segunda-feira, 29 de maio de 2017

Caminhos

 AS MINHAS VIAGENS
V
SEGUNDA PARTE
Ali, em Cachopadre, sentei-me numa pedra do caminho e fechei os olhos. No écran da minha vida, um suceder de cenas irrepetíveis...Não vale a pena contar. Perdiam a magia. Importa a actualização mental. Mental e emocional.
Não há máquinas para fotografar a saudade...Deixei-me anoitecer em Cachopadre. Eu e a natureza em sintonia.
Entretanto, devolvi os pés ao caminho do retorno. Deixei muitos pensamentos na fonte.  As fontes agradam-me. Inspiram-me. Exorcizam fantasmas e contam histórias de mouras encantadas. Daquelas que faziam apaixonar os poetas "Aquele cativa que me tem cativo..."
O amor e a infelicidade produzem literatura. Não só a dos românticos mas também a dos existencialistas sartrianos. 
Venho a pé, ao lusco-fusco do sol-por. Um manto vermelho envolve já a Terra, ao longe. O meu é negro. Pesa-me nos ombros, como as lembranças. Estou a deixar-me levar pela pieguice. Ah Castilho! Como te censuraram! Não penses. Os jovens são irreverentes e contestatários. E a vida muda! E o sentimento! Apanágio do homem...
O mais frio dos filósofos, nunca conseguiu evitar a manifestação de sentimentos, nem que fosse nas entrelinhas...A mim, cativa-me Kirkegaard...
Não acredito no Super-Homem de Nietzesche. Onde está ele? Para além do terraço de Pessoa?
Continuo a pé e só. Reparei que, por ali, existiu o Cortenhal. Recordo-me ter andado ali a apanhar linho-de-cuco. Ainda não sabia que tinha o nome de cuscuta e que com ela se tinha envenenado Sócrates, para fugir à acusação e ao julgamento de andar a eivar de heresias a sua Polis. Para não dar o dito por não dito, como Galileu, ante o Santo-Ofício.
Chego a casa. Já não vejo os meus filhos em tropelias, mas os meus netos, a segunda geração do meu ser. O meu cabelo da cor da neve! E o coração? Quem domina, a parte direita ou a esquerda? Não gosto de falar da dicotomia esquerda/direita. Adjectivam-me do que não sou. Mas que importa? As minhas convicções são genuínas e a elas sou fiel, de corpo inteiro.
Tive de subir uma encosta apressadamente. Fiquei cansada. Afrouxei o passo e reparei na casa do Idalino Pacheco. Era ali que se fazia a distribuição do azeite. Onde estará a sua filha Umbelina? Um dia vi-te, de manga curta, em Maio. Tínhamos dez, onze anos. Chorei...chorei. A minha mãe só me deixava usar roupas de Verão, a partir do dia de Santo António. Era a rigidez das normas a coincidir com a rigidez do ciclo da natureza. Tu vinhas do Porto, da evolução. Hoje chegamos ao Porto, em 20 minutos. Demorou-me mais de Cachopadre a casa.
Subi as escadas de pedra velhas e gastas. Tenho de cozinhar. Que poesia há nos tachos? Mas é necessário imaginar e fugir ao trivial que causa monotonia no estômago.
Decidi fazer peixe grelhado e brócolos cozidos. Gosto dos brócolos que pertencem à família das crucíferas, por terem a corola cruciforme.
A cruz, faz-me lembrar o cruzeiro que está por detrás da velha casa do hospício da Ordem Terceira, ao lado da casa dos Alves de Sousa. Onde viveu o Brigadeiro, figura simpática no nosso meio. Que ajudou a terra. E muita gente! Vezes sem conta...
Torno presentes acontecimentos mais longínquos e entrecuzo nomes, eventos...Parece uma tempestade no hipocampo. Que mecanismo regula o funcionamento da memória? Não vale a pena perceber. A minha cabeça está superlotada.
Não concordo com Vergílio "Félix qui potrit rerum cog nascere causas". Porquê? "Bem-aventurados os ignorantes!" - reza a religião católica.
E é para a cozinha que vou. De avental. "Hurry up!"
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

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