quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Alexandrino Chaves

  ALEXANDRINO MARIA CHAVES FERREIRA VELHO

(31-08-1862 / 22-7-1913)
Alexandrino Maria nasceu na freguesia de Freamunde, fruto da união entre José Maria Ferreira Velho e Delfina da Conceição Chaves, baixados à sepultura nº 2 da Ordem Terceira de S. Francisco no mesmo ano de 1884 (17 de Dezembro e 30 de Outubro, respectivamente).
Teve dez irmãos: Augusto Maria "Reverendo", Ermelinda Rosa, Rosalina Augusta, Maria Augusta, Antero Maria, Abílio Maria, António Maria, Amélia Augusta, Adelino Maria e Albano Maria.
Digníssimo tabelião público no Julgado da Paz de Freamunde (cargo que não tinha ordenado estipulado e que dependia exclusivamente da confiança da "clientela"), com escritório na sua residência, em S. Francisco, viu-se envolvido, decorria o ano de 1896, em questiúnculas partidárias que visavam concessões chantagiosas - passar por cima de valores fundamentais em nome de um negócio mesquinho, a compra dos votos dos freamundenses, a uma "vaga" no tabelionado. O "lugar", conseguido a troco dum pesado sacrifício, foi-lhe disputado por José Cândido da Silva Torres, solicitador em Paços de Ferreira, com o apoio do partido monárquico, Progressista, no poder. O "movimento" esboroou-se e prevaleceu o bom senso: Alexandrino Chaves não foi obrigado ao vexame de dever o seu lugar a "cedências" políticas. Conseguiu-o por direito próprio. A honra não se vende.
Foi casado com Anna Pereira Aranha Torres, natural de Santa Marinha de Nespereira, Cinfães, viúva de Manuel Albino da Costa Torres, de Freamunde.
Alexandrino e Ana não tiveram filhos.
Alexandrino enviuvou em 12 de Março de 1900, vindo a contrair matrimónio, em segunda núpcias, no dia 10 de Dezembro de 1903, na Igreja Paroquial de Figueiras, com Ernestina Maria Gomes Rego, de 18 anos de idade, senhorinha de excepcionais dotes de beleza e coração, filha de António Ferreira Rego e Maria Gomes Rego. Estava, assim, preenchido o vazio da sua solidão.
ALEXANDRINO CHAVES E ESPOSA ERNESTINA MARIA
Deste enlace resultou o nascimento de dois filhos: António Maria e Ermelinda Maria. Personalidade relevante, de frágil fisionomia (existem fotografias que mostram um homem franzino, esguio, barba aparada rente, mas de porte aristocrático), requintadamente aprumado no vestir, "bon vivant", cedo se embeiçou por causas nobres.
ALEXANDRINO CHAVES
A Associação de Socorros Mútuos Freamundense era a menina dos seus olhos, sendo por todos considerado um dos grandes impulsionadores da Instituição, tão útil e benemérita.
Serviu-a com denodo e paixão. Fez parte da comissão para a criação da mesma, em 1890. Até à sua morte, em 1913, foi relator do processo dos Estatutos, Tesoureiro da Comissão Provisória, e, por diversas vezes, Presidente e Secretário da Direcção, Presidente da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal.
Por justiça, foi-lhe concedida a presidência da 1ª Assembleia Geral que se efectuou no novo edifício da Associação.
A seu tempo recebeu significativa homenagem, com colocação de fotografia a "crayon" na galeria daquela Instituição, em 19 de Março de 1894, descerrada pelo padre Maximino Ferreira Alves. Já saudoso, em sessão ordinária de 8 de Fevereiro de 1914, pelo presidente da ASMF, António José de Brito, foi proposta pintura a óleo do benquisto benemérito, por um dos melhores artistas da cidade do Porto. A "obra" foi descerrada pelo padre Florêncio de Vasconcelos durante a sessão solene do 19 de Março desse mesmo ano.
ASMF
Diplomado, sabia muito, de tudo falava e escrevia, revelando-se também como músico de inegáveis capacidades, iniciação na arte propiciada por lições advindas de seu pai. Horizontes musicais abertos, piano, violino, flauta e clarinete eram alguns dos instrumentos que, com mestria, tocava nas reuniões dançantes, frequência das pessoas distintas da época. O seu fascínio pela cultura dos sons levou-o, inclusive, a dedilhar primorosamente uma cítara (guitarra com caixa de ressonância em forma de pêra). Tudo nele era sensibilidade artística, exemplo raro de virtuosismo, originalidade e criatividade. Benemérito, ofereceu à Câmara Municipal, água para abastecimento do mercado, em Freamunde. O "nosso" povo, grato a quem servia e lutava desinteressadamente pelo progresso da Terra e seu bem estar, não se poupou a esforços e preparou para o dia da inauguração (16-04-1896) enormes festejos, «com música, foguetes e embandeiramento. A Praça, enfeitada com flores, tinha à entrada um lindo arco artisticamente construído onde se liam as iniciais A.C. (Alexandrino Chaves). Num ambiente de perfeito delírio, onde não faltou a vereação municipal, a população, numa manifestação espontânea de apreço e gratidão, passeou Alexandrino Chaves aos ombros».
AS BICAS DA "VELHA" PRAÇA
Em 1896, deixou-se seduzir pelo teatro, aproveitando as receitas dos espectáculos para precioso auxílio e "empurrão" na edificação da Associação de Socorros Mútuos. As primeiras peças apresentadas foram o drama "Leonardo, o Pescador" e a comédia "Quem tem dinheiro... tem medo". Em 1898, ele próprio redigiu um drama original, "Ernesto, o Enjeitado", representado num salão por si construído no quintal da residência onde habitava, apelidado de "Teatro de S. José", mesmo com os escassos quadros humanos existentes para tão difícil tarefa.
O PALACETE ONDE VIVEU ALEXANDRINO CHAVES
Ele por si desempenhava os papéis de autor, ensaiador e de figura em cena.
Seguiram-se comédias e cenas cómicas... Outras... E depois outras...
As receitas de "bilheteira" ( a "casa" era passada à gente da "elite") ajudavam, e muito, a "erguer" a Associação.
A partir de 1904, porque se esfumaram quase todos os testemunhos contemporâneos, pouco se sabe da sua vida social, entregue que foi, nesse mesmo ano, a pasta de encenador a Henrique de Vasconcelos.
Mesmo assim, encontrámo-lo referenciado, em 1901, como "Juiz" das Festas em honra de S. Sebastião, reaparecendo, em 1913, na presidência das mesmas, já "convertido" ao vegetarianismo e com a doença (tuberculose), que o levaria à morte prematura, a miná-lo de forma galopante. Por sinal, sua esposa faleceria pouco tempo depois (9 de Outubro de 1914), com apenas 29 anos de idade, eventualmente vitimada pelo mesmo bacilo.
Curiosamente, já em 1899, o distinto tabelião havia sido incomodado com uma hemiplegia (paralisia que atinge uma das metades do corpo, a maior parte das vezes devido a uma lesão cerebral no hemisfério oposto), doença que, contudo, não se revelou de gravidade extrema.
Em 1909 (4 de Julho), na calorosa recepção a D. Manuel II, na passagem em Freamunde rumo a Amarante, ao Rei foi entregue uma mensagem que levou a assinatura, entre outras, de Alexandrino Chaves.
Na ribalta política, parece ter-se dedicado aos preceitos monárquicos.
Alexandrino Chaves desceu à terra para todo o sempre no dia 22 de Julho de 1913, curiosamente poucos dias após ter servido, como "Juiz", aos festejos do Santo Mártir.
Ainda há pouco tempo (!) havia gente (César Ribeiro, por exemplo) que carregava memórias do funeral: « Indiscritível, medonho! Nunca assisti a um cortejo fúnebre tão imponente e sentido. A emoção atingiu o clímax. A terra inteira veio para a rua. Gente do campo, gente humilde que se despedia do amigo, do freamundense de gema. Alas de pessoas, que cresciam a uma velocidade impressionante, de archotes acessos ao longo do percurso».    
Pessoas, todos os sócios que o próprio presidente da Assembleia Geral da ASMF havia convocado em sessão extraordinária para, em elogio, fazer-lhes sentir a «dolorosa e irreparável perda do inolvidável protector da Associação. Dos seus mais firmes e constantes sustentáculos. O seu trabalho e o seu dinheiro nunca faltaram quando a elle se recorria. Foram de tal ordem o zelo e dedicação que este benquisto benemérito da Associação a ella se consagrou, foram de tal magnitude os seus serviços que difícil se torna innumera-los numa simples acta de sessão. Por bem conhecidos e avaliados, eles deverão ficar perpectuamente gravados no coração reconhecido de todos os sócios, que nelle perderam o mais valioso e desinteressado companheiro, e dele herdaram o mais salutar modelo a imitar».
Seria, pois, uma falha, uma injustiça de todo o tamanho, não exaltarmos, não darmos a conhecer, a grandeza do homem, do cidadão Alexandrino Chaves, seu carácter e envolvimento nas causas sociais e culturais do torrão que o viu nascer.
Afirmamos com toda a segurança, que a sua obra, a sua personalidade de criador, a sua inteligência, o seu bairrismo, foram e continuam a ser apreciados por todos os freamundenses.
Pasmo como foram necessários mais de oitenta anos após a sua morte para que Freamunde homenageasse, em placa toponímica, um dos vultos mais relevantes que a serviu.
Nesta matéria, andava muita gente distraída.
JOAQUIM PINTO - BLOGUE " FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS" 

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