quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Coisas Minhas

 VIVA O CARNAVAL
O Carnaval chegou! Chegou a época do "vale tudo", do "deixa andar", do "não te importes"...É Carnaval: quem se aborrecer perde o seu tempo...O Carnaval é uma espécie de tubo de escape da Humanidade, é o "péssanga" deste enorme jogo da vida, cujas regras todos tentamos infringir como uma necessidade atávica que nos está proibida...E é essa necessidade que leva o Homem a procurar a sua verdadeira máscara, farto que está daquela falsa máscara que suporta em todos os outros dias. Não há regra sem excepção, pelo que não posso aqui confirmar a infalibilidade das minhas afirmações, mas, ao ver alguém mascarado de polícia, leva-me a duvidar da honestidade de processos desse alguém na sua vida real...Se vestido de pirata ou de gatuno, leva-me a pensar já estar farto de carregar, todos os dias, com o disfarce de homem honesto com que engana a sociedade...Se se mascara de Rei, de general ou Imperador, só vejo nele um pobre ser, constantemente mandado, humilhado, tímido e com medo do patrão, que aproveita a quadra carnavalesca para exteriorizar a sua revolta e sonhar "em voz alta"...O que se veste de "supper-man", deve apanhar da mulher com o rolo da massa...E o que se disfarça de mulher no Carnaval pode ser tudo menos o que são aqueles que, na mesma quadra, gostam de engrossar a voz e de colar uns grandes bigodes no lábio superior...O Carnaval sempre foi assim: uma época de revelações impensadas, uma quadra de desabafos, de verdades impedidas de serem proferidas noutra altura.
Mas, até ele tem degenerado. Onde estão os "xé-xés", que,  de bicórnioo napoleónico atravessado na cabeça, a labita setecentista, o colete com aquela espalhafatosa corrente do relógio de bolso, o corno espetado num pau, na mão direita, e a colher ou a móca, na mão esquerda, se dirigia às pessoas e lhes "prantava" na cara aquilo que elas eram em vida e não gostavam que lhes chamassem, entre as risadas dos presentes que, gostosamente, as identificavam com o retrato ali publicamente feito? Que é feito das "cégadas" que corriam os bairros populares, quais procissões profanas, representando cenas cómicas dos ridículos da vida que, por vezes, se adaptavam aos moradores dos locais onde actuavam? Quem se lembra do Carnaval de rua, o célebre "corso", onde todos nós dávamos largas ao espírito belicoso e destruidor do "diabinho", que mora em cada um , e atirávamos uns aos outros os objectos mais contundentes e sujos que podíamos conseguir: ovos (se podres, melhor...), peixe, farinha, água de duvidosa proveniência...? Já passará muito dos sessenta quem de tal se lembrar...
E nos teatros? As serpentinas eram substituídas por rolos de papel higiénico, desenrolado, que o actor Soares Correia recolhia sofregamente, pois, dizia ele satisfeito, tinha de lhe dar para todo o ano...As flores eram substituídas por nabos e repolhos, os "confettis" por sacos de farinha e os estalinhos inofensivos por pós de comichão. Os alvos preferidos eram os cenários de papel (sobretudo quando começavam a rasgar...), os carecas, os músicos (com preferência para os da bateria, bombos e pratos) e os actores que metiam a cabeça, a ver se podiam entrar em cena, e eram logo recebidos com autênticas salvas daquela "artilharia", o que os fazia logo recuar. E quando, mais afoitos, conseguiam entrar, pouco tempo ali se conservavam, porque os impedia a saraivada dos chamados "peidos engarrafados" que tornavam o ambiente verdadeiramente insuportável...
Era um Carnaval impossível de viver, de uma alegria quase feroz, denotador dos instintos verdadeiros de cada um, até dos meus que era um dos mais assíduos foliões, que acabou por ser proibido (como se impunha) mas que muitas saudades me dá!...
Hoje o Carnaval é muito diferente. Muito mais calmo...As pessoas evitam mascarar-se: basta-lhes a máscara que suportam todos os dias...Por outro lado, avida não nos dá grandes motivos para uma alegria, que, cada vez mais, se dissipa com as constantes preocupações que nos assaltam. Resta-nos as crianças: o que de melhor o mundo tem. É nelas que se vão reflectindo as máscaras que os pais gostariam de vestir, mas que não têm coragem de o fazer, para evitarem que os seus desejos, instintos ou até virtudes (porque não?), venham a ser conhecidos...Elas, as crianças, coitadinhas, tudo recebem alegre e ansiosamente. Nelas não se reflectem os instintos numa máscara dos seus sentimentos...Como eu gostaria de poder aparecer com uma máscara dessas!...Mas não: impedem-mo os defeitos com que a vida me contaminou, um sentimento nato de decôro...e a polícia que, digam lá o que disserem, ainda é a nossa grande consciência...
FERNANDO SANTOS " COISAS MINHAS"

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