segunda-feira, 12 de junho de 2017

"Zeca Mirra"

 JOSÉ MONTEIRO DOS SANTOS "ZECA MIRRA"
(4 - 1 - 1926 / 15 - 4 - 2012)
Filho de Joaquim dos Santos e Emília Monteiro, família simples, gente que o ensinou a ser honesto, contraiu matrimónio com uma conterrânea, de sua graça Esmeraldina (Ribeiro de Meireles), corria o ano de 1948 (23/5). Do enlace, resultou o nascimento de quatro meninas, quatro Marias: Maria Cândida, Maria José, Maria Luísa e Maria Fernanda, criadas como pessoas de bem, honradas e persistentes.

Discreto, educado, contido, nada exuberante, também conservador de humildades, foi desta forma que eu conheci o senhor José ("Zeca Mirra" para gente das suas relações).

Após o desaparecimento físico, já lá vão cinco anos, é de inteira justiça e gratidão relembrar o desportista de eleição, um dos mais virtuosos futebolistas de sempre do clube do "Carvalhal", na posição de defesa central, e o treinador que lançou a sementeira na área da formação.

Despontou cedo para o futebol. O vírus, alastrado mais tarde aos manos Alberto, Jaime, Luís e Baltazar, foi-lhe incutido aos 16 anos, na faixa etária dos talentos precoces, competindo um ano depois, num período em que só existia a equipa de honra. Estávamos na época de 42/43.
A primeira vez que pisou um campo da bola com a camisola azul do então Freamunde Sport Clube vestida, foi em Lagoas, aqui bem perto, portanto. Curiosamente, usou umas botas de travessas saídas duns velhos sapatos domingueiros, verdadeira obra de arte, fruto da habilidade do carismático sapateiro, com pequeno aposento na Praça, António Ribeiro "Filipe". Botas que "poupou" até não lhe caberem nos pés. 
"Zeca Mirra" rapidamente se tornou um líder dentro do campo. Jogador elegante, lúcido, inteligente e com lampejos de génio - verdadeiro símbolo do futebol arte -, durante várias temporadas honrou condignamente as cores do clube do coração. Do seu clube de sempre pois, vítima da relutância de alguns dirigentes de então, viu ser-lhe negada a porta do estrelato... Outros caminhos, muito mais vantajosos em todas as vertentes: promoção desportiva, trabalho bem remunerado, numa altura em que as dificuldades eram imensas e a ocasião era óptima para se afirmar no futebol e melhorar substancialmente a sua situação profissional. Sporting de Braga, Académico do Porto, Académico de Viseu, entre outros, foram fortes pretendentes ao concurso deste interessante jogador. Sob o comando do saudoso professor Gil Aires, a equipa foi alcunhada de "Argentinos", tão bem jogava a rapaziada, mais fazendo lembrar a célebre formação de São Lorenzo de Almagro que encantou, com o seu virtuosismo, todos os portugueses numa digressão que por cá efectivou.
Quem não se lembra, quem ainda não ouvir falar do onze maravilha! Peixoto, Zeca "Mirra", Alberto "Mirra"; Manuel Pinto, Casimiro "Russo" e Zé Viana; Adão Viana, João "Cherina", Quim "Bica", João Taipa e José Maria "da Couta".
Arrumadas as botas no final da época de 58/59, temporada histórica pois o S.C. Freamunde conquistou o título de campeão da 2ª Divisão Distrital, em 62/63 ainda apareceu a fazer uma perninha em alguns jogos, retirando-se, agora sim, em definitivo.
Passou anos a jogar futebol, sempre respeitando o jogo, os colegas e adversários, os árbitros: a personificação exemplar de um perfil discreto mas sóbrio.
Tempo ainda para acudir (67/68), como técnico principal, numa altura de alguma instabilidade, à equipa sénior do Freamunde. Não caiu nas boas graças de alguns adeptos(?). Era difícil derrubar certos "mitos" nebulosos que o envolviam, principalmente esse de não ser um treinador de... fora.
Apagadas as fogueiras da paixão que na altura se geraram, nem por isso se agastou ou proclamou aos quatro ventos injustiça ou intenção de lesar.
Mas foi na formação, na valorização de jovens atletas, como treinador, desde a longínqua época de 53/54, que Zeca Mirra se tornou lendário. Não custa nada, porque é verdade, lembrar sempre que a sementeira nesta área foi por ele lançada e cujos frutos ainda hoje se estão a comer. Mas não foi fácil impor padrões próprios de organização. Só se treinava uma vez por semana, às Quartas-feiras, depois do "mister" "arrear" da fábrica do Calvário, onde sempre trabalhou até à idade de reforma.
A partir de então, iria o Clube desenvolver, com assinalável sucesso, um laborioso trabalho na área da formação, mobilizando-a e criando uma certa disciplina desportiva.

Técnico de indiscutível competência, pelas suas mãos passou uma imensidão de atletas a quem sempre soube incutir as normas éticas e salutares, fundamentais à formação do jogador e do homem em toda a sua dimensão. Trabalho de "sapa", sem mediatismos.
«Ainda me lembro - reviveu, certo dia, em jeito de conversa - como surgiu o escalão de Juniores no S.C. Freamunde.
Nas redondezas já evoluíam alguns grupos similares. Tal facto fez-me matutar. Era o "bichinho" que já cá residia. Decidi, então, meter pés a caminho. O nosso clube precisava de formar atletas para mais tarde "alimentar" o onze das "Primeiras".
Depois de observar alguns jovens que me apareceram no "Carvalhal", outros que se defrontavam rijamente no tão propalado despique entre as duas facções oriundas das zonas norte e sul desta nossa freguesia - os tais jogos do "pé descalço" -, solicitei ao Toninho Torres a colaboração para a formação de uma equipa e posterior participação em campeonatos oficiais.
O Toninho era possuidor daquela grandeza de alma, tão necessária para o êxito desta iniciativa.
Sempre ao lado da pequenada, com a ternura e dedicação que lhe eram peculiares, pelo seu contributo, pela sua constante disponibilidade, pelo amor, pelo carinho que eternamente nutriu pelos mais novos, foi, mais tarde, carinhosamente apelidado de "Padre Américo".
Feito o recrutamento, tornava-se imperioso a angariação de fundos para a aquisição dos indispensáveis equipamentos: camisolas, calções, meias, botas, bolas...
Tarefa prioritária mas difícil porque os tempos eram de contenção e os "carolas" contavam-se pelos dedos de uma só mão.
Reunimos a "miudagem" e partimos, animadíssimos como nunca, à procura da "massaroca" necessária.
Nas portas onde batemos fomos sempre bem recebidos... e muito encorajados para que o projecto não esmorecesse.
O apuro foi de 520$00. Para a lavagem dos equipamentos os "miúdos" teriam que pedir aos pais a verba mensal de 2$00.
A inscrição na AFP foi efectuada em devido tempo e a "malta" correspondeu, em absoluto, ao que dela se esperava.
Fomos campeões de série logo no ano de baptismo, levando à loucura os apaixonados da bola.
Era um "toledo" que nem queira saber!
A equipa "arrastava", sistematicamente, centenas de adeptos, mesmo em jogos fora do nosso reduto.
E quis o destino que o primeiro opositor fosse o vizinho e rival Vasco da Gama (hoje F.C. Paços de Ferreira).
Presenciado por enorme assistência, o jogo, disputado no campo da "Cavada", decorreu equilibrado durante a primeira vintena de minutos, justificando-se o empate a uma bola com que se atingiu o intervalo (os jogos tinham a duração de 60 minutos, divididos em duas partes de 30 minutos). Humberto tinha sido o autor do nosso golo.
Na segunda parte, o domínio do Freamunde foi avassalador, mercê principalmente da sua incontestável superioridade técnica, e o resultado final (2-1 a nosso favor) não surpreendeu.
Mas o jogo mais emocionante foi travado em Santo Tirso, com o grupo local.
O Freamunde não poderia perder, caso contrário seria arredado do primeiro posto.
O campo encontrava-se superlotado. O Maximino "Candeeiro", em grande risota, ainda agora conta este episódio perfeitamente insólito: "...Como não conseguíamos boleia de quem quer que fosse, eu e mais dois colegas fomos "ensanduichados" na mala do carro de praça do Albino "Aniceto". Pois!...Íamos lá agora perder o jogo! Era o que faltava!... E o mais engraçado é que tivemos de pagar parte do gasóleo".
Com uma fantástica exibição, conseguimos a igualdade a uma bola, resultado suficiente para a conquista do título de campeão de série.
No final, foi a "loucura" completa, dentro e fora do rectângulo.

De longe, de Moçambique, Gil Aires, sempre Gil Aires, escrevia para a "Gazeta": «BRAVO! - Aos juniores do Sport Clube de Freamunde. Há pequenos nadas na nossa vida que são recordações, bâlsamos, imagens santas na nossa existência. Vós, talvez sem teres medido a extensão do bem que isso representa na nossa vida, conquistastes um desses pontos luminosos, que, anos mais tarde, vos encherá a alma, por momentos, vos dará novas forças para as lutas que ides travar como homens, ao recordá-lo. O vosso brio, as vossas forças, a vossa inspiração, aliados ao saber, que vos transmitiram, conquistaram um triunfo difícil, e mais difícil ainda por ser disputado entre vizinhos, que encheu de alegria o peito dos que vos seguem de perto e lá ao longe. Quantos destes, mesmo sem vos ter visto jogar, ao terem conhecimento do vosso feito, sentiram rolar uma lágrima quente, válvula invisível que, desoprimindo-nos, por influxo, nos traz bem estar celestial.
...Todo aquele que se entrega de alma e coração ao ideal por si sonhado, é um herói, é um eleito. Não sejais ingratos, esquecendo aqueles que vos guiaram nos passos, por vezes amargos, que cobrem as pugnas desportivas. A ingratidão não cabe no peito de um grande atleta».
Mas o grande feito ( o primeiro de muitos em escalões jovens) surgiu na época 64/65. A temporada anterior já prometera: a equipa tinha conseguido disputar uma das séries do Nacional, alcançando, no final, um honroso terceiro lugar, a um só ponto do vencedor, Vitória de Guimarães.
A equipa possuía um enorme potencial. Na segunda fase, de apuramento de campeão, visitava-nos o todo poderoso F.C. Porto, até aí intocável. Mas a surpresa, e que surpresa!, aconteceu: os portistas sofreram no "Carvalhal" o único revés da temporada. Saíram derrotados por 1-0. Fernando "de Rebordosa" foi o autor do solitário e histórico golo que humilhou a grandeza de um clube recheado de vedetas (Almeida, Pavão, Piruta, Miranda, Ernesto, Lázaro...) e consagrou Agostinho "Rita", protagonista de uma exibição sensacional, defendendo tudo o que havia para defender. Incrédulos ficaram os "dragões", pálidos de amargura, inconsoláveis.
Do nosso lado, perante multidão delirante, abraços atrás de abraços. "David tinha vencido Golias".

Mas o mais engraçado aconteceu minutos antes do início do jogo: talvez para "espicaçar" o grupo, a directoria, pela voz de Nelson Lopes, prometera uma arrozada de frango a todo o plantel, no "Popular" do Américo "Caixa", se a vitória caísse para o nosso lado. Quem pensaria em tal façanha?!.. O certo é que tiveram mesmo de abrir os cordões à bolsa e cumprir com a palavra. Nem mais.»
A partir daí, para Zeca "Mirra", foram mais dez anos ligado a esta causa. Sem desfalecimentos, com enorme paixão. A correr constantemente o campo todo, pela parte de fora, se o jogo corria mal. Nunca se sentava no "banco". E se assim fosse, porque os jogadores não obedeceram às suas recomendações, era vê-lo entrar nos balneários, ameaçando a terra e o mar. Depois, serenava e lá o tínhamos jovial, com uma palavra de conforto, uma atitude de compreensão que dava alento à rapaziada.
Até um dia em que...com muita mágoa, teve de partir. Vinte anos foi muito tempo, é verdade. Mas podiam ter sido mais. Houve, contudo, inadvertidamente, quem não quisesse. Modernices! Foi pena.
Modesto, passou a viver afastado da popularidade, praticamente ignorado - é assim a memória das pessoas, egoísta. Se a grandeza dos homens não fosse avaliada pela ostentação, prepotência ou arrogância, antes sim pelo carácter, honestidade e rectidão, talvez Zeca Mirra tivesse um lugar mais consentâneo nos anais do Clube.
Somente em finais da década de oitenta alguns dos seus "ex-meninos" proporcionaram-lhe momentos de convívio, de alegria, de nostalgia.
A "festinha", bem organizada, nada sofisticada, antes saída do coração, teve o condão de reunir à sua volta antigos atletas, muitos, os que puderam marcar presença, para um sentido abraço de amizade e gratidão.

José Monteiro dos Santos, o "nosso" Zeca Mirra foi, é, e continuará a ser, quer queiram ou não, uma referência inquestionável no que ao S.C. Freamunde diz respeito.
O tributo que lhe foi prestado pela direcção do S.C. Freamunde, no dia 19 de Março de 2010,  data comemorativa da fundação do Clube azul e branco, a pequena e singela homenagem (distinguido com o mérito desportivo), a justiça, por que não dizê-lo!, chegou um pouco tarde, correu alguns riscos, mas ainda a tempo.
A nós, freamundenses, os que amam o clube, que reconhecem os seus "heróis", que "viveram" intensa e apaixonadamente o "Carvalhal", só nos resta agradecer-lhe: OBRIGADO, SENHOR JOSÉ.
JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"

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