O caso da fábrica Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda.
CAPÍTULO 2
DA FÁBRICA À GRANDE EMPRESA
1. OS PEREIRAS
António Pereira da Costa ligado cerca de dois anos à fábrica de Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda., foi indubitavelmente um homem ligado à industrialização do concelho.
António Pereira da Costa (1888-1961) nasce na freguesia de Freamunde.
Filho de um casal de gente simples que repartia entre o campo e uma alfaiataria o seu labor quotidiano, muito cedo começou a ajudar a família no amanho de umas terras tomadas de arrendamento na freguesia de Ferreira. Tinha sete anos de idade quando lhe faleceu a mãe D. Rosa de Jesus, duro golpe numa criança que necessitava dos afectos e da ternura que só uma mãe pode dar. Aos dez anos (1898) quis seu pai, Teodoro Pereira Gomes, agora casado de novo, fazê-lo seminarista, para que mais tarde se tornasse sacerdote e, deste modo, lhe assegurar o futuro. Indiferente à ideia e tendo reflectido pouco na proposta, aceita ir com o pai a Lustosa consultar o pároco da freguesia, mais tarde Bispo António Barbosa de Leão, para auscultar a sua opinião e este lhe mostrar as responsabilidades clericais e tudo aquilo que ele deveria ser, caso aceitasse a vida de sacerdócio. Não aceita. O seu mundo teria de ser outro. Agora com doze anos (1900) e com a benção do pai vai para Sobrosa, Paredes, aprender a arte de marceneiro na casa do que foi um dos grandes mestres da arte, Júlio Barbosa Correia da Fonseca. Revelou-se um bom aluno, retendo os ensinamentos do mestre e rapidamente se apercebeu que estava ali o seu futuro. Serrar, moldar, entalhar, conceber coisas da madeira, era o que mais gostava. Durante 14 anos trabalhou António Pereira da Costa em Sobrosa não abandonando o seu mestre e amigo de tantas horas de labuta agora doente e senil. Após a sua morte, e com 26 anos de idade, regressa definitivamente a Freamunde e monta uma pequena oficina no Lugar do Calvário, com as poupanças, cerca de 200$00, que ao longo do tempo fizera. Corria o ano de 1914, época agitada e pouco propícia a negócios estáveis. Casa em 1915 com Adelaide de Sousa Castro.
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| ASCENDENTES E DESCENDENTES DE ANTÓNIO PEREIRA DA COSTA (1888/1961) |
Foi então que no espírito do grande industrial começou a esboçar-se a ideia de
achievemente motivation no seu projecto industrial, em parceria com o seu irmão Joaquim Pereira da Costa, que no Porto tinha frequentado a Escola de Belas-Artes onde adquiriu um curso de desenho, e Abílio Pacheco de Barros, entalhador e natural da freguesia de Figueiró. O projecto poderia ser arrojado, mas, mesmo assim, surge a sociedade Pereiras & Barros Lda. que, de imediato, inicia a construção, agora na Rua do Comércio, de novas instalações, como refere o jornal "Progresso de Paços de Ferreira" na sua edição do dia 13 de Junho de 1920:
Já se acha devidamente instalada em casa própria, na Rua do Comércio, desta povoação (Freamunde) a nova oficina de Mobiliário e Material Escolar, sob a firma Pereiras, Barros e Companhia Lda.
A sua inauguração realizar-se-há no próximo domingo, 13 do corrente, dia de feira anual de Santo António.
Pouco tempo depois, em 1921, morre o irmão, o que o abalou profundamente. Era o primeiro contratempo surgido inesperadamente. Ainda mal reposto da perda do irmão, um voraz incêndio destrói-lhe a fábrica (hoje edifício escolar) em 23/03/1923 que, juntamente com Abílio Pacheco de Barros tinha construído a Rua do Comércio.
(...)manifestou-se hoje n'esta freguesia, cerca das 3 horas, um pavoroso incêndio, na importante Fábrica de Serração Moagem e Mobiliário, da firma Pereiras, Barros e Companhia Limitada, destruindo-a por completo.
As labaredas do incêndio alcançaram grande altura e iluminaram distintamente toda a freguesia.
Apenas se pôde salvar o cofre, escrituração e o mobiliário de escritório.
A fábrica apenas estava segura em cento dez mil escudos, nas companhias Phoenix Royal, sendo os prejuízos importantes, pois ardeu uma grande encomenda de móveis de grande valor que estava para seguir para o seu destino.
Em 1923 com o dinheiro do seguro e com algumas poupanças, entram para sócios da Sociedade Comercial Albino de Matos, Sucessores, Limitada, com a nota de 68 contos cada, passando a adoptar o nome de Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda. agora com 28 sócios, sendo-lhe atribuído art 5º do contrato de sociedade:
A gerência social com dispensa de caução, fica a cargo dos sócios António Pereira da Costa e José Maria Ferreira de Matos, ao sócio Abílio Pacheco de Barros compete as funções de encarregado da secção de máquinas, madeiras e marcenaria (...).
Parágrafo 1º: Fica, contudo, estipulado que compete exclusivamente ao sócio António Pereira da Costa a direcção técnica da fábrica, bem como os serviços de errecadação e expedição.
Estávamos em 1924 e esta sociedade, que parecia um projecto audaz para António Pereira da Costa, torna-se um novo pesadelo em virtude de uma série de incidentes - com António Alves Pereira de Castro, o "Padre Castro" como era conhecido e que veio a marcar uma gerência forte num período de grande desenvolvimento industrial - que terminaram com o encerramento temporário da fábrica, isto cerca de dois anos volvidos após a sua abertura. Exonerado em assembleia-geral em 21/11/1926, regressa, agora só, ao lugar do Calvário, onde tinha iniciado a sua actividade industrial, com toda a sua experiência de grande artífice. Movido por uma grande força de querer vencer, retoma a actividade, recuperando lentamente não só a dignidade de industrial, mas também o património que perdeu com estas duas sociedades que se mostraram um fracasso.
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| CARTAZ PUBLICITÁRIO |
No catálogo, que à imagem de Albino de Matos mandou elaborar pode ler-se:
Do meu trabalhoe pelo meu trabalho nasceu e se tem desenvolvido o que é hoje a minha fábrica de móveis, mobiliário escolar e material didáctico, denominada - Fábrica do Calvário, de Freamunde - cujos produtos não receiam qualquer confronto com os de qualquer outras fábricas.
Não cuido de reclames falhos duma base sólida, que possa comprova-los.
E para não ir mais longe, bastará referir que ainda na Exposição do Congresso Pedagógico de Viseu (1928) à qual nenhuma outra fábrica de Freamunde concorreu, mas aliás, foi exposto mobiliário e material de outras procedências, foi-me conferido o 1º prémio, medalha de ouro e diploma de honra.
Assim respondo e identicamente responderei, quando necessário seja, áqueles dos meus competidores que malévola mas baldamente tentem prejudicar-me, estabelecendo, embora, para tanto, uma mal alinhada confusão.
Freamunde, Junho de 1933.
Refere ainda o jornal "O Comércio do Porto" em 27 de Março de 1929:
(...)
trabalhando em sua arte, desde a idade de 12 anos, António Pereira da Costa é o técnico competentíssimo, o mestre de grande experiência para quem aquela arte não tem segredos, e que só à sua conta tem preparado e educado mais de 300 operários, hoje artistas perfeitos na arte de marcenaria.
O material saído das suas mãos e da sua fábrica é tão perfeito, que lhe tem merecido os prémios da Exposição do Palácio de Cristal (Feira do Porto), do Rio de Janeiro, Exposição do 2º Congresso Pedagógico do Ensino Secundário Oficial de Viseu (1928), com o 1º prémio, medalha de ouro e diploma dehonra.
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| FÁBRICA DO CALVÁRIO |
Em 1953, António Pereira da Costa, em escritura lavrada no cartório notarial de Paços de Ferreira, constituiu entre Joaquim Ribeiro, Fernando Eduardo de Sousa Delgado da Silva Ribeiro dos Santos, Dona Zeferina Pereira de Castro e Felisbina Pereira de Castro filhas e genros) uma sociedade por cotas de responsabilidade limitada, adoptando o nome de
António Pereira da Costa, Limitada a quem coube a responsabilidade de perpetuar todo um património de sucesso industrial. Esta fábrica, cujo peso na industrialização do concelho e na formação de pessoal especializado foi importante para a formação do
cluster do mobiliário que existe actualmente. Encerrou as portas em 2001 por passividade e ineficiência da gestão e pouca adaptação dos serviços/produtos às novas exigências do mercado.
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| PRIMEIRO EXPOSITOR DE MÓVEIS EM FREAMUNDE E NO CONCELHO PERTENCENTE À FÁBRICA DO CALVÁRIO, CONSTRUÍDO POR VOLTA DE 1937. |
2. OS BARROS
Abílio Pacheco de Barros (1886/1961) nasce na freguesia de Carvalhosa, concelho de Paços de Ferreira. Cedo emigra para o Brasil, onde exerce a profissão de carpinteiro. Desiludido regressa a Portugal e com alum dinheiro que conseguira amealhar aceita o comvite de António Pereira da Costa nascendo, assim, a sociedade denominada Pereira da Costa & Barros, Limitada. Com percurso idêntico ao de Albino de Matos, Sucessores, Lda. onde ficou, ao contrário do amigo, até à sua morte, em 1 de Fevereiro de 1961.
JOAQUIM MANUEL FERNANDES DE CARVALHO - "A INDÚSTRIA DO MOBILIÁRIO ESCOLAR EM PAÇOS DE FERREIRA"