segunda-feira, 3 de abril de 2017

Banda de Freamunde ( XV )

Parte de todas as anteriores citações acabariam confirmadas num manuscrito, tipo diário, encontrado por Luís Fernando, filho de António Ferreira Rego Júnior, sobretudo o relacionado com os contratos efectuados entre 1936 e 1942.
Só em Freamunde, as "funções" eram oito: no 19 de Março (festa da ASMF e dia de São José); na Comunhão Solene e Corpo de Deus; pelo Santo António; nas Festas do Mártir (sábado e domingo); pelas festas do Divino Salvador, Padroeiro de Freamunde; Festa do Senhor e da Senhora e Senhora da Conceição.
O "cachet" mais barato era o formalizado com os juízes das festas da Senhora da Conceição (à volta de 200$00), e os mais caros com as saídas para Sanfins do Douro "3 dias" (2.800$00), incluindo alimentação e dormida a toda a banda durante o tempo de permanência; Granja "Aguda" (2.500$00); Espinho "3 dias" (2.400$00); Carvalhos "Senhora da Saúde" (2.200$00)...
Não deixa de ser curioso, mesmo caricato, o contrato estabelecido com a comissão de festas de Vila Praia de Âncora (17 e 18 de Abril de 1937): 1.450$00 + 50 quilos de pão e 36 litros de vinho.
O pão era a humildade da grande maioria dos portugueses. O pão e o vinho eram oferecidos em sinal de hospitalidade.
Nas "despedidas" do regente Miguel Moreira, depois de cinco anos à frente da banda, Freamunde, em peso, saiu à rua para uma festa de arromba. O seu clube de futebol tornara-se campeão da 3ª Divisão Distrital. A Vila, toda engalanada, preparava-se para receber os seus heróis de forma carinhosa. Mas...as manifestações de regozijo não teriam tanta alegria sem música, sem os préstimos da banda. Não, não eram precisos contratos. Qual quê! Os intrumentistas, como sempre nestas ocasiões, apareciam de forma expontânea, imbuídos no espírito que sempre caracterizou as nossas gentes: solidário, emotivo, de indiscritível amor à Terra. É que a banda era composta exclusivamente pela "prata da casa". Como tal, havia empenhamento bairrista.
Do acontecimento, falam eloooquentemente as crónicas da época:
(...) A Banda de música da Terra percorreu as principais artérias executando trechos das suas lindas partituras, acompanhada de enorme multidão.
Era assim em Freamunde, antigamente!
Com a renúncia de Miguel Moreira, abria-se um novo ciclo na vida da banda.
A "Marcial de Freamunde" mantinha a base de executantes, numa época em que os efeitos da Grande Guerra se tornavam devastadores. Vivia-se um presente de dificuldades, carências, insegurança, abandonos e pobreza.
A banda, mesmo assim, não deixava créditos por mãos alheias.
Eis então que, numa tomada de posição surpreendente levada a cabo por gente atenta e sabida, é apresentado como novo maestro, António João de Brito.
Em casa fui procurar o seu rasto na intimidade da "internet". Tinha curiosidade de lhe encontrar a origem, conhecer o caminho que percorrera para chegar aqui. Porém, a pesquisa foi infrutífera, pouco rendeu. Mas certo dia, "caiu-me" nas mãos um folheto, "voado" dos arquivos de Nelson Taipa Lopes, onde constava o perfil do novo "timoneiro": nascido em Ervedal, Aviz (Alto Alentejo), filho de pais agricultores e proprietários, iniciou a sua aprendizagem musical aos 18 anos, no Exército, onde se alistou como voluntário em Infantaria 2. Antes, havia experimentado a arte de marceneiro, numa fábrica p'rós lados do Tramagal. Pouco tempo depois já se revelava um compositor de mérito. Em 1944 escreveu e dedicou a Mr. Winston Churchil, a composição "Victory", enviada para Londres pelo Centro Britânico de Informações, e, ali apreciada e executada pelas diversas bandas militares inglesas.
Anos após, em 1952, visitou a Alemanha, a convite das fábricas Hohner, convite esse que por si só revelava o prestígio em que era tida a sua indiscutível competência, no segredo da arte de dominar o acordeão e criar artistas neste instrumento.
Na "nossa" casa, iria, pois, trabalhar, por 600$00, um dos mais distintos ensaiadores musicais desse tempo, que se deslocava do Porto, onde vivia p'rós lados do Estádio do Lima, até Freamunde, no seu Ford azul.
Quem nos poderia, então, apresentar as múltiplas facetas de António João de Brito, caso único, pela diversidade das sua áreas de actividade (pianista, acordeonista, professor maestro, compositor, pedagogo...)?
Alfredo "Cherina", está claro! Mas logo assegurou que a clarividência, a energia que vai tendo é a que recebe "lá de Deus", desconhecendo o tempo que terá ainda disponível. «Mas não tenho pressa», brincou.
JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS" - 2012

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