VI
- Acontece com algumas mulheres que são confrontadas com a impossibilidade de gerar naturalmente um filho. Ficam estigmatizados pela diferença e sentem-se afectadas por sentimentos de culpa e de aviltamento. Mas isso vai-se, geralmente, dissipando, à medida que o tempo passa e o feto se vai movimentando no seu ventre. A sua mulher continua, porém, imersa num pântano, o que é já uma situação anormal. Concordo consigo, a consulta de psicologia pode ajudá-la a ver mais claro, a aceitar o seu problema e a diminuir o seu sofrimento. É necessária e urgente - foram as palavras da obstectra.
Mas convencer Carolina foi difícil. Que não valeria a pena, que tudo não passava dum estado de ansiedade que afecta muitas grávidas, que é a pressa de ver o filho nos braços...
- Eu quero ver-te mais airosa e desanuviada, meu amor. A tua melancolia e o teu comportamento traduzem uma morbidez que é necessário debelar. Estás a viver uns tempos dolorosos que são prejudiciais para ti e para o nosso filho. E queremos um bebé saudável, não é, Carolina?
- Pois é, já tinha percebido isso mesmo. Pensas mais no bebé do que em mim - atirou com um ar de desvario, os cabelos revoltos e os olhos acusatórios, como se impregnados de laivos de magia.
Carlos ficou surpreso e petrificado. Não esperava aquela provocação. O lábio inferior e as mãos tremiam-lhe como malmequeres acossados, na seara, pelo vento. Levantou-se e foi mergulhar num banho quente. Ele não entendeu.
Carlos, quase sem dar conta, ia modificando a sua forma de estar. Saía mais tarde da empresa, distraía-se mais tempo com os amigos no café e, às vezes, dava uma escapadela a Freamunde, onde tinha feito bons amigos, para jogar as cartas no Clube Recreativo ou saborear uns petiscos no Café Teles. Carolina atribuía as suas demoras e ausências ao aumento de responsabilidade na empresa. O pai tinha, na verdade, delegado em si muitos dos seus poderes e das suas tarefas e isso carrear-lhe-ia um défice de tempo e de atenção, para com ela e a casa. Carolina interpretava a situação desta forma, mas sentia-se mais desacompanhada, barco parado num mar de inquietações. Iria, pois, aceitar o conselho do marido e da médica A consulta a um psicólogo poderia ajudá-la a diminuir as suas dores.
Expôs o que a consumia e estava a dilacerar a sua vida, num tom desajeitado e nervoso. Sentia espasmos a apertar-lhe a garganta. As palavras saíam arritmadas e guturais, enquanto fazia e desfazia o laço da blusa cor dos seus olhos.
- A senhora nunca ouviu dizer que "quem não tem cão, caça com um gato?" É a aceitação das contingências da vida, é o driblar das situações menos cómodas. Felizmente a senhora vive num tempo em que os avanços tecnológicos e da medicina permitem colmatar muitas deficiências do organismo humano. Está grávida, era isso que mais ansiava, a ecografia anuncia-lhe um feto perfeito, não vejo motivos para se mutilar dessa maneira. Trave esses pensamentos masoquistas e de rectaguarda. Olhe em frente. Lá fora há céu e mar, há flores e pássaros...E há vida a pulsar dentro de si. E essa vida depende de si, a sua vida.
Carolina encamisava as palavras fortes e duras do psicólogo, mas continuou a fazer e a desfazer o nó, a enovelar as mãos com as fitas da blusa.
- Ouça-me. Já pensou que a sua continuada postura de auto-degradação, de humilhação, pode estar a afectar o vosso relacionamento conjugal? O seu marido parece-me bastante abatido e possuído de pensamentos dilacerantes. Não sabe o que fazer, não sabe o que dizer...
Saiu do consultório mais desenvolta e arejada, mas entrou no carro sem nada dizer. Esperava que Carlos a questionasse, o que ele não fez. E o silêncio, mais uma vez, assinou o livro de ponto, nas suas vidas.
O tempo ia rolando, repetindo-se, num circuito quase fechado. Entretanto, uma nova ecografia revela o sexo do bebé. Era uma menina.
- Gostaria que se chamasse Carolina, como tu - precipitou-se Carlos.
- Mau presságio! Pode vir a enfermar do mesmo defeito que eu. Tanto gostaria que fosse um rapaz! Saiu-me tudo ao invés.
Carlos não arranjou palavras para continuar o diálogo. O psicólogo não operara milagres.
Adensavam-se nuvens fortes à volta dos dois, entre os dois.
ROSALINA OLIVEIRA - "A SUA CULPA"