quarta-feira, 11 de abril de 2018

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XVII )

ÉPOCA 1947 / 1948
GIL AIRES ABDICAVA DO COMANDO TÉCNICO DA EQUIPA
Contra todas as expectativas Gil Aires cedia o comando técnico a Albertino Ferreira Andrade, funcionário do Banco de Portugal e ex-treinador do Académico do Porto.
Como a hora era de apertar o cinto, as condições contratuais resumiram-se ao pagamento de despesas com viagens, estadias e pensão, ficando ao critério da Direcção qualquer outro tipo de gratificação.
Foi ainda deliberado em reunião de executivo a aquisição de equipamento completo, novinho e a estrear, com golas e punhos em branco - todos gostaram de ver o traje, era um pouco diferente do habitual, conferia dignidade, enfim, estava na moda - mais onze pares de botas - um luxo para a época - uma bola, que custava (302$00) os olhos da cara, exigindo grandes esforços financeiros, e ainda doze pares de meias de lã e uma câmara para o esférico. O conserto das botas estaria uma vez mais a cargo de António Ribeiro "Filipe". Só as de Rogério Monteiro não lhe passavam pelas delicadas mãos. O "menino" vivia de forma abonada e, como tal, não necessitava de "material" remendado. "O Rogerinho - bom rapaz, por sinal - ofereceu-me as "chuteiras" que estreei no primeiro jogo oficial. Anteriormente, nos treinos, usava o que calhava! Por vezes, duas do mesmo pé e de cores bem distintas. Estávamos nos anos do futebol puramente amador e os praticantes eram, geralmente, gente pobre. O tempo voa, já lá vão quase sessenta anos mas ainda tenho na memória todas estas peripécias". Assim nos referiu Quim "Bica" num cantinho do Café Teles.
O futebol era e é, sem dúvida, fértil em relatos do insólito.
Ficou igualmente lavrado em acta o gesto de José Teixeira Sousa Bonito (mais tarde reconhecido com a oferta de um livre trânsito), pela dádiva ao Clube de uma nova bola. Idêntica iniciativa teve Albino Torres Monteiro, também contemplado com o cartãozinho.
"Mas era mesmo um grande gesto, podem crer - confidenciou-nos Alfredo Rego em 1994, durante um concerto da Banda, por alturas do Santo António. Se querem saber, o custo de uma bola representava na época, um quinto da despesa mensal do Clube. No cenário actual assemelhava-se a um donativo no valor de setecentos ou oitocentos contos".
O mesmo tratamento para Faustino de Sousa Mendes pelos serviços prestados à agremiação como carpinteiro.
Para criação de novas e imprescindíveis receitas foi lançado sorteio de uma bicicleta - mil bilhetes a 5$00 cada - que ficou exposta no stand da Fábrica do Calvário, no Largo de Santo António. Porque a venda das rifas não estava a ter o sucesso desejado, a data do sorteio foi por diversas vezes adiada.
Como um mal nunca vem só, a dita bicicleta foi alvo de roubo para tristeza e indignação geral. Sucedeu. Estas coisas sucediam amiúde. Os "desvios" eram mesmo uma constante.
Esquecido o infortúnio e enquanto as forças da ordem não resolviam o problema, tempo para uma vista de olhos à correspondência.
Lida e relida, ficou a saber-se - através de comunicado da AFP - que um atleta podia ocupar no mesmo dia o lugar de guarda-redes em dois jogos da mesma modalidade.
Também determinada a obrigatoriedade do policiamento dos campos de jogo ser efectuado pela PSP ou GNR (anteriormente superintendida pelo Regedor e Cabo d'Ordem, Joaquim Bessa Ribeiro e Manuel "Faria", respectivamente), fazendo-se igualmente lei que todos os atletas fossem sujeitos a exames no Centro de Medicina Desportiva.
BENFEITORIAS NO "CARVALHAL"
As estruturas, essas, estavam já um pouco caducas. Os painéis de madeira que circundavam o campo, roídos pela usura e pelas intempéries, exigiam bastantes consertos. Remediando outras insuficiências, a Direcção decidiu adaptar um chuveiro privativo no gabinete do árbitro. Finalmente, o homem do apito já podia tomar banho sossegado. Por oferta de Júlio Dias Andrade foi colocada - era mesmo uma necessidade - uma porta na entrada sul do Campo do Carvalhal, satisfazendo-se, principalmente, os anseios da vizinha freguesia de Ferreira.
O Clube crescia a olhos vistos. A admissão de associados em larga escala era já um facto real e constituía um privilégio pois só poderiam ser aceites após propostas de outros e deferidas pela Direcção.
Todo o sócio, sem excepção, seria demitido se infringisse o art. 20, parágrafo 1º (falta de pagamento superior a quatro quotas sucessivas).
No que à apresentação de contas relativas ao ano de 1947 diz respeito, os resultados foram os seguintes:
OS ATLETAS MAIS CREDENCIADOS ERAM REQUISITADOS PARA JOGOS DE BENIFICIÊNCIA
No concelho poucas empresas "pagavam" bem. P´rás "bandas" do Vale do Ave (Fábrica da "Cuca" em Moreira de Cónegos, principalmente) as coisas estavam muito melhor, obrigando determinados jogadores a darem outro rumo profissional às suas vidas. Assim, foram passadas cartas de desobriga a Belmiro Ribeiro Pinto "da Riquêta" (ingresso no Desportivo das Aves) e a Joaquim Pinto "Maneta" (passou a representar o Moreirense F. C.), que por lá ficaram após terem contraído matrimónio. Entretanto, fazia o "baptismo" nas Primeiras outro dos "Mirras": Alberto. Jogador de estilo discreto, mais "forte e feio", era consistente a defender e prático a endossar. Por vezes actuava em posições "contra natura" mas...estava sempre bem!
Os próprios atletas já possuíam um certo "cartel". No dia 15 de Junho de 1948, João Taipa e Hercílio Valente foram, sem surpresas, requisitados para colaborar num jogo de benificiência, em Paredes, integrando uma selecção do Vale do Sousa que defrontou a equipa do F. C. Porto. Em idênticas circunstâncias, outro dos convocados era Zeca "Mirra", pois claro!
DOMINGOS GOMES
Mas nem só os jogadores estavam em alta. "Honras", igualmente, para Domingos Ribeiro Gomes, indigitado pela Direcção e posteriormente nomeado membro do Conselho Técnico da Associação de Futebol do Porto.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

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