segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( X )

ÉPOCA 1942 / 1943
SURPREENDENTEMENTE O CLUBE AGONIZAVA
Com a época desportiva de 1942 / 1943 à porta, depois da bonança quase surgia a tempestade.
O Freamunde Sport Clube, inesperadamente, via-se em apuros para constituir o onze.
A maioria dos seus principais atletas é recrutada para o serviço militar obrigatório, situação agravada com o anunciado abandono do controverso centro avante Alberto Matos - não sendo um jogador rápido era, no entanto, possuidor de pronto e forte pontapé, qual tiro de canhão - e a tão propalada e quase certa transferência do jovem João Taipa, artilheiro-mor da equipa, para o F. C. Porto.
Sem jogadores e sem treinador o futuro da agremiação era bastante sombrio.
Chegou mesmo a pairar no ar esta interrogação: Será que o grupo disputará este ano o Campeonato?...As horas de glória pareciam definitivamente ultrapasadas.
Não, não podia ser, Freamunde era eterno como o tempo e floresceria em cada Primavera.
Com Arnaldo Nunes Oliveira ao leme e António Aloísio Correia no comando técnico, a inscrição é efectuada, mesmo no prazo limite, na AFP, para onde é igualmente enviada a relação dos jogadores que tinham renovado compromissos com o Clube.
Entretanto, Alberto Matos recua nos seus propósitos. " A Direcção assediou-me várias vezes para que voltasse a jogar. Ainda me recordo não ser minha intenção regressar - contou-nos já debilitado e com algumas falhas de memória - mas fui sensível aos apelos de muitos amigos. Coloquei mesmo Freamunde acima dos meus interesses pessoais e profissionais". A equipa é, entretanto, "reforçada", entre outros, com os jovens Belmiro Pinto Ribeiro "da Riqueta", Salvador Carvalho Pinto "Pataco" e, principalmente, José Monteiro dos Santos "Zeca Mirra".
"Foi caricata a minha entrada no futebol, assim nos confidenciou, no recanto do seu lar, esta velha glória. Inscrito aos 16 anos, mas a competir já com 17, fui protagonista de um acontecimento insólito, quase impossível nos dias de hoje! Como os atletas seniores só podiam participar em provas oficiais a partir dos 18 anos de idade, alguém do clube, habilidosamente, conseguiu que eu fosse possuidor de um bilhete de identidade ilegal - a data do meu nascimento recuou um ano - para que pudesse ser oficializado e ficar, desde logo, às ordens do treinador. Mas, o crime nunca compensa, a "tramóia" acabou por ser descoberta, sendo-me aplicada, pelo conselho disciplinar da Associação de Futebol do Porto, uma sanção temporária de quarenta e cinco dias, cumprida,  sem prejuízo desportivo, no período de defeso. Ainda me lembro, caso curioso, da primeira vez que pisei um campo da bola com a camisola do Freamunde vestida. Foi em Lagoas, aqui bem perto. As botas que usei "saíram" da habilidade do António Ribeiro "Filipe" que transformou uns velhos sapatos domingueiros - bem bicudos por sinal - numas perfeitas "chuteiras" de travessas. Uma verdadeira obra de arte!".
Nova estrela surgia, então, no firmamento azul. O vírus do futebol foi-lhe, pois, incutido muito cedo, alastrado mais tarde aos manos Alberto, Jaime, Luís e Baltazar, membros de uma família simples e humilde, fiel e carinhosamente retratada por "Rodela", em 2001, no livro de poesia ilustrada, editado pela Associação Cultural e Recreativa Pedaços de Nós.
João Taipa, esse, passados que foram alguns meses de impasse, por influência de Júlio Ribeiro Gomes, residente que era na cidade invicta, então a exercer funções de Delegado ou representante do Freamunde S. C, na AFP, é convidado a prestar provas no F. C. Porto, para onde de desloca numa quinta-feira à tarde.
Depois do treino efectuado, pernoita em casa de Júlio Gomes, regressando a Freamunde na manhã seguinte onde, de imediato, é confrontado com um telefonema da directoria portista para que se fizesse apresentar nos seus serviços de secretaria com toda a documentação necessária posterior inscrição como atleta do clube azul e branco, mas às riscas. A carta de desobriga é assinada por Ernesto Gomes Taipa, Antonino Nogueira Nunes e António Cardoso de Barros, membros directivos do Freamunde, e redigida por Joaquim Pinto Pereira Gomes, competente e dedicado secretário.
Uma semana depois já treinava com o novo emblema ao peito, sendo logo convocado para o desfio de quinta-feira com o Leixões, no Campo do Lima. Jogou na íntegra esse encontro - choruda vitória por 7 - 1 - sendo um dos golos da sua autoria.
"Quando fui para o Porto recebia um subsídio de 500 escudos mensais, o que me dava para pagar os transportes, sempre que vinha a casa., comprar umas roupitas e ainda conseguia amealhar alguns tostões", recorda.
Equipa do F. C. Porto
Em cima: Alfredo Pais - Chico - Pocas - António Nunes - Baptista - Valongo
Em baixo: Carlos Pratas - "Kikas" - Araújo - Pinga - João Taipa
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA" - 2008

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