sexta-feira, 23 de junho de 2017

Banda de Freamunde ( XVI )

E não demorou o nosso "jovem" a rebuscar na memória fases marcantes de uma década, de 1943 a 1953, período em que António João de Brito elevou a filarmónica ao mais alto nível artístico até então conseguido. E fê-lo com entusiasmo. Talvez por isso, mantém o espírito mais desempoeirado do que muitos que por aí andam.
«Sabe, o senhor Brito era detentor de uma boa formação musical, quer no domínio da composição quer no da execução. Essa formação permitia-lhe tocar muitos dos instrumentos existentes na banda. Era uma pessoa conhecedora , ponderada...Logo granjeou inúmeras amizades. Era bem evidente o seu carisma, a sua alegria comunicativa, o prazer com que transmitia a toda a gente uma parte do que muito sabia. Ele vinha de outros "mundos". Tinha a banda a seus pés.
Lembro-me agora, é curioso!, que em 1943, creio, o Bispo de Porto e o Padre de Freamunde proibiram a nossa banda de cantar nas missas de festa e integrar as procissões. E por alguns anos, se não estou em erro. Tem graça que, por volta de 1945, 1946..., 1945, estou certo, fomos impedidos de actuar nas festas da vila, assim se chamavam na altura. E sabe porquê? Era costume nós tocarmos no coreto de pedra, o que se encontra junto aos correios. Porém, o presidente das festas, António Pereira da Costa,  queria a todo o custo utilizar o espaço para qualquer exposição ou quermesse e "desviou-nos para debaixo das árvores, junto à farmácia. Olhe, nem queira saber! O "caldo" entornou-se e as coisas estiveram mesmo pretas. Houve mosquitos por cordas, com ameaças e insultos à mistura, mas a realidade é que o senhor Pereira da Costa levou a sua avante e rejeitou-no, convidando, para alternar com a de Vila Verde, a Banda de Vilela. O nosso regente, João de Brito, ainda intercedeu, mas todos sabíamos como era o senhor Pereira "do Calvário": o que ele dissesse era uma escritura. Não foi bonito mas foi verdade. Curiosamente, em 1952, nos festejos em honra do Divino Salvador, a banda que abrilhantou o certame foi a de Baltar. Mas aqui o problema foi outro: a Banda de Freamunde, fruto da sua valia, já era cara e a comissão não tinha dinheiro para cobrir o "cahet"».
Falam eloquentemente as crónicas da época que a banda exibia-se com esplendor, fazendo vibrar as plateias ante o fascínio, a classe dos seus intérpretes. O maestro andava empolgado com a qualidade patenteada pelos seus músicos. A banda atravessava um período refulgente.
Com a rendição das tropas alemãs, em 1945, a flagelo da II Grande Guerra Mundial tinha terminado. Manifestações de regozijo aconteceram por todo o lado. O povo veio para a rua rejubilar. A banda associo-se às manifestações e tocou várias marchas patrióticas, terminando com a "Portuguesa".
O imediato pós guerra trouxe a consagração de António João de Brito.
A banda passeava classe, sendo requisitada para todos os cantos do país: Póvoa de Lanhoso, Vale de Cambra, Sanfins do Douro...Ervedal (Aviz) - Baixo Alentejo, terra de nascimento de António João de Brito.
Olhe - recordou, sorridente, o episódio, Alfredo "Cherina" -, até a mula ronceira montámos, na planície alentejana.
JOAQUIM PINTO - "BANDA DE FREAMUNDE - 190 ANOS - 2012

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