quinta-feira, 28 de junho de 2012
Sebastianas 2012 - Entrevista ao Jornal Imediato
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Entrevista a Armanda Fernandez
In Jornal Imediato
terça-feira, 5 de julho de 2011
Entrevista ao Padre Arlindo Ferreira Pinto
Arlindo Ferreira Pinto, 54 anos de idade. Nos livros oficiais de Freamunde, o seu nome consta no registo de Baptismos, na Escola Primária, na Telescola e no Sport Clube de Freamunde.
Foi guarda-redes por pouco tempo, pois o chamamento vocacional cedo o vinculou aos Missionários Combonianos. Fez os estudos de Filosofia em Coimbra e formou-se em Teologia Moral na Universidade de Innsbruck (Áustria) e em Jornalismo, em Roma (Itália). Foi ordenado sacerdote em Nampula (Moçambique), em Dezembro de 1986. Em Lisboa, foi director das revistas missionárias combonianas “Além-Mar” e “Audácia” durante quase sete anos. Soma 18 anos de vida missionária em Moçambique, cinco dos quais em plena guerra civil.
Nos últimos 13 anos foi capelão e docente na Universidade Católica de Moçambique (UCM) e coordenador do Departamento de Comunicação da Faculdade de Educação e Comunicação, em Nampula. Desde Janeiro deste ano, está a trabalhar na Direcção Geral dos Missionários Combonianos, em Roma. Andanças que, apesar de tudo, não demovem o Padre Arlindo de ser um grande Freamundense.
Foi a esta figura a quem pedimos para falar de Freamunde e do espírito que preside à realização das Sebastianas, agora que as festas estão à porta.
Entrevista (via correio electrónico)
Pe. Arlindo (PA): Anos 70. Foi há 41 anos que iniciei o êxodo que me foi afastando da terra das gentes com boca (Munde) de paz (Frieden): Freamunde. Primeiro para perto, Famalicão e Maia, e depois sempre para mais longe: Coimbra, Santarém, Lisboa, Innsbruck, Nampula, Roma, Cidade do México... mas sempre com o cordão umbilical dos sentimentos ligado às tradições e aos acontecimentos da terra “mátria” que me viu nascer e crescer.
À resposta “Sou de Freamunde”, corresponde sempre uma réplica automática: “Ah, terra da Música, do futebol, dos capões, das vacas do fogo...” É o que os portugueses guardam da nossa terra na sua memória.
O que sempre mais me atraiu a Freamunde foram as Sebastianas. Sempre que pude, as minhas férias tinham de coincidir com a segunda semana de Julho. Adoro encontrar a família e os amigos neste clima ímpar de euforia. E como eu, acho, a maioria dos freamundenses da diáspora. Nestes dias de festa, encontramos facilmente os amigos e aproveitamos para colocar a escrita em dia.
Tenho a memória viva dos concertos e do caldo verde na antiga Praça, toda vedada a serapilheira. Recordo a Banda de Freamunde a fazer vibrar os corações da assistência, sobretudo quando, a horas tantas e entre o ruído dos carrosséis, dos aviões e dos “carrinhos-de-choque”, entoava “Oh Freamunde, oh festas Sebastianas...” ou ainda “Quem nasceu na Gandarela...”. Aquele delírio colectivo que só faz bem! Lembro a majestosa procissão de domingo à tarde e as multidões curiosas deliciando-se a ver passar a “Marcha”, na segunda-feira à noite. E tantas outras memórias do nosso folclore!
Alguma vez participou na organização, de forma directa ou mesmo indirecta?
(PA): Na organização propriamente dita não. Mas como padre colaborei na Missa de Festa. Fiz mais do que uma vez a homilia da missa de festa – “o sermão” da festa, como se costumava dizer noutros tempos. Participei também na procissão, caminhando debaixo do pálio, levando o ostensório por debaixo de uma capa de asperges (pluvial) de cujo peso nem vos quero falar. E aqui, não posso deixar de mencionar aquele momento emocionante ao passar na Gandarela e escutar aquele fogo-de-artifício a querer demonstrar a força da devoção ao Mártir que pisa o seu território e ao mesmo tempo a afirmação do orgulho e do bairrismo da parcela de um povo que sempre se distinguiu entre a população de Freamunde.
Sendo um Homem da Comunicação (foi director das revistas "Além Mar” e “Audácia") como define este espírito Freamundense que preside a esta organização?
(PA): Os cidadãos só adquirem sentido de pertença a um território e a uma comunidade quando são capazes de conviver e partilhar entre si os mesmos sentimentos sem olhar à origem social ou económica, à diferença de idades ou de políticas, ao género... em suma, o que as Sebastianas conseguem. Quantos momentos dos dias das festas fazem da pluralidade e diversidade dos Freamundenses um colectivo homogéneo: nos bombos, na sardinha assada e no caldo verde, na corrida das vacas. É este espírito de comunicação – saber estar em comum – que dá o fascínio e a mística às Sebastianas.
(PA): As Sebastianas são uma festa de cultura, de arte, de ritmo, e de muita algazarra. Um acontecimento único nas redondezas. Quanto ao resto, conte só quanta gente vem ver a Procissão de domingo! Estou certo de que se não é o primeiro é o segundo momento mais alto das Sebastianas. Talvez só a Marcha alegórica congregue tanta gente! Depois, além da Missa de Festa, temos a novena, a homenagem aos falecidos, que são todas manifestações religiosas. E além disso, o próprio nome das festas mantém a marca religiosa: Sebastianas, em clara referência ao mártir S. Sebastião. Em poucas palavras, eu diria que os Freamundenses sabem cultivar em profundidade um diálogo magnífico entre o sagrado e o profano.
Há décadas que está ausente de Freamunde, chamado pela vocação Missionária e pela docência universitária. Continua a acompanhar o dia-a-dia da sua terra? De que forma? Como vê a sua evolução e progresso?
(PA): Cada vez que vou a Freamunde, numa média a cada dois anos, vejo sempre um enorme progresso. De todas as maneiras eu estive sempre muito ligado à minha terra, à família, aos amigos, ao futebol, à nossa maneira de ser. Eu acho que mentalmente sou um cidadão do mundo mas com um coração sedentário de aldeão, isto é, de freamundense. Às vezes penso até às lágrimas em tanta boa gente que conheci e foi muito minha amiga e, por isso, gosto de visitar o cemitério quando vou de férias.
Há vários anos que é muito fácil comunicar e ter notícias de Freamunde. Graças à Internet!
Quer deixar uma mensagem para a sua terra?
(PA): Caros amigos Freamundenses, vamos viver estas Sebastianas 2011 como se fossem as últimas. Ou então como se fossem as primeiras ou as únicas. Todos precisamos de festa, de folia, de divertimento. O lazer tem de fazer parte do nosso quotidiano. Não podemos passar o tempo a trabalhar e a pensar nas dificuldades da nossa vida e na vida dos outros. Se fosse assim eu já teria endoudecido! Vamos colaborar com os organizadores das Sebastianas. Vamos apoiá-los. Vamos à festa!
IN SEBASTIANAS
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Entrevista a Fernando Vasconcelos
O Dia de Portugal é comemorado amanhã, numa altura em que o país atravessa sérias dificuldades económicas e sociais...
Atrevo-me a dizer que 99% dos portugueses não fazem ideia do estado actual do nosso país! Por exemplo, Portugal deve cem vezes mais do que devia quando o FMI entrou aqui em 1983 e tivemos a vantagem de poder desvalorizar a moeda, porque podíamos fazê-lo. Sabendo - aqueles que ainda se lembram - que essas dificuldades acarretaram alguns dissabores, imaginem agora dever cem vezes mais e não poder desvalorizar a moeda. Só isto diz tudo sobre a nossa realidade...
Quando o FMI entrou pela primeira vez em Portugal, Fernando Vasconcelos era o presidente da Câmara Municipal de Paços de Ferreira. Estar à frente de uma autarquia nesta altura é mais complicado que em 1983?
Ser presidente de Câmara nesta altura é mais de cem vezes difícil, porque nós devemos cem vezes mais, mas eu diria que serão duzentas vezes porque na altura ainda tínhamos coisas para vender, ao contrário de agora. Ainda tínhamos ouro - Salazar deixou ficar 1200 toneladas - e neste momento não teremos sequer 200 toneladas. Tínhamos imensas coisas para nos socorrer, por isso quando se comparam as dificuldades com as de 1983, que foram superadas na altura, apenas digo que não têm nada a ver com os problemas da actualidade.
Como prevê o futuro de Portugal?
Portugal não vai acabar, mas as minhas expectativas são as piores possíveis. Já estamos em recessão, vamos ter, na melhor das hipóteses, quatro anos de recessão. Havendo recessão com uma economia quase estagnada não há positividade nas finanças. A economia assim não pode crescer e o desemprego será galopante. Fala-se em taxas de 13%, mas penso que será superior. A recuperação da economia é uma coisa bonita de se dizer mas chegar lá não é tão fácil como isso.
Depois há um elemento que é a contestação social, a tal rua de que se fala, porque uma pessoa consciente, que tenha os seus ideais, não faz greves. Quando se marcam greves de semana para semana e uma greve como a da TAP que deixa 1500 voos por fazer, está tudo dito. Se eu fosse credor não emprestava nem mais um tostão. A nossa credibilidade lá fora está completamente destruída.
A entrada na CEE foi, efectivamente, a melhor estratégia para Portugal?
Fazer juízos de valor passados mais de 20 anos, não é muito correcto, mas penso que foi positiva. Gostava de saber nestes anos todos quanto dinheiro entrou em Portugal, quantas esmolas nos deram. Entraram dezenas de milhares de milhões de Euros e eu muitas vezes pergunto em que é que se gastou esse dinheiro.
E quem são os responsáveis?
Os responsáveis estão à vista e parte desse dinheiro também está à vista. Dantes, poucas eram as pessoas que tinham casa, hoje a maior parte delas tem casa e segunda casa. Parte do dinheiro também está aí, como está nas auto-estradas que já são três para Lisboa, as tais onde passa um carro de hora a hora...
Posso dizer que o que devemos vai ser difícil de pagar mas, e aquilo que ainda teremos que pagar? Temos muitas dezenas de empresas público-privadas, nas quais estamos obrigados a pagar durante mais 30 anos despesas que nunca vamos ter. Um exemplo é o comboio que passa na Ponte 25 de Abril. Vejamos; um grupo daqueles sábios que tenho sempre dificuldade em caracterizar, concluíu que o número mínimo de pessoas que utilizaria esse Metro por dia era de 80 mil... mas até hoje nunca passaram lá mais de 36 mil pessoas. E estamos obrigados a pagar durante nos próximos 30 anos o equivalente a essas 80 mil passagens, ou seja, o equivalente a 5,4 mil milhões de Euros. Mas como este, atrever-me-ia a dizer que há dezenas de casos!
Em relação à região, estão a entrar quase diariamente pedidos de insolvência no tribunal. O mobiliário tem condições para sobreviver à crise?
É um bocado difícil. Falando concretamente do mobiliário estou convicto que a maior exportação seria para Espanha, mas a Espanha, neste momento, tem uma imobiliária ainda pior do que a nossa. Aliás, se o FMI entrar em Espanha penso que a união económica europeia acaba. As pessoas com quem falo queixam-se amargamente e, atendendo que daqui para frente as nossas expectativas não são boas e a dos espanhóis também não, ponho muitas dúvidas. Aliás, a única indústria que está mais ou menos bem é a do calçado, porque a têxtil acabou. Esta era, sem dúvida, a nossa maior indústria exportadora, mas acabou e nunca mais vai conseguir recuperar porque tem que competir com países sem regras de trabalho. Não posso aceitar que o mundo seja global sem haver regras equivalentes para todos os países nessa globalização. Os países mais vulneráveis, como o nosso, estão tramados, enquanto aos poderosos não lhes faz diferença porque exportam aviões ou automóveis.
Que leitura faz do memorando de entendimento feito com a Troika?
Li o memorando e não posso deixar de dizer que é perfeitamente vergonhoso termos aceite um memorando escrito em inglês, e mais, logo com a seguinte nota: "este é memorando porque toda a tradução não é aceitável". É o mesmo que dizer que isto não é para brincar nem para depois fazer o costume, ou seja, trocar uma vírgula e o mais pelo menos. É o que ali está e ponto final. Mais, o memorando inicial tinha determinados prazos que foram alterados pelo governo PS para os encurtar, o que torna ainda muito mais difícil a questão. Com exigências daquela dimensão alterar um mês é muito difícil. Já deviam ser tomadas decisões até finais deste mês. Até final de Setembro teremos de fazer o que não conseguimos durante 35 anos, que é mudar radicalmente as estruturas fundamentais do país. Não sei como muitas das exigências a que nos comprometemos se podem fazer sem alterar a Constituição. Entendo que não é possível. E depois há todas aquelas medidas extremamente dolorosas. Ainda vamos receber o 13º mês, mas já com alguma diferença e só porque está orçamentado, e já ponho as minhas dúvidas quanto ao 14º mês. Vamos ter cortes notáveis nos salários, quer dos activos, quer dos reformados. Tem que se fazer redução nas freguesias e nos concelhos. Não sei se chego ao fim do ano, mas gostava de estar cá para ver. É que demorei uns seis anos a conseguir fazer a delimitação entre Codessos e Lamoso e com duas Juntas PSD...
Ficou surpreendido com o resultado das eleições legislativas?
Só fiquei surpreendido pela diferença, depois de tudo aquilo que o Engº Sócrates fez. Surpreendia-me tudo o que fosse mais um ponto acima dos 25% que é admissível o PS ter, quer seja o Sócrates ou um pau de vassoura a concorrer, e ele conseguiu chegar quase aos 30%. Os militantes do PSD têm os seus créditos na vitória, mas esta foi bastante mais pelo descrédito absoluto a que chegou o PS, ao ferir a nossa credibilidade interna e externa. Nestas eleições tinha sido mais desejável a subida relativa do CDS, porque se o PSD não tivesse subido 10 pontos, o CDS era capaz de ter atingido os 30 deputados e aumentar a sua importância na estabilidade. Já agora, não acredito que o país possa sair deste buraco nos próximos 15 anos se não houver um governo com PSD, PS e CDS. E só não saímos porque é preciso salvar a democracia e não o país. Ninguém pensa em salvar a pátria, porque é uma coisa que já acabou.
Pedro Passos Coelho disse que o PSD de Sá Carneiro está vivo e recomenda-se. Concorda?
Nem pensar. O PPD era um partido social-democrata e hoje já não é. Não é desde que fizeram os novos estatutos do partido. Mas hoje vivemos de mentiras e há quem diga que querem acabar com o estado social, isso é mentira. Os portugueses não querem acabar com o estado social, pois somos um povo solidário, fraterno. Mas há uma coisa... querem um estado social que possa pagar e nós vivemos num estado social que não pode pagar. Esse é o grande problema. Se o estado social continuar a pagar o que não pode, os nossos filhos já não vão ter dinheiro para ter um estado social. Enquanto continuarmos a pagar o mesmo a alguém que nunca descontou um tostão e a pessoas que descontaram toda a vida, esse estado social não é impossível, é vergonhoso e injusto. Temos de alterar as nossas mentalidades, o nosso amor à pátria.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Entrevista a D. António Taipa, Bispo Auxiliar do Porto
D. António Taipa aborda questões polémicas.
“Por baixo desta crise económica está uma crise de ordem ética”
D. António Taipa, Bispo Auxiliar do Porto, concedeu uma entrevista ao IMEDIATO onde aborda de forma esclarecedora o estado actual da Igreja em Portugal e no Mundo. Faz uma retrospectiva da sua vida sacerdotal e as cruzadas de enfrentou nos seus 50 anos de ligação à Igreja.
Aborda alguns casos polémicos, como o uso do preservativo em casos específicos, e dá o seu ponto de vista sobre as dificuldades económicas sentidas no concelho e no país e o papel que a Igreja deve ter nestas situações. Faz ainda uma perspectiva do que será a Igreja no futuro.
Natural de Freamunde, D. António Taipa recorda os seus tempos na terra natal e vê com mágoa o encerramento de fábricas que, outrora, deram emprego a uma vasta população do concelho.
--Com cerca de meio século ligado à Igreja, que balanço faz da sua vida cristã e que dificuldades encontrou pelo caminho?
Ligado à igreja estou há 68 anos desde o meu baptismo… Eu percebi: refere-se naturalmente aos últimos cinquenta que coincidem mais ou menos com a minha ordenação presbiteral.
Para a Igreja, em geral, foi um tempo de grandes alegrias, de euforia até. Mas também de grandes desgostos e dores.
O normal para um tempo de mudança e de mudança profunda. Foi o tempo posterior ao grande acontecimento da Igreja dos últimos séculos, o Concílio Vaticano II. Em que a Igreja decidiu rever-se a si mesma por referência naturalmente ao seu Fundador, Jesus de Nazaré, Filho de Deus, e aos homens a quem se sente enviada. “Que dizes de ti mesma?” Era a questão que se propunha.
Foi um reaproximar-se dos homens cujas alegrias e esperanças, tristezas e angústias fez suas. Foi o reconhecimento da co-responsabilidade dos baptizados em toda a vida da Igreja. O reconhecer-lhes a voz e o seu contributo para a vida e missão da Igreja. O acabar com o monolitismo. A liberdade de pensar e dizer, no campo da teologia. A decisiva abertura ao ecumenismo tão importante para a sã convivência entre os homens.
Era estudante. Senti e vivi a renovação de programas de teologia. A novidade de conteúdos. Novas metodologias. O encanto dos estudos bíblicos, na sua renovação. A alegria de ser Padre nesta Igreja que sentia e se aproximava dos homens de maneira nova. O reconhecimento renovado da dignidade do trabalho humano no crescimento do homem, na vivência da sua relação com o seu semelhante, consigo próprio, com Deus, e com o cosmos. A dimensão sobrenatural da vida.
A avalanche de fiéis baptizados que se entregam ao serviço da Igreja, nos mais diversos sectores, da evangelização, da liturgia e do serviço aos pobres. Enfim uma alegria enorme.
Mas ao lado ou a par, algumas dores. Muitas. Algumas particularmente fortes e fundas. Muitos sacerdotes que deixam o exercício do ministério sacerdotal. O pluralismo teológico que resvalou aqui e ali, para um perigoso relativismo. Outros, e tantos foram, que fizeram dura resistência à novidade do Concílio. Muitos, leigos e sacerdotes que abandonaram mesmo a Igreja. O aparecimento de seitas que se multiplicaram por esse mundo fora.
Depois, como todos sabemos, todos estes escândalos vindos a lume nestes últimos tempos.
Foram feridas que se abriram. Foram dores que todos vivemos. E vamos vivendo.
Mas é assim, também, que a Igreja avança, esta Igreja que é pecadora, mas que também é santa. Este mistério de amor chamada a ser sempre o lugar “do carinho de Deus”.
O nosso Papa reconheceu-o. É o passo primeiro e fundamental para a renovação
--Que valores devem reger e prevalecer no centro da vida Cristã?
Na sua primeira carta encíclica o Santo Padre Bento XVI diz que no início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia mas o encontro com um acontecimento que é uma pessoa, Jesus de Nazaré.
Penso que é, antes de mais, desta pessoa que os cristãos precisam de se aproximar e apaixonar. Precisam de redescobrir. Saberemos muito acerca dela, mas a ela não a sabemos assim tão bem. O perfil humano daquele jovem de Nazaré. Daquele jovem que a certa altura se auto marginaliza. Sai de casa. Sem eira nem beira. Com um discurso tremendamente contundente para o tempo. As autoridades de então, políticas e religiosas, não o suportaram. Mataram-no.
É nesse Jesus de Nazaré que o crente encontra proclamados e vividos os valores determinantes da sua vida, como o foram da vida de Jesus.
Adiantaria alguns, e a partir deste mundo em que vamos vivendo. Antes de mais a verdade. O amor e a fidelidade à verdade do que se é, e à verdade da missão que se é chamado a cumprir na sociedade. Jesus foi até à morte, naquela fidelidade. Nada nem ninguém o fez recuar daquilo que sentia ser o seu dever. Nem qualquer medo ou bajulação. Foi um homem e um homem a sério, de verdade. Nunca se vendeu a nada, nem a ninguém.
Depois a esperança. Naturalmente a esperança em Deus, mas também no homem, capaz, também ele, de verdade e do bem.
A auto-estima. O perdão e a misericórdia. A sensibilidade ao outro. A capacidade de assumir a vida, a vida como é. De nunca voltar as costas às suas exigências, às lutas e combates que se nos exigem. Em termos cristãos diríamos “tomar a própria cruz”.
A alegria. É também esta uma nota da vida do crente. Sabe donde vem e para onde vai. E também sabe com quem vai. O seu caminho é sempre para a Vida. O caminho que faz vivendo, vivendo com verdade.
A universalidade. Viver na consciência da comunhão universal, a que vamos sendo cada vez mais sensíveis. Da co-responsabilidade. Não somos ilhas isoladas. Vivemos na e da solidariedade universal. Somos todos responsáveis por todos.
--Atravessamos uma fase muito difícil da vida social e económica. Qual o papel da Igreja para amenizar este problema?
Eu veria esse papel da Igreja a dois níveis. Primeiro, ajudando o homem a entender-se na verdade de si mesmo. Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano é plural. Por isso “não é bom que o homem esteja só”. É um ser social, o homem. A pessoa humana é relação.
Quer dizer, o homem só não é, não se encontra, não se desenvolve. O que significa que cada um precisa do outro. Para ser. Para viver. Para crescer.
A esta sua nota essencial o homem responde não simplesmente vivendo com os outros, mas dos outros e para os outros. Na partilha do que é. Do que tem, do que sabe e do que pode. No pôr em comum as suas capacidades e habilidades. Depois, e igualmente na capacidade de receber, de aprender e acolher o outro. Quem só dá, esmaga. E quem só recebe, defrauda. Na capacidade de se sacrificar pelo bem comum.
E em segundo lugar ou concomitantemente, a Igreja deve viver isto no terreno, como se diz. Pela mediação de instituições que cria. De associações que promove entre os seus membros. Cada um por sua própria responsabilidade. E, graças a Deus, a Igreja possui uma boa parte das instituições de assistência no nosso país. E cria permanentemente maneiras novas de se fazer presente às necessidades, às carências e aflições dos homens, de todos os homens.E aí a temos hoje e agora na “sopa dos pobres””, a pagar rendas de casa e remédios nas farmácias… A acolher marginalizados… etc.
E são tantas as dificuldades “oficiais”, que mesmo neste campo, nos vão sendo criadas!
O serviço dos pobres é um dos três pilares em que assenta a vida da Igreja. O serviço da Palavra. Da Liturgia. E o serviço dos pobres. É da sua essência.
Convém entretanto que em todos estes nobres e maravilhosos servidos, dentro e fora do âmbito da Igreja, cada um se interrogue até que ponto tem responsabilidades nas situações que procura remediar agora…
--A época natalícia é sinónimo de uma maior aproximação familiar e pela tolerância. Como explica o facto de estes valores não prevalecerem no nosso quotidiano?
Não sou grande analista. Mas olho para o que se passa e penso. E faço-me a mesma pergunta. E tento uma resposta. Viver em família, viver os valores familiares, da cooperação de todos para o bem de todos. Da harmonia de gerações, entre pais e filhos e muitas vezes avós. Viver com equilíbrio a responsabilidade paternal e maternal, a fraternidade, e relação filial de maneira equilibrada. Viver o serviço da autoridade racional e amorosa; e obedecer com cordialidade… tudo isto é exigente, é muito exigente.
E porque é exigente, a tendência é “esquecer”, “fugir”. Até porque a capacidade de sacrifício, de sacrifício por valores mais altos, parece ser cada vez menor. E é fácil aqui, por amor de uma demagogia barata, ajudar naquela fuga… facilitar ou até promover o desagregar da instituição. Acabam-se as dificuldades!
E assim se vai a “célula” da sociedade. E assim se vai a sociedade equilibrada.
No que diz respeito à tolerância deveremos dizer em primeiro lugar que não se trata de cair em qualquer tipo de relativismo. Significa sim, entender que o caminho para a verdade é progressivo – a verdade absoluta ninguém a possui – , e às vezes com passos atrás. É preciso entendê-lo no outro. E cada um em si mesmo. Isto vem ligado, naturalmente, à consciência da própria fragilidade. Só quando me aceito com a minha capacidade de erro, admito o do outro. Tolero. Mas quem admite o próprio erro?! Cada vez mais, cada um se sente como a única referência do seu próprio comportamento. Por isso sempre certo, sempre correcto. A intolerância ganha espaço...
--Vivemos numa sociedade que por vezes parece não compreender a Igreja. Quais são os melhores testemunhos que podem anunciar os valores da fé cristã?
Vamos ver se entendo a questão que me põe. A sociedade parece não compreender a Igreja. Não é novo. Diante do seu Fundador Crucificado, já naquele tempo, O entenderam como uma loucura ou como um escândalo. Os dois mundos, o pagão e o judeu, respectivamente.
Viver a paixão pelo outro até morrer por ele. Dar-se todo pelo outro para que ele seja e viva. Incomodou e continuará a incomodar. Essa é a marca da Igreja. Quanto mais for o que é chamada a ser, mais incómoda se tornará. Mais provocadora. Mais sujeita a vexames, a perseguições. Denúncia o egoísmo e o amor-próprio. Denuncia a vida de quem vive só para si, à procura de si mesmo, passando por cima de tudo e de todos.
A testemunhar os valores da fé cristã são chamados todos os cristãos. Com tanto mais urgência e profundidade quanto maior é a sua responsabilidade no seio da Igreja. Precisamos da mais Francisco (s) de Assis, Vicente (s) de Paulo, ou Teresa (s) de Calcutá, Padre (s) Américo de Aguiar…
É claro que nos últimos tempos têm vindo ao de cima, ao contrário, grandes contra-testemunhos ao nível de alguns Sacerdotes. Estes, como diz Bento XVI, são os grandes inimigos da Igreja, vindos de dentro dela. São os grandes ataques. Terão de ser vistos como desafios a uma maior verdade da Igreja, como interpelação a uma maior conformidade com a vontade do seu Fundador. Como convites à humildade, à conversão e penitência.
--O papa Bento XVI admitiu pela primeira vez a utilização do preservativo em certos casos, como redução dos riscos de contaminação de doenças como o vírus da sida. Esta posição é uma resposta aos que acusam a Igreja de ter uma posição retrógrada?
Antes de responder à pergunta que me faz, permita-me dizer o seguinte: “Sede perfeitos como o vosso pai celeste é perfeito” é o grande desafio colocado a todos os homens. O “crescei e multiplicai-vos” do livro do Génesis tem em vista não apenas a multiplicação dos homens, mas também o seu desenvolvimento. O seu crescimento em ordem a uma resposta sempre mais perfeita ao projecto daquele que o chamou à vida. O homem é um ser histórico, em perfeição permanente. Na sua relação consigo mesmo, com os outros, com o cosmos e com Deus. E este caminho para a perfeição fá-lo com avanços e recuos, sempre mergulhado no amor e na misericórdia do Pai que o ama e conhece nas suas fraquezas e debilidades.
Também no âmbito da sua sexualidade, avança para a sua perfeição, para uma sexualidade perfeitamente integrada ao nível da pessoa na sua totalidade. E naturalmente, também aqui, com avanços e recuos.
Penso que será neste âmbito que devemos colocar a sua questão. O caso do preservativo para reduzir os risco de contaminação nomeadamente da sida.
Sublinho o cuidado que teve na pergunta ao falar de “redução dos riscos”. Penso que se coloca exactamente no campo do Papa. A caminho da África, Bento XVI dissera que não era o preservativo que resolveria o caso da contaminação, no que foi confirmado internacionalmente por grandes especialistas. Agora nesta entrevista que concedeu a Peter Seewald, ele prevê o seu uso em casos pontuais, como o do prostituto, na medida em que esse cuidado pode ser um primeiro factor de desenvolvimento da consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Quer dizer que, continuando a considerar-se uma prática desordenada da sexualidade, o uso do preservativo para reduzir o perigo de contaminação do parceiro, de lhe provocar a morte, pode admitir-se, em certos casos pontuais, já que pode mesmo ser o inicio de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana. É um princípio de humanização
Tratar-se-á pois da aplicação da doutrina do “mal menor” a casos concretos que cada um fará de acordo com a sua consciência perplexa.
O homem está a caminho…
--Como enquadra o papel da Igreja em Portugal e no mundo?
Foi bom que tivesse colocado a questão relativamente à Igreja em Portugal e no mundo.
De facto quando falamos de Igreja ficamo-nos ordinariamente por Portugal ou pela Europa. E aqui encontramo-nos com uma Igreja que parece cansada. Envelhecida. Acomodada. A olhar demasiadamente para si própria. Com a chamada prática religiosa a diminuir. O número de sacerdotes a baixar…
Mas não é o que acontece por esse mundo fora. Aumenta o número de crentes. O mesmo acontecendo com os sacerdotes que vão sendo cada vez mais, como com os seminaristas. Estive há dois anos, no Sínodo dos Bispos em Roma, e tive ocasião de verificar a pujança, o entusiasmo e o crescimento de tantas Igrejas. Comunidades profundamente dedicadas ao serviço dos irmãos. Pobres. Perseguidas…. Vivas.
Há muitos factores de esperança… para além dos “cuidados” de Deus.
--Como vê o futuro da Igreja?
Na esteira do Papa João Paulo II, numa das suas propostas constantes, na linha da renovação pastoral da Igreja, Bento XVI acaba por criar um Conselho Pontifício para a “Nova evangelização”. É o que a Igreja se propõe, um anúncio de Jesus Cristo com mais entusiasmo e alegria, e com novos métodos e novas expressões, adequadas à novidade dos tempos.
É uma renovação que se espera da Igreja, na sua fidelidade à dupla paixão, por Jesus de Nazaré e pelos homens por quem Ele se deu. Como se dizia no princípio, fazendo suas “as alegrias e esperanças, tristezas e angústias” da humanidade.
Aí estará a base de um futuro que esperamos belo e fecundo, na proclamação e vivência da verdade, da liberdade e do amor entre os homens. De Paz e pela Paz.
--Sendo natural do Concelho de Paços de Ferreira, está preocupado com o estado das empresas, em particular do mobiliário, que durante décadas foi o grande suporte das famílias?
Era para mim motivo de muito orgulho, há anos, ouvir dizer que no meu concelho não havia desemprego, que o nível de emigração era dos mais baixos. Era interessante presenciar, no início ou no fim do trabalho, e na hora de descanso, o movimento, a azáfama de tanta gente a correr, a ir ou a vir do trabalho. Então, de pé ou de bicicleta. Na hora da refeição, multiplicavam-se as salas de jantar. Aqui e ali, onde houvesse uma sombra.
Agora acabou, é verdade. Fecharam as grandes fábricas de então e não só a nível do mobiliário. E fecharam muitas outras. E muitas dificuldades começaram a sentir-se.
Mas também é verdade que abriram muitas outras unidades de trabalho. Modernas e, tanto quanto vamos ouvindo, prósperas e com futuro promissor. E vão aparecendo tantos jovens empresários e criativos!
A dificuldade em que se vive não pode fazer esquecer o que de bom se tem feito, se vai fazendo e se vai projectando. E isto ajuda a manter viva a esperança num futuro melhor. E dá força para tentarmos respostas à situação, as mais diversas. É preciso inventar, criar caminhos novos, para a novidade do tempo. E nós somos capazes. Temos de acreditar
-- Acredita que os problemas económicos serão ultrapassados com brevidade ou está preocupado com o futuro?
Quem não está preocupado com o futuro? E eu também estou; sou deste mundo. Mas também com muita esperança. Esperança em Deus, mas também no homem. Temos de acreditar e confiar no homem e nos homens. Não sou economista, mas aceito o que dizem, que por baixo desta crise económica estará uma maior crise de ordem ética.
E eu acredito que o homem é capaz de conversão, é capaz de mudar. É capaz de reconhecer onde se encontra a raiz dos males. Como dizíamos antes, é capaz de verdade e de bem.
São muitas e fundamentadas as esperanças. São a mola da vida.


