sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Esta é mesmo verdadeira

UM NOVO CARLOS GARDEL
Há algumas dezenas de anos, eram vulgares as deslocações ao Brasil de companhias portuguesas de teatro. Todos os anos, uma, duas e mais companhias ali se deslocavam, quase sempre com assinalado êxito económico e artístico.
Depois, foram os brasileiros que nos começaram a visitar regularmente e assim fomos recebendo as companhias de Ruth Escobar, do Procópio Ferreira e, mais tarde, da sua filha, a talentosa Bibi Ferreira, de Maria Della Costa, de Paulo Autran, de Alma Flora, etc...Por cá foram ficando alguns artistas, que se foram adaptando ao nosso meio, como Spina, Badaró e Alma Flora, falecida em Lisboa.
Este intercâmbio teatral foi perdendo o uso, se bem que, recentemente, alguns grupos portugueses têm voltado a visitar o país irmão e deles há que destacar o grupo "A Barraca", que por já três vezes ali tem colhido o maior êxito do público e da crítica e, quando da visita do nosso primeiro-ministro, Cavaco Silva, ao Brasil, ainda ali se encontrava a actuar com grande sucesso, sem que o nosso chefe de governo se dignasse visitar quem tão alto assim elevava o bom nome de Portugal, no campo da cultura teatral. Esta falta foi muito notada, tanto no Brasil como em Portugal, e constituiu um dos fiascos assinalados pela imprensa dos dois países.
Mas voltemos às deslocações das companhias teatrais a terras de Santa Cruz. Era hábito, depois dos espectáculos, alguns artistas deslocarem-se a clubes, "boites" e "cabarets" onde actuavam profissionalmente, conseguindo, por esse meio, um complemento económico que iria melhorar o contrato previamente estipulado. O actor Octávio Matos, pai do artista do mesmo nome que se tem popularizado através das suas actuações na nossa televisão, decidiu fazer o mesmo. Ele era, de resto, além de um actor  bastante apreciado, um extraordinário ilusionista. Mas apeteceu-lhe fazer uma coisa que nunca tinha feito: cantar tangos...
Um amigo lá lhe arranjou contrato para uma actuação num clube nocturno, tendo o seu nome sido alvo da maior publicidade como um grande cantor de tangos, capaz de pôr de lado o próprio Carlos Gardel.
Na noite aprazada Octávio Matos lá foi e mal acabou de cantar o primeiro tango, ao qual ele tentou emprestar, em vão, o maior casticismo, a mais "caliente" entrega de alma, o maior cunho de macho castigador e a voz mais assolapadamente apaixonada, o silêncio na sala, que estava cheia, foi absoluto e confrangedor: nem uma palma, nem nada...Mas eis que numa mesa ao fundo, um senhor gordo, começa a dar-lhe algumas palmas, muito a contra gosto e compassadamente. O nosso patrício voltou-se naquela direcção e entendeu dever agradecer, em largas e rasgadas vénias. O outro lá continuava a aplaudir, dolente, compassada e preguiçosamente e, vendo-o dobrar-se todo em agradecimentos, sempre lhe foi dizendo:
- "Não esquenta, minino, não esquenta...Dá o fora...Dá o fora..."
Nunca mais o Octávio Matos cantou tangos...
FERNANDO SANTOS - "ESTA É MESMO VERDADEIRA" - JULHO DE 2001

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