sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Joaquim Carneiro da Silva "Quim Loreira"

 (27-02-1927/17-02-1993)
Filho de Joaquim Carneiro da Silva e de Joaquina de Sousa, era membro de uma família humilde, modesta mas considerada de Freamunde, "Os Loreiras", nascida e criada na Gandarela, lugar emaranhado de ruelas e becos, na época em que o facto constituía um drama, querendo dizer, simplesmente, ser pobre.
Também lá nasceram, certamente, advogados, médicos..., mas a maioria era "pé descalço".
De corpo franzino e seco, bigode à Clark Gable, rosto marcado por uma vida de dura luta, certo dia, em animada cavaqueira junto ao Café Teles, falou, para um grupo de amigos, das suas aventuras e dos caminhos que trilhou. Dos tempos difíceis.
Antes, levantou e rodou ligeiramente a gorra que sempre trouxe. Sei lá quantas vezes! Nem os dias amenos o faziam destapar a cabeça, senão dentro de casa ou nas saudações às pessoas "respeitáveis".
Depois, lá desembuchou: - «Sabem, nesta nossa terra, neste nosso país, nas décadas de quarenta, cinquenta, sessenta..., onde os pobres viviam com evidentes sacrifícios, onde os árduos trabalhos lhes estavam destinados, também eu comi o pão que o diabo amassou. Corri o mar e a marinha à cata dessa coisa que é viver. A juventude de hoje não faz a mínima ideia do sofrimento da maioria das pessoas desse tempo».
Lembra-se de ir à escola, de conhecer as letras do alfabeto, mas não suficiente para ter aprendido a ler.
A memória não lhe chegava, sequer, para precisar a idade que tinha quando foi trabalhar: treze, catorze anos..., talvez.
Educado nos valores tradicionais - seu pai trabalhava a pedra como ninguém -, "empurraram-no" para outra actividade correlativa: ainda menino entrou para mineiro. Aqui e ali, biscates de pedreiro ou calceteiro. Mas sobretudo mineiro.
De farnel ao ombro, o gasómetro numa mão e a ferramenta na outra, os picos logo lhe ocuparam o tempo como aprendiz, escavando metro após metro, numa vida inteira feita de risco e de força..., risco que fazia parte do seu dia a dia. Trabalhava descalço sob o lodo e pedras afiadas, até sol posto. O ofício exigia experiência e lucidez, caso contrário podia ficar soterrado. A alguns nem Santa Bárbara lhes valeu. Outros ficaram com sequelas irreversíveis, sobretudo nos pulmões.
É que por aqui pouco mais havia. Nem todos podiam ir laborar para a "Fábrica Grande" ou do "Calvário".
Mas foi assim que começaram a "entrar" em casa alguns tostões. Numa família com muitos filhos toda a ajuda era pouca. Os poços matavam, é verdade, mas também davam de comer.
A morte inesperada do pai foi um rude golpe para o "nosso" Joaquim, abruptamente desligado da pessoa de quem dependia emocionalmente. Sobrava-lhe o apego tão intenso à mãe. Sempre solteiro, será que alguma vez namorou?
Os anos foram passando sem nunca ter diminuído o ritmo de trabalho, sem vacilar às armadilhas do tempo. Mas a vida, tantas vezes injusta, pregou-lhe uma partida, deixando-o quase cego. Porém, só tarde, a conselho médico, fora afastado do ambiente sórdido, duro, doentio, onde passava o tempo e a saúde se lhe esvaía.
Elogiar as capacidades cívicas e humanas de Quim "Loreira" não é difícil. Nos olhos, nunca lhe vislumbrámos lágrimas de tempos dolorosos. Era alguém que gostava de viver, um indivíduo alegre, bem disposto. Era alguém profundamente contagiante. Não havia conterrâneo que o desprezasse.
Bairrista dos sete costados, inteligente, de fino humor, com "veia" de artista, Quim "Loreira" sabia, mesmo sem "letras", usando a ironia, analisar a sociedade, retratar muito bem Freamunde e os seus "agentes" da segunda metade do século XX.
Empenhado também em manter o seu apelido nas bocas do mundo, assinou momentos inesquecíveis, chegando mesmo, em momento de inspiração, a gravar todo o seu vasto "repertório".
Música - sem que tocasse qualquer instrumento ou integrasse a filarmónica, cantava o fado por excelência, com "arranjos" da sua autoria - e poesia, declamada a preceito, eram assunto sobre o qual Quim "Loreira" não se fazia rogado.
Deixou-nos "matéria", o que é estimulante.
De temperamento tímido, libertava-se com o "copito", raras vezes em demasia, sem provocar desacatos, sem desbaratar na taberna e no vício do tabaco, que estragavam a saúde e prejudicavam a família.
Quando morreu, o funeral foi concorridíssimo e deu para ver quanto o estimavam.
Jaz no cemitério nº 2 de Freamunde, Terra que ele amou e exaltou como ninguém.
Com o desaparecimento de Quim "Loreira", morreu um pouco do nosso torrão, foi-se uma das suas matrizes mais puras e originais. Um ramo da "nossa" palmeira.
A melhor homenagem será lembrá-lo de vez em quando. Uma das razões para o esquecimento é, quase sempre, a fraca memória das nossas gentes, o estrato social (não era rico, pelo contrário), e a "tendência" para a ingratidão.
Deixou saudades, o QUIM "LOREIRA".

 JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"

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