quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
IV
SEGUNDA PARTE
Tombam pingas grossas de chuva e misturam-se com as minhas lágrimas...Estas distinguem-se. São salgadas. Só eu as distingo, é bom. E se os outros notarem? Não importa. A chuva sonorosa refresca-me a cabeça, as lágrimas aliviam-me o peito. E quem tem o direito de dizer "não chorei"?
Ali apreciei um cruzeiro muito belo. Estilo? Não sei. Só que é belo. E mais cruzes, na subida para o cemitério. Na vetustez da pedra, contra a liquefacção dos ossos dos seres que amei. "Até o mais duro talo se há-de transformar um dia em palha" - diz um dos provérbios chineses. E eu hei-de ser palha, cinza, pó e nada. Um nada a evolar-se contra a resistência do tempo. Já sinto, às vezes, esfarelar-se a pele.
Sentei-me nas escadas do cemitério. Frias e húmidas. Cortei uma planta (é proibido, eu sei!), mas tem um aroma agradável. Como o do meu menino. "Jaz morto e apodrece o menino de sua mãe" - surpreendeu-me a frieza das palavras de Pessoa. Não teve filhos. Como seriam as suas relações com a Ofelinha? Às vezes ficava em casa e enviava-lhe o Álvaro de Campos...Será que por ser o homem do futuro, lhe fazia mais promessas de ventura? Talvez não. Era frio como as máquinas que cantava...Também estou sentada na pedra fria e húmida. Mas não sinto.
Ah! a chuva parou. Benção dos céus!
Tento levantar-me, mas os joelhos causam obstáculos. Não me trato. Não cumpro prescrições. Parece a hybris da tragédia grega. Desafio a autoridade médica...Só quando a aflição é grande e há ameaças no salto da fronteira.
"Repousa lá no céu eternamente..." Porquê? Ainda é cedo. Arrasto sonhos por cumprir. Mas piso o risco! Até quando? Gostaria de ver os meus netos a aportar a lugar seguro. Têm presente sem passado. Gostaria de avisá-los dos erros, já que nós, não podemos fazer marcha-atrás e reparar os nossos. O tempo não é circular como o tempo mítico.
Levanto-me então! Vou fechar o círculo. Não o do tempo, porque não posso. Caminho para casa. Levo a cabeça quente, como quando parti. Afinal a relação homem/meio não funcionou. O tempo arrefeceu e a minha cabeça continua quente, a pelar, como dizemos por cá. Anátema da minha vida, já num Outono maduro!
Gostava de fazer poesia. Ser ao menos poeta do futuro, como Quental. As palavras não fluem...Há momentos de bloqueamento. Nem brotam como o punhal, como compara Eugénio de Andrade...Não seria necessária a rima. A similitude fonética, procuro-a antes entre as palavras e o meu âmago. Por isso não jorram.
Na evolução do homem, o pensamento funde-se com a linguagem, aprendi. Eu estou na gradação regressiva e as palavras fogem fogem fogem.
Até quando?
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

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