quarta-feira, 19 de abril de 2017

Esta é mesmo verdadeira

A BENGALA!
O Eurico era um amador de teatro, semi-furioso, sempre pronto a dar o seu concurso nas actividades cénicas da associação recreativa a que pertencia e até se podia considerar de grande utilidade, não só pelo amor que tinha ao teatro, como pelas suas reais qualidades histriónicas. Tinha, contudo, dois senão de respeito: a sua bagagem cultural não era de fazer inveja a ninguém, embora se esforçasse por melhorá-la, e era imensamente nervoso, perdendo as estribeiras, com toda a facilidade, a ponto de se tornar inconveniente por vezes.
Certa noite, em que na associação a que pertencia se comemorava já não sei o quê, e em que os elementos do corpo cénico colaboravam todos num acto de variedades, o Eurico decidiu ir recitar uns versos do Pedro Baptista intitulados "A Bengala". Enquanto esperava a sua vez de enfrentar o público, fartou-se de estudar a melhor maneira de anunciar o que iria recitar, e começou a sentir-se enervado à medida que a hora se aproximava. Na altura própria, entrou em cena mas, infelizmente, levava a fralda fora das calças. Sem dar por tal, ganhou coragem, desceu ao proscénio e anunciou:
- "A Bengala!..."
A figura em que se apresentou fez explodir uma forte gargalhada do público, que o gelou. Na sua dúvida sobre a correcção da palavra (e que talvez tenha sido o motivo da risada) que tinha dito, voltou a anunciar:
- "A Bingala!..."
A risota, então, tornou-se geral e mais forte, mas agora pela infelicidade da emenda. O Eurico, cada vez mais enervado, fez mais uma tentativa e anuncia:
- " A Mangala!..."
A casa veio abaixo com gargalhadas. O nosso Eurico, então de cabeça perdida, vira-se para o público, como quem vai fazer novo anúncio e declama:
- "O raio que vos parta!..."
E sai de cena desabrido!...
FERNANDO SANTOS - "ESTA É MESMO VERDADEIRA" - JULHO DE 2001

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