Ao Carnaval insípido da cidade responde a aldeia com o seu Entruido ainda um tudo-nada alegre, pontinha de graça que faz bem no meio de tantas tristezas da vida.
É claro que o Santo Entruido rural e local cifra-se hoje em pálida amostra do que fora. Nem todos souberam dosear os atrevimentos, a ponto de muitos o condenarem em absoluto.
Há bons anos não se podia sair ao caminho. Surgia logo o assalto da cinza e parinheira do forno, molhadas em azeite. Reboliço e risota pegada. A mocinha, toda ataviada para ir às «quarenta horas», regressava a casa cheia de furrascas, mostrando-se furiosa, mas a rir lá por dentro...As inconveniências vieram a perder quase tudo desse Entrudo de farruscadoiros, bichas de rabiar, estalos, foguetes e entrajados, no coração das aldeias.
Os mais idosos jogam o Entrudo na panela, farta merenda de arroz com orelheira e chouriço, e dizem que a graça se escondeu, envergonhada do pouco rasgo dos novos.
Grupos de entrajados, eles com roupas delas ou elas com a vestimenta deles e do ofício, andaram por carreiros e caminhos a fazer pantominas e a variar as falas. Vimo-los, este ano em Penamaior, em Meixomil, Frazão e Serôa.
O Entrudo de 1950 teve anúncios muito cedo. Após os Santos Reis, os estalos e as bombas soaram a miúde ao entardecer.
Na festa romeira a S. Gonçalo, em Eiriz, o Entrudo atraiu a mocidade. E jogaram-se os brilhantes, miudinhos, de cores vivas, em mistura, em redor da ermida. Por sinal demos com o abade a barafustar com a mulher do baú dos brilhantes para que retirasse para longe do adro. Pois, sim...O negócio estava a correr bem, e o moço sacerdote foi iludido...Verdade seja que as cachopas retiram tristes da festa, se não vêm abrilhantadas...
Adiante, na festa da vila a Santo Amaro, encontravam-se alinhadas junto dos Paços do Concelho, as Maçotas, mãe, filha e netas, a Vieira, de Meixomil, na venda animada dos brilhantes. No arraial, o pó de arroz abrancou algumas caras bonitas...
A mocidade aproveita também as feiras locais, anteriores ao Entrudo, para se divertir, semeando pós e brilhantes. O Município evitou os arremedos do Entrudo na feira do Cô, de 21 para 22; ali o Entrudo manifesta-se com entusiasmo, e de quando em vez trabalha a varapau desapiedado e de rijo...
Os estalos, as bichas e os foguetes tiveram mais saída na terça-feira de Entrudo, desde a meia tarde até roçar a Quarta-Feira de Cinzas.
De tarde, o rapazio não esqueceu também de procurar e ajuntar silvados secos para a fogueira do Entrudo. A fogueira é número característico. Faz lembrar a noite de S. João o último dia do Entrudo no concelho pacense. O fogaréu situa-se lugar alto e voltado à povoação. Os rapazitos juntam-se em volta e lançam estalos. De uma ou doutra janela caem lágrimas, e aqui e ali sobem ao ar pequenos foguetes.
As bombas mais potentes são, no geral, usadas pelos mancebos, que, lá para a meia-noite, vão queimar uma dúzia ou mais à porta da namorada. Esta atenção é promessa de a cachopa ter festa na noite de Aleluia. Por sinal ouvimos o estoirar de uma dúzia de bombas à Maria do Sadoc e à Henriqueta do Camola (Meixomil). Espero também pelas festas, velha tradição que os novos apreciam e em nada os diminui.
Aos entrajados, uso de estalos, brilhantes e fogueira, junto ainda um costume que se mantém nas freguesias de Serôa, Penamaior, Frazão e Arreigada:
Na manhã de terça-feira de Entrudo - o verdadeiro dia de Santo Entruido - as rapariguitas armam o lar na borda da estrada e pedem pelos vizinhos um bocadinho de carne para o caldo do Entruido. Ao lado da panela de três pernas, vê-se o tacho do arroz, que a pequenada saboreará com satisfação, porque a Milinha da Quinta e a Se Rita da Luvada as contemplaram com generosidade.
Antigamente - sempre lá vão uns trinta anos - a mocidade espetava um pinheiro novo no chão, fazia-lhe em roda uma meda de silvas e chegava-lhe o fogo. Os rapazes acendiam alumieiras de colmo e jogavam o Entrudo, dizendo:
E muito milhã prós da Lameira,
Entrudo fora,
Vai-se a Páscoa embora...
Muito milho prá nossa eira.
A cantilena, vozeeirada no velho funil ou chifre, vinda lá do alto de Basto (Penamaior), servia para intrigar os lavradores da agra de Meixomil. A milhã ou milhãe é erva que nasce ao acaso entre milhão.
Em Codeços perdeu-se outro curioso costume:
Na terça-feira de Entrudo, um ou outro grupo de foliões de foliões magicavam a quem poderiam pilhar a panela da orelheira. Pensada a brincadeira um dos comparsas entrava na rua, chamava à fala a dona da casa e sob qualquer pretexto alongava a conversa, e, todo mesuras, ia forçando a dona da casa ou a criada a abandonar por momentos as atenções da cozinha.
Entretanto, com mil cuidados, a panela da orelheira ou o tacho da odorífera arrozada, seguia outro destino. Os brincalhões reuniam-se então onde estava combinado e gozavam a seu modo a patuscada. Por vezes, a proeza deu que falar e que entender...
Enquadrada no período do Entrudo, deixou de ver-se nos terreiros e casas boas a interessante e velha dança dos pedreiros. A toada harmoniosa e lenta, ligada a cada figurante (pedreiros, mestre e mulher, rapaz dos picos, meirinho, soldados e um preto) pode colher-se ainda em Ferreira, Meixomil, e sobretudo, em Penamaior. A festiva dança representou-se pela última vez, em 1936, no cortejo regional do I Centenário do Concelho.
Dispostos em duas filas, com picos assentes no ombro direito, os pedreiros começavam:
Milagroso carnavais
Vamos hoje festejar:
Vamos dar princípio ao baile,
Não podemos demorar.
Ainda a servir de intróito:
Nós só queremos que o Entruido
Nos dê nova animação:
E agora nós queremos
Que presteis vossa atenção.
Seguem-se trinta e três quadras que aludem ao enredo da peça.
No finalentram todos a bailar, batem os picos, dão mãozadas e meias-voltas. Formam um arco e passam, dois a dois, por baixo. Esta dança há-de merecer-nos noutros rabiscos.
Vai longa esta colheita. Perdoem-nos. A Quaresma e a Páscoa nos chamam. E que motivos de ternura e encanto apresentam a quem puder e souber vivê-los e apreciá-los!
E muito milhã prós da Lameira,
Entrudo fora,
Vai-se a Páscoa embora...
Muito milho prá nossa eira.
A cantilena, vozeeirada no velho funil ou chifre, vinda lá do alto de Basto (Penamaior), servia para intrigar os lavradores da agra de Meixomil. A milhã ou milhãe é erva que nasce ao acaso entre milhão.
Em Codeços perdeu-se outro curioso costume:
Na terça-feira de Entrudo, um ou outro grupo de foliões de foliões magicavam a quem poderiam pilhar a panela da orelheira. Pensada a brincadeira um dos comparsas entrava na rua, chamava à fala a dona da casa e sob qualquer pretexto alongava a conversa, e, todo mesuras, ia forçando a dona da casa ou a criada a abandonar por momentos as atenções da cozinha.
Entretanto, com mil cuidados, a panela da orelheira ou o tacho da odorífera arrozada, seguia outro destino. Os brincalhões reuniam-se então onde estava combinado e gozavam a seu modo a patuscada. Por vezes, a proeza deu que falar e que entender...
Enquadrada no período do Entrudo, deixou de ver-se nos terreiros e casas boas a interessante e velha dança dos pedreiros. A toada harmoniosa e lenta, ligada a cada figurante (pedreiros, mestre e mulher, rapaz dos picos, meirinho, soldados e um preto) pode colher-se ainda em Ferreira, Meixomil, e sobretudo, em Penamaior. A festiva dança representou-se pela última vez, em 1936, no cortejo regional do I Centenário do Concelho.
Dispostos em duas filas, com picos assentes no ombro direito, os pedreiros começavam:
Milagroso carnavais
Vamos hoje festejar:
Vamos dar princípio ao baile,
Não podemos demorar.
Ainda a servir de intróito:
Nós só queremos que o Entruido
Nos dê nova animação:
E agora nós queremos
Que presteis vossa atenção.
Seguem-se trinta e três quadras que aludem ao enredo da peça.
No finalentram todos a bailar, batem os picos, dão mãozadas e meias-voltas. Formam um arco e passam, dois a dois, por baixo. Esta dança há-de merecer-nos noutros rabiscos.
Vai longa esta colheita. Perdoem-nos. A Quaresma e a Páscoa nos chamam. E que motivos de ternura e encanto apresentam a quem puder e souber vivê-los e apreciá-los!
MANUEL VIEIRA DINIS - "ETNOGRAFIA DE PAÇOS DE FERREIRA"





Em Freamunde não existe tradição do Carnaval como em outras zonas do nosso país,como em Ovar,Madeira,Torres Vedras ou Mealhada.Mas desde 2005,por iniciativa da Comissão de Festas Sebastianas desse mesmo ano,tem-se vindo a realizar uma marcha carnavalesca,em que são utilizados carros alegóricos das Festas Sebastianas.E,mais uma vez,este ano não fugiu à regra.
A marcha deste ano foi organizada pela Comissão de Festas Sebastianas 2008,com o apoio de instituições freamundenses.Esta marcha é uma boa fonte de receitas para a comissão de festas.Durante a marcha os festeiros de saco na mão,têm a ingrata,mas nobre tarefa de pedir dinheiro para a ajuda das festas...também já passei por isto,e esta tarefa custava-me imenso!Mas era por uma boa causa...