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quarta-feira, 8 de abril de 2020

A sua culpa

VI
 - Acontece com algumas mulheres que são confrontadas com a impossibilidade de gerar naturalmente um filho. Ficam estigmatizados pela diferença e sentem-se afectadas por sentimentos de culpa e de aviltamento. Mas isso vai-se, geralmente, dissipando, à medida que o tempo passa e o feto se vai movimentando no seu ventre. A sua mulher continua, porém, imersa num pântano, o que é já uma situação anormal. Concordo consigo, a consulta de psicologia pode ajudá-la a ver mais claro, a aceitar o seu problema e a diminuir o seu sofrimento. É necessária e urgente - foram as palavras da obstectra.
Mas convencer Carolina foi difícil. Que não valeria a pena, que tudo não passava dum estado de ansiedade que afecta muitas grávidas, que é a pressa de ver o filho nos braços...
- Eu quero ver-te mais airosa e desanuviada, meu amor. A tua melancolia e o teu comportamento traduzem uma morbidez que é necessário debelar. Estás a viver uns tempos dolorosos que são prejudiciais para ti e para o nosso filho. E queremos um bebé saudável, não é, Carolina?
- Pois é, já tinha percebido isso mesmo. Pensas mais no bebé do que em mim - atirou com um ar de desvario, os cabelos revoltos e os olhos acusatórios, como se impregnados de laivos de magia.
Carlos ficou surpreso e petrificado. Não esperava aquela provocação. O lábio inferior e as mãos tremiam-lhe como malmequeres acossados, na seara, pelo vento. Levantou-se e foi mergulhar num banho quente. Ele não entendeu.
Carlos, quase sem dar conta, ia modificando a sua forma de estar. Saía mais tarde da empresa, distraía-se mais tempo com os amigos no café e, às vezes, dava uma escapadela a Freamunde, onde tinha feito bons amigos, para jogar as cartas no Clube Recreativo ou saborear uns petiscos no Café Teles. Carolina atribuía as suas demoras e ausências ao aumento de responsabilidade na empresa. O pai tinha, na verdade, delegado em si muitos dos seus poderes e das suas tarefas e isso carrear-lhe-ia um défice de tempo e de atenção, para com ela e a casa. Carolina interpretava a situação desta forma, mas sentia-se mais desacompanhada, barco parado num mar de inquietações. Iria, pois, aceitar o conselho do marido e da médica A consulta a um psicólogo poderia ajudá-la a diminuir as suas dores.
Expôs o que a consumia e estava a dilacerar a sua vida, num tom desajeitado e nervoso. Sentia espasmos a apertar-lhe a garganta. As palavras saíam arritmadas e guturais, enquanto fazia e desfazia o laço da blusa cor dos seus olhos.
- A senhora nunca ouviu dizer que "quem não tem cão, caça com um gato?" É a aceitação das contingências da vida, é o driblar das situações menos cómodas. Felizmente a senhora vive num tempo em que os avanços tecnológicos e da medicina permitem colmatar muitas deficiências do organismo humano. Está grávida, era isso que mais ansiava, a ecografia anuncia-lhe um feto perfeito, não vejo motivos para se mutilar dessa maneira. Trave esses pensamentos masoquistas e de rectaguarda. Olhe em frente. Lá fora há céu e mar, há flores e pássaros...E há vida a pulsar dentro de si. E essa vida depende de si, a sua vida.
Carolina encamisava as palavras fortes e duras do psicólogo, mas continuou a fazer e a desfazer o nó, a enovelar as mãos com as fitas da blusa.
- Ouça-me. Já pensou que a sua continuada postura de auto-degradação, de humilhação, pode estar a afectar o vosso relacionamento conjugal? O seu marido parece-me bastante abatido e possuído de pensamentos dilacerantes. Não sabe o que fazer, não sabe o que dizer...
Saiu do consultório mais desenvolta e arejada, mas entrou no carro sem nada dizer. Esperava que Carlos a questionasse, o que ele não fez. E o silêncio, mais uma vez, assinou o livro de ponto, nas suas vidas.
O tempo ia rolando, repetindo-se, num circuito quase fechado. Entretanto, uma nova ecografia revela o sexo do bebé. Era uma menina.
- Gostaria que se chamasse Carolina, como tu - precipitou-se Carlos.
- Mau presságio! Pode vir a enfermar do mesmo defeito que eu. Tanto gostaria que fosse um rapaz! Saiu-me tudo ao invés.
Carlos não arranjou palavras para continuar o diálogo. O psicólogo não operara milagres.
Adensavam-se nuvens fortes à volta dos dois, entre os dois.
ROSALINA OLIVEIRA - "A SUA CULPA"

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A sua culpa

V
Percorreram algumas ruas do Porto de mãos dadas, a arremedar uma felicidade que se esvaía nas cenas que se pressentiam e nas palavras que ficavam por dizer.
- Olha aqui, Carolina! - exclamou Carlos, fazendo parar a mulher. - Esta casa tem coisas deslumbrantes.
- Sim, são realmente muito bonitas. Mas não vale a pena entrar. Os preços devem ser exorbitantes...
- Que importa o preço, Carolina? O nosso filho merece o melhor. É o nosso primeiro filho. E depois...depois pode vir mais outro...
- Outro?
Carlos sentiu o sangue a aflorar-lhe o rosto, numa boémia de cores. Ardia.
- Não era isso que ambicionávamos?
 Sim, mas a vida trocou-nos os passos. Entrincheirou-nos num beco sem saída, onde não há lugar ao sonho. Abre os olhos à realidade, Carlos. É tempo de perceberes que casaste com uma mulher deficiente e toda a textura dos nossos sonhos dissolveu-se nas águas em que naufragámos. No mar das realidades.
O ardor que assoberbava Carlos converteu-se num frio glacial. Não esperava aquele discurso. Agarrou-a pela mão e foram para o carro, sob o olhar exoftálmico da funcionária que os observava, por detrás da montra.
Fizeram um percurso instrospectivo, até ao carro. Espiralavam-se palavras ocas, para impedir um pugilismo verbal que deterioria a situação. Só já no carro, Carlos, olhando-a bem de frente, tentou desafiá-la e despertá-la.
- Não repitas o que me disseste há pouco. Estás a flagelar-te e a fazer de mim um nómada nas ideias e nas atitudes. É que não sei mesmo o que fazer, não sei o que dizer-te. Estás a sofrer por causa duma pequena mazela que é ultrapassável. Foi já ultrapassada. Estás grávida.
- Só te fiz recordar uma realidade que não podemos escamotear, nem olvidar. Sou defeituosa...
- Porque insistes? Estás a interiorizar um tremendo complexo de inferioridade que te abala, que te afunda. Sofres, por tua culpa.
- Isso mesmo, Carlos, por minha culpa. Eu padeço duma deficiência anatómica e funcional que...
- Cala-te, por favor. Disse apenas "por tua culpa", para tentar alertar-te para a melancolia em que submergiste e que te domina. Não quis acusar-te do que não tens culpa...Via-te taciturna e meditativa e só há dias percebi a causa de tudo isso, quando te ouvi sonhar alto...vamos ter um filho, livra-te de preconceitos, estás arreigada a coisas comezinhas. Vem aí o nosso filho, Carolina, pensa nisso.
- Nosso? a interrogação vinha eivada de ironia, mas de agonia também.
Era a segunda vez. Carlos compreendeu então a intensidade da dúvida em que a mulher vivia. Ficou espigaitado, sentiu náuseas, tonturas. Optou pelo silêncio, o das palavras, porque os olhos, as mãos e a cor do rosto transmitiam melhor o seu estado do que qualquer signo verbal. Mas ela não conseguia entender. Parecia querer magoá-lo. Mas não. Vivia atordida num sismo mental e emocional que lhe destruía a clarividência.
Em casa, Carlos procurou livros e enciclopédias para deslindar os aspectos que começavam a toldar-lhe os dias, como se todos os dias fossem dias de Halloween. Haveria possibilidade de troca de gâmetas, no laboratório? Após buscas infrutíferas, foi à cozinha, apertou a mulher, beijou-a, mas não sentiu reciprocidade no seu gesto. Ela permanecia direita  intangível, como a palmeira do jardim, em dias serenos.
Sentaram-se à mesa e delongaram-se num diálogo difícil de descodificar. As palavras têm também esse condão de opacidade e de não tradução. Sintonizaram a televisão para amenizar o momento. Mas, por estranha e perturbante coincidência, debatia-se, naquele canal, a procriação artificial. Carlos quis mudar de canal mas ela não permitiu, sob a justificação de que estava no debate um médico conhecido e que gostaria de o ouvir. Ele fez não perceber que a desculpa era esfarrapada e não quis descoroçoá-la. Ouviram o debate sem tecerem comentários. Entre eles, a presença autoritária e veemente silêncio.
Carlos ia-se apercebendo da angústia em que vivia a mulher e das suas causas, mas sentia-se impotente para mudar as coisas. Era já patológico. E se conseguisse levá-la a consultar um psicólogo?
ROSALINA OLIVEIRA - "A SUA CULPA"

terça-feira, 8 de outubro de 2019

A sua culpa

IV
Era uma noite terrível de Inverno. A natureza enraivecida fustigava as árvores do jardim e as telhas da casa pareciam esboçar o ensaio de uma orquestra desafinada, aos impactos do vendaval. Carlos acordava, a cada passo, espevitado por aqueles sons dessincronizados e apavorantes. A tempestade maior estava, porém, dentro de Carolina, que simulava um sono profundo, para evitar um diálogo que poderia ser desagradável para ambos. A culpa perfurava todo o seu ser em movimento desvairado e mortificava-a intensamente. Carlos, acariciou-lhe o ventre, com os dedos trémulos e ávidos, como se estivesse a despertá-la, já pela manhãzinha, para o quotidiano.
- Deixa-me - disse Carolina, quase gritando.
Era a primeira vez que Carlos obtinha uma resposta tão rude e deselegante. Calou mas levantou-se, em silêncio. Dirigiu-se à cozinha, onde sorveu um copo de água e fumou um nervoso charuto, na varanda humedecida e fria. O tempo tinha-se adoçado um pouco mas o vento ainda soprava com alguma velocidade, fazendo subir as espirais de fumo, como pedaços do seu ser a volatilizar-se no céu da melancolia.
Regressou ao quarto, pé ante pé, para não desassossegar o sono em que a sua amada, tinha, realmente, mergulhado. O seu sono é que já não vinha. Parecia voar ao cais das cegonhas, aos céus dos enigmas, ao mar da intranquilidade. Sentia-se beliscado e dorido.
- Não, Carlos, não sou uma barriga de aluguer. O filho é nosso. Não me culpes...eu não mereço...não me acuses.
Carlos ouviu parte do sonho agitado e esbraseado da mulher, sem tentar despertá-la. Mas, mais uma vez, saiu da cama, completamente estonteado e alarmado. Compreendia agora melhor o aspecto taciturno e ausente de Carolina, nos últimos dias.
Neste rodopio de movimentos e de mágoas, chegava a manhã enevoada e fresca. Batiam as sete da manhã no relógio que a avó de Carolina lhes havia oferecido. Tinha-o adquirido anos antes, na ourivesaria do senhor Graça, e decidira oferecer-lho, como presente de casamento.
Era a hora de levantar. A natureza estava a acalmar e prenunciava um dia mais aquietado. Carolina levantou-se, cambaleando, mas após um duche quente e reparador, tinha já um aspecto desanuviado e um semblante novo. Carlos seguia-lhe os passos, ainda atónito e meditabundo, mas tentando travestir-lhe de calma, paciência e atenções múltiplas.
Sentaram-se, à mesa do pequeno almoço, e foi Carlos quem rompeu o silêncio. Infantilizou as suas atitudes e as suas palavras, para conceder o carinho à sua mulher, que entendeu ser adequado à altura.
- Estás pálida, Carolina! Não posso nem quero ver-te assim, tão frágil, tão caída! Quero sentir-te robusta e saudável, para que o nosso filho venha aí também robusto, a respirar saúde.
- Nosso?
O rapaz disfarçou o incómodo que aquela pergunta lhe causou e levanta-se, a pretexto de reparar as suas coisas, por estar na hora de rumarem aos locais de trabalho. Mas foi ela a pprimeira a sair. Pegou no carrinho que o marido lhe havia oferecido e dirigiu-se para o hospital. Ele, com os olhos obumbrados e as mãos tensas e pesadas, sentou- se no sofá e começou a ler Freud. Queria compreender o que se passava com ela. Em vão.
O trabalho esperava-o já. Tinha até algumas reuniões importantes na empresa, que não conviria desmarcar. Aí, tentava escamotear o nervoso e o cansaço que o possuíram, mas os movimentos concoidais que o atrapalhavam, não escaparam à observação atenta do pai.
- Pareces-me fatigado e distante. Há alguma coisa que está a perturbar-te? - perguntou.
- Não, pai. Isto é apenas o resultado do temporal que me estragou o sono. Não há nada que um cafezinho não resolva.
- Espero que não estejas a ocultar-me nada. Os teus pais estão sempre na primeira linha para te apoiarem e te ouvirem. Nunca hesites, Carlos!
- Eu sei, pai. Conheço-vos bem e não hesitarei em solicitar a vossa ajuda mas, acredite, não há nada.
O casal reencontrou-se à  hora do jantar. Prepararam um jantar ligeiro e, acomodaram-se depois, no sofá, diante da televisão.
- O dia de hoje foi bastante exaustivo, para mim, na empresa. Tive reuniões após reuniões e precisava de descansar. Se estiveres de acordo, deitávamo-nos mais cedo e amanhã levantávamo-nos mais frescos e, ouve-me, como é o teu dia de folga, podíamos fazer compras para o bébé.
- Para o bébé,? Já? Ainda não conhecemos o seu sexo - replicou ela, dissimulando, a custo, o enfado e o mal-estar que as palavras do marido lhe causaram.
- Que importa conhecer o sexo? Há coisas comuns, não é necessário ir para as coisas que exigem cores adequadas ao sexo. Será uma forma também de nos evadir-mos da rotina e do cansaço. E porque não almoçarmos fora e ir ao cinema?
- Se assim queres...- aquiesceu, sem que se vislumbrasse qualquer sinal de entusiasmo.
Carlos estirou as pernas numa cadência relaxante, respirou fundo e ficou ali, por uns momentos, a olhar o tecto. O telefone toca. Freneticamente. É Carolina que atende. Era a sua mãe, a pedir-lhe para a acompanhar no dia seguinte, a uma consulta médica. Carolina pretendeu mudar os planos mas Carlos não cedeu. Pegou ele no telefone e, informado de que se tratava apenas duma consulta de rotina, pediu à sogra se tentava adiá-la para a folga seguinte de Carolina. Esta sentiu as suas faces ruborescer mas, mais uma vez, em gestos teatrais, tentou disfarçar. Carlos entendeu a farsa e no dicionário da sua memória, juntou mais "porquês" e "ses" que, a cada dia, se acresciam para o mortificar. Os olhos da mulher bruxuleavam - era um raio de ironia que ninguém conseguiria decifrar.
ROSALINA OLIVEIRA - " A SUA CULPA"

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A sua culpa

III
(SEGUNDA PARTE)
O regresso a casa foi lento e quase mudo. O entusiasmo de ambos estava rasgado em pedaços de noite e de dor. Carlos tentava amenizar a viagem de reflexão e interioridade, mas as palavras quedavam-se em estertor, engranzadas na garganta, como as ovelhas no redil, à espera da abertura da porta. Só, em casa, ele ultrapassou o sufoco e perfurou a penumbra.
- Não te apoquentes, Carolina. Há sempre uma porta que pode abrir-se. Vamos repousar e reflectir. E...sem pressas, seremos capazes de encontrar a melhor solução. Só não tem remédio a morte, Carolina! É um pequeno contratempo que não esperávamos, é certo, mas com a ajuda da médica, tudo será remediado.
- Sinto uma nódoa a toldar-me o raciocínio. Parece-me que o comboio vai recuar, porque emperrou no seu caminho. Eu é que emperrei na vida, perdoa-me, Carlos.
- Estás mesmo a descarrilar, não posso sentir-te assim, tão magoada e desgostada. Vamos deitar-nos...amanhã é outro dia.
Carlos pegou-lhe nas mãos quentes, demasiado quentes e deu-lhe a tomar o comprimido aconselhado pela médica, para lhe serenar o espírito e desomplicar o sono.
Ele dormiu muito mal. A sua tarefa era bifacetada , tinha de ocultar a sua própria dor e a desilusão que sofrera e encontrar com a mulher e a médica a solução da equação.
Muniram-se de literatura adequada, pesquisaram por aqui e por acolá, ouviram opiniões de outros médicos...mas não, não queriam açodar a resolução. Carolina abandonou o seu projecto de se especializar em neurologia, para concentrar todas as suas energias na resolução do problema que tanto a perturbava. O amplexo de ternura com que Carlos a envolvia ajudava-a a minorar o seu sofrimento e a extirpar os momentos de grande mágoa e angústia que toldavam as suas águas, mas era tudo passageiro. Depressa retornavam as dores e a melancolia, a introspecção penosa.
Após um longo período de reflexão e de ponderação, optaram pela fertilização "in vitro", tendo escolhido uma clínica particular. Carolina não queria ser embulhada nos zunszuns das colegas ou nas palavras condoídas que não ajudam, mas aviltam e molestam. Carlos estava disposto a impedir tudo o que pudesse atenazar mais a mulher. Deixava a alma espraiar-se pelas paredes alvas da casa mas, perante ela,  exibia uma centelha no olhar forte, de que se desprendia um halo de frescor matinal. O processo não foi difícil. O genetista conseguiu fazer-lhe a colheita do óvulo sem lhe provocar demasiada dor, para se proceder em laboratório, à fecundação. Era um homem famoso, com a sensibilidade na ponta dos dedos e a excelência profissional no rótulo e no âmago.
Após a fecundação e a colocação do ovo no ventre de Carolina, a gravidez começou a desenrolar-se sem percalços. Ao rosto da jovem retornou o sorriso afável e simpático, vencidos que foram os momentos de baixios e revoltas. Mas foi sol de pouca dura. Volvido o entusiasmo inicial, a acalmia desejada, Carolina começou a deixar-se imbuir de sentimento de culpa e a pensar-se numa barriga de aluguer. Carlos apercebeu-se que algo estava a dominar a mulher, mas não conseguia entrar naquele casulo. Atribuía, muitas vezes, o estado melancólico de Carolina, ao seu estado de gravidez, ao reflexo dos tumultos anteriores e à ansiedade que também a possuía e amachucava. Ele esperava também que o tempo galopasse para que pudesse ter nos seus braços, o rebento tão ansiado. A fecundação ter-se dado dentro ou fora do ventre da mulher, era apenas um pormenor que não o magoava já. Já tinha ultrapassado os piores momentos. Ela parecia que não.
ROSALINA OLIVEIRA - " A SUA CULPA"

terça-feira, 19 de março de 2019

A sua culpa

III 
(PRIMEIRA PARTE)
O tempo ia rolando, mas aquele par, sentia-o lento...Era a sua pressa de poderem unir as suas vidas que os punha desassossegados e zangados com o tempo.
Mas...um dia Carolina terminou o seu curso e com boa nota, como desejava. Houve jantar de festa em casa e Carlos foi o convidado de honra. Depressa surgiu também a colocação num hospital do Porto, como esperava. Carlos já tinha começado a trabalhar com o pai. Era a hora de marcação  do dia do enlace, porque tudo já vinha a ser preparado por ambos, cientes que estavam do que queriam e de que se queriam. Maria dos Anjos, sempre que podia, dava alvitres para uma grande cerimónia, que Carolina rejeitava. Era sóbria e enveredou por uma pequena festa, que reuniria apenas familiares e amigos mais íntimos.
- O meu casamento não é uma romaria! - dizia sempre a quem alvitrava este ou aquele pormenor, a quem sugeria mais este ou aquele convite.
No dia aprazado, a moça estava estonteante dentro de um longo vestido pérola que lhe cingia o corpo e lhe desnudava os ombros cabrochos, em que Carlos pousava os olhos sequiosos e ardentes. Ela retribuía-lhe com esgares do céu. A igreja estava radiosa, ornamentada com flores pérola que eram entremeadas com folhas cor do mar revolto. Dona Luzia tinha convidado as meninas Vieiras, conhecidas que eram pelo seu gosto estético e de índole religioso, para procederem a essa tarefa e o resultado foi enternecedor e cativante.
Quando o Padre, no altar-mor cheio de círios a arder, perguntava a Carlos, como ordena o ritual, se aceitaria os filhos que Deus quisesse dar-lhes, o sim gordo e sonoro fez ressonância nas paredes e no coração de todos e fez regurgitar lágrimas comovidas e ousadas de olhos desprevenidos, mas atentos. Luzia apertou a mão da filha, com as lágrimas (também dela) a tingirem o vestido de cor pérola, então luminoso, então resplandecente. Carlos esboçou um sorriso lateral, compreensivo e desvanecido.
A vida a dois começava ali, sem escolhos, sem noite da cor da dor a ensombrar o trajecto. Acreditavam. A casinha oferecida pelo pai dele, entre Valongo e o Porto, transcendia tudo o que haviam arquitectado no sonho. A vida começou a rolar como se sentada no carrinho de rolamentos com que Carlos entretinha alguns dos tempos da sua infância.Ajudavam-se, completavam-se e cada um prodigalizava ao outro um sucedâneo de carinhos e cuidados.
Mas...e há-de vir sempre a adversativa a chamuscar os mais belos romances de amor e os dias do céu radiante...a gravidez, a tal gravidez tão desejada, não surgia.
- Excesso de ansiedade - era o convencimento da ginecologista - a Carolina tem de se abstrair dessa espera e aguardar com serenidade, sem pressas.
Era difícil. A dor múrmura e desapiedada consumia os seus dias e as suas noites, já. A falta profiosa de qualquer indício de gravidez causava-lhe um enorme aperto no peito que era evidente no incêndio que radiava dos seus olhos cor do céu. Seguiam, à risca, os conselhos da médica, mesmo a incidência das relações sexuais em datas aconselhadas, mas era tudo debalde. Os dias iam rolando e, hora após a hora, aprofundava a ansiedade. Os ais de Carolina trespassavam a casa, onde tudo já não fazia sentido, onde tudo lhe parecia labiríntico.
Carlos sentia-se também já cansado e traído na sua esperança mais doce. E exauria as suas forças, inventando eufemismos que pudessem desanuviar o sofrimento da mulher e ocultar a sua própria dor, que tinha já aderido à sua pele, como visco. Dava voltas e reviravoltas na casa que lhe parecia já velha e carunchosa. Sentia calafrios.
Exames mais minuciosos ordenados pela ginecologista, haveriam de detectar, mais tarde, no corpo de Carolina, uma anomalia que coarctava o encontro das gâmetas. Parecia que o seu organismo tinha operado uma auto-laqueação que impedia os óvulos do trajecto normal e anulava a fecundação. Foi o desencanto total! A treva desceu sem cerimónias nem licença e veio preencher todos os interstícios do seu ser. Gotas de água salgadas e espessas tombaram nas mãos trementes de Carolina que a enredou nos seus braços amplos, mas que lhe pareceram mortiços. A dor e o silêncio marcariam presença num trajecto de vida que lhes parecia prometida de paz e sucesso, de equilíbrio e dias ditosos.
- Tenha calma, Carolina! Há processos de procriação artificial que podem colmatar esta pequena falha, sem qualquer espécie de melindre - sugeriu a médica, também ela contaminada pelo pesar que sentiu ali.
ROSALINA OLIVEIRA - " A SUA CULPA"

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A sua culpa

II
Tinham-se conhecido, num dia da Feira dos Capões, em Freamunde, através de amigos comuns. Um dos amigos de Carlos estava a preparar um trabalho sobre as feiras do norte do país, para apresentar na faculdade e todos colaboravam na pesquisa, na fotografia e até entravam na ironia e na galhofa acerca do pobre galo castrado, que fazia as delícias e o nome da terra da Carolina.
- Os capões têm um ar triste, apesar de exibirem uma certa altivez - atirou Carlos.
- Coitados! Tiraram-lhes a virilidade antes do tempo. São uns pobres eunucos, sujeitos à chacota das galinhas mais atrevidas. Não são altivos, como parece, têm antes um aspecto imponente e brilhante, mas isolam-se ocultando a mágoa de não serem machos - respondeu Carolina.
- E esta feira?...
- Esta feira é de tradição secular, porque o capão é uma ave nobre, que ia à mesa real. Era muito procurada e, por cá e por as nossas redondezas se concentraram os castradores e os criadores -  esclareceu Carolina, sob o olhar de amêndoa de Carlos, que vinha a fixá-la, duma forma diferente...
A amizade entre ambos foi-se aprofundando e depressa se converteu num amor intenso e aparentemente inabalável. Não era necessário consultar qualquer oráculo, para se adivinhar neles um sentimento muito profundo, capaz de ultrapassar possíveis barreiras que aflorassem no horizonte.
A mãe de Carolina antevia o casamento, com bons olhos. O moço correspondia aos seus ideais de mãe ponderada e atenta. Era bom rapaz, amava a sua filha e tinha um futuro prometido, de desafogo e independência. Capitalizando o tempo de ócio que quase não tinha, Luzia dedicava-se a preparar o enxoval da filha, com todo o esmero das suas mãos e do seu coração. Alegrava assim as suas horas, às vezes carregadas do fumo da fábrica, ali ao pé. Tinha aprendido com a sua mãe, exímia costureira da vila que aprimorava as mulheres elegantes, para os bailes da Assembleia.
- As coisas estão muito caras - confidenciava um dia a Maria dos Anjos, a vizinha burguesa e emproada, intangível nos tamancos que lhe vinham dos lucros do marido e demasiado fútil e vazia, na sua vida e nos seus diálogos - vou preparando umas peças para a minha filha e, por sinal, ela até gosta muito do que lhe vou confeccionando.
A vizinha não estava para aí virada. Passava os dias, nos salões, a colorir o cabelo e as unhas e a comentar a vida dos outros, com o dinheiro que o marido auferiu por herança geracional ou ganhava asfaltando os neurónios e as mãos, numa tarefa árdua, de serrim sobre serrim.
- As minhas filhas têm mais sorte. Podem adquirir o enxoval, nas melhores casas do Porto. Admiro-a, acredite, Dona Luzia, pelo seu esforço, mas eu não estou para essas carolices.
Luzia deitava ao vento a frivolidade das suas palavras e ia porfiando, cortava, alinhavava e bordava, a sangue, os farrapinhos para a sua filha. Enquanto isto, ia ironizando com a vida da vizinha, feita de nada. Acreditava que não quisesse amesquinhá-la, mas antes superlativar o seu estatuto de mulher rica.
ROSALINA OLIVEIRA - " A SUA CULPA"

sexta-feira, 9 de março de 2018

A sua culpa

 I
Acalentava um sonho desde os seus tempos imberbes, quando ainda embalava as bonecas e as cobria de carinhos e de festa. À noite, quando as estrelas começavam a esburacar as nuvens, vestia-lhes o pijama, escovava-lhes os cabelos, afagava-as com a ternura a aflorar nas mãos, dum coração de penas. Escolhia sempre uma boneca diferente, em cada noite, para a acompanhar no leito dos sonhos dourados, a aquecê-la nas noites pardacentas de Inverno. Hipotetizava-se uma mãe madura e zelosa.
Menina gaiteira e estudante avançada já, não abandonava as suas companheiras do quarto, enfeite físico mas também reminiscências do tempo de menina, símbolo genuíno e cálido desse sonho que a alavancava, lhe enchia a pele de erisipela e queria um dia materializar, ser mãe de muitos meninos.
Quando o namoro com Carlos se aprofundou e os anseios se sincronizaram, a conversa de Carolina rumava, vezes sem conta, a essa meta alcandorada no sonho e prometiam-se gerar muitos meninos, substitutos reais das bonecas que continuava a embalar, em jeito de mamã. Usavam preservativo e, à falta dele, o coito interrompido, nas suas escapadelas, somente porque nas suas vidas, o comboio não tinha ainda marcado a hora de chegar à estação e porque queriam libertar-se dos rumores e das reprimendas. Repudiavam os cochichos e as palavras de comiseração. Carlos tinha-se, porém, contagiado e sentia o desejo a picar-lhe a pele e as entranhas. Idealizavam ambos a cor dos olhos, o tom do cabelo e investigavam o que de mais belo havia no corpo de cada um, para "construírem" um ser perfeito. À sua imagem.
A deambular pelas ruas do Porto, onde estudavam, deixavam-se extasiar diante das montras de roupas infantis ou de brinquedos e apertavam-se as mãos, com a ternura e o sonho a ferver-lhes no sangue, como se a cegonha estivesse quase a aportar ao cais e o comboio a apitar.
Carlos deixava-se fascinar pela azáfama e o espírito de organização e entreajuda que se respirava em casa da amada. No seu nicho, havia apenas uma irmã já crescida e cada um bastava-se a si próprio, sem afadigar o outro.
Carolina era, porém,a mais velha da prole, vivia em Freamunde, mesmo junto à estrada principal, numa casa baixinha mas cercada dum jardim mimoso e sempre verde, sobre o qual a mãe se desvelava, muitas vezes, com a sua ajuda. Quando os galos se empoleiravam na aurora, prenúncio de um novo dia a germinar, elas erguiam o corpo e a alma para se estenderem à rotina matinal. Era o pai que conduzia os três irmãos à escola. Deixava o mais novo na ama, outro na escolinha e o mais velhinho na preparatória. Carolina apanhava a camioneta ronceira, mas faladora, para o Porto, onde cursava enfermagem. Esperava-a na paragem, junto à loja do Venturinha, onde a mãe ia às compras e ali, sem abrigo, era fustigada pelas intempéries do Inverno, que, às vezes, nem sentia, impregnada que vivia nos sonhos, na pressa e na amálgama de pensamentos que a imunizavam. Aplicava-se no curso com denodo e afinco e uma vontade férrea de fazer rolar o tempo, para chegar lá, à almejada meta.
Gostaria de ser colocada num hospital do Porto e, para isso, teria de obter uma boa classificação no final do curso, sabia-o bem. E lutava...lutava, prospectivando o seu futuro, sem fragilizar. Carlos estava a finalizar engenharia civil e já tinha delineado o seu futuro, iria exercer a sua profissão, numa empresa de construção civil que o pai possuía, em Valongo. Esperavam poder casar logo que concluíssem os seus cursos e pugnavam pelo menor afastamento possível, pelo aconchego das suas vidas, pela protecção do amor que lhes insuflava a vida.
Nas suas viagens para o Porto, Carolina procurava abstrair-se das parlendas e parlapatices laterais e concentrava-se na recapitulação das matérias das aulas. Por vezes, era traída pelo sono e o sonho voava mais veloz e rectilínio que o raio luminoso, ao alvo a atingir.
ROSALINA OLIVEIRA - "A SUA CULPA"