segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Banda de Freamunde ( XIV )

Entretanto, eclodia a Segunda Grande Guerra Mundial, um dos mais trágicos acontecimentos do século XX. Uma grande parte das nações, designadamente da Europa, envolveu-se numa luta devastadora, vivendo os horrores da destruição e morte. Mesmo os que tinham optado pela neutralidade, como Portugal, nem por isso deixaram de sentir os nefastos efeitos duma guerra destruidora: sectores produtivos paralisados, empresas e comércio em dificuldades, desemprego galopante...Por cá, as consequências do conflito também foram sentidas. Os freamundenses foram atingidos por uma grave crise alimentar, devido à escassez de bens essenciais e ao aumento dos preços. Tudo era racionado. A vida não estava mesmo para brincadeiras.
Alguns músicos passaram naturalmente por algumas privações.
Havia muitas bocas carentes. Os tempos, bem difíceis, de incerteza prolongavam-se. Mas nem tudo foi negativo. Mesmo com a economia em apuros, os convites para festas "choviam" de todo o lado. Que alívio! Com as bolsas vazias, fazia um jeitaço o dinheirito das "funções".
As "Gualterianas" eram o ex-líbris duma vasta região. No dia 7 de Agosto de 1939, a Banda de Freamunde foi a escolhida, entre muitas, para um concerto no jardim público, na cidade vitoriana.
O repertório seleccionado foi o seguinte:
1ª parte: Marcha - Freamunde à vista; 1812 (abertura); Tanso (abertura de ópera de Gounot); 3º Acto (Guarini).
2ª parte: Aida, de Verdi (abertura); Danças do Príncipe Igor (Borodin); Nunca te aflijas - Revista, de S. Morais; Sinos da minha aldeia (Marcha).
Num livro editado por Rosinda de Oliveira (A Banda Filarmónica da Mamarrosa), a certa altura pode ler-se: « (...) de forma que até para satisfazer um contrato que a Banda da Mamarrosa tinha aceite para Perrães (onde houve despique com uma banda de música afamada, a de Freamunde...»
Ora cá está uma referência de todo insuspeita quanto ao nível e qualidade da Banda de Freamunde naquela altura (1940).
O repertório era constantemente enriquecido com novas "obras".
No "Heraldo" (Agosto de 1940), descortinámos num cantinho duma página dedicada a "Notícias de Freamunde", o seguinte: «Marcha "Freamunde" - da autoria do chefe da Banda Regional de Infantaria 1, Excmº Sr. Capitão Armando Fernanes e devido ao empenho do ilustre freamundense, Exmº Tenente Carlos Luciano Alves de Sousa, a quem tal marcha foi dedicada, acaba a nossa banda de ser dotada com mais esta marcha, cujo título nos engrandece. Foi executada pela Banda da Infantaria 1 por diversas vezes».
Entretanto, continuamos o bate papo com Alfredo "Cherina", e alguns "flaches" de histórias do insólito, de alegria, com contornos hilariantes, peripécias de algumas "aventuras", soltaram-se da memória já um pouco gasta.
(...) Pode crer que poucas bandas nos batiam o pé. A de Revelhe, a de Riba UI, de Pevidém, Vale Cambra, Matosinhos, Pinheiro da Bemposta, Vila Verde...Todas estas alternaram, em anos distintos, com a nossa nas Festas do Mártir.
Chegámos a dar mais de 70 concertos numa só época. Só na zona de Gaia, era "um mundo"! Em Valadares (Senhora dos Aflitos) e nos Carvalhos (Senhora da Saúde e São Bartolomeu) permanecíamos três dias.
Curioso que do Porto para lá, atravessamos o rio de barco.
Era uma azáfama que cedo começava e tarde acabava. Antes do raiar do sol, depois do sol posto.
Ainda me lembro que para as "entradas", logo de manhã, os poeirentos caminhos eram percorridos por um formigueiro de gente. Só abalavam ao cantar do galo. Apreciavam muito os "combates" entre as músicas. Em certas circunstâncias, alegres ou tristes, lá teríamos que tocar até ao nascer do sol, onde os acordes se espalhavam pelos ares e faziam vibrar a multidão. Era cá uma trabalheira, Santo Deus!...O Zé "Tramela", nosso colega, chegava a dizer assiduamente que "ser músico era abaixo de cão três vezes". Nos períodos de descanso, às refeições, ougávamos com o cheiro do assado que provinha de muitas cozinhas. Comíamos com os olhos! Sabe, os contratos eram quase todos a "seco"...Aqui e ali um mata bicho..., umas coisitas para trincarmos..., umas côdeas de broa, um bacalhau desfiado e uma tigelita de retemperadora "pinga". Pensão (cama e mesa), só ao chefe e sub-chefe. E nem sempre!
O que nos tocava pelas "funções"? Era variável. Dependia do contrato da festa.
JOAQUIM PINTO - "BANDA DE FREAMUNDE - 190 ANOS" - 2012

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