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quarta-feira, 18 de março de 2020

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XXVII )

ÉPOCA 1951 / 1952 (PRIMEIRA PARTE)
"SANDES" TROCADAS POR DINHEIRO
Com a base do plantel praticamente inalterada - apenas Laurindo tinha sido recrutado à U. D. Penafidelense - Gil Aires não perdia a esperança e conquistar, sob a sua égide, o tão almejado título.
O clube, logicamente restritivo nos seus gastos e organização, continuava a basear-se na prata da casa.
A Direcção, apesar das vicissitudes e limitações do meio futebolístico, sem poder contar com o auxílio e entidades externas, muito menos da autarquia, insensível a estas questões de foro desportivo e com os cofres fragilizados, numa tomada de posição surpreendente, decidiu substituir o habitual lanche aos jogadores, após os jogos, por prémios em dinheiro.
Abria-se, assim, um novo ciclo.
Tratava-se, sem dúvida, de um enorme esforço financeiro, de uma ideia um tanto ao quanto arrojada, mas que poderia trazer dividendos a nível desportivo. Motivação não iria faltar, com certeza!
Eis a deliberação:
Primeiras categorias: Jogos fora: Vitória (25$00), Empate (15$00), Derrota (5$00).
Jogos em casa: Vitória (20$00), Empate (10$00).
Reservas: Jogos fora: Sempre 5$00.
Jogos em casa: Nada.
FERNANDO REGO
Mesmo em "alta", o clube acusava uma "crisezita" financeira, sendo recebida de bom grado qualquer tipo de oferta. Uma bola, por exemplo, como a enviada por Fernando Rego e que custava, na altura, bom dinheiro.
Tão dispendiosa era a aquisição das "bexigas" que, para os treinos, o saco só albergava duas, às vezes três...e "era um pau"!
O trabalho desenvolvido com a lavagem de equipamentos, a cargo de Armando Martins, sofreu também um significativo (?) aumento de 1$50.
Eram uns "mãos largas" estes dirigentes!
O nosso artesão tamanqueiro, já uma saudade, dias antes da sua morte, numa entrevista concedida para programa radiofónico da "Inovassom", confidenciou-nos: «Ah!...O Freamunde do meu tempo era uma equipa infernal. Jogadores como o Taipa, os "Mirras", os Vianas, o Bica, o Cherina, o Zé Maria, e tantos outros, ninguém os batia cá pelas bandas! E não tinham prémios, não senhor. Aqui e ali uma sandezita para enganar o estômago. Agora?...Agora só jogam pelo dinheiro. O futebol já não presta.»
É verdade. No campo do Carvalhal as gerações de ouro ganhavam um copo de vinho e um pão com dois bolinhos de bacalhau. «Nessas épocas - escreveu Renato Magalhães "in Fredemundus" - as camisolas não se despiam nem se trocavam, eram a própria pele do peito e o suor do jogo não era não era pago a centenas de contos a gota, o suor do jogo regava gratuitamente a terra como chuva fertilizadora. Era o tempo sagrado do amor à camisola, do amor ao torrão onde nasceu, do orgulho em ser freamundense. Um tempo em que a saudade chora, um tempo só acessível pela recordação e que se perderá quando o último sobrevivente dessas épocas baixar à terra.»
Para fazer face às despesas inerentes, os responsáveis máximos do clube tinham que fazer pela "vidinha". Decidiram, então, lançar sorteio de uma bicicleta motorizada A receita do mesmo superou as expectativas e caiu como sopa no mel.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

quinta-feira, 5 de março de 2020

Bombeiros Voluntários de Freamunde (XXII)

5.7 CONSTRUÇÃO E INAUGURAÇÃO DO QUARTEL
No ano de 1972 a direcção foi limando arestas com a inspecção relativamente ao projecto de construção, mas foi em 1973, tendo já na presidência o Dr. Jaime Manuel Nogueira de Barros, que chegou a notícia do subsídio do Ministério das Obras Públicas para a construção do edifício que ainda hoje alberga a sede da associação e o seu corpo activo.
É o início de um novo ciclo da instituição. O Dr. Jaime Barros dirigiu os bombeiros de Freamunde até ao fim de 1990, conheceu o comandante Dr. Fernando Cruz, nomeou o comandante Carlos Felgueiras e o actual (2005) comandante Mendonça Pinto, tendo ele próprio, num curto espaço de tempo, assumido o comando da corporação.
É com o comandante Carlos Felgueiras que a direcção de Jaime Barros constrói, mobila, equipa e inaugura o quartel sede da associação a 4 de Setembro de 1977, numa grande festa de bombeiro. É no período da sua governação que se assiste a um rápido desenvolvimento da corporação, comprando novas viaturas e equipamentos, ou aceitando ofertas de outros e mudando hábitos e tradições antigas. Fruto das transformações ocorridas na instituição e na sociedade "ao longo do seu reinado", foram introduzidas novas regras e "inventadas" novas formas de fazer receitas para as velhas necessidades. Os peditórios continuaram, a Festa da Flor deu origem à venda de autocolantes que ainda hoje se faz, trocando a flor pela etiqueta. O bar dos bombeiros deixou de ser no campo da Feira e sazonal, para ser na sede da corporação e durante todo o ano. Os discos pedidos do "Bar dos Bombeiros" no Largo da Feira deram lugar à organização de bailes no salão dos bombeiros, durante os anos 80.
INAUGURAÇÃO DO QUARTEL
É neste período que se assiste à definição de áreas de actuação no concelho para os bombeiros de Freamunde e Paços de Ferreira. O aumento dos meios e dos homens no corpo activo, produz também um maior volume de trabalho na instituição, cuja gestão moderna obriga a ter um administrativo a tempo inteiro.
Já antes tinham sido contratado motoristas para o serviço da corporação. O profissionalismo tinha chegado aos bombeiros.
Em 1991, depois de ter participado vários anos na direcção do Dr. Jaime Barros, cujas tarefas directivas levaram à construção e modernização do corpo de bombeiros, uma nova etapa surge na vida da instituição. António Rogério Gomes Pereira assume a presidência da direcção que tem em mãos uma nova necessidade: a ampliação do novo quartel. A obra foi iniciada em 1991 e concluída em meados de 1994.
A par do andamento das obras de ampliação do quartel, o parque de viaturas foi modernizado e igualmente ampliado.
Este ano (2005) os freamundenses viram juntar-se ao grupo de viaturas da instituição um veículo especial: a auto-escada. Mas na gestão de Rogério Pereira outras marcas foram deixadas pelos bombeiros na cidade. Em 13 de Julho de 2002 foi inaugurado um monumento ao soldado da paz, da autoria do escultor Manuel Pereira da Silva, numa das rotundas da cidade de Freamunde. Ao nível da instituição, uma importante alteração ocorreu na gestão de Rogério Pereira e ainda recentemente: os estatutos foram completamente remodelados, definindo as regras pelas quais se rege a instituição, à luz da sociedade actual.
Coube também a esta direcção a organização e comemoração das bodas de diamante da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Freamunde, e cujo programa consta o lançamento da primeira pedra do futuro quartel. Pela passagem deste aniversário, a Câmara decidiu, por unanimidade, a atribuição da Medalha de Ouro de Altruísmo e Mérito à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Freamunde.
Este é o resultado do trabalho dos bombeiros sem farda ao serviço da população.
INAUGURAÇÃO DO MONUMENTO AO SOLDADO DA PAZ
VI
FINANCIAMENTO DOS BOMBEIROS:
UMA OPORTUNIDADE PARA ANIMAR A FREGUESIA
Na mesma hora em que se lançou e abraçou a ideia de criar a corporação de bombeiros,não se esqueceu do velho ditado: "sem ovos não se fazem omoletes". Os sócios do Clube Recreativo não só abriram uma subscrição voluntária com um donativo de mil escudos, como prometeram ajudar no máximo das forças. Ao longo dos três quartos de século da sua existência os bombeiros de Freamunde e os seus dirigentes, com maiores ou menores dificuldades, sempre souberam honrar os seus compromissos, recorrendo a muitas formas para angariar os meios necessários ao seu eficaz funcionamento.
JOÃO VASCONCELOS - " BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE FREAMUNDE - 75 ANOS"

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A indústria do mobiliário escolar em Paços de Ferreira ( XIII )

O caso da fábrica Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda.
CAPÍTULO 2
DA FÁBRICA À GRANDE EMPRESA
1. OS PEREIRAS
António Pereira da Costa ligado cerca de dois anos à fábrica de Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda., foi indubitavelmente um homem ligado à industrialização do concelho.
António Pereira da Costa (1888-1961) nasce na freguesia de Freamunde.
Filho de um casal de gente simples que repartia entre o campo e uma alfaiataria o seu labor quotidiano, muito cedo começou a ajudar a família no amanho de umas terras tomadas de arrendamento na freguesia de Ferreira. Tinha sete anos de idade quando lhe faleceu a mãe D. Rosa de Jesus, duro golpe numa criança que necessitava dos afectos e da ternura que só uma mãe pode dar. Aos dez anos (1898) quis seu pai, Teodoro Pereira Gomes, agora casado de novo, fazê-lo seminarista, para que mais tarde se tornasse sacerdote e, deste modo, lhe assegurar o futuro. Indiferente à ideia e tendo reflectido pouco na proposta, aceita ir com o pai a Lustosa consultar o pároco da freguesia, mais tarde Bispo António Barbosa de Leão, para auscultar a sua opinião e este lhe mostrar as responsabilidades clericais e tudo aquilo que ele deveria ser, caso aceitasse a vida de sacerdócio. Não aceita. O seu mundo teria de ser outro. Agora com doze anos (1900) e com a benção do pai vai para Sobrosa, Paredes, aprender a arte de marceneiro na casa do que foi um dos grandes mestres da arte, Júlio Barbosa Correia da Fonseca. Revelou-se um bom aluno, retendo os ensinamentos do mestre e rapidamente se apercebeu que estava ali o seu futuro. Serrar, moldar, entalhar, conceber coisas da madeira, era o que mais gostava. Durante 14 anos trabalhou António Pereira da Costa em Sobrosa não abandonando o seu mestre e amigo de tantas horas de labuta agora doente e senil. Após a sua morte, e com 26 anos de idade, regressa definitivamente a Freamunde e monta uma pequena oficina no Lugar do Calvário, com as poupanças, cerca de 200$00, que ao longo do tempo fizera. Corria o ano de 1914, época agitada e pouco propícia a negócios estáveis. Casa em 1915 com Adelaide de Sousa Castro.
ASCENDENTES E DESCENDENTES DE ANTÓNIO PEREIRA DA COSTA (1888/1961)
Foi então que no espírito do grande industrial começou a esboçar-se a ideia de achievemente motivation no seu projecto industrial, em parceria com o seu irmão Joaquim Pereira da Costa, que no Porto tinha frequentado a Escola de Belas-Artes onde adquiriu um curso de desenho, e Abílio Pacheco de Barros, entalhador e natural da freguesia de Figueiró. O projecto poderia ser arrojado, mas, mesmo assim, surge a sociedade Pereiras & Barros Lda. que, de imediato, inicia a construção, agora na Rua do Comércio, de novas instalações, como refere o jornal "Progresso de Paços de Ferreira" na sua edição do dia 13 de Junho de 1920:
Já se acha devidamente instalada em casa própria, na Rua do Comércio, desta povoação (Freamunde) a nova oficina de Mobiliário e Material Escolar, sob a firma Pereiras, Barros e Companhia Lda.
A sua inauguração realizar-se-há no próximo domingo, 13 do corrente, dia de feira anual de Santo António.
Pouco tempo depois, em 1921, morre o irmão, o que o abalou profundamente. Era o primeiro contratempo surgido inesperadamente. Ainda mal reposto da perda do irmão, um voraz incêndio destrói-lhe a fábrica (hoje edifício escolar) em 23/03/1923 que, juntamente com Abílio Pacheco de Barros tinha construído a Rua do Comércio.
(...)manifestou-se hoje n'esta freguesia, cerca das 3 horas, um pavoroso incêndio, na importante Fábrica de Serração Moagem e Mobiliário, da firma Pereiras, Barros e Companhia Limitada, destruindo-a por completo.
As labaredas do incêndio alcançaram grande altura e iluminaram distintamente toda a freguesia.
Apenas se pôde salvar o cofre, escrituração e o mobiliário de escritório.
A fábrica apenas estava segura em cento  dez mil escudos, nas companhias Phoenix  Royal, sendo os prejuízos importantes, pois ardeu uma grande encomenda de móveis de grande valor que estava para seguir para o seu destino. 
Em 1923 com o dinheiro do seguro e com algumas poupanças, entram para sócios da Sociedade Comercial Albino de Matos, Sucessores, Limitada, com a nota de 68 contos cada, passando a adoptar o nome de Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda. agora com 28 sócios, sendo-lhe atribuído art 5º do contrato de sociedade:
A gerência social com dispensa de caução, fica a cargo dos sócios António Pereira da Costa e José Maria Ferreira de Matos, ao sócio Abílio Pacheco de Barros compete as funções de encarregado da secção de máquinas, madeiras e marcenaria (...).
Parágrafo 1º: Fica, contudo, estipulado que compete exclusivamente ao sócio António Pereira da Costa a direcção técnica da fábrica, bem como os serviços de errecadação e expedição.
Estávamos em 1924 e esta sociedade, que parecia um projecto audaz para António Pereira da Costa, torna-se um novo pesadelo em virtude de uma série de incidentes - com António Alves Pereira de Castro, o "Padre Castro" como era conhecido e que veio a marcar uma gerência forte num período de grande desenvolvimento industrial - que terminaram com o encerramento temporário da fábrica, isto cerca de dois anos volvidos após a sua abertura. Exonerado em assembleia-geral em 21/11/1926, regressa, agora só, ao lugar do Calvário, onde tinha iniciado a sua actividade industrial, com toda a sua experiência de grande artífice. Movido por uma grande força de querer vencer, retoma a actividade, recuperando lentamente não só a dignidade de industrial, mas também o património que perdeu com estas duas sociedades que se mostraram um fracasso.
CARTAZ PUBLICITÁRIO
No catálogo, que à imagem de Albino de Matos mandou elaborar pode ler-se:
Do meu trabalhoe pelo meu trabalho nasceu e se tem desenvolvido o que é hoje a minha fábrica de móveis, mobiliário escolar e material didáctico, denominada - Fábrica do Calvário, de Freamunde - cujos produtos não receiam qualquer confronto com os de qualquer outras fábricas.
Não cuido de reclames falhos duma base sólida, que possa comprova-los.
E para não ir mais longe, bastará referir que ainda na Exposição do Congresso Pedagógico de Viseu (1928) à qual nenhuma outra fábrica de Freamunde concorreu, mas aliás, foi exposto mobiliário e material de outras procedências, foi-me conferido o 1º prémio, medalha de ouro e diploma de honra.
Assim respondo e identicamente responderei, quando necessário seja, áqueles dos meus competidores que malévola mas baldamente tentem prejudicar-me, estabelecendo, embora, para tanto, uma mal alinhada confusão.
Freamunde, Junho de 1933.
Refere ainda o jornal "O Comércio do Porto" em 27 de Março de 1929:
(...)trabalhando em sua arte, desde a idade de 12 anos, António Pereira da Costa é o técnico competentíssimo, o mestre de grande experiência para quem aquela arte não tem segredos, e que só à sua conta tem preparado e educado mais de 300 operários, hoje artistas perfeitos na arte de marcenaria.
O material saído das suas mãos e da sua fábrica é tão perfeito, que lhe tem merecido os prémios da Exposição do Palácio de Cristal (Feira do Porto), do Rio de Janeiro, Exposição do 2º Congresso Pedagógico do Ensino Secundário Oficial de Viseu (1928), com o 1º prémio, medalha de ouro e diploma dehonra.
FÁBRICA DO CALVÁRIO
Em 1953, António Pereira da Costa, em escritura lavrada no cartório notarial de Paços de Ferreira, constituiu entre Joaquim Ribeiro, Fernando Eduardo de Sousa Delgado da Silva Ribeiro dos Santos, Dona Zeferina Pereira de Castro e Felisbina Pereira de Castro filhas e genros) uma sociedade por cotas de responsabilidade limitada, adoptando o nome  de António Pereira da Costa, Limitada a quem coube a responsabilidade de perpetuar todo um património de sucesso industrial. Esta fábrica, cujo peso na industrialização do concelho e na formação de pessoal especializado foi importante para a formação do cluster do mobiliário que existe actualmente. Encerrou as portas em 2001 por passividade e ineficiência da gestão e pouca adaptação dos serviços/produtos às novas exigências do mercado.
PRIMEIRO EXPOSITOR DE MÓVEIS EM FREAMUNDE E NO CONCELHO PERTENCENTE À FÁBRICA DO CALVÁRIO, CONSTRUÍDO POR VOLTA DE 1937.
2. OS BARROS
Abílio Pacheco de Barros (1886/1961) nasce na freguesia de Carvalhosa, concelho de Paços de Ferreira. Cedo emigra para o Brasil, onde exerce a profissão de carpinteiro. Desiludido regressa a Portugal e com alum dinheiro que conseguira amealhar aceita o comvite de António Pereira da Costa nascendo, assim, a sociedade denominada Pereira da Costa & Barros, Limitada. Com percurso idêntico ao de Albino de Matos, Sucessores, Lda. onde ficou, ao contrário do amigo, até à sua morte, em 1 de Fevereiro de 1961.
JOAQUIM MANUEL FERNANDES DE CARVALHO - "A INDÚSTRIA DO MOBILIÁRIO ESCOLAR EM PAÇOS DE FERREIRA"

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XXVI )

ÉPOCA 1950 / 1951 (TERCEIRA PARTE)
A CLASSIFICAÇÃO FINAL "SOUBE A POUCO"
O tiro de partida para o campeonato foi dado em Ermesinde:
Os "Sonhos" tornaram-se pesadelo. O adversário era bem modesto mas a ausência de Taipa tolheu os passos aos colegas da dianteira e a derrota por 1-0 foi mesmo uma triste realidade.
Esquecido o infortúnio, e após vitória caseira (2-1) sobre o Oliveira Douro, lá tínhamos de novo o Varzim à perna.
Mais ciente do seu valor e com todo o plantel disponível, o Freamunde produziu um futebol de nível superior demonstrando que estava preparado para uma época de relativo sucesso. Para o empate a uma bola muito contribuiu o tento de José Maria "da Couta".
A primeira "seisada" surgiu à 5ª jornada e logo ao Avintes, um dos principais candidatos ao título.
Em São Mamede esperava-se tarefa complicada. Gil Aires armou a teia e ao apostar numa toada de contra ataque surpreendeu o Infesta com um soberbo golo de José Maria "da Couta". Os anfitriões arregaçaram as mangas, atacaram de toda a forma e feitio mas Peixoto esteve insuperável.
Os "senhores" que se seguiram (Perosinho 2-0, At. Rio Tinto 2-1 e Gaia 5-2) não tiveram melhor sorte. O Freamunde superiorizava-se aos adversários em todos os capítulos.
Viviam-se momentos de enorme entusiasmo e paixão. O povo andava nas "nuvens".
Para a deslocação ao campo do Cruz várias camionetas foram fretadas. Os adeptos queriam estar ao lado dos seus ídolos.
A "linha" apresentada era a do costume. Dos "argentinos" esperava-se "tango".
A incerteza no "placard" manteve-se até ao último minuto. O jogo, disputado em recinto impraticável e perante numerosa e entusiástica assistência, foi extremamente emocionante, onde nem sequer faltaram os golos (3-3). No entanto, os "azuis" foram a formação mais convincente. Com este resultado as duas equipas passaram a partilhar o primeiro posto.
Refreada a euforia, as atenções viraram-se para Rio Tinto onde nos esperava um osso bem duro de roer.
O campo da Ferraria foi pequeno para tamanha multidão que não quis perder pitada das incidências da partida.
Para este encontro a equipa viu-se privada do do concurso de Zé Viana, substituído pelo "reserva" Alexandrino "Marrana".
O terreno estava um autêntico lamaçal obrigando os atletas a um esforço redobrado. A vitória (2-1) elevou o Freamunde a comandante. O Rio Tinto foi grande em valentia mas os rapazinhos de Gil Aires colocaram em campo todos os seus recursos e venceram com inteira justiça. O árbitro, caseirinho que chegasse, invalidou, erradamente, logo aos 2 minutos, um golo aos azuis e brancos.
Mesmo claudicando nos desafios seguintes (empates com Vilanovense 2-2 e Pedrouços 1-1), a vitória, justa, sobre o Coimbrões por 2-0, serviu para o Freamunde conservar a liderança. A um ponto seguia o Avintes.
Sentindo os calcanhares roídos, o grupo despertou de um sono ligeiro e voltaram as goleadas.
Tudo parecia perfeito. As ambições eram desmedidas. Cheirava-se a título.
Mas à 18ª jornada o Varzim foi desmancha prazeres e venceu, no Carvalhal, por 1-0.
O "terramoto" abalou o grupo e as consequências, nefastas, não se fizeram esperar
O Avintes, na luta pelo ceptro e sedento de vingança, aproveitou com mestria o momento menos bom do adversário para o humilhar.
Pega lá seis "broas" e não digas que vais daqui! O Freamunde atrasava-se na luta pelo 1º posto. Só Alberto "Mirra", bem ao seu jeito, remou contra a maré. Zeca "Mirra" e Casimiro "Russo", lesionados, regressaram mais cedo aos balneários. O Freamunde acabou com nove porque ainda não eram permitidas substituições.
Mais uma derrota (3-1) em Perosinho e o Freamunde hipotecava, quase por completo, as aspirações ao lugar mais alto do pódio. Neste encontro a equipa actuou bastante desfalcada, notando-se as ausências de Zé Viana, Quim Bica e João Taipa, substituídos por António Rego, Capô e Quim Rego.
Surpreendentemente, e quando se esperava o descalabro, o grupo, sujeito a uma terapia de choque - não fosse Gil Aires "especialista" na vertente psicológica - apareceu completamente transfigurado, voltando às vitórias e às "seisadas".
As esperanças eram ténues mas ainda se vislumbrava uma luzinha ao fundo do túnel.
Para "Soares dos Reis", em Vila Nova de Gaia, o público acorreu em grande número. O Vilanovense também estava intrometido  na luta pela subida. O campeonato estava ao rubro.
O Freamunde foi o primeiro a abrir as hostilidades por Adão, que atirou fortíssimo após passe primoroso de João "Cherina". Estava feito o 1-0. Rejubilavam os adeptos azuis e brancos que agitavam, entusiasticamente, as bandeiras. A alegria, porém, pouco durou. O Vila reagiu de pronto e em escassos minutos virou o resultado para 3-1. O Freamunde, num último esforço, esteve perto de reduzir, mas foram os locais que ampliaram a vantagem para os 5-1, "score" final, deitando, definitivamente, por terra as ilusões dos "Capões".
No adeus ao campeonato (campo do Candal) nova derrota, desta feita por 3-2.
O 4º lugar final soube a pouco.
EQUIPA TIPO:
Peixoto, Alberto "Mirra" e Zeca "Mirra"; Manuel Pinto, Casimiro "Russo" e Zé Viana; AdãoViana, João Batista "Cherina", Quim "Bica", João Taipa e José Maria "da Couta".
OUTROS MAIS UTILIZADOS: Casimiro "Vaidoso", Leonel, "Capô", Alexandrino "Marrana", António Rêgo e Quim Rêgo.
EQUIPA:
Em cima: Peixoto, Alberto "Mirra", Casimiro "Russo, Zeca "Mirra", Zé Viana, Manuel Pinto.
Em baixo: Adao Viana, João "Cherina", Quim "Bica", João Taipa, José Maria "da Couta".
MARCADORES DOS GOLOS:
João Taipa (21); João Baptista "Cherina" e Adão Viana (16 cada); Quim "Bica" (10); José Maria "da Couta" (7); Capô, Zeca "Mirra" e Adv. p/b (1 cada)
OS JOGOS DE PÉ DESCALÇO
A bola fascinava, cada vez mais, o jovem. Só pensava nela. Sonhava com ela. Apaixonava-se por ela.
Não bastava os jogos de mrua, os despiques no Largo da Feira.
A "miudagem" queria mostrar-se no palco do Carvalhal, perante plateias bem compostas.
A anteceder um jogo do escalão de juniores, entre um grupo de jovens desta terra, seleccionados por Zeca "Mirra" (a formação em embrião) e a equipa do Sporting Clube Braga -  tudo convencionado pelo Eng. Hercílio Valente, então a residir na cidade dos arcebispos -, evoluíram duas formações de rapazinhos, entre os 15/16 anos, denominadas de "Norte e Sul". Possuíam camisolas, calções..., os próprios guarda redes apresentavam-se de boné e joelheiras. Tudo como os "grandes". Menos "chuteiras". Por isso, jogaram...de pé descalço.
Venceram os "sulistas" - se é que o resultado importa - por 2-1.
«Fui eu o autor dos dois golos - Contou-nos, emocionado, Rui "da Praça". Nessa altura - quem me viu e quem me vê! - possuía já um "cabedal" respeitável. À beira dos outros era um mariolas e distinguia-me não só pela envergadura física mas também pela habilidade que demonstrava. O Eng. Hercílio ficou tão entusiasmado com a minha exibição que pediu ao Zeca "Mirra" para me incluir na "linha" da equipa de juniores do Freamunde, no decorrer da segunda metade».
EQUIPA "PÉ DESCALÇO" NORTE:
Em cima: Fernando "Passareca", Barbosa, Ivo, Augusto Cardoso, Claudino "Mirra", Aníbal Torres.
Em Baixo: Fernando "Barrigana", Maximino "Candeeiro", Zulmiro, Luís "Mirra", Carlos Felgueiras.
EQUIPA "PÉ DESCALÇO" SUL:
Em cima: Jaime Rêgo, Rui "da Praça", Nuno Augusto, Rogério Pereira, Joaquim Lúcio, António "Baião".
Em baixo: Júlio, Carlos "Capas Negras", Luís Moreira, Humberto, Paulino "Mineira".
 JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A indústria do mobiliário escolar em Paços de Ferreira ( XII )

O caso da fábrica Albino de Matos, Pereiras e Barros, Lda.
Estávamos em 1909, os tambores da revolução republicana já se ouviam. Albino de Mattos, comerciante talentoso e aberto ao progresso, não descura a importância da imprensa para a divulgação da sua oficina e dos produtos lá produzidos. Envia para o jornal Progresso de Paços de Ferreira, cuja publicação se estende a nível do país e do Brasil, um exemplar do seu catálogo de material escolar. Pelo agradecimento feito, pelo jornal, podemos dimensionar o impacto que esta oficina já ia tendo no concelho:
Tivemos o prazer, ficando extremamente gratos de sermos mimoseados com um exemplar do bem elaborado catalogo geral do material escolar, que o nosso amigo distincto professor official e director da officina dos mesmos objectos escholares snr Albino de Mattos, teve a amabilidade de nos offerecer.
Pelo mesmo catalogo se vê quão desenvolvida está esta officina e os incontestáveis beneficíos que presta á instrução e ao publico em geral.
Faz ainda, publicar em A Federação Escolar o seguinte anúncio e alertando para o uso indevido do nome da sua fábrica:
Mobília escolar e material de ensino Albino de Mattos, professor complementar pela Escola Normal do Porto, que ha mais de 17 anos se dedica ao estudo e construção de mobília escolar e material de ensino para a escola primaria vem participar aos seus colegas no magistério, Ex.mos Srs Inspectores Primários, Ex.mas Câmaras Municipais e ao publico em geral que, não obstante a casa Lopes & C.ª, do Porto, ter cometido o abuso de anunciar que as suas mobílias escolares e material de ensino são de fabrico de Albino de Mattos, não é este fornecedor, não lhe cabendo portanto, responsabilidade alguma nos artigos de má construção ou que não satisfaçam ás exigências pedagógicas e higiénicas que a referida casa tenha vendido ou venha a vender, garantindo ao mesmo tempo, que quem se diriga a Albino de Mattos para Freamunde, onde tem as suas oficinas e residência, será bem servido debaixo de todos os pontos de vista.
Fornece tudo quanto seja preciso para a montagem de estabelecimentos de instrução especialmente para as escolas primárias; dá orçamentos e manda vir do estrangeiro quaisquer material que se deseje.
Fabrica carteiras escolares para dois alunos, desde 2$20 para três alunos desde 3$00, satisfazendo as principais exigências da pedagogia e da higiene.
Se alguém desejar uma carteira individual, para determinada estatura da criança ou adulto, é suficiente indicar a altura para a construir em condições garantidas de satisfazer.
Especialidade em caixas métricas, garantindo que no estrangeiro se não executam mais perfeitas nem mais completas.
Endereço postal: Albino de Matos - Freamunde
Endereço telegráfico: Albino - Paços de Ferreira.
Acreditando no mercado, o seu material escolar espalhou-se por todo o país o que é suficiente para avaliar o valor dos seus produtos, o génio empresarial e o importante papel no contexto concelhio, pelo seu carácter de pioneirismo da indústria do mobiliário escolar.
Em 25 e 26 de Março de 1918, participa naquelas que foram as suas últimas Conferências Pedagógicas, onde faz, antes do início dos trabalhos, um elogio ao seu amigo o senador Dr. Joaquim Leão Nogueira de Meireles há pouco falecido e uma saudação ao Ministro de Instrução, não no sentido político, mas pelo restabelecimento das conferências pedagógicas tanto do seu agrado e tão úteis para o ensino.
Morre pelas 18 horas do dia 24 de Setembro, com 55 anos, vítima de tuberculose pulmonar.
Na rúbrica Crónica de Freamunde do Jornal de Paços de Ferreira, em 26 de Setembro de 1918 pode ler-se:
Faleceu ante-ontem, dia 24 do corrente, pelas 18 horas, nesta freguesia, após cruciantes e prolongados sofrimentos o nosso bom amigo snr Albino Ferreira de matos, professor oficial aposentado e proprietário da acreditada oficina de mobiliário escolar e material de ensino, desta localidade.
O seu funeral que se realizou ontem pelas 20 horas, esteve muito concorrido.
Albino de Matos foi um homem plural. Vivenciador de inúmeras experiências conseguiu conjugar várias maneiras de ver, de sentir e agir. A expansão da escola pública, iniciada nos princípios do século XX sob os auspícios da República, irá favorecer os herdeiros e a sociedade que se constituirá sobre a sua obra.
JOAQUIM MANUEL FERNANDES DE CARVALHO - A INDÚSTRIA DO MOBILIÁRIO ESCOLAR EM PAÇOS DE FERREIRA

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Bombeiros Voluntários de Freamunde ( XXI )

5.5 A ERA DA MODERNIDADE
Atendendo ao que diz o Coronel Barreiros e a testemunhos como os de José Maria Gomes Taipa ou do Dr. Jaime Barros, é de facto com a direcção de Chamusca que os bombeiros ganham um novo impulso que os catapulta para a modernidade granjeando o prestígio e a aceitação na sociedade.
A mudança permanente de direcções nos primeiros anos de vida da instituição, imposta pelos estatutos e ao que parece também pela vontade dos seus dirigentes, os conflitos ou rivalidades permanentes e as dificuldades sociais e económicas da época não contribuíram para um melhor desenvolvimento da instituição, mantendo-se apenas com um pronto-socorro, moto-bomba e uma bomba manual.
A partir daqui as relações com as instituições dos bombeiros foram enormemente valorizadas, não só porque se filiaram na Liga dos Bombeiros Portugueses, mas também porque se notam constantes e profícuas relações com o Inspector de Incêndios e com as autoridades locais, distritais e centrais. É nesta teia de relações que surgem enormes ajudas do Estado que permitem a compra de equipamentos indispensáveis e que foram alterados os estatutos para permitir que os seus dirigentes possam manter-se em funções, por simples reeleição, sem qualquer limitação de mandatos. Esta continuidade dos dirigentes permitiu que fossem debeladas as dificuldades primárias de funcionamento dos bombeiros, dotando-o com os meios mínimos de funcionamento: a primeira auto-ambulância e um pronto-socorro novo com os devidos apetrechos para o desempenho que lhes era esperado, compras que demoraram da decisão à concretização mais do que dois anos, o tempo máximo que os estatutos originais permitiam aos dirigentes estar em funções. As duas novas máquinas foram inauguradas numa festa solene a 18 de Setembro de 1951 com a presença do Governador Civil do Porto, Braga da Cruz. Era já comandante António da Costa Brito.
Por força do empenho da direcção sobem substancialmente as receitas, não só por via dos subsídios do estado central, mas também pelas receitas conseguidas nas Festas da Flor, realizadas na feira anual de Santo António e de Santa Luzia, bem como em épocas especiais nas festas das freguesias vizinhas. Na direcção de José Chamusca foram ainda feitos peditórios e ainda aproveitada e amplamente desenvolvida uma ideia que já tinha germinado anteriormente, o "Parque dos Bombeiros", que levou à construção do rink no campo da feira, entretanto destruído pela construção recente do novo centro cívico de Freamunde. Até à construção do actual quartel, a exploração daquele espaço, entre Junho e Setembro, constituiu uma importante fonte de receita para os bombeiros e um pólo de animação do centro de Freamunde.
Com José Chamusca foi possível, graças ao empenho dos dirigentes e às ajudas obtidas quer do Estado quer da população de Freamunde e das freguesias vizinhas, conseguir afastar o espectro do fim da associação. No fim desta sequência de mandatos, afasta-se da direcção deixando a esperança e a viva aspiração de construir um quartel sede de raiz.
CHAMPANHE NA FESTA DE RECEPÇÃO ÀS NOVAS VIATURAS. A VOLKSWAGEN
5.6 AS VOLTAS DO QUARTEL
Continuando a ideia do antecessor, Arnaldo Costa Brito (1955-1959) entra na direcção com os olhos postos na construção do novo quartel. Reconhecendo o esforço feito pela direcção anterior e encarando a dificuldade de encontrar o terreno em lugar central, bem como o desenvolvimento do plano de urbanização para a Vila, a direcção dá poderes ao presidente para tratar do assunto.
Durante o primeiro ano, faz visitas a várias instituições congéneres para conhecer os seus quartéis e chega a pedir emprestado o projecto dos Bombeiros de S. Mamede de Infesta. Apesar de feito um ante-projecto de quartel, pelo arquitecto Fernando Leal, os seus cinco anos de mandatos terminaram, com várias tentativas para adquirir diferentes terrenos, mas sem sucesso.
António Teles Menezes Júnior, nos seus dois mandatos, também não vai ter melhor resultado no que diz respeito ao quartel, apesar das novas tentativas. As direcções cessantes tinham montado e mantido uma organização que este continuou. Neste período, continuando as práticas de Chamusca e de Cruz, nota-se um acentuar de apoios ao regime, nomeadamente ao oficiar o Presidente do Conselho e Minisitro do Interior "protestando contra as caluniosas afirmações proferidas na Assembleia-geral da ONU, acerca das nossas províncias ultramarinas, dando ao Governo da Nação o seu apoio e oferecendo os seus serviços para a defesa da Pátria".
É na fase final do segundo mandato de António Teles Menezes Júnior que o comandante António Costa Brito pede a sua demissão. Mas a substituição pelo Dr. Fernando Cruz, médico e filho do fundador Alberto Cruz, acontece já no mandato seguinte, com a repetição na direcção de José António Nunes Chamusca. Regressam com ele os sucessos directivos. Chamusca consegue não só a reforma do rink, como a reparação da auto-ambulância e ainda a aquisição de uma nova viatura, o "Jeepão". Aumentam os subsídios (quer para a compra de novos equipamentos, quer para a manutenção dos existentes) e as receitas próprias da corporação, fazendo de novo espectáculos a reverter para a associação. Apesar de não ter conseguido comprar um terreno mais central, quando Chamusca deixou a direcção no fim de 1967 tinha adquirido parte do terreno onde hoje está implantado o actual quartel.
A direcção de Teodoro Alberto Machado Pereira, que se lhe segue, não estava satisfeita com a localização e insiste em novas tentativas para comprar um terreno central, mas sem qualquer resultado. Nesta direcção que se manteve em funções até 1972 é adquirido algum material e vendido o primeiro carro da corporação para um coleccionador de Vizela. É também com Teodoro Machado que se realiza a primeira festa de aniversário da corporação em Julho de 1971, com honras de reportagem na Emissora Nacional. Nessa festa participaram apenas os membros da direcção, assembleia-geral, comando e corpo activo.
Em 1971 já estavam dados os primeiros passos rumo à construção do quartel sede, conseguindo o apoio do engenheiro freamundense Ulisses Valente que não só oferece o projecto como a sua ajuda para tentar arranjar subsídios para a sua construção. Curiosamente, é neste ano que aparece uma lista alternativa à direcção, verdadeiramente opositora. Numa assembleia-geral muito concorrida,a lista alternativa acabou por não ser votada por não apresentar os impressos com a sua lista, que seriam os boletins de voto, o que acabou por gerar alguma confusão e os lamentos do presidente ada assembleia-geral.
JOÃO VASCONCELOS - "BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE FREAMUNDE - 75 ANOS"

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XXV )

ÉPOCA 1950 / 1951 (SEGUNDA PARTE)
OS "ARGENTINOS" E A ÉPOCA DAS "SEISADAS"
O futebol continuava na crista da onda.
Com um bom método de formação o clube oferecia nova e talentosa geração de jogadores. Fernando Santos em "Coisas Minhas" - Fredemundus de 1990 - chegou a escrever: «Ainda vejo o meu velho amigo, o professor Gil Aires, treinador efectivo e desinteressado dos tempos das "seisadas", que mantinha uma filosófica fleuma enquanto a turba exigia "só mais um"».
O "Carvalhal" era um autêntico viveiro de futebolistas, uma casa enorme de talentos. O "Mestre" andava empolgado com as "performances" dos seus meninos.
Os rapazes jogavam mesmo muito bem, em constantes simulações, remates de todo o jeito e feitio, fintas prodigiosas, enfim, toda uma série de lances em que a imaginação prevalecia. Era tudo tão perfeito que a equipa ficou alcunhada de "Argentinos", designação que ainda hoje perdura, mais fazendo lembrar a célebre equipa de São Lorenzo de Almagro que encantou, com o seu virtuosismo, todos os portugueses numa digressão que por cá efectivou. Ficou célebre o jogo com o F. C. Porto (31 de Abril de 1947) em que venceram por 9-4.
Os "Azuis" estavam alicerçados numa defensiva sólida e coesa, bem comandada pela magnificência do "keeper" Peixoto, a elegância, a agilidade e visão de jogo de Zeca "Mirra" - um símbolo do futebol arte -, o arrojo e a paixão de Alberto "Mirra", Manuel Pinto e Casimiro Alves "Russo", a pujança, raça e determinação de Zé Viana, jovem que conseguia estar em toda a parte com uma eficiência notável, e o complemento do quinteto maravilha:
Adão Viana - Extremo direito habilidoso que procurava a linha de fundo como um pobre busca um pedaço de broa, daí executando centros perfeitos para o interior da grande área. Aliava estas qualidades às de goleador.
João Batista "Cherina" - Excelente "driblador", por vezes autor de golos impossíveis, protagonista de um futebol sedutor que todos admiravam. Um talento. No entanto, nem sempre se mostrava disponível. Quando entrava em campo com as meias caídas ou as mãos por dentro dos calções, era sinónimo que não tínhamos homem para o jogo. Noutros, lá surgia a ressurreição plena das reais capacidades. Feitios!...
Quim "Bica" -  Jovem avançado, rebelde e bizarro, possuidor de um permanente sentido de humor, imenso, que a todos contagiava. Sempre bem disposto e folgazão, trabalhava, de forma sublime, a bola com os dois pés. O seu remate era forte e certeiro. A "milheirinha" do grupo.
João Taipa - Terrível goleador. A figura de referência do ataque azul. Dele se poderia dizer que tinha a vantagem de jogar com os três pés, sendo um deles...a cabeça, tal a violência e colocação do seu remate. Então na marcação de "penaltys" era quase infalível: guarda redes para um lado e a bola, calmamente, para o outro. Era o ídolo da pequenada que corria a bom correr, colocando-se ajoelhada e colada às redes atrás da baliza sempre que o Joãozinho se aprestava para ludibriar o guardião adversário na conversão de qualquer castigo máximo.
José Maria "Couta" - Não era um esquerdino nato, não senhor, mas "desenrascava-se" muito bem. Fazendo uso dos dois pés, desarmava e saía rapidamente a jogar a preceito. Um poço de temperamento e generosidade que tudo dava em campo. A simplicidade em pessoa.
Nenhuma linha atacante se tornou tão lendária como esta "máquina" de fabricar golos. Deste mítico quinteto avançado, geniais intérpretes, ficaram registos de um futebol de enorme qualidade, inquestionável talento e rara virtusiodade.
A euforia era tal que os êxitos da rapaziada foram transportados, meses após o fecho do campeonato, para os palcos.
Da Revista de Costumes em dois actos "Freamunde é coisa boa" - original e música de Fernando Santos (1ª representação, na ASMF, em 25 de Dezembro de 1951), extraímos o hino, de sucesso assinalável, que jamais se apagará da memória dos freamundenses, várias vezes recordado e cantado em jornadas de evocação e saudade. O "artista" Quim Bica era  um dos personagens que integrava o elenco.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

terça-feira, 22 de outubro de 2019

A indústria do mobiliário escolar em Paços de Ferreira ( XI )

O caso da fábrica Albino de Matos, Pereiras e Barros, Lda.
As carteiras concebidas pelo professor Albino de Mattos na sua oficina em Freamunde, revelavam tudo o que se ia fazendo em termos de mobiliário escolar. A preocupação por uma nova forma de fazer estar os alunos na sala de aula, tendo em conta, não só as informações dos médicos higienistas, como também as informações que ia recolhendo através dos congressos que habitualmente frequentava, levam-no a criar um conjunto de carteiras dirigidas fundamentalmente ao emsino primário e liceal, que serão fortemente apreciadas e premiadas. À semelhança de Cardot em França e de Adães Bermudes, Albino de Mattos produzia o seu mobiliário escolar em conformidade com a estatura dos alunos, tendo uma tabela de modelos que referenciava nos seus catálogos.
Em 1907, no âmbito do IV Congresso da Liga Nacional contra a Tuberculose, realiza-se a Exposição de Higiene no mercado Ferreira Borges na cidade do Porto, onde foram expostos diversos modelos de carteiras escolares, entre as quais uma belga e outra do tipo inglês. Ao professor Albino de Mattos é-lhe atribuído o primeiro prémio, como refere a seguinte carta do secretário J. Carteado Mena:
"Venho communicar a v., que o jury nomeado por este Sub-Comité para classificar os materiaes expostos na sala destinada á classe X_Hygiene Escolar - jury formado pelos exc.mos snrs. dr. med. Almeida Dias, de Lisboa; dr. med. Sanches de Moraes, de Coimbra; e dr. med. Aleixo Guerra, do Porto; inspectores sanitários nas respectivas cidades, collocou o mobiliário exposto por v., em 1ª classe.
Permitta-me em nome do snr. Presidente d'este Sub-Comité de Exposição, agradecer a gentileza da sua participação, agradecimento que faço meu e muito penhorado".
Porto e Secretaria do Sub-Comité da Exposição de Hygiene, 10 de Abril de 1907.
Em 1908, António J. Aklves de Melo, director da Escola Normal de Braga, afirma:
"Querem saber qual o meu sentir sobre o material fornecido pelas suas officinas á escola de que sou director, e eu não tenho a menor duvida em lhes affirmar que tanto o mobiliário fornecido para a escola annexa, me satisfazem plenamente, tanto na parte higienica, como no seu acabamento e solidex".
De entre os numerosos objectos que constituem a mobília escolar, os mais importantes estão, sem dúvida, representados na imagem. Este conjunto de carteiras, quadro negro, contador e secretária com cadeira de braços, custava cerca de 1000$00 nos princípios do século XX.
Esta distribuição das carteiras permitia ao professor dirigir-se ao mesmo tempo a toda a classe e facilitava-lhe a vigilância. Definida no século XVIII pressupunha um ensino centrado no professor, que detinha o monopólio da palavra. É a organização tradicional do espaço da aula com os alunos dispostos em fila. Mas, embora hoje se possam encontrar nas nossas escolas outras formas de organizar o espaço pedagógico (em semi-círculo, em ferradura,, em quadrilátero) interessa, sobretudo, a atitude do professor face a esse espaço e à sua intervenção como moderador ou animador.
CARTEIRA PARA ESCOLA INFANTIL
Esta carteira para as escolas infantis tinha duas esteiras de correr, formadas por tiras de madeira de nogueira e plátano. Comportava duas lousas que, quando as esteiras corridas, serviam para os trabalhos manuais. O preço da carteira e das cadeiras em plátano e nogueira era de 260$00.
CARTEIRA PARA ESCOLA PRIMÁRIA
Esta carteira em madeira de pinho com tampo semi-articulado e banco fixo, era um dos modelos mais conhecidos e usado nas escolas primárias. De construção muito sóbria e resistente era dos mais económicos. O seu preço era de 60$00 ou 100$00 escudos em conformidade com a madeira usada.
CARTEIRA PARA LICEU OU ESCOLA NORMAL
Esta carteira em madeira de pinho com tampos articulados e bancos móveis custava entre 85$00 e 127$00.
CARTEIRA PARA ESCOLA SUPERIOR
Este modelo sólido era montado em pés de ferro "viga H". Tinha tampos semi-articulados e banco fixo. Custava entre 85$00 e 110$00.
CARTEIRA PARA COLÉGIO
A carteira era construída com caixa para livros. O tampo e o banco eram articulados. Para dar maior capacidade à caixa, costuma-se fabricar assentado a base da caixa sobre a perna de ferro forjado. Eram construídas em madeira de pinho e de mogno. Fabricavam-se para um aluno ou para dois.
O preço era de 65$000 em pinho e 90$00 em mogno para um aluno; 85 $00 em pinho e 110$00 em mogno para dois alunos.
JOAQUIM MANUEL FERNANDES DE CARVALHO - A INDÚSTRIA DO MOBILIÁRIO ESCOLAR EM PAÇOS DE FERREIRA

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Bombeiros Voluntários de Freamunde ( XX )

5.4 NOVAS LEIS
Porém, se as boas intenções originais deram resultados, com o passar do tempo começaram a mostrar alguma ineficácia, nomeadamente no segundo mandato do Padre José Joaquim Moreira. Na direcção deste, logo a meados do ano de 1938, os responsáveis viram-se confrontados com divergências entre o comandante e os motoristas. Mais tarde, em Março de 1932, Valente acabou por pedir a sua demissão do cargo em virtude das suas múltiplas ocupações da sua vida oficial e particular.
Além desta dificuldade, por força da alteração legislativa, ainda encontraram uma outra. A Câmara Municipal preparava-se para só atribuir à corporação de Freamunde um terço das verbas oriundas das companhias de seguros, tendo para isso questionado a direcção sobre se tinha aprovado e submetido a julgamento as contas das suas gerências. Não o tendo feito, por ignorarem a lei, não respondem ao autarca e vão directos ao Governador Civil a quem expõe a situação e obtêm ajuda para aprovação superior. se neste ano tiveram sucesso, pois o Governo Civil oficiou a Câmara Municipal para fazer o rateio da verba, em partes iguais, pelas duas corporações existentes no concelho, no ano seguinte (em finais de 1939) só recebeu a terça parte.
Outro "azar" ainda ocorreria no ano da reeleição do Padre Moreira. A meados do ano, quando o pronto-socorro e respectivo piquete, regressava de um incêndio para que tinha sido chamado numa freguesia de Lousada, o motorista deu conta de uma avaria que suspendeu a actividade da viatura por um longo período. Na oficina de Domingos Marques ainda se tentou reparar a junta da "culassa", com uma soldadura a "electrogéneo", mas não resistiu. Foram feitas diversas tentativas para resolver o "caso", chegando até a constituir-se uma comissão com o objectivo de o solucionar: reparando este ou comprando outro carro. Já perto do final do ano conseguiram encontrar uma oficina de automóveis do Porto, de Carlos Figueiredo, que se prontificou a arranjar o motor gratuitamente, pagando a associação apenas a "culassa", "fabricada no Porto, que se conseguiu em condições favoráveis e as despesas ocasionadas com um mecânico".
O corpo activo dos bombeiros ainda não tinha uma década de funcionamento, estava sem comandante e lavrava a indisciplina. No decurso desse ano ainda indigitaram outra pessoa para o comando, que não aceitou o cargo. Começam de novo as divisões no seio de uma instituição que ainda procurava o seu espaço na sociedade.
Se o pároco da freguesia encontrou dificuldades na gestão da instituição, a direcção de Armando Nunes de Oliveira (1940-1941), pese embora a sua experiência como autarca na Junta de Freguesia, também não encontrou facilidades. Na primeira reunião de direcção os seus membros trocam impressões "no sentido de animar a vida da corporação" reconhecendo a existência de divergências que, em seu entender, prejudicavam a vida da colectividade.
Esforça-se, por isso, em "tentar fazer esquecer as rivalidades contra a vida da associação dos bombeiros" e fazem a manutenção da instituição. Entre as suas intervenções está o tratamento das fardas dos bombeiros e sua limpeza, tendo convidado um "alfaiate para tratar das fardas e uma lavadeira para lavar as roupas de ganga". Apenas o sistema de cobrança de cotas pelas benfeitoras é alterado. Como já vinha mostrando alguma falta de eficácia, foi substituído pelo tradicional cobrador. Mas as dificuldades estavam instaladas e o mundo vivia apreensivo com a II Guerra Mundial. A "Festa da Flor" já com mais de uma década de "amável colaboração das meninas de Freamunde" encontra as primeiras recusas, "apenas cinco ou seis aceitaram".
Para governar a instituição em 1942 o Padre António Alves Pereira de Castro, figura influente no meio e determinante na gestão da firma benemérita dos bombeiros (Albino de Matos, Pereiras e Barros, Lda, de que foi grande impulsionador) e que em muito terá ajudado a associação dos bombeiros ao longo da sua vida, umas vezes por donativos directos outras porque cedeu muitos dos seus homens para prestar serviço na corporação.
A sua direcção elegeu a regularização do corpo activo como uma necessidade urgente, devendo diligenciar o possível para preencher a vaga do primeiro comandante que entendia "necessária para levantar o prestígio e disciplina do corpo activo no meio da corporação". Porém, mesmo falando entre os seus amigos, o presidente da direcção nada de positivo conseguira. Sérias dificuldades eram sentidas. A avaliar pela festa da flor, as próprias receitas da instituição, se já estavam em queda, conhecem os mais magros reultados.
Ao Padre Castro sucedeu um seu rival, o industrial António Pereira da Costa. Do período da sua governação (início de 1943) até ao fim de 1946 não existem actas, quer da direcção quer da assembleia-geral. Neste período sabe-se que foi feita uma recontagem de associados, eliminando os falecidos e os que, entretanto já tinham desistido, notando-se algum incremento. Os bombeiros no corpo activo eram 16. Neste período de certa obscuridade é possível ter havido três direcções e no mínimo uma, atendendo aos estatutos. No fim deste período, também nada de extraordinário foi feito, bem pelo contrário. A imagem da instituição perante as autoridades foi perdendo gradualmente prestígio, entre outras coisas, por não ter prestado as contas a que estava obrigada.
O prestígio da associação foi tão abalado neste período que, logo no primeiro mandato de José António Nunes Chamusca, numa visita do Delegado de Incêndios da Zona Norte, este terá saído "desagradavelmente impressionado, mercê do estado em que encontrou várias coisas, pela ausência do comandante e mormente por ter conhecimento das múltiplas irregularidades cometidas em épocas anteriores".
Segundo o Coronel Barreiros "esta agremiação atravessou um período de decadência que durou cerca de 8 anos, porém foi reorganizada em 1947. Numa Vila com a área e população de Freamunde, meio de grande desenvolvimento industrial, cuja importância e o movimento, aumentam de ano para ano, uma corporação desta natureza é absolutamente indispensável para ocorrer aos possíveis sinistros que principalmente nas fábricas podem atingir proporções graves. Mas em face das necessidades modernas da Defesa Civil do Território a sua existência e o seu aumento em pessoal e material constituem uma obrigação que não impende apenas à boa vontade e dedicação com que os freamundenses a têm mantido e defendido, mas também ao auxílio e carinho dos poderes constituídos".
JOÃO VASCONCELOS - "BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE FREAMUNDE - 75 ANOS"

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Banda de Freamunde ( XXVIII )

É claro que a Banda de Freamunde, a precisar de quem a acudisse, já se havia apresentado, desde Janeiro desse mesmo ano, com direcção renovada, presidida por José Maria Taipa Pinto Nogueira e sob o comando de novo maestro: Manuel de Abreu Neto.
Natural da freguesia de Eiriz, iniciou a sua carreira aos 10 anos de idade, por influência do pai. Já adolescente, incorporou-se na Banda do Regimento de Infantaria nº 6 (RIP). Convidado a concorrer à Banda da GNR do Porto, em 1958, acabaria por incorporar, doze meses depois, a Sinfónica da GNR, de Lisboa.
Interessado, continuou a enriquecer os seus conhecimentos musicais: primeiro, experimentou o piano; depois, concluiu o curso de solfejo, no Conservatório Nacional, e os de trompete, trombone, e trombone de varas e composição no Conservatório de Música do  Porto.
Empunhou, pela primeira vez, a batuta à frente da Banda de Música da Polícia de Segurança Pública do Porto, prosseguindo a carreira de maestro na Associação Recreativa e Musical de Vilela entre 1975 - 1989.
Em Freamunde, assumiu o cargo numa altura em que a associação musical enfrentava uma das maiores crises da sua já longa existência, após 169 anos de vida e glória ao serviço da cultura musical, ao serviço também da difusão dum nome e duma bandeira.
Era urgente "valer" à "nossa" banda, um dos "ex-libris" desta terra, para que continuasse a sua missão e o seu rumo por esse país fora. Por terras de Espanha e de França, onde sempre foi recebida com carinho e fidalguia.
Uniram-se esforços, e a neófita direcção, proposta pelo padre Arnaldo Meireles e composta de jovens já experimentados que haviam acorrido ao chamamento, com sangue a fervilhar-lhes nas veias e imbuídos de boa vontade e ânimos incentivados, mesmo enfrentando um orçamento deveras deficitário, com a ajuda de vários freamundenses e da autarquia conseguiu que a banda, "ligada à máquina", despertasse para a vida e passasse, de novo, a ter saúde, a ter credibilidade e divulgação. O próprio conjunto conseguiu reunir alguns "bons filhos", que à casa mãe regressaram, dispersos que estavam por outras "bandas", equilibrado com novos componentes vindos "de fora".
Freamunde era um alfobre de excelentes músicos. Quando lançamos à terra boas sementes temos óptimas probabilidades de alcançarmos frutos da melhor qualidade.
GERAÇÕES DE CONTRA-MESTRES
Depois, havia o maestro, para muitos simpatizantes um desconhecido. Manuel de Abreu Neto logo demonstrou os motivos pelos quais era considerado um dos mais coerentes e competentes profissionais das redondezas. Trouxe, essencialmente, trabalho e rigor, mesmo sem a exuberância na regência que alguns apaixonados reivindicavam. O nível qualitativo tem as suas razões expressas no profissionalismo, na competência dos músicos, dos contra-mestres, preciosos colaboradores, sempre solidários e apaixonados, mas também do seu maestro. Manuel Abreu Neto deu à banda um timbre singularmente aperfeiçoado.
Os 170 anos foram celebrados com pompa e circunstância. O programa, ambicioso, foi elaborado de forma digna, decente. Foram várias as bandas militares convidadas e que marcaram presença, em fins-de-semana sucessivos, para gáudio duma imensidão de admiradores.
Como fez questão de referir o jornal desta terra, "Fredemundus", «...Foi bonito e enternecedor presenciar a actuação da Banda da Força Aérea Portuguesa, frenética e superiormente dirigida por um filho de Freamunde: o Sargento-Mor Rogério Gomes».
A Banda de Freamunde fechou com "chave de ouro" a série de concertos dum programa que também incluía um jantar de confraternização, que reuniu à mesa centenas de pessoas, antes do encerramento das comemorações, presididas pelo Governador Civil do Porto, dr. Fernando de Melo.
Na parte oratória, pertinente o desejo manifestado pelo presidente da banda, José Maria Taipa Pinto Nogueira, na construção dum auditório, aproveitando a presença do Presidente da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, professor Arménio da Assunção Pereira, « o qual teceu à direcção da banda os mais justos elogios pela dimensão do programa atingido, e se disponibilizou para continuar a dispensar todo o apoio possível para a construção do auditório».
Nem de propósito, no mesmo mês de maio, a Associação Musical viu reconhecido o seu trabalho em prol da cultura musical, com a prestigiosa distinção de "Pessoa Colectiva de Utilidade Pública" atribuída por despacho do Primeiro Ministro, Aníbal A. Cavaco Silva, de 3/4/1992, nos termos do artigo 3º do Decreto Lei 460/77 de 7/11, o que honra e enobrece o seu historial.
JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS"

terça-feira, 17 de setembro de 2019

A indústria do mobiliário escolar em Paços de Ferreira ( X )

O caso da fábrica Albino de Matos, Pereira e Barros, Lda.
Contudo, nas viagens que fizemos pela Internet, deparamos com uma caixa métrica, da segunda metade do século XIX, nos Açores.
Não sendo propriamente o seu inventor não deixa, contudo, de ter um grande mérito. Conhecedor de toda uma realidade escolar e sujeito a desafios constantes que punham à prova a sua capacidade e imaginação, Albino de Mattos mobilizado pela importância pedagógica do material didáctico, tenta dar resposta às exigências de um ensino que se pretendia aberto, reflexivo, criativo e recria, não descurando o apoio dado por homens dedicados ao professor e à marcenaria, a caixa métrica que se vulgariza pelas escolas e liceus do país.
Havia três tipos de caixas métricas, de acordo com o material didáctico que comportavam, num total de 98 peças didácticas.
COLECÇÃO DE SÓLIDOS GEOMÉTRICOS
Estes sólidos eram fabricados em madeira de plátano. Havia três colecções: a primeira era composta por 13 sólidos, a segunda composta por 22 sólidos, a terceira mais completa, por 35 sólidos:
UTENSÍLIOS ESCOLARES
Albino de Mattos produz na sua oficina, toda a utensilagem necessária ao funcionamento harmónico e interactivo para a sala de aula. Como exemplo temos:
O Quadro
O quadro negro é um instrumento de trabalho necessário; utilizado de forma correcta contribui para clarificar os conteúdos essenciais focados pelo professor durante a lição e ajudar o aluno a compreender a importância da sistematização e da ordenação lógica da matéria leccionada. Foi considerado no século XIX como uma das maiores inovações no campo pedagógico por permitir que um só professor pudesse comunicar com o grupo de alunos, quer através da escrita, quer através de gráficos e desenhos. Este quadro gira em sentido vertical, podendo as duas faces ser utilizados.
Contador
Havia vários tipos de contadores. Este era o contador mecânico com pés de ferro.
As Carteiras Escolares
Idealizar uma carteira escolar parece um problema de fácil resolução, mas construir uma carteira onde a criança possa ler e escrever comodamente sentada, sem prejuízo para a saúde, torna-se mais difícil e complicado. À sua construção devem presidir ensinamentos e regras derivadas das leis anatómicas e fisiológicas.
Para ultrapassar determinados vícios de postura, que mais tarde ou mais cedo se traduzirão por defeitos na forma do corpo e muitas lesões visuais, é necessário que o mobiliário escolar preencha as indicações que os médicos higienistas aconselham para o fim a que se destina. Deve o construtor ter em atenção que a criança deve pousar os pés no chão quando estiver sentada, que a perna deve estar perpendicular ao soalho, que a coxa deve formar um ângulo recto com a perna, o tronco deve ficar perpendicular ao assento da cadeira, formando outro ângulo recto com a coxa. O banco, além de um encosto, deve ter a largura suficiente para a coxa repousar e, assim, contribuir para a sustentação do corpo; que a escrivaninha, onde o aluno coloca todo o material para a escrita e leitura, deve ter as dimensões adequadas para que o aluno quando escrever ou ler, não afaste as costas do encosto do banco, de modo que os seus ombros fiquem constantemente na linha horizontal. Para se evitar problemas visuais, muito frequentes nas nossas escolas, é necessário que a escrivaninha tenha uma inclinação na ordem dos 15 a 26 graus sobre o horizonte. Estas e outras preocupações devem ser consideradas pelo produtor/criador aquando da elaboração de uma carteira escolar e assim higienizar um espaço muitas vezes descurado pelos poderes públicos.
Vários modelos vão aparecendo ao longo da segunda metade do século XIX e princípio do século XX, por todo o país e pela Europa. Mariano Ghira, no"Archivo Pittoresco", para além de mencionar os elementos necessários a uma escola bem organizada, refere um modelo para três alunos em uso na Casa Pia.
Na Exposição Universal de Paris de 1867, onde a questão do mobiliário escolar foi enfaticamente colocada realçando-se os efeitos negativos sobre a saúde dos alunos pelo uso de um mobiliário inadequado, foi apresentado este modelo de carteira, mais adequado anatomicamente ao aluno.
Mais tarde, e de novo em Paris na Exposição Universal de 1878, surgem outros modelos de carteiras para um e dois alunos, de acordo com as investigações dos médicos higienistas.
Em 1902, os modelos desenhados por Adães Bermudes, compreendidos numa escala de estaturas de I a V, elegem a carteira de dois lugares, à semelhança do sistema francês e da tendência que se vem afirmando nos finais do século XIX na Europa.
 JOAQUIM MANUEL FERNANDES DE CARVALHO

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XXIV )

ÉPOCA 1950 / 1951 (PRIMEIRA PARTE)
RECEITAS "INVENTADAS" PARA COBRIR O "DÉFICIT"
O Sport Clube Freamunde, novamente guiado pela varinha mágica do carismático técnico Gil Aires - passou a auferir a quantia de 200$00 por mês, mas só no tempo de activo - mantinha a aura conquistadora.
O "Carvalhal" voltava a enlouquecer com o perfume do fantástico "onze", qual "Dream Team".
A Vila sorria para os seus ídolos.
Em Junho - decorria ainda o período de defeso - e enquanto a bola não rolava, pelo secretário Júlio Dias Andrade foi proposta a "conveniência" do clube servir de filial ao Futebol Clube do Porto, ideia logo "abortada"  pelos restantes colegas do executivo.
Por estas alturas, numa feliz iniciativa da direcção, disputou-se nesta terra uma gincana de bicicletas com a receita a reverter para os deficitários cofres da agremiação.
Dias após, no parque dos bombeiros, junto ao coreto, a população teve a oportunidade de assistir a um deslumbrante espectáculo de variedades com Maria Amélia Canossas à frente de graande elenco.
O lucro da bilheteira rondou os 2.000$00. Uma boa massaroca, sem dúvida!
Ainda aflitos - a tesouraria  nunca estava desafogada - os dirigentes lá inventaram mais uma fonte de receita, necessária para o devido equilíbrio financeiro: passagem do filme "O Leão da Estrela", com António Silva no papel principal. O êxito foi total (nestes tempos, algumas centenas de escudos eram consideradas "pequenas" fortunas) e as "coisas" começavam a melhorar.
O Sport Clube Freamunde continuava vivo e bem vivo. O clube crescia. Crescia tanto que aglutinava no seu seio adeptos de todas as freguesias do concelho.
"OLHEIROS" ATENTOS...
Alguns atletas, fruto do seu potencial, passavam a ser "cobiçados" por emblemas de outra galáxia.
Em Novembro, por indicação do Eng. Hercílio Valente, houve a possibilidade de João Batista "Cherina" - habilidoso avançado - transferir-se para o Sporting Clube de Braga.
Após conversações, a direcção do Freamunde autorizou que o referido atleta fosse sujeito a um breve período experimental no clube arsenalista, pelo qual actuou num encontro particular frente aos espanhóis do Celta de Vigo.
A exibição do aríete deslumbrou os observadores, iniciando-se de imediato contactos para a eventual cedência. No entanto, tudo estaria condicionado às exigências monetárias do clube azul e branco: 10.000$00 pela carta de desobriga. O atleta, esse, em termos salariais, teria que entender-se com a instituição da cidade dos arcebispos.
Depois de analisadas, as condições foram liminarmente rejeitadas pelo S. C. Braga e o João "Cherina" por cá continuou.
Já outros tinham "sentido" a mesma sorte: Zé Viana, jogador de estilo omnipresente, sombra gigantesca na movimentação do adversário, cometeu a "infantilidade" de rubricar contrato com dois emblemas, Freamunde e Salgueiros. Depois de um longo período de impasse, os nossos dirigentes conseguiram "resgatá-lo" ao clube de Paranhos, disponibilizando a quantia de 150$00 pela carta de desobriga.
Zeca "Mirra", defesa lúcido e inteligente, com lampejos de génio, foi outra vítima da relutância dos responsáveis directivos de então.
Braga, Académico do Porto e Académico de Viseu, entre outros, foram fortes pretendentes ao concurso deste interessante jogador.
«Fui abordado por gente de bem - o presidente do Académico de Viseu era um padre de de grande carácter - que me ofereceram outro caminho, muito vantajoso em todas as vertentes: trabalho em "terras de Viriato", melhor remunerado, e...o "vil metal" que a todos fazia um jeitaço. Alimentei algumas esperanças. A ocasião era óptima para me afirmar no futebol e melhorar substancialmente a minha situação profissional. No entanto, a carta de desobriga nunca me foi passada. Alguém da direcção - mais tarde viria a penitenciar-se, pedindo-me mil e uma desculpas - alegou, sem o meu conhecimento, perante os persistentes interessados que..."o Zeca não sai porque é um jovem muito agarrado à terra e sente que ainda é cedo para abandonar os seus"». Ponto final, parágrafo. 
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Bombeiros Voluntários de Freammunde ( XIX )

5.3 A REFUNDAÇÃO
Foi o vice-presidente da Câmara em exercício, António José de Brito que, servindo de administrador do concelho de Paços de Ferreira, a 30 de Agosto de 1933, com o chefe da secção administrativa da Câmara Municipal Alberto Ferreira Brandão Coelho, deu posse à Comissão Administrativa nomeada por alvará do governador civil do Porto para gerir todas as atribuições da assembleia-geral,  direcção e corpo activo, visto que os respectivos corpos gerentes tinham sido dissolvidos pelo mesmo governador.
Presidiu a essa comissão o Dr. António Maria Gomes Chaves Velho que juntamente com os seus pares definiram a 31 de Agosto os cargos que cada um ocuparia. Nessa mesma reunião, a primeira após terem tomado posse, depois de trocarem impressões sobre o modo como ultimamente tinha vivido a Associação de Bombeiros e, parecendo-lhes que os males de que estava enferma assentavam principalmente nos maus elementos que compunham o corpo activo, decidiram-se pela dissolução deste, abrindo novas inscrições para a formação de um novo corpo de bombeiros. A sua reorganização e instrução foram uma das medidas centrais desta comissão. Da instrução dada por um militar e pelo ex-comandante dos bombeiros de Penafiel, José Júlio, resultara, aos seus olhos, uma corporação mais disciplinada. Essa preocupação é também evidente quando em Outubro de 1933 deliberam elaborar um regulamento definitivo e organizar um provisório. Já antes tinham definido regras para os bombeiros, entre elas estabeleceram que uma vez por mês haveria um bombeiro que tinha o cargo de quarteleiro. Porém, é neste período que se confrontam com o primeiro acidente do carro de bombeiros. Denotando já uma melhoria no ambiente em que se vivia, acabam por não fazer um habitual peditório "para não ser maçador" e é referido que a reparação da viatura foi conseguida sem grandes encargos para o cofre da instituição.
CONVOCATÓRIA PARA ASSEMBLEIA-GERAL ELEITORAL
Uma constante desta Comissão Administrativa era a admissão de novos sócios protectores propostos por diferentes associados, entre quais estão figuras como o Padre Francisco Peixoto e o professor Francisco Fernandes Valente. A Comissão Administrativa, parece ter contribuído para alguma calma no seio da instituição, merecendo um voto de louvor unânime na assembleia-geral que elegeu a próxima direcção a 27 de Dezembro de 1936.
O médico e fundador da Associação dos Bombeiros, cidadão ilustre de Freamunde, Amâncio Leão de Moura (1937) foi quem veio a assumir a direcção no período pós comissão administrativa, mas não chegou a renovar o seu mandato. No ano em que lhe foram  confiados os destinos da instituição nomeia como comandante da corporação uma outra figura que marcou gerações de freamundenses: Francisco Fernandes Valente. É no seu mandato que introduz uma inovação que mereceu apoio e continuidade nos seus sucessores. Com o intuito de reduzir nos custos de funcionamento da nova organização convidam um grupo de meninas que se encarregam, por zonas, de fazer a cobrança das cotas dos associados, atribuindo-lhe a designação de benfeitoras. 
JOÃO VASCONCELOS - "BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE FREAMUNDE - 75 ANOS"