XII
Embrenhar-me nas ruas apinhadas de movimento, ou nas matas de giestas amarelas, entrar nos cafés superlotados aos fins de semana, ouvir as conversas de futilidades nos cabeleireiros, são algumas das ofertas mais fáceis, que os meus tempos livres (?) encontram.
Eu prefiro as matas das giestas amarelas ou brancas, nem que a flor se tenha transformado em cápsula cinzenta a ajudar à germinação no ano seguinte!
Para ir para as matas, contudo, tenho de atravessar as ruas com os carros a buzinar e a acelerar e encontrar pessoas. Não me importo de encontrar pessoas. Gosto de conversar. Até da moda, se preciso for.
E quem encontrei hoje? O Gusto Ramos. Apetecia-me dedicar-lhe um livro, como Mário Cláudio escreveu sobre Rosa, a ceramista-artista de Barcelos. Mas não sei. Gostaria de perceber que relação há entre a bebida e o artista, entre a vida e a tela.
Conversámos. Falámos da sua actividade artística, bem sinuosa e bem louca. Porque os valores culturais dificilmente são incentivados numa terra que perdeu os pergaminhos e se materializou. Os valores culturais também custam dinheiro. Que horror ter de vender um livro! Vender-me? Mas o livro paga-se.
Nesta vida, das simpatias e dos afectos há coisas que nos (me) deixam perplexos. Marcelo Rebelo de Sousa é um notável comentador e político de que a maior parte da população gosta. António Vitorino é uma personalidade que todos admiram e para que têm sido pensados importantes papéis, em representação de Portugal, no estrangeiro. Não foram, contudo, nem serão capazes de bater Durão Barroso. "O coração tem razões que a razão desconhece" - dizia, parece-me que Pascal! Como gostávamos de escrever esta frase nos livros, no nosso tempo de estudante! Então no Eça de Queirós, em Lousada, era uma alegria! Era o colégio das paixões...
Voltando ao Gusto, personagem indefinível mas nem, por isso, menos interessante. Não é por ter dito que gostava de fazer a minha estátua (porquê? - aquela carta anónima que recebi há meses dizia que eu não a mereço; era a única afirmação correcta que lá vinha). Nem, por uma noite de chuva impiedosa, antes de cair em coma alcoólica, ter dito, ao entrar em minha casa "Não quero morrer sem ver a D. Rosalina!"
Só que não consegui incutir-lhe a ideia de insistir na arte e deixar de beber! Por isso os meus afectos estão cheios de rugas.
Deixei o Ramos a pensar em algumas frases que lhe atirei à razão! Não sei se surtirão o efeito almejado. Se ruirão como a ponte pedonal no IC 19.
Mas...quem sou eu para dar conselhos? Folha de Outono arrastada pelo vento, como posso enfrentar a Primavera?
Não chego, nunca mais à mata das giestas amarelas.
Estão cinzentas já. "Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho?". Mas entro na mata das giestas. Ali perto na casa do Chamusca. Porque não descer? Ali, na casa dos "Meinedos" ainda deve haver perus para vender na Santa Luzia. Ou as minhas amigas Estelinha e Olivinha, já não estão ali? Não, a casa está velha. Não há perus. Há ausência e silêncio de ontem que eu pretendo quebrar com as minhas lembranças.
Continuo. Ali o caminho que me levava à escola de Ferreira. Quase sempre a pé. Mas ainda hoje prefiro a caminhada, às grandes viagens de automóvel. A estrada é um susto! Metem-me medo as correrias loucas, os atropelados e a insensatez! Mete-me medo a morte. Apesar do meu prazo de validade estar quase a terminar, ainda tenho muito que fazer! Por isso tenho pressa. E se essa pressa, apressar a pressa da "Senhora das Brancas Mãos"? A vida é um risco. É outro tipo de risco que piso hoje, como pisei ontem.
Como diz Kirkegaard "o eu não cabe num sistema". Por isso eu dou turras nesta abóboda, espartilho que é vida e que me limita o tempo. Qual clepsidra ou relógio de areia, a deixar pingar os segundos. Sem clemência! A cingir-me. A aborregar-me. Porque a luta contra o tempo faz-nos malogrados, porque derrotados como o touro nas lides do Campo Pequeno. As coisas ficam por fazer, no canto do armário, a fazer sempre lembrar, corroendo, erodindo.
Já devia ter ido, há mais tempo, à casa dos "Meinedos". Perdi o rasto à Olivinha. Os maridos, os filhos, os netos, as canseiras e os sonhos fazem-nos trilhar outras vidas. Até pensei que ainda lá havia perus, muitos perus para vender na Santa Luzia!
Vim embora. Recordei a Belém Chamusca, a menina - senhora rebelde a quem a doença e o fim roubaram o viço e as inquietações, antes do tempo. "O meu Pinto anda triste, mas eu vou viver!" - a crença afinal abalável e abanada duma mulher de convicções inabaláveis e de lutas porfiosas.
Uma vez dizia-me que sentia que um fulano era muito meu amigo. "Nota-se nos olhos dele, ele gosta de si, confia em si, é mesmo um amigo!" A Belém não viveu para ver que as aparências iludem. Se calhar, ainda não se tinha apercebido que, por baixo dum sorriso doce e de expressões como "tu és a maior!" há um interesse camuflado e uma carabina embainhada, à espera do momento. Deus a tenha no canto do paraíso mais aprazível, enquanto entretém os anjos com as suas brejeirices. "Aqui na terra a fome continua", Belém. E há bombas de napalm nas mãos dos meninos. Também gostava de ler José Saramago, eu sei. Logo à noite, vou lê-lo para ela. Ela não cairá nas nuvens, nem irá às nuvens. Mas eu senti-la-ei a ouvir-me!
E, como António Ramos Rosa, "não posso adiar este abraço".
Com a Belém, outros me ocorrem no pensamento. Que voaram. O céu estava vago e esperava risos de fantasias de gente que fazia falta ao reino de Deus. O reino da Glória. Recordo a Fausta da Raimonda. Ia de minha casa, quando um jovem esqueceu o volante e o travão e, extasiado, conduziu na sua direcção levando-a para esse reino. Porque a Fausta era bonita. Ao contrário da Rosa Caramela do Mia Couto, não precisaria de inventar casamentos.
Cai-me o silêncio sobre as mãos. E fecha-se a boca e o pensamento. Até à próxima.
Uma vez dizia-me que sentia que um fulano era muito meu amigo. "Nota-se nos olhos dele, ele gosta de si, confia em si, é mesmo um amigo!" A Belém não viveu para ver que as aparências iludem. Se calhar, ainda não se tinha apercebido que, por baixo dum sorriso doce e de expressões como "tu és a maior!" há um interesse camuflado e uma carabina embainhada, à espera do momento. Deus a tenha no canto do paraíso mais aprazível, enquanto entretém os anjos com as suas brejeirices. "Aqui na terra a fome continua", Belém. E há bombas de napalm nas mãos dos meninos. Também gostava de ler José Saramago, eu sei. Logo à noite, vou lê-lo para ela. Ela não cairá nas nuvens, nem irá às nuvens. Mas eu senti-la-ei a ouvir-me!
E, como António Ramos Rosa, "não posso adiar este abraço".
Com a Belém, outros me ocorrem no pensamento. Que voaram. O céu estava vago e esperava risos de fantasias de gente que fazia falta ao reino de Deus. O reino da Glória. Recordo a Fausta da Raimonda. Ia de minha casa, quando um jovem esqueceu o volante e o travão e, extasiado, conduziu na sua direcção levando-a para esse reino. Porque a Fausta era bonita. Ao contrário da Rosa Caramela do Mia Couto, não precisaria de inventar casamentos.
Cai-me o silêncio sobre as mãos. E fecha-se a boca e o pensamento. Até à próxima.
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