segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Freamundense completou 102 primaveras

Alfredo Matos completou 102 anos no passado dia 23 de Agosto e o Imediato recorda a sua história de vida já publicada no jornal quando completou o centenário. Porque os bons exemplos devem ser recordados...
A vida deste freamundense é repleta de aventuras e desventuras, acompanhadas pelo paralelismo de uma mudança de pensamento que marcou a história do séc. XX. Tem presente na sua memória o drama da 2ª Guerra Mundial, viveu a evolução do regime de Salazar e ainda a vitória da democracia.
Foi com uma excelente lucidez e um discurso fluido que Alfredo Matos recuou no pensamento e lembrou os seus tempos de infância. "Fui um privilegiado, sabe. Consegui tirar a 4ª classe naquele tempo numa escola particular. O meu padrinho era rico e pagou-me os estudos", lembrou com saudade os tempos que antecederam o início de uma longa caminhada laboral. Em 1926, tinha 11 anos, e já trabalhava como caixeiro, na Rua do Freixo, no Porto. Por lá esteve 3 anos e não mais ficou por causa de uma sova que nunca esqueceu. "Trabalhava para uma tia minha e ela pediu-me para ir para ir ao Campo 24 de Agosto comprar tabaco. Apanhei "boleia" do eléctrico, mas da parte de fora, e quando vi o cobrador aproximar-se tive que saltar para a rua. Acho que desmaiei quando caí, mas a minha tia só soube disto no dia seguinte. Bateu-me, fartei-me de lá ficar, e regressei a Freamunde".
Esta história mirabolante foi decisiva para ingressar na sua grande paixão: a música. Entrou na Banda de Freamunde aos 16 anos e por lá permaneceu até aos 78 anos. "Aprendi a tocar muitos instrumentos, como clarinete, o saxofone e o pratilheiro. Foi uma ligação de 62 anos à banda", sublinha Alfredo Matos. Mas pelo meio ficaram mais experiências no trabalho, primeiro como tamanqueiro e depois como pintor numa fábrica de móveis, onde ficou até atingir a idade da reforma.
RITUAL
Os dias de Alfredo Matos vão passando sempre ao mesmo ritmo. Vive em casa de um filho mas a sua independência é uma condição obrigatória. Levanta-se às 7 horas da manhã e uma hora depois está a tomar o pequeno-almoço. Almoça ao meio-dia e depois segue-se o passeio pelas ruas da cidade de Freamunde. A visita ao Café Teles é um ritual obrigatório depois do jantar. "Vou lá diariamente há 24 anos e já tenho a minha cadeira reservada. Chego por volta das 20 horas e só me vou embora duas horas depois. Tenho sempre a conversa em dia".
AMORES
Alfredo Matos casou-se aos 23 anos com a Gracinda, era uma jovem "muito bonita" e morava perto de sua casa. Tiveram uma vida em comum até aos 65 anos, altura em que uma doença cortou uma relação de onde nasceram cinco filhos e ma extensão de 45 familiares divididos entre netos, bisnetos e trisnetos.
Mas a primeira namorada de Alfredo foi Olinda. "Eu trabalhava como tamanqueiro, tinha 15 ou 16 anos, e ela numa casa como servente. Sempre que eu passava na rua ela vinha espreitar-me à janela, mas o patrão não achou piada e despediu-a porque entendia que estava a perder tempo ao ver-me". Nunca mais a viu até há pouco tempo. "Sabia que ela morava por estes lados e disseram-me que estava internada no Lar André Almeida. Fui visitá-la e perguntei-lhe se me reconhecia. As gargalhadas só vieram quando lembrei a história da janela. Ainda a fui visitar uma outra vez, mas acabou por falecer".
As histórias de Alfredo Matos são intermináveis e mágicas e a sua energia demonstra que muitas outras ainda ficarão registadas num futuro que se espera longínquo.
JORNAL IMEDIATO - EDIÇÃO DE 25 DE AGOSTO DE 2017

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