quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Esta é mesmo verdadeira

SUPERSTIÇÕES...
É sabido que não há gente mais supersticiosa do que a gente do teatro. Todos os pretextos servem (ou serviam..., que hoje tudo está muito mudado...) para dar azar nos dias de estreia de uma peça era quando era preciso haver mais cuidado com tudo: não entrar na "caixa" do palco com o pé esquerdo, não deixar de fazer o sinal da cruz ao entrar em cena, não ir ao palco antes da entrada exigida na peça, uma vez dentro do camarim, não falar com ninguém  antes de começar o espectáculo, ao mudar a sua roupa pela de cena deixar os sapatos perfeitamente arrumados e alinhados, evitar passar pela frente do bombeiro destacado para o palco...
Enfim: um sem número de circunstâncias que, estupidamente, podiam influir na disposição de quem ia enfrentar o "senhor" público.
Arnaldo Leite, o grande escritor portuense, não fugia à regra e, sobretudo nos dias de estreia das suas peças,  ninguém o aturava: tudo eram sintomas de fiasco certo, em tudo via motivos para as coisas correrem o pior possível.
Uma das coisas que o punham verdadeiramente fora de si era encontrar no chão um prego dobrado ou torcido. Ora pregos, tachas e cardas é o que mais aparecia num palco, dado que, sem eles, não é possível montar um cenário. Pois o saudoso Arnaldo Leite, mal via um, olhava para todos os lados - não fosse alguém ver - abaixava-se e, rapidamente, o apanhava e metia no bolso das calças.
O seu parceiro de escrita, o grande Carvalho Barbosa, espírito desinibido e nada dado a crendices, fartava-se de gozar à sua custa. Em dias de estreia, comprava um quilo de pregos, entretinha-se a vergá-los todos e passava a noite a colocá-los nos sítios em que sabia que o seu parceiro ia passar. Este, mal via o prego vergado no chão, ficava apreensivo e lá se baixava discretamente para o apanhar e meter no bolso. E, pouco a pouco, lá ia o quilo de pregos tortos para o bolso das calças de Arnaldo Leite, que não se esquivava a ser alvo de chacota, quando, no fim de tudo, o Carvalho Barbosa lhe perguntava publicamente, que raio é que ele tinha no bolso das calças que tão volumoso era...?
FERNANDO SANTOS - ESTA É MESMO VERDADEIRA - JULHO DE 2001

Nenhum comentário: