia um jeitaço o dinheirito das "funções".
As "Gualterianas" eram o ex-líbris duma vasta região. No dia 7 de Agosto de 1939, a Banda de Freamunde foi a escolhida, entre muitas, para um concerto no jardim público, na cidade vitoriana.
O repertório seleccionado foi o seguinte:
1ª parte: Marcha - Freamunde à vista; 1812 (abertura); Tanso (abertura de ópera de Gounot); 3º Acto (Guarini).
2ª parte: Aida, de Verdi (abertura); Danças do Príncipe Igor (Borodin); Nunca te aflijas - Revista, de S. Morais; Sinos da minha aldeia (Marcha).
Num livro editado por Rosinda de Oliveira (A Banda Filarmónica da Mamarrosa), a certa altura pode ler-se: « (...) de forma que até para satisfazer um contrato que a Banda da Mamarrosa tinha aceite para Perrães (onde houve despique com uma banda de música afamada, a de Freamunde...»
Ora cá está uma referência de todo insuspeita quanto ao nível e qualidade da Banda de Freamunde naquela altura (1940).
O repertório era constantemente enriquecido com novas "obras".
No "Heraldo" (Agosto de 1940), descortinámos num cantinho duma página dedicada a "Notícias de Freamunde", o seguinte: «Marcha "Freamunde" - da autoria do chefe da Banda Regional de Infantaria 1, Excmº Sr. Capitão Armando Fernanes e devido ao empenho do ilustre freamundense, Exmº Tenente Carlos Luciano Alves de Sousa, a quem tal marcha foi dedicada, acaba a nossa banda de ser dotada com mais esta marcha, cujo título nos engrandece. Foi executada pela Banda da Infantaria 1 por diversas vezes».
Entretanto, continuamos o bate papo com Alfredo "Cherina", e alguns "flaches" de histórias do insólito, de alegria, com contornos hilariantes, peripécias de algumas "aventuras", soltaram-se da memória já um pouco gasta.
(...) Pode crer que poucas bandas nos batiam o pé. A de Revelhe, a de Riba UI, de Pevidém, Vale Cambra, Matosinhos, Pinheiro da Bemposta, Vila Verde...Todas estas alternaram, em anos distintos, com a nossa nas Festas do Mártir.
Chegámos a dar mais de 70 concertos numa só época. Só na zona de Gaia, era "um mundo"! Em Valadares (Senhora dos Aflitos) e nos Carvalhos (Senhora da Saúde e São Bartolomeu) permanecíamos três dias.
Curioso que do Porto para lá, atravessamos o rio de barco.
Era uma azáfama que cedo começava e tarde acabava. Antes do raiar do sol, depois do sol posto.
Ainda me lembro que para as "entradas", logo de manhã, os poeirentos caminhos eram percorridos por um formigueiro de gente. Só abalavam ao cantar do galo. Apreciavam muito os "combates" entre as músicas. Em certas circunstâncias, alegres ou tristes, lá teríamos que tocar até ao nascer do sol, onde os acordes se espalhavam pelos ares e faziam vibrar a multidão. Era cá uma trabalheira, Santo Deus!...O Zé "Tramela", nosso colega, chegava a dizer assiduamente que "ser músico era abaixo de cão três vezes". Nos períodos de descanso, às refeições, ougávamos com o cheiro do assado que provinha de muitas cozinhas. Comíamos com os olhos! Sabe, os contratos eram quase todos a "seco"...Aqui e ali um mata bicho..., umas coisitas para trincarmos..., umas côdeas de broa, um bacalhau desfiado e uma tigelita de retemperadora "pinga". Pensão (cama e mesa), só ao chefe e sub-chefe. E nem sempre!
O que nos tocava pelas "funções"? Era variável. Dependia do contrato da festa.
JOAQUIM PINTO - "BANDA DE FREAMUNDE - 190 ANOS" - 2012

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Pedaços de Nós

COMO EU VI O ALBINO NICETO

Chama-se Albino Niceto
e era o rei dos aldrabões,
quem pinto neste panfleto
que me custou dois tostões

Mas às vezes a mentir
disse coisas tão reais
que não se voltam a ouvir
se calhar, na vida, mais.

Dava gosto a gente ouvi-lo
leiloar jóias ao quilo,
tão baratas como o sal...

E o mundo não o vendeu
porque o comprador morreu
mas ficou com o sinal.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Uma imagem de Outono

Uma imagem típica da época que atravessamos, o Outono. Uma imagem captada no centro cívico de Freamunde.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( X )

ÉPOCA 1942 / 1943
SURPREENDENTEMENTE O CLUBE AGONIZAVA
Com a época desportiva de 1942 / 1943 à porta, depois da bonança quase surgia a tempestade.
O Freamunde Sport Clube, inesperadamente, via-se em apuros para constituir o onze.
A maioria dos seus principais atletas é recrutada para o serviço militar obrigatório, situação agravada com o anunciado abandono do controverso centro avante Alberto Matos - não sendo um jogador rápido era, no entanto, possuidor de pronto e forte pontapé, qual tiro de canhão - e a tão propalada e quase certa transferência do jovem João Taipa, artilheiro-mor da equipa, para o F. C. Porto.
Sem jogadores e sem treinador o futuro da agremiação era bastante sombrio.
Chegou mesmo a pairar no ar esta interrogação: Será que o grupo disputará este ano o Campeonato?...As horas de glória pareciam definitivamente ultrapasadas.
Não, não podia ser, Freamunde era eterno como o tempo e floresceria em cada Primavera.
Com Arnaldo Nunes Oliveira ao leme e António Aloísio Correia no comando técnico, a inscrição é efectuada, mesmo no prazo limite, na AFP, para onde é igualmente enviada a relação dos jogadores que tinham renovado compromissos com o Clube.
Entretanto, Alberto Matos recua nos seus propósitos. " A Direcção assediou-me várias vezes para que voltasse a jogar. Ainda me recordo não ser minha intenção regressar - contou-nos já debilitado e com algumas falhas de memória - mas fui sensível aos apelos de muitos amigos. Coloquei mesmo Freamunde acima dos meus interesses pessoais e profissionais". A equipa é, entretanto, "reforçada", entre outros, com os jovens Belmiro Pinto Ribeiro "da Riqueta", Salvador Carvalho Pinto "Pataco" e, principalmente, José Monteiro dos Santos "Zeca Mirra".
"Foi caricata a minha entrada no futebol, assim nos confidenciou, no recanto do seu lar, esta velha glória. Inscrito aos 16 anos, mas a competir já com 17, fui protagonista de um acontecimento insólito, quase impossível nos dias de hoje! Como os atletas seniores só podiam participar em provas oficiais a partir dos 18 anos de idade, alguém do clube, habilidosamente, conseguiu que eu fosse possuidor de um bilhete de identidade ilegal - a data do meu nascimento recuou um ano - para que pudesse ser oficializado e ficar, desde logo, às ordens do treinador. Mas, o crime nunca compensa, a "tramóia" acabou por ser descoberta, sendo-me aplicada, pelo conselho disciplinar da Associação de Futebol do Porto, uma sanção temporária de quarenta e cinco dias, cumprida,  sem prejuízo desportivo, no período de defeso. Ainda me lembro, caso curioso, da primeira vez que pisei um campo da bola com a camisola do Freamunde vestida. Foi em Lagoas, aqui bem perto. As botas que usei "saíram" da habilidade do António Ribeiro "Filipe" que transformou uns velhos sapatos domingueiros - bem bicudos por sinal - numas perfeitas "chuteiras" de travessas. Uma verdadeira obra de arte!".
Nova estrela surgia, então, no firmamento azul. O vírus do futebol foi-lhe, pois, incutido muito cedo, alastrado mais tarde aos manos Alberto, Jaime, Luís e Baltazar, membros de uma família simples e humilde, fiel e carinhosamente retratada por "Rodela", em 2001, no livro de poesia ilustrada, editado pela Associação Cultural e Recreativa Pedaços de Nós.
João Taipa, esse, passados que foram alguns meses de impasse, por influência de Júlio Ribeiro Gomes, residente que era na cidade invicta, então a exercer funções de Delegado ou representante do Freamunde S. C, na AFP, é convidado a prestar provas no F. C. Porto, para onde de desloca numa quinta-feira à tarde.
Depois do treino efectuado, pernoita em casa de Júlio Gomes, regressando a Freamunde na manhã seguinte onde, de imediato, é confrontado com um telefonema da directoria portista para que se fizesse apresentar nos seus serviços de secretaria com toda a documentação necessária posterior inscrição como atleta do clube azul e branco, mas às riscas. A carta de desobriga é assinada por Ernesto Gomes Taipa, Antonino Nogueira Nunes e António Cardoso de Barros, membros directivos do Freamunde, e redigida por Joaquim Pinto Pereira Gomes, competente e dedicado secretário.
Uma semana depois já treinava com o novo emblema ao peito, sendo logo convocado para o desfio de quinta-feira com o Leixões, no Campo do Lima. Jogou na íntegra esse encontro - choruda vitória por 7 - 1 - sendo um dos golos da sua autoria.
"Quando fui para o Porto recebia um subsídio de 500 escudos mensais, o que me dava para pagar os transportes, sempre que vinha a casa., comprar umas roupitas e ainda conseguia amealhar alguns tostões", recorda.
Equipa do F. C. Porto
Em cima: Alfredo Pais - Chico - Pocas - António Nunes - Baptista - Valongo
Em baixo: Carlos Pratas - "Kikas" - Araújo - Pinga - João Taipa
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA" - 2008

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
IV
SEGUNDA PARTE
Tombam pingas grossas de chuva e misturam-se com as minhas lágrimas...Estas distinguem-se. São salgadas. Só eu as distingo, é bom. E se os outros notarem? Não importa. A chuva sonorosa refresca-me a cabeça, as lágrimas aliviam-me o peito. E quem tem o direito de dizer "não chorei"?
Ali apreciei um cruzeiro muito belo. Estilo? Não sei. Só que é belo. E mais cruzes, na subida para o cemitério. Na vetustez da pedra, contra a liquefacção dos ossos dos seres que amei. "Até o mais duro talo se há-de transformar um dia em palha" - diz um dos provérbios chineses. E eu hei-de ser palha, cinza, pó e nada. Um nada a evolar-se contra a resistência do tempo. Já sinto, às vezes, esfarelar-se a pele.
Sentei-me nas escadas do cemitério. Frias e húmidas. Cortei uma planta (é proibido, eu sei!), mas tem um aroma agradável. Como o do meu menino. "Jaz morto e apodrece o menino de sua mãe" - surpreendeu-me a frieza das palavras de Pessoa. Não teve filhos. Como seriam as suas relações com a Ofelinha? Às vezes ficava em casa e enviava-lhe o Álvaro de Campos...Será que por ser o homem do futuro, lhe fazia mais promessas de ventura? Talvez não. Era frio como as máquinas que cantava...Também estou sentada na pedra fria e húmida. Mas não sinto.
Ah! a chuva parou. Benção dos céus!
Tento levantar-me, mas os joelhos causam obstáculos. Não me trato. Não cumpro prescrições. Parece a hybris da tragédia grega. Desafio a autoridade médica...Só quando a aflição é grande e há ameaças no salto da fronteira.
"Repousa lá no céu eternamente..." Porquê? Ainda é cedo. Arrasto sonhos por cumprir. Mas piso o risco! Até quando? Gostaria de ver os meus netos a aportar a lugar seguro. Têm presente sem passado. Gostaria de avisá-los dos erros, já que nós, não podemos fazer marcha-atrás e reparar os nossos. O tempo não é circular como o tempo mítico.
Levanto-me então! Vou fechar o círculo. Não o do tempo, porque não posso. Caminho para casa. Levo a cabeça quente, como quando parti. Afinal a relação homem/meio não funcionou. O tempo arrefeceu e a minha cabeça continua quente, a pelar, como dizemos por cá. Anátema da minha vida, já num Outono maduro!
Gostava de fazer poesia. Ser ao menos poeta do futuro, como Quental. As palavras não fluem...Há momentos de bloqueamento. Nem brotam como o punhal, como compara Eugénio de Andrade...Não seria necessária a rima. A similitude fonética, procuro-a antes entre as palavras e o meu âmago. Por isso não jorram.
Na evolução do homem, o pensamento funde-se com a linguagem, aprendi. Eu estou na gradação regressiva e as palavras fogem fogem fogem.
Até quando?
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003