sexta-feira, 21 de abril de 2017

A sina dum revoltado

DEIXEM O RODELA EM PAZ

Deixem o Rodela em paz
neste canto de ninguém,
porque ele não é capaz
de prejudicar alguém.

Tudo o que ele quer, na terra,
é que todos tenham pão
e se ponha fim à guerra
entre o sério e o ladrão.

Por causa destas figuras,
é que o mundo, criaturas,
continua a ter patrões.

E todos sabemos bem
que ele não é de ninguém,
mas vai sendo dos ladrões.

RODELA - " A SINA DUM REVOLTADO" - MARÇO DE 2016

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Esta é mesmo verdadeira

A BENGALA!
O Eurico era um amador de teatro, semi-furioso, sempre pronto a dar o seu concurso nas actividades cénicas da associação recreativa a que pertencia e até se podia considerar de grande utilidade, não só pelo amor que tinha ao teatro, como pelas suas reais qualidades histriónicas. Tinha, contudo, dois senão de respeito: a sua bagagem cultural não era de fazer inveja a ninguém, embora se esforçasse por melhorá-la, e era imensamente nervoso, perdendo as estribeiras, com toda a facilidade, a ponto de se tornar inconveniente por vezes.
Certa noite, em que na associação a que pertencia se comemorava já não sei o quê, e em que os elementos do corpo cénico colaboravam todos num acto de variedades, o Eurico decidiu ir recitar uns versos do Pedro Baptista intitulados "A Bengala". Enquanto esperava a sua vez de enfrentar o público, fartou-se de estudar a melhor maneira de anunciar o que iria recitar, e começou a sentir-se enervado à medida que a hora se aproximava. Na altura própria, entrou em cena mas, infelizmente, levava a fralda fora das calças. Sem dar por tal, ganhou coragem, desceu ao proscénio e anunciou:
- "A Bengala!..."
A figura em que se apresentou fez explodir uma forte gargalhada do público, que o gelou. Na sua dúvida sobre a correcção da palavra (e que talvez tenha sido o motivo da risada) que tinha dito, voltou a anunciar:
- "A Bingala!..."
A risota, então, tornou-se geral e mais forte, mas agora pela infelicidade da emenda. O Eurico, cada vez mais enervado, fez mais uma tentativa e anuncia:
- " A Mangala!..."
A casa veio abaixo com gargalhadas. O nosso Eurico, então de cabeça perdida, vira-se para o público, como quem vai fazer novo anúncio e declama:
- "O raio que vos parta!..."
E sai de cena desabrido!...
FERNANDO SANTOS - "ESTA É MESMO VERDADEIRA" - JULHO DE 2001

segunda-feira, 17 de abril de 2017

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Carvalhal

Uma fotografia pra recordar o velhinho campo do Carvalhal em dia de jogo, numa época já muito distante...Como eram lindos estes tempos...
Uma imagem de Freamunde de outros tempos.
Fotografia publicada na rede social Facebook.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Praça

  "ARES DE FREAMUNDE" - "PERFIL DA SEMANA"
«Bati esta chapa», em dia quente, com o ar completo de zumbidos, manhã festiva, sob um sol de oiro. Foi numa manhã primaveril, estava a Natureza em festa. Hoje, o colega aqui ao lado acotovela-me para que a fotografe, de novo. São ordens, e elas cumprem-se, tanto mais que, em honra de Santa Luzia, não deveria ficar mal, e os meus poucos leitores me saberão perdoar.
Oh! Não estou arrependido! Lá está ela na mesma! Bonita, como sempre! Mais leve que os sopros outoniços não perdoam as suas rendas. Continua inalterável, aguardando a chegada dos planos de URBANIZAÇAO, já tão cheios de teias de aranha. Sim, ela quer vestir o seu vestidinho novo, que ela já bem o pagou, e pôr de lado aquele que a gente vê cheiinho de remendos. Merece-o, merece-o bem. Os seus pais querem-ma bem arranjadinha, mas..., o que é certo é que ele não vem mais. Assim, está muito pobrezinha, o seu vestido deixa-a ver as formas elegantes, mas já é muito antigo, muito velho. Se nos outros, como está causa inveja, a nós mete-nos dó. Estes remendos costumeiros, como dados a pobre que vai desdenhar a esmola, em nada alteram a sua beleza. Ficam como um adorno que se põe a um canto com a ideia de não mais se lhe tocar. Não é isto que ela precisa. Mas, bonita, cheia de saúde vai resistindo sempre, sempre. Confia num esperar que não acaba mais. E ninguém se amerceará desta pobre, antes que ela caia enferma!? É tão lento o seu caminhar que os que por ela têm trabalhado, perto e longe, parece não chegarem a vê-la com o seu vestidinho de chita que o seu abençoado suor comprou. Que importa, se, mesmo pobrezinha, abandonada, desprovida do que lhe pertence, os freamundenses lhe querem tanto?
                                                Fotógrafo barato (Gil Aires)
Gazeta de Paços de Ferreira - Páginas 3 e 4 - Nº 35 de 10-12-1952
 O MERCADO EM FREAMUNDE
Na "Monografia do Coronel Barreiros", foi descrito como nasceu em 1720 a célebre feira dos treze, por concessão do rei magnânimo e a requerimento dos povos de Aguiar de Sousa, Sobrosa e Freamunde, este com a  sua confraria de Santo António; assim como se faz resumida alusão à influência que esta feira teve no aumento do perímetro da freguesia pela fundação e pelo povoamento sucessivo de mais um lugar onde antigamente nada mais havia do que uma grande devesa de carvalhos e azinheiras.
Já na petição a que os povos a pediram, se solicitara também a sua efectuação em 27 de cada mês; por essa altura, a provisão régia, todavia, apenas se referiu a uma feira nos dias 13 de cada mês; veio depois, consentimento para se prolongar pelo dia 14 de cada e, mais tarde, sob D. João VI, a importância da freguesia incrementou ao ponto de a Confraria de Santo António e o povo requererem a concessão doutra feira, a realizar no dia 27 da cada mês, o que foi concedido por provisão régia.
Daqui a origem da feira dos 27, tendo Freamunde ficado, desde 30 de Julho de 1800 em diante, a efectuar, no mesmo local da dos 13, a nova feira dos 27. Foi esta provisão a que autorizou o prolongamento da feira dos 13 até durante os dias 14.
A construção de um MERCADO era urgente. Fazia parte de um plano de realizações entravado por questão melindrosa, tendo a comissão concelhia concedido que a Confraria de Santo António, para evitar que uma litigiosa acção de expropriação dos terrenos da devesa da feira, em que o município seria autor, lhe concedesse todos esses terrenos, o que implicou a perda dos direitos de cobrança dos assentos das feiras.
Remediado o problema, foram de imediato derrubadas as barracas permanentes que a confraria de S. António havia posto e removidos os muros de pedra que a mesma confraria mandara fazer para os mercadores exporem as suas fazendas.
Só na sessão de 17 de Julho de 1889, a Câmara aprovou as condições  para arrematação do mercado, a qual se efectuou a 7 de Agosto e o mercado ficou em condições de servir o público em 1890.
Tinha o mercado a forma dum pentágono quase regular, em terreno aberto, com telheiro coberto a chapa zincada e dispostos nos lados NW, N e parte de NE, balcões de pedra sob o telheiro de zinco. A largura deste telheiro era de 3 metros. No interior havia duas pequenas placas, cobertas também por chapa zincada e o restante da área era aberta e arborizada. A superfície total do mercado orçava por 600 metros quadrados.
Contudo, o mercado precisava de água que o abastecesse. Precisava-se de benemérito. Não demorou muito. Alexandrino Chaves Velho, sempre ao serviço da "sua" terra", ofereceu a tão ansiada água à Câmara para abastecimento do mercado. O povo freamundense (sempre o povo!), grato a quem servia e lutava desinteressadamente pelo progresso e bem estar da sua terra, preparou para o dia da inauguração (16-4-1896) enormes festejos, com música, foguetes e embandeiramento.
Depois, como escreveu alguém desta terra (ROM) no jornal "Fredemundus" (1991), «Com mais ou menos cem anos, a Praça caiu empurrada pela buldózer e pelas rectro-escavadoras. Uns choraram a sua derrocada, outros alegraram-se com ela. Contradições da vida, ou não fosse a vida um jogo de contradições.
O grupo dos seus defensores desejava a sua permanência no tempo e no espaço, porque ela era um dos elementos da identidade de Freamunde. De facto, não se lhe podia negar um certo valor histórico. Ela nasceu e foi parte constituinte do período mais florescente de Freamunde. Só mais tarde adquiriu uma função diferente da inicial, mas de igual importância, uma multiplicidade que começou na transacção comercial, que assumiu o lúdico, acolheu o político, expôs cultura, ofereceu uma varanda para nos vermos a nós próprios.
Não houve, contudo, passado lendário. Ela não o teve. Surgiu, apenas, de uma necessidade económica
Depois, sim, pela localização e característica de recinto vedado, propício a diversas manifestações ao ar livre (As Sebastianas agradeceram), tornou-se um ponto de encontro de massas, num local de convergência. É por isso que nós, freamundenses, os de antigas gerações, continuam a ver  na Praça um livro de memórias.
O outro grupo que ficou alegre com a sua demolição, que apostava na renovação, eventualmente já terá torcido o nariz! É verdade que o novo em algum momento substitui o velho. É uma lei da vida, e a Praça não podia furtar-se a esta lei eternamente, por isso caiu. Velha, suja, rota com rugas e chagas. O importante era que não caísse ingloriamente, como foi o caso. Foram cortados os laços sociais e sentimentais que unem e dão espírito ao nosso povo.
Contra factos não houve (?) argumentos e a PRAÇA, no dia 16 de Julho de 1991 (Há 25 anos, portanto, tinha acabado, eu, de pertencer à comissão de festas Sebastianas), foi "invadida" pelas máquinas e..."finou-se". Para todo o sempre.
Nasceu o novo Centro Cívico mas, lá diz o ditado, "quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita". Nem com pequenos remendos. O Centro Cívico, passados tão poucos anos, vai ser sujeito (tudo aponta para isso) a uma "operação" delicada, baseada num diagnóstico profundo sob supervisão de cirurgião competente. Assim esperamos.

JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Gente da Nossa Terra

CLAUDINO MANACO

Eis o Claudino Manaco
junto ao café do Malheiro,
onde passa o dia inteiro
e nunca gasta um pataco.

Pró Freamunde dá tudo
e, se não tiver dinheiro,
ele empenha o mealheiro,
o boné e o sobretudo.

É por isto, minha gente,
que esta terra vai prá frente
não plo concelho que tem!...

E enquanto houver Claudinos,
Candeeiros e Vitorinos
nós guiaremo-nos bem!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Banda de Freamunde ( XV )

Parte de todas as anteriores citações acabariam confirmadas num manuscrito, tipo diário, encontrado por Luís Fernando, filho de António Ferreira Rego Júnior, sobretudo o relacionado com os contratos efectuados entre 1936 e 1942.
Só em Freamunde, as "funções" eram oito: no 19 de Março (festa da ASMF e dia de São José); na Comunhão Solene e Corpo de Deus; pelo Santo António; nas Festas do Mártir (sábado e domingo); pelas festas do Divino Salvador, Padroeiro de Freamunde; Festa do Senhor e da Senhora e Senhora da Conceição.
O "cachet" mais barato era o formalizado com os juízes das festas da Senhora da Conceição (à volta de 200$00), e os mais caros com as saídas para Sanfins do Douro "3 dias" (2.800$00), incluindo alimentação e dormida a toda a banda durante o tempo de permanência; Granja "Aguda" (2.500$00); Espinho "3 dias" (2.400$00); Carvalhos "Senhora da Saúde" (2.200$00)...
Não deixa de ser curioso, mesmo caricato, o contrato estabelecido com a comissão de festas de Vila Praia de Âncora (17 e 18 de Abril de 1937): 1.450$00 + 50 quilos de pão e 36 litros de vinho.
O pão era a humildade da grande maioria dos portugueses. O pão e o vinho eram oferecidos em sinal de hospitalidade.
Nas "despedidas" do regente Miguel Moreira, depois de cinco anos à frente da banda, Freamunde, em peso, saiu à rua para uma festa de arromba. O seu clube de futebol tornara-se campeão da 3ª Divisão Distrital. A Vila, toda engalanada, preparava-se para receber os seus heróis de forma carinhosa. Mas...as manifestações de regozijo não teriam tanta alegria sem música, sem os préstimos da banda. Não, não eram precisos contratos. Qual quê! Os intrumentistas, como sempre nestas ocasiões, apareciam de forma expontânea, imbuídos no espírito que sempre caracterizou as nossas gentes: solidário, emotivo, de indiscritível amor à Terra. É que a banda era composta exclusivamente pela "prata da casa". Como tal, havia empenhamento bairrista.
Do acontecimento, falam eloooquentemente as crónicas da época:
(...) A Banda de música da Terra percorreu as principais artérias executando trechos das suas lindas partituras, acompanhada de enorme multidão.
Era assim em Freamunde, antigamente!
Com a renúncia de Miguel Moreira, abria-se um novo ciclo na vida da banda.
A "Marcial de Freamunde" mantinha a base de executantes, numa época em que os efeitos da Grande Guerra se tornavam devastadores. Vivia-se um presente de dificuldades, carências, insegurança, abandonos e pobreza.
A banda, mesmo assim, não deixava créditos por mãos alheias.
Eis então que, numa tomada de posição surpreendente levada a cabo por gente atenta e sabida, é apresentado como novo maestro, António João de Brito.
Em casa fui procurar o seu rasto na intimidade da "internet". Tinha curiosidade de lhe encontrar a origem, conhecer o caminho que percorrera para chegar aqui. Porém, a pesquisa foi infrutífera, pouco rendeu. Mas certo dia, "caiu-me" nas mãos um folheto, "voado" dos arquivos de Nelson Taipa Lopes, onde constava o perfil do novo "timoneiro": nascido em Ervedal, Aviz (Alto Alentejo), filho de pais agricultores e proprietários, iniciou a sua aprendizagem musical aos 18 anos, no Exército, onde se alistou como voluntário em Infantaria 2. Antes, havia experimentado a arte de marceneiro, numa fábrica p'rós lados do Tramagal. Pouco tempo depois já se revelava um compositor de mérito. Em 1944 escreveu e dedicou a Mr. Winston Churchil, a composição "Victory", enviada para Londres pelo Centro Britânico de Informações, e, ali apreciada e executada pelas diversas bandas militares inglesas.
Anos após, em 1952, visitou a Alemanha, a convite das fábricas Hohner, convite esse que por si só revelava o prestígio em que era tida a sua indiscutível competência, no segredo da arte de dominar o acordeão e criar artistas neste instrumento.
Na "nossa" casa, iria, pois, trabalhar, por 600$00, um dos mais distintos ensaiadores musicais desse tempo, que se deslocava do Porto, onde vivia p'rós lados do Estádio do Lima, até Freamunde, no seu Ford azul.
Quem nos poderia, então, apresentar as múltiplas facetas de António João de Brito, caso único, pela diversidade das sua áreas de actividade (pianista, acordeonista, professor maestro, compositor, pedagogo...)?
Alfredo "Cherina", está claro! Mas logo assegurou que a clarividência, a energia que vai tendo é a que recebe "lá de Deus", desconhecendo o tempo que terá ainda disponível. «Mas não tenho pressa», brincou.
JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS" - 2012