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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Viagem no tempo com...José Maria Pinto

O COZIDO À PORTUGUESA E A FACA DO CABO-VERDIANO
José Maria Pinto tem muitas histórias para contar dos tempos em que era verdadeiro craque da bola. O freamundense, de 75 anos, nunca escondeu a paixão pelo clube da terra, o SC Freamunde, de onde guarda as memórias nunca esquecidas..."Comecei a jogar no Largo da Feira, ali debaixo dos plátanos, com bola de trapos. Ali se formataram quase todos os jogadores da minha e outras épocas. O Zeca Mirra reparou em mim. Era como um olheiro da nossa época. E lá fui para o SC Freamunde para os juniores. Tinha 16 anos. Aos 18 anos já jogava nos seniores", recorda José Maria Pinto, orgulhoso por ter ao peito o símbolo do clube que sempre admirou. "Era extremo esquerdo e marcava muitos golos. Joguei com João Taipa, o exemplo dos jogadores, o Zé Manel da Raimonda, o Humberto, o Barbosa, o Zulmiro, o Luís do Cô, os guarda-redes Santos e o Quintela".
Aos 21 anos foi convidado para o Boavista e já depois de ter tido outros convites como do Benfica, a Cufe e a Académica, convites que não aceitou por motivos pessoais. "No Boavista estive quase anos e tive um problema renal porque bati nas grades no Salgueiros, por um empurrão dum jogador. Saí e fui para o Vizela, clube que ajudei a ser campeão da 3ª Nacional, passando para a 2ª Nacional. Depois dei por aí umas voltas de que francamente não me lembro, só me lembro de ter jogado no F. C. Paços de Ferreira e SC Freamunde. Acabei cedo a minha vida no futebol por motivos de saúde, sobretudo o menisco. Muitos episódios se passaram e alguns com saudade e algum humor".
E  há histórias que merecem ser partilhadas..." Um dia o SC Freamunde ia jogar a Macedo de Cavaleiros e um director, desconhecendo as regras do nutricionismo, encomendou no restaurante um farto cozido à portuguesa. Claro que ao ver aquilo, o treinador mandou devolver a comida. Os jogadores foram quase sem comer para o jogo. Foi caso de risota. Outra vez dormimos fora. Eu pus as minhas coisas direitas e em cima da cama o meu pijama. O meu companheiro de quarto, bom jogador e bom rapaz por sinal, vê o pijama e veste-o. Porquê? Pensava que era a pensão que fornecia pijamas a todos. Mais uma vez foi uma risota!"
E há mais histórias..."No Boavista, um dia pedi a um jogador cabo-verdiano, até bom rapaz, se me levava uma carta à minha namorada e dei-lhe dinheiro para o eléctrico. À noite perguntei-lhe o resultado e ele devolveu a carta dizendo que não era criado de ninguém. Manifestei o meu desagrado e ele puxou de faca para mim. Isto levou à intervenção dos directores do Boavista e tudo ficou resolvido".
As histórias vividas por José Maria Pinto davam para escrever um livro, mas só "com tempo e espaço, muitas mais histórias poderiam ser contadas, e com muita graça, e outras com muita dor. O futebol pode gerar disso tudo: alegria, dor, sofrimento, convívio e saudade...E que saudade..."
JORNAL GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Curta-metragem de freamundense no Fantasporto

FIND ME, curta-metragem realizada por Bruno Ferreira, freamundense de 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho, foi seleccionada para passar na 34ª edição do conceituado festival da cinema Fantasporto e concorre ao "Prémio Cinema Português - Escolas de Cinema".
Esta é a segunda participação do jovem realizador neste festival que se realiza desde 1980, sendo considerado o de maior prestígio internacional realizado em Portugal.
A curta-metragem encontra-se disponível no Youtube e será projectada no dia 6 de Março, no Teatro Rivoli, local escolhido para o evento que decorre entre 28 de Fevereiro e 7 de Março.
IN Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Freamunde e a Casa do Infantado (XVIII) conclusão


Para ficarmos com uma ideia da vastidão desta entidade dos segundos filhos dos reis de Portugal, nas vésperas do seu desaparecimento, bastaria recordar que dispunha de entre outros bens fundiários e rendimentos diversos, além de Freamunde, da cidade de Beja, Quinta de Queluz, Serpa, Moura, Vila do Chão da Couve, e sua comarca, Valença do Minho, Pinhel, e sua comarca, Vila Real e Lamas de Orelhão, em Trás-os-Montes, Aveiro, Canelas, Linhares, Fornos de Algodres, Egas, Dones, Vimioso, Bobadela da Beira, Pena Verde, Vila da Feira, Oliveira de Azeméis, Ovar, Macieira de Cambra, Castanheira do Vouga, Cortegaça e depois o vastíssimo priorado do Crato (Vila do Crato e sua comarca, Gáfete, Sertã, Amieira, Proença-a-Nova, Cardigos, Oleiros, Belver, Gavião, Tolosa, Carvoeiros). Nos seus domínios incluíam-se ainda várias lezírias do Tejo e Azurara, próximo de Vila do Conde. Além de rendimentos de vária origem (padroados em igrejas, tenças e comendas, avultavam os provenientes das saboarias do Reino, as «portagens» de Santarém e até os «alfinetes» do Porto...
Nas vésperas da sua extinção (como já foi verificado, por decreto de 18 de Março de 1834), as receitas da Sereníssima Casa do Infantado excediam os 217 contos anuais. Deste imenso conjunto, que seria incorporado nos Bens Nacionais e vendido depois, forma retirados os palácios de Queluz, da Bemposta, do Alfeite, de Samora Correia, de Caxias e de Monteira, aplicados para residência e recreio da Rainha Dona Maria II. (conclusão)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Toponímia Freamundense

RUA DO COMÉRCIO (CONCLUSÃO)
A empresa Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda que chegou a ter mais de 400 empregados, fabricava não só mobílias de alta qualidade mas também material escolar, milhares de escolas primárias foram mobiladas com os móveis da saua marca"ALBAR", mas também colégios, liceus e universidades. A fábrica tinha também uma óptima serralharia que fabricava especialmente móveis sofisticados para hospitais e casas de saúde. Havia uma boa secção de colchoaria e estofos, tinha cromagem, uma vidraria e espelhagem, e até moinhos para moer milho ao público e, nos anos de seca, os moleiros de Sousela, Arreigada, Frazão, etc., aqui traziam o milho para atenderem os seus clientes. Uma completa drogaria para a fábrica e público em geral, onde se vendia cal, telha e até palha trilhada para os camiões da fábrica que os camiões da fábrica traziam ao regressar das entregas do mobiliário. Posto de combustível aberto toda a noite e balança para pesar camiões. Uma cantina para os operários que assim o desejassem almoçar para não se deslocarem a casa.
A fábrica "ALBAR" encerrou as suas portas a partir do dia 1 de Setembro de 2006, oitenta e três anos após a sua fundação. O gerente, senhor Teodoro Alberto Machado Pereira, funcionário da mesma há 56 anos refere que «fecha as portas com apenas 42 empregados sendo todos eles indemnizados», menciona ainda que «durante anos insistimos na fabricação de mobiliário para as escolas, mas a concorrência foi aumentando e as coisas passaram a ficar cada vez mais difíceis (...) talvez se tivéssemos ido por outros caminhos, como outros fizeram, as coisas poderiam ter sido diferentes», conclui.
A notícia do encerramento de actividade desta empresa fabril, foi recebida com surpresa e tristeza, tanto por parte dos funcionários como da população que via nessa fábrica uma espécie de mãe que acudia sempre que necessário a qualquer pessoa que lhe solicitasse fosse o que fosse, pois naquela fábrica nada faltava.
Eu próprio me socorri muitas e muitas vezes dos seus favores.
Ficou na memória de quantos assistiram ao incêndio de 5 de Agosto de 1964, que destruiu a ala nascente da fábrica onde se encontrava a secção da colchoaria e estofos, assim como a drogaria que desapareceram por completo.
 Edifício da antiga "escola dos meninos", ou "escolas amarelas", construído em 1938
Actualmente é a sede da A. C. R. Pedaços de Nós
No local da primitiva fábrica de móveis da firma Pereiras & Barros, Lda, foi construído e inaugurado em 1938, um edifício para a escola de meninos, as chamadas escolas amarelas da rua do Comércio, onde o autor destas linhas que mora a uns escassos metros, ali aprendeu a ler, escrever e contar com os excelentes professores Francisco Fernandes Valente e esposa D. Alcina Valente.
 Edifício da antiga "escola das meninas", construído em 1927
Actualmente é o posto da Guarda Nacional Republicana de Freamunde
Ainda do lado norte, o edifício escolar que deu o nome à avenida das escolas, hoje rua Professor Francisco Valente, foi construído em 1927, e de princípio serviu para os dois sexos, foi depois sede da Junta de Freguesia e hoje está ocupado pela Guarda Nacional Republicana. Assim que a G. N. R. abandone o edifício está previsto a instalação de um museu onde serão expostas entre outros as ferramentas que serviram aos marceneiros das diversas fábricas de móveis e oficinas de Freamunde.
Mesmo no final da rua e numa casa térrea que nos princípios do século XX, pertencia a Martinho Monteiro, vendedor de peixe, foi a pequena habitação vendida a Serafim Pacheco Vieira, que a aumentou com o 1º andar e aquele elegante varandim, está hoje uma frutaria onde por volta dos anos 30 foi uma alfaiataria, depois uma loja de venda de Pão de Ló de Margaride, a seguir uma barbearia, depois um posto de leite, e já há algumas décadas a frutaria acima referida. 
O topónimo de rua do Comércio está perfeitamente adequado.
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Feira de Santa Luzia ou dos Capões

Não há volta a dar-lhe: «Conceição de sol, Luzia de chuva» ou vice-versa, tanto faz...Tal e qual. Depois de vários dias radiantes, no passado dia 13, logo a uma sexta-feira, e todos sabemos como os mais supersticiosos dão importância a estas coisas, a tradição manteve-se: choveu, sobretudo na parte de tarde.
Mesmo assim, milhares de forasteiros afluíram a esta cidade, atraídos por um cartaz único no país, onde só aqui, em Freamunde, na secular Feira dos Capões, o bicho impera.
O programa mantém-se inalterável ao longo dos tempos: abundância em toda a gama de agasalhos, próprios da estação - com a crise que grassa aumenta o número de tendeiros -, o calçado da "moda", alfaias agrícolas, produtos hortícolas, brinquedinhos de Natal...Enfim, um sem número de utulidades, num ambiente animado pelos hilariantes "contrabandistas", vendedores da banha da cobra, e das barracas de farturas e "comes e bebes". Uns mais outros menos, todos fizeram negócio.
O cheiro das castanhas assadas sentia-se em cada esquina. Só que...um quarteirão custava os olhos da cara: três euros! Até o camarão se sentiu envergonhado. Mas uma vez não é vez e as "quentes e boas" lá foram todas vendidas.
Repleta de fiéis estava a capela de Santo António, onde foi celebrada missa solene e se venerou a milagrosa imagem de Santa Luzia, advogada da vista. «Queres ver o dia? / Pede a Santa Luzia».
As tendas para os galináceos, montadas junto ao coreto, servindo a Associação de Criadores de Capão que, com outras parcerias, Junta de Freguesia, sobretudo, promoveu o concurso de capão vivo, segundo regras específicas, onde se olhava sobretudo ao peso, qualidade e beleza das aves, apreciadas e avaliadas por um júri com conhecimentos de causa, estavam bem compostas de capões e perus. Contudo, a maioria dos "eunucos" já tinham sido vendidos aos proprietários dos restaurantes.
Na véspera, na "Quinta do Pinheiro", realizou-se um jantar de gala, com a presença de vários convidados. No concurso gastronómico, promovido pela AJAF em parceria com a Junta de Freguesia, o júri apreciou os pratos de capão cozinhado e apresentado por oito restaurantes.
Como também já é tradição, na "barraca" das Sebastianas, montada junto à Associação de Socorros Mútuos, com cantiguinhas à mistura, a abarrotar de gente, esgotaram-se as pipas do verde tinto e nem um rojão sobrou. Que rico S. Miguel para os festeiros!
O habitual e apreciado Festival de Equitação, uma vez mais organizado pelo cavaleiro freamundense Abílio Ribeiro Gomes, teve lugar em terrenos do parque de lazer, junto à piscina, com exposição de cavalos de diferentes raças, derby de atrelagem e outros tipos de demonstrações, perante um entusiástico público que, mesmo debaixo de uma arreliadores chuva, não regatearam palmas às habilidades de cavalos e cavaleiros.
Pronto: com adágio ou se ele, uma coisa é certa: para o próximo ano Freamunde voltará a festejar a Festa de Santa Luzia e a Feira dos Capões.
Joaquim Pinto - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Há mais de 60 anos a vender capões

Maria Fernanda Alves da Costa tem 73 anos e mora em Covas, Lousada. Margarida Moreira de Bessa, natural da freguesia lousadense de Figueiras, mas uma mulher de Freamunde, é dez anos mais velha.
Ano para trás, ano para a frente, as duas são das vendedoras de capões mais antigas da tradicional Feira de Santa Luzia que, na sexta-feira da semana passada, voltou a levar milhares de pessoas a Freamunde. Habituadas a este ritual desde novas, Maria Fernanda e Margarida prometem abandonar a feira e os capões apenas quando a saúde já não lhes permitir fazer o percurso entre as suas casas e o centro de uma cidade onde, por estes dias, o capão é rei.
500 frangos capados

A história destas duas mulheres é semelhante e ter-se-á cruzado algumas vezes, sobretudo por esta altura do mês de Dezembro. "Vendo capões desde que eles custavam 150 e 200 escudos. Tinha dez anos e vinha com a minha mãe a pé desde Figueiras. Trazíamos cerca de 12 capões para vender na Feira de Santa Luzia", recorda Maria Fernanda Alves da Costa.

Nessa altura, Margarida Moreira de Bessa também já tinha o seu espaço para apregoar aquele que dizia ser o melhor capão de toda a feira. "Aos 18 anos casei e vim para Freamunde. Pouco depois experimentei capar os meus galos e correu bem. Nunca mais parei", refere.

Para esta octogenária não existe segredo nenhum: "faço um corte à beira do rabo do frango. Depois meto-o debaixo do braço e tiro os grãos. A seguir, coso o rasgo e, no fim, corto-lhe a crista e as barbas". Foi desta forma aparentemente simples que Margarida capou cerca de 500 frangos… só este ano. "As pessoas telefonam-me e eu lá vou capar. Já fui a Braga, Guimarães, Arcos de Valdevez ou Aveiro. Não levo dinheiro nenhum. As pessoas só têm de me vir buscar, dar-me o almoço e trazer-me a casa", garante.
Maria Fernanda Alves da Costa, mãe e avó, tem a mesma paixão pelos frangos que não chegaram a galos, mas nunca capou nenhum. "Tenho os dedos curtos e as mãos inchadas. Não consigo capar", explica. Mesmo assim, assegura que nunca faltou a uma Feira de Santa Luzia, na qual vende frangos capados por uma vizinha. Também os vende um pouco por todo o país. Desde Amarante a Lisboa, passando por Guimarães. "As pessoas ficam com o meu número de telefone e encomendam. Outras vêem o anúncio em minha casa e páram para comprar", diz.


50 euros é o preço "justo"

Em Julho, Maria Fernanda capou 82 frangos comprados em Março. Porém, nem todos chegaram a capões. Durante o processo de crescimento – que se alonga por sete, oito meses – 17 morreram devido àquilo que diz ser "uma operação delicada". "É normal morrerem assim tantos", complementa. 
Para a feira levou 21 capões, mas a meio da tarde só tinha vendido três. "O povo quer barato, mas eu prefiro vendê-los a um preço justo", sustenta. Preço justo que estipulou entre os 45 e os 50 euros e que, afiança, não pagará o trabalho tido com os bichos. "Não fazemos contas às horas que passamos em volta dos galos", avisa.

Na Feira de Santa Luzia os capões de Margarida Moreira de Bessa também estavam à venda por uma quantia a rondar os 50 euros, mas a mais velha capadora de Freamunde prefere fazer negócio com restaurantes e com quem a procura em casa. "Só trouxe dois capões para o concurso. Tirei muitas vezes o prémio, mas percebo que não possa ganhar sempre… os outros capadores começam a reclamar", afirma.

Com ou sem prémio, Margarida voltará à Feira de Santa Luzia enquanto as forças lhe permitirem. Terá ao seu lado Maria Fernanda, que com o pregão "vai um capão" tentará convencer os fregueses a comprar-lhe um frango que, por ter sido capado, tem um tamanho anormalmente grande para aquele tipo de bicho.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XVII)

Como disse no início deste trabalho, a extinção da Casa do Infantado deu-se por decreto de 18 de Março de 1834, juntamente com a legislação governamental de 1834-1835, que extinguiu igualmente os conventos, nacionalizando os respectivos bens (enorme património fundiário que o Estado Liberal lançou no mercado) foi decisivo para a transformação estrutural da sociedade portuguesa, que, nos inícios da década de 1850, se podia considerar já consolidadamente liberal. Com efeito, só após os sobressaltos ocorridos nos anos 30 e 40 do século XIX e as experiências setembrista (1836-1842) e cabralista (1842-1851), é que o Portugal oitocentista encontrou a estabilidade possível, com o advento da Regeneração em Maio de 1851, estabilidade essa que estava a ser pedida como o pão para a boca.
Logo após em 1856, era Lisboa e grande parte do país, invadido por duas epidemias terríveis que causaram numerosas vítimas - a febre amarela e a cólera-mórbus - o Rei fez quando pôde a favor dos doentes, visitando os hospitais a socorrer e a animar os doentes. Mesmo assim continuou o desenvolvimento da Instrução e realizaram-se ainda melhoramentos importantes. Criaram-se muitas escolas e fundaram-se o Curso Superior de Letras e o Observatório Astronómico de Lisboa, foi ainda abolida a pena de morte, para os crimes civis; proibiram-se os trabalhos forçados na metrópele e a prisão perpétua; e aboliu-se também a escravatura em todas as terras de Portugal.
Foi ainda um período áureo nas Letras, com os brilhantes escritores: Almeida Garret, António Feliciano de Castilho, Oliveira Martins, João de Deus, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Pinheiro Chagas e tantos outros que deram a Portugal honra e prestígio. (Continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Toponímia Freamundense

RUA DO COMÉRCIO
Começa desde 1983, na rua Grupo Teatral Freamundense e termina no cruzamento das ruas Padre Castro e rua do Carvalhal.
Foi o principal comerciante desta rua, o vereador em 1902, António José de Brito, a quem a viação desta terra muito deve, mais do que a nenhum outro, importantes serviços, quem lembrou e conseguiu da Câmara Municipal a designação de rua do Comércio. A primeira rua de Freamunde estendia-se desde a calçada da Gandarela até ao largo da Feira. Nas comemorações do cinquentenário de elevação a vila a rua foi dividida no cruzamento das ruas do Carvalhal e Padre Castro.
Foi e ainda é a principal artéria de Freamunde, onde se efectuam grandes transacções comerciais e a maior em trânsito rodoviário. A rua é uma parte da estrada nacional 207 rasgada nos meados do século XIX feita em terra batida, mas numa reunião de conselho de ministros o engenheiro Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas, determinou nos anos 40 do século passado que as terras com o estatuto de vila e com mais de mil almas, a via principal fosse beneficiada com uma pavimentação em paralelepípedos. O brigadeiro Alves de Sousa na altura com o posto de tenente, apressou o processo e Freamunde foi uma das primeiras terras a ser beneficiada, e considerada uma das melhores do país.
Ali havia uma das maiores drogarias do norte do país e a primeira bomba de gasolina do concelho, pertencente à firma António José de Brito & Filhos, Lda, e que o jornal "O Pacense" em 15 de Julho de 1930, publicitava: "Depósito de material eléctrico. Sortido completo de lâmpadas MAZDA - as melhores de todas. Candeeiros de todos os géneros. Aparelhos para aquecimento. Pessoal competente para instalações particulares. Transformam-se candeeiros em diversos estilos. Representantes neste concelho da casa de candeeiros "Electro Bazar" de Ângelo & Irmão. Depositários da Tabaqueira e Fosforeira Nacional. Agentes bancários etc. etc."
A uns cinquenta metros a poente desta importante casa, havia desde 1890, a hospedaria de Valentim Moreira Dias Cardoso, com a denominação de "Restaurante Cardoso". "Além de bastantes e bem arejados quartos, possui uma esplêndida sala de jantar, podendo comportar para cima de sessenta pessoas."
O seu muito digno proprietário não se poupa a trabalhos para ser agradável a seus fregueses e amigos, tendo adquirido para estes dias de festas a Santo António um belo cozinheiro e um escolhido pessoal para o serviço de mesa e balcão", lia-se no reclamo comercial desta casa, que os meus prezados leitores fiquem com uma ideia de como era feita a publicidade nesses tempos.
Do lado sul, onde está o talho e no primeiro andar o Núcleo do Sporting Clube de Portugal, foi em tempos passados um grande estabelecimento de fazendas de Miguel Nunes de Oliveira. No posto de abastecimento e bloco habitacional eram quintais em forma de rampa cobertos de ramadas, ao fundo a casa do reitor que servia de habitação ao caseiro da quinta pertencente ao Dr. Portocarreiro.
Em 13 de Junho de 1920, dia de Santo António, foi inaugurada a fábrica de mobiliário e material escolar sob a firma de Pereiras, Barros e Companhia, Lda, que laborou com qualidade e eficiência durante cerca  de três anos, até que em 23 de Março de 1923, um pavoroso incêndio a tornou pasto das chamas as quais iluminaram quase toda a freguesia. O sinistro dera-se por volta das três da madrugada e o clarão foi notado nas freguesias circunvizinhas, e como nesta data ainda não existiam os bombeiros, a fábrica ficou completamente destruída. Foi então quando se pensou em novas instalações nuns terrenos a duzentos metros a poente e pertencentes ao dr. Alberto Carneiro Alves da Cruz, que fica como sócio da Sociedade Comercial por cotas agora com 28 sócios, entre a viúva da firma Albino de Matos Sucessores Limitada, D. Elisa da Costa Torres, e a nova firma adopta o nome de Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda. (Continua)
João Correia - Toponímia Freamundense - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XVI)

Pelo relato do reitor Lucas Gomes Ferreira em 1758, aparecem como donatários de Freamunde os senhores Infantes do Reino, uma vez que o marquês de Vila Real havia sido banido do plantel da nobreza pela conspiração de lesa Sua Majestade D. João IV.
No tempo do marquês de Vila Real, Freamunde foi património da Ordem de Cristo à qual estavam destinados proventos dados pelo marquês para sustento dos religiosos e a ordem tinha as mesmas honras e privilégios como se fossem dados pelo rei.
Por extinção da Ordem dos Templários em 1307, conseguiu D. Dinis do Papa autorização para criar em Portugal a Ordem de Cristo. Acto político muito importante. Para a nova ordem passaram todos os bens dos Templários, evitando-se assim a saída de grandes riquezas, e os novos freires prestaram a Portugal serviços importantíssimos. A cruz adoptada foi uma cruz prateada com outra branca sobreposta mais ou menos estilizada - a conhecida Cruz de Cristo, considerada hoje um símbolo nacional.
A Ordem de Cristo instalou-se primeiro no castelo de Castro Marim e depois no convento de Tomar.
Diz o Catálogo dos Bispos do Porto: "O Salvador de Friamundi, Ermidas: Santa Lhena, São Sebastião: tem de comunhão 242 pessoas, menores 36. Há préstimo, rende cento e setenta mil reis. Vigaria".
Em 1821, tinha Freamunde 272 fogos. Pessoas de sacramento e menores de 7 anos para cima: 895. Tinha reitor e Coadjutor. Esteve imposta na igreja uma censoria de 200 reis e de 40 alqueires de milho. Pertenciam ao Infantado 587.200 reis, valor dos dízimos em milhão, centeio, milho alvo, vinho, painço e feijão.
Em 1858, o reitor António Ferreira de Matos num relatório enviado à cúria diocesana diz: que Freamunde é aldeia populosa; que era donatário o Infantado e tinha privilégios do mesmo: e que havia mercado duas vezes no mês, nos dias 13 e 27 e as grandes feiras anuais de 13 de Junho e 13 de Dezembro, são sempre concorridíssimas e têm o nome dos santos do dia em que se realizam, Santo António e Santa Luzia respectivamente. (Continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XV)

A Casa do Morgado de Freamunde, foi em parte pertencente a um prazo de Vidas da Casa do Infantado.
Num período de grande agitação social, Freamunde não escapou em 1842 às surtidas e abusos dos soldados sob o comando do Barão de Freamunde, General Soares de Moura, influente no concerto de uma paz que se pedia como pão para a boca. As revoluções sucediam-se a cada momento, sendo as mais importantes a de Setembro que restaurou a Constituição de 1822, a dos marechais Saldanha e Duque da Terceira que pretendiam impor a Carta Constitucional; a de Costa Cabral que substituiu a Constituição pela Carta; a da Maria da Fonte contra o governo de Costa Cabral e ainda a dos Regeneradores, chefiada pelo Marechal Saldanha que lhe deu a chefia do governo e ficou conhecido como o Governo da Regenaração.
Entretanto em Freamunde, reuniram-se uns conjurados contra o governo liberal, entre os quais o capitão-mor António José Lopes de Meireles, do Alto da Feira. Os liberais triunfaram, a denuncia não se provou e os atingidos recuperaram as suas categorias sociais. O capitão-mor Lopes de Meireles creditara-se como grande patrocinador de muitos eventos.
Quando em 1850 se firmou o contrato de casamento do ilustríssimo senhor Henrique Pinto de Vasconcelos Abreu e Lima (vindo da Casa da Manguela - S. Tiago da Carreira - Santo Tirso) viviam na casa da Feira o acima citado capitão-mor Lopes de Meireles, viúvo, e sua legítima filha D. Maria Augusta Lopes de Meireles. Só posteriormente começou a designar-se por Casa do Morgado, (filho mais velho ou herdeiro de bens vinculados) pois até então era conhecida por Casa da Feira, a partir de 1720, data da primeira feira dos 13 de Junho.
O nosso Morgado, figura muito querida em Freamunde, nasceu a 12 de Julho de 1824, e faleceu a 13 de Fevereiro de 1907, contando 83 anos. Seus pais viveram na Casa da Manguela - S. Tiago da Carreira - Santo Tirso e ali devia ter nascido o Morgado.
Não sem propósito as notas que se seguem referentes a um prazo de Vidas que pertencera à Casa do Infantado, sendo morador em 1833, o sargento-mor Leonardo José Lopes Guimarães, sujeito a um fôro de 150 reis, imposto na Casa da Devesa da freguesia de Freamunde e pago à Casa do Infantado.
Em 1822, Henrique Pinto de Vasconcelos Abreu e Lima pediu certidão do dito fôro. Este documento encontra-se na posse de familiares do meu saudoso amigo José Maria Gomes Taipa, na Casa do Morgado no Alto da Feira.
Por esta escritura ficamos a saber que a 9 de Outubro de 1752, Ana Maria Nunes (viúva do capitão Manuel de Sousa Ferreira, morador em Penouços - Ferreira) era tutora de sua filha mais velha Águeda Maria e esta herdeira de uma morada «de cazas com o seu quintal serrado de parede e uma deveza da parte de fora, sito tudo no eirado da Feira da Freguesia de Freamunde».
O auto em referência (de apegação e confrontação) foi lavrado a 27 de Outubro de 1752. Nele figuram: o d
Dr. Manuel Correia de Mesquita Barbosa, corregedor, provedor da Comarca do Porto, juíz dos Tombos da Vila e Honra de Sobrosa, de Azurara e Paços de Ferreira, e com ele o Dr. Rodrigo Coelho Machado Torres (Vila Cova - Sanfins), juíz de Fora de Vila do Conde; o escrivão fiscal Francisco Félix Henriques da Veiga (Casa da Torre Paços), mais tarde 1º Governador da Fortaleza da Póvoa de Varzim e cronista desta Vila de muito merecimento: o meirinho (antigo oficial de diligências) Manuel Teles de Meneses de Paços. Mediram uma cerca toda em redondo com 291 varas e meia (vara, antiga medida equivalente a um metro e dez centímetros) e dentro havia algumas casas, um poço de balde, terra lavradia e de mato. Mediram pela parte de fora desta cerca para a parte norte, um território que foi devesa e fôra até à roda de 1990 chão de feira.
Não restam dúvidas de que este  diz respeito à Casa do Morgado e terrenos vizinhos...que entraram em cedências e formam hoje o Alto da Feira. (Continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XIV)


Freamunde passou à Casa do Infantado por Carta de Doação de D. João IV a seu filho D. Pedro em 1654. Desde 1641, com a extinção do Marquezado Vila Real, as nomeações dos oficiais passaram a ser na Junta de Justiça de Vila Real. A partir de então Freamunde passou a depender juridicamente da Correição de Vila Real, era pois o corregedor (magistrado que naquela época, tinha atribuições idênticas às dos actuais juízes de direito), que determinava os casos judiciais.
A Casa do Infantado era um conjunto de bens com todos os previlégios, isenções e prerrogativas de que gozava a Casa de Bragança. A Casa do Infantado existiu até 1834, ano em que  foi extinta por decreto de D. Pedro IV, com a data precisa de 18 de Março, juntamente a outro diploma que destituia o Infante D. Miguel, seu irmão, de todas as honras, prerrogativas e previlégios por ele usufruídos como Infante de Portugal e o despojava de todas as suas honras e proventos.
Pinho Leal diz: que Freamunde é terra fértil e muito antiga e que era, ao tempo das inquirições reais do concelho de Baião, julgado de Aguiar de Sousa, no reinado de D. Afonso III, 1248 - 1279.
Que a Casa do Infantado apresentava o reitor que tinha: 40.000 reis de rendimento. Que os marqueses de Vila Real destinavam rendimentos à Ordem de Cristo e tinha as mesmas honras e privilégios como se fossem dadas pelo Rei. Que isto e tudo o mais dessa nobre e grande Casa e da do Duque de Caminha (que era da mesma família) perderam os Noronhas em 1641, por tentativa de regicídio, passando a maior parte das suas propriedades para a Casa do Infantado. (continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado"
Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Foram de "arromba" as Sebastianas 2013

É verdade que já foram desmontados os palcos, retirados os arcos que engalanaram o centro da cidade durante vários dias. Mas...ainda se ouve o eco dos festivais de palco que "incendiaram", num ritmo infernal de sedução, uma mole humana impressionante, completamente extasiada e participativa.
Ninguém, certamente, se esquecerá da noitada de sexta. Tantos bombos. Que grande algazarra! Foi uma folia descomunal até ao último acorde.
Ainda resta na memória a procissão que arrastou um mar de gente imbuída numa absoluta manifestação de fé. Estavam tão lindos os andores, os tapetes floridos espalhados ao longo do extenso e penoso percurso nunca alterado nos tempos. Um sonho, o interior da Igreja Matriz. A festa carregou-se de simbolismo religioso, fruto, ainda bem, do capricho da comissão. Valeu.
Depois...o fogo de artíficio, de deslumbrante efeito. Girândolas que iluminaram de esplendor o céu azul, como se quer.
Os concertos das filarmónicas, de Freamunde e Paços de Ferreira, corresponderam às expectativas. Os conjuntos superaram-se e deram espectáculo, num ambiente salutar, de respeito. Como é da praxe, o final foi contagiante. A Banda de Freamunde tocou o Hino, a "Gandarela" e a Marcha das Sebastianas. Ninguém ficou indiferente. Cantou-se, dançou-se...Neste e naquele uma lágrima ao canto do olho. Que mal tem! São assim, os freamundenses.
Recuperado o fôlego, todos se guardaram para o cortejo alegórico, principal cartaz das Sebastianas. Fizeram bem. Os carros, homogéneos, vistosos, perfeitos na sua confeção, construídos exclusivamente por gente da casa, obedeceram à temática imposta: "Artes de Rua". Estava ali representada a vontade, o querer, a determinação de grupos de jovens que ninguém ousará, que ninguém poderá deter. Ah!, as "meninas" fizeram ver. Parabéns.
O povo de Freamunde dá tudo pelas suas festas, ama-as como ninguém, vive-as com uma intensidade sem limites. Está-lhe no sangue. Como tal, já se desdobram os novos "guerreiros", indiferentes à crise. Não há barreira inultrapassável.
Joaquim Pinto - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

sábado, 13 de julho de 2013

Freamunde já "ferve" com as suas Sebastianas

Com um programa recheado de actividades culturais e recreativas que mobilizam dezenas de freamundenses, para a edição deste ano a comissão, regida com a participação cada vez maior da juventude, arrostando com tarefas árduas ao longo de doze meses, propôs-se trazer novidades.
Porque as Sebastianas alimentam e fortalecem a coesão social e cultural, a abertura dos grandes dias deu-se, na noite da passada sexta-feira, dia 5, com a inauguração, nas antigas escolas amarelas da Rua do Comércio, agora sede da Associação Cultural e Recreativa Pedaços de Nós e GTF, da exposição "A alegoria de um Povo" e o lançamento de um pequeno livro, da autoria de Joaquim Pinto, que relata, em pormenor, a evolução, a transformação que as festas sofreram ao longo dos anos. Tempo ainda para a apresentação do projecto "P.U.T.R.I.C.A." e a actuação, em palco improvisado, no "recreio" das referidas instalações, dos "Capicua".
O Concurso de Quadras, da inteira responsabilidade da ACRPN, já alastra a todo o País, com a participação de dezenas e dezenas de entusiastas da rima.
Associação, a comemorar os doze anos de existência, que deu "show", em concerto, na noite quente de Domingo, com a participação, intervalada por sessões de poesia e fado, de duas das suas maiores valências: "Big Banda" e Castanholas. Perante uma apreciável moldura humana, declamou-se, tocou-se e cantou-se FREAMUNDE. Bonito e enternecedor.
No dia anterior, houve "Jazz", para exigentes apreciadores, na fresca relva do Parque de Lazer, e deu-se ao pé no Festival Etnográfico.
Na noite de segunda, em local apropriado, no exterior da Igreja Matriz de Freamunde, trinaram as guitarras, elevaram-se as vozes, em monumental Serenata. O programa musical, até ao final do maior cartaz turístico e cultural do Vale do Sousa, contemplará, ainda, vários concertos, os denominados festivais de palco. Ocasião para a horda jovem, que encherá literalmente Freamunde, pinchar que nem doida.
Este ano, as Filarmónicas contratadas, Freamunde e Paços de Ferreira, "velhas" rivais, terão tudo (ambiente, cenário, mole humana) para mostrarem, em "combate", porque são consideradas duas das mais conceituadas Bandas da região.
Mas, factor importante e que se quer sempre vivo, as Sebastianas manterão os elementos tradicionais: a procissão, com a imponência dos andores que desfilam numa gigantesca manifestação de fé; a marcha, um dos momentos mais emblemáticos das festividades, que espalhará cor, alegria e vivacidade pelas ruas (os carros irão obedecer à temática "Artes de Rua" e já deu para perceber que não foi difícil enquadrá-los. Curiosamente, um deles tem a participação exclusiva e original de 40 jovens do sexo feminino. Como curiosa é a integração no elenco de uma trineta da única senhora, D. Elvira Monteiro, que até aos dias de hoje presidiu às festas do Mártir, na longínqua década de trinta); até ao multicolor e esplendoroso fogo de artíficio.
De permeio, festival de bombos (a não perder, na madrugada do dia 12, "Bombos com Alma"), bombos e...mais bombos, até ao cantar do galo, e as vacas "traidoras", aos montes.
Não vão faltar, também (os mais dados aos prazeres do estômago, e que serão aos milhares), os que aproveitarão a zona dos restaurantes para se deliciarem - ou para enganarem o estômago? É que os tempos que correm não vão para cantigas! - com as múltiplas ofertas gastronómicas existentes nos diversos locais. Se o tempo quente continuar, para os vendedores de cerveja vai ser um rico S. Miguel. Não terão mãos a medir. Vai ser bonito, vai!
Está, pois, elaborado um programa bastante diversificado, atrativo e com qualidade, que voltará a captar o interesse e a visita de uma imensidão de forasteiros.
Joaquim Pinto - Jornal "Gazeta de Paços de Ferreira"

sábado, 15 de junho de 2013

A festa que é do povo

  Tradição centenária não é abalada pela crise. A união dos freamundenses é fundamentaL.
São centenárias, têm crescido a cada ano que passa, fazem-se com a boa vontade do povo freamundense e sobrevivem a qualquer crise. As Sebastianas, em Freamunde, Paços de Ferreira, são uma das maiores festas populares do País e mostram que a união faz a força. Com tradições bem vincadas, e que unem o sagrado ao profano, atraem milhares de pessoas à cidade. Este ano, realizam-se de 11 a 16 de julho.
Apesar de terem origem no culto a S. Sebastião, as Sebastianas foram-se adaptando. Atualmente, ainda que sem se desligar das raízes religiosas, as festas têm uma vertente cultural e festiva cada vez mais vincada. Há espaço para tudo: desde atuações de grupos de bombos, passando pela majestosa procissão e pela marcha de carros alegóricos, sem esquecer o fogo-de-artifício. A festa é vivida nas ruas e na igreja da cidade, onde há lugar para orações, concertos, diversão, jogos e convívio.
A cada dia – ou a cada noite – Freamunde recebe cerca de 35 mil pessoas. De ano para ano, a comissão de festas tem a dura tarefa de preparar a semana de folia. A ajuda dos freamundenses é, por isso, preciosa: os carros alegóricos, por exemplo, são construídos por voluntários no horário pós-laboral. Ninguém faz dinheiro com isso – ganha-se apenas orgulho no resultado final e satisfação por ver a festa do povo de Freamunde crescer a cada ano que passa. Em 2013, o tema da marcha são as artes circenses.
"Temos um orçamento otimista de 300 mil euros. Apenas 5% desse valor vem de patrocínios", explicou ao CM Nelson Felgueiras, membro da comissão de festas 2013. O resto do dinheiro é conseguido com eventos, leilões, festas e peditórios porta a porta. E todos querem ajudar.
Para os organizadores das Sebastianas, o único conselho que deixam aos curiosos é "visitem Freamunde".
IN CORREIO DA MANHà

terça-feira, 11 de junho de 2013

Mulheres quebram 59 anos de tradição

Sempre foram os homens a fazer os carros alegóricos das Sebastianas. 
Este ano é diferente, mercê da vontade de 40 mulheres.
Mais de 40 mulheres de Freamunde, no concelho de Paços de Ferreira, meteram este ano, pela primeira vez, mãos à obra e assinam a decoração integral de um dos carros das Marchas Populares das Sebastianas, quebrando uma tradição com 59 anos.
Se em quase seis décadas de existência, os carros alegóricos sempre foram feitos por homens, este ano a marcha vai contar com um carro feito exclusivamente por mulheres, sem nenhuma intervenção de mão masculina.
A ideia partiu de Mafalda Monteiro, uma freamundense de 27 anos que vive as festas das Sebastianas com grande entusiasmo, à semelhança do que acontece com quase todos os habitantes de Freamunde.
Estas festas centenárias realizam-se sempre no segundo fim de semana de julho e são antecedidas por uma semana cultural, que este ano decorre entre os dias 5 e 10 de julho.
Mas a semana seguinte é a que faz vibrar o povo de Freamunde, principalmente no dia das marchas, um dos cartões de visita das festividades. Os carros alegóricos são a "alma" do cortejo, numa tradição que sempre colocou os homens como responsáveis pela sua construção e decoração. Este ano, no entanto, Mafalda Monteiro lidera o grupo de mais de quatro dezenas de mulheres que se propõem quebrar a tradição.
Subordinadas ao tema "Artes de Rua", as voluntariosas "mulheres de Freamunde" prometem sobressair no desfile, recorrendo a um carro, que, além de ser o primeiro "trabalhado" integralmente por mulheres, incluirá, pela primeira vez, uma escola de samba.
"Escolhemos o samba, inserido na temática deste ano das festas, que é "Artes de Rua"", afirmou Mafalda Monteiro, que o carro vai ser o maior dos dez que compõem o cortejo e terá um trator e dois atrelados. "Vai transportar uma escola de samba inteira. O que também é inédito", declarou a mentora.
Já há mais de um mês que estas mulheres trabalham intensamente na realização do carro alegórico e ainda têm mais de um mês e meio de trabalho pela frente, mas é com orgulho que afirmam que "nem um prego foi pregado por um homem". "Fizemos tudo, até aprendemos a soldar", frisou Mafalda Monteiro, nascida e criada em Paços de Ferreira, que acompanha desde que se conhece por gente as marchas da maior festa do concelho e da própria região.
O trabalho destas mulheres tem sido intenso e duro ao longo do último mês, dedicando todas as noites da semana a trabalhar na construção do carro. "O carro está a ser feito desde abril e vão ser dois meses e meio de trabalho intenso. Estamos aqui todos os dias da semana, das 21.00 às 00.00, e às sextas-feiras é até às 04.00 ou 05.00. É um sacrifício, mas é feito de forma gratuita, por amor à terra."
O primeiro carro das Marchas das Sebastianas, unicamente construído pelas mulheres, vai levar na frente o símbolo da feminilidade, a escola de samba, mas também palhaços e trabalhos decorativos alusivos à arte circense, o tema escolhido pela maioria dos carros.
IN DIÁRIO DE NOTÍCIAS

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XIII)


Esta medida extremamente dura que D. João tomou, reconhece hoje a historiografia a relevância deste tipo de representações do poder e quanto são ainda mais importantes em períodos revolucionários. Com efeito e como muitos reconheciam na época, entre os quais os próprios castelhanos, o castigo referido fazia mais duvidosa a conquista de Portugal, entendendo El Rei D. João IV se não arrojara a tanto empenho, se duvidara da sua segurança e obediência dos ânimos de seus vassalos.
O castigo aplicado ao Marquês de Vila Real e a seu filho o Duque de Caminha (senhores de Freamunde), não foi mais que uma trama urdida para incriminar estes fidalgos que nunca estiveram envolvidos na conjura, antes pelo contrário, quando o Marquês teve conhecimento do golpe do 1º de Dezembro pela boca de seu filho, encontrava-se em Leiria e, aí aclamou de imediato o novo monarca. Quanto ao Duque de Caminha, o processo dizia mesmo que nas acusações feitas estas não tinham qualquer fundamento, pelo que estas duas condenações foram mais um acto político, com certeza com o receio que estes dois fidalgos podessem dar algumas informações a Castela.
Talvez o caso não assumisse proporções tão alongadas se o monarca tivesse substituído imediatamente nos postos do governo e do Paço as figuras conhecidas mais afectas à governação castelhana de Diogo Soares e de Miguel de Vasconcelos. Foram todavia, uma decisão política. Se a prática governativa provou que essa opção gerara mais embaraços e intrigas que os consensos pretendidos confirmava-se igualmente que a pressão surda para a renovação do pessoal político tivera enfim vencimento. É por isso, importante sublinhar que muitas das personalidades mais directamente activas na aniquilação da conjura saíram do grupo dos aclamadores. D. João IV socorria-se deles, ou melhor, eram os próprios restauradores que se faziam utilizar como peças determinantes na consolidação do processo da sucessão. Eram o esteio da mudança definitiva com a qual iriam continuadamente identificar-se. (Continua)
JOÃO CORREIA - "FREAMUNDE E CASA DO INFANTADO"
JORNAL GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA

sexta-feira, 1 de março de 2013

Augusto Ramos

ESCULTOR FORMADO NA ESCOLA DA VIDA
Desde cedo que a vocação de Augusto Ramos para a arte veio ao de cima. Na escola, ao invés de aprender as letras, transformava as lições da professora em desenhos. Em casa, todo o pedaço de madeira encontrado era usado para fazer pequenas esculturas. Expôs pela primeira vez aos 12 anos. E desde aí nunca mais parou. Hoje com 43 anos, os trabalhos de Augusto Ramos, são reconhecidos não só em Freamunde, de onde é natural, mas também no Vale do Sousa e em vários pontos do país e do mundo, onde figuram em colecções particulares. 
 "A escola da vida ensinou-me", afirma o freamundense. Muitas das coisas que hoje sabe, aprendeu-as sozinho ou nos trabalhos que foi desenvolvendo com o pai, nos restauros, ou como entalhador. Apesar de, mais tarde, ter ingressado num curso de três anos da APIMA - Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins e ter passado pela Escola Artística Soares dos Reis, onde estudou restauro, entre outros. "Mas já sabia mais que os professores", diz modestamente. "Já levava muita bagagem e anos de experiência", sustenta o escultor. 
 Augusto Ramos nasceu e cresceu em Freamunde. Aí realizou o percurso escolar normal. Mas, conta, "quando estava na escola a professora ditava e eu desenhava. Transformava o que ela dizia em imagens. E hoje tenho muita dificuldade em escrever". O bichinho da arte e a vontade e a urgência em fazer obra, que ainda actualmente lhe fazem o sangue correr mais depressa, já existiam nessa altura. Aos 12 anos, expôs pela primeira vez, em Paços de Ferreira.
 E não parou mais. Autodidacta, continuou sempre a desenhar e, em casa, aproveitava restos de madeira para esculpir rostos. Até que, por volta dos 16 anos, e apesar da insistência do pai para ingressar numa escola ligada às artes, foi trabalhar e aprender a arte da talha. "Perante o que já sabia, a escola não me ia ensinar nada. Preferi a escola da vida", diz. Ficou na empresa por 10 anos e chegou a encarregado geral dos entalhadores, 22 no total. Durante esse período, trabalhava também com o pai, que, laborando na área da construção, fazia restauro de tectos de gesso. "Na construção aprende-se muito", afirma Augusto. Fez restauros em casas particulares e igrejas, ganhou a experiência que queria. 

Homenagem ao capão foi primeira grande obra

A primeira grande escultura da carreira está instalada em Freamunde. Chama-lhe carinhosamente de "a galinheira", embora o nome oficial seja "Monumento ao Capão e à Cidade de Freamunde". A obra foi inaugurada em 2001 e homenageia a tradição do capão. "Demorou três anos a fazer. Só a fazia à noite, porque durante o dia trabalhava", recorda o escultor. Seguiu-se uma outra escultura de grande porte, também instalada na terra que o viu nascer, a "Homenagem aos combatentes das ex-colónias", inaugurada em 2005.  
 A partir daí, sucederam-se várias obras, instaladas no concelho de Paços de Ferreira e concelhos vizinhos. Só na freguesia de Louredo estão três: o busto do Padre Armando; uma peça que homenageia os bombeiros de Paredes; e um anjo, com seis metros. Tem peças espalhadas por toda a Europa, em colecções particulares, e mesmo no Brasil. "Há uma Nossa Senhora de Fátima, oferecida a um particular, que acabou numa igreja brasileira e saiu na procissão de 13 de Maio, em Campinas, S. Paulo", diz Augusto Ramos. As exposições, às quais já perdeu a conta, realizaram-se sobretudo em concelhos do Vale do Sousa. 
 Pelo caminho, lançou-se em vários desafios. "A minha paixão é sempre ir experimentando fazer coisas novas", assume. Já trabalhou no edifício do Parlamento inglês, na mudança e restauro de uma ponte, que foi desmantelada e reconstruida, pedra a pedra, com a gravação de 130 nomes. Em França, em conjunto com escultores locais, trabalhou no restauro e construção de uma torre de castelo. Em Portugal, fez parte da equipa que restaurou a Capela das Almas, no Porto, e várias na região. 


Já terá feito cerca de duas mil peças

Augusto Ramos orgulha-se de trabalhar com os mais diversos materiais, desde o bronze, o granito, a madeira, o inox, o ferro e a fibra de vidro até às joias e pedras preciosas. "A dificuldade maior é escolher o material com que vou trabalhar", confessa. Já terá feito cerca de duas mil peças (calcula), tendo ganho vários prémios ligados ao desenho, escultura e pintura. 
 Nesta vida dedicada à arte, já fez também ilustrações de livros, caricaturas em jornais locais, cenários para teatro e pintou Vespas. É, desde há 25 anos, um dos elementos que faz os carros alegóricos das Sebastianas, sendo um dos sócios fundadores da Associação de Artes e Letras de Freamunde. 
 Entre as próximas grandes obras, estão uma homenagem à indústria do mobiliário e metalomecânica, com 12 metros e custo de cerca de 60 mil euros, que ficará instalada no concelho ainda este ano. Em curso está também a realização do monumento à família, que ficará junto às piscinas de Freamunde. "Umas árvores com cerca de 140 anos, que estavam junto à capela de São Francisco, em Freamunde, caíram com o temporal. Foram recolhidas e eu transformei-as numa escultura com cerca de sete metros", explica. 

Sonho é abrir escola para ensinar artes
 
O grande sonho de Augusto Ramos é abrir uma escola onde possa trabalhar com crianças com Trissomia 21. "Já tive uma experiência no INATEL do Porto. São crianças difíceis, mas com muito jeito para a pintura, gostei muito", conta. O escultor, diz ter a promessa de um espaço no parque urbano de Paços de Ferreira, que possa ser transformado numa oficina onde artistas locais possam expor, trabalhar e ensinar.
"É possível viver da arte em Portugal?", perguntamos. "Será possível, eu já vivi e hoje vivo só disto", afirma. "Mas uma peça que antes custava 30 mil hoje está a ser vendida por 10 mil", explica o artista, que defende que os municípios deviam apoiar mais a cultura.  

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado ( X )

No essencial, a defesa do Marquês de Vila Real escudava-se nesta passividade de acção, embora tivesse alguma dificuldade em camuflar a sua afeição a Castela, que entroncava num passado de serviços remunerados com relevantes mercês outorgadas pelos Áustrias. Procurava todavia neutralizar esse argumento ao justificar que ele próprio admitira a D. João IV que «até oito de Dezembro fora castelhano» e que o próprio Rei lhe respondera «que também o ano passado aqui, a Lisboa, viera obedecendo a El Rei de Castela». Depreende-se ainda que se considerava malquisto entre os próximos de D. João e que era o rol extenso de inimizades, que foi nomeado ao longo do processo, que explicava a trama que contra ele se movia.
Relativamente ao Duque de Caminha, seu filho, a questão era mais complexa, pois todos os testemunhos sugerem a repugnância pela conjura. Ele próprio o explicava: «além de ser fiel vassalo era proveito meu, pois em Portugal tinha títulos e minha mulher e casa». Não comunicara ao monarca, porém. Era essa a sua imperdoável culpa.
O factor do receio e da derrota de Portugal mobilizava as gentes catalizando descontentamentos e agravos individuais. No entanto a aferir pelos libelos acusatórios e sentenças a conspiração não convocara um número significativo de vontades, pois como vimos só dez foram sentenciados à pena capital. Foram também alvo de acusação, além do 7º Marquês de Vila Real o Conde de Armamar e D. Agostinho Manuel. Todos haviam sido ao braço secular pela Mesa da Consciência e Ordens, pelo que a sentença, a ser executada com brevidade, para além da parte relativa à apreensão de todos os bens patrimoniais e da Coroa, era «que morra morte cruel para sempre e seja degolado em teatro levantado e público». Esgotados os recursos e os embargos à sentença que os réus acionaram sem sucesso, agendou-se a sua execução para sexta-feira, dia 29 de Agosto, era com simbolismo, o dia da festa em que foi degolado São João Batista.

João Correia 
Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Toponímia Freamundense


RUA DE SÃO MARTINHO
Começa na rua de Freamunde de Cima e termina junto ao Alto da Paixão na vizinha freguesia de Sousela. O sítio de S. Martinho situa-se no extremo nordeste da cidade e é segundo a tradição o lugar mais antigo de Freamunde.
A rua outrora um caminho tortuoso e cheio de covas que obrigava por vezes os lavradores proprietários dessas matas e carreteiros com os seus carros de bois a certos desvios dado o piso ser muito irregular. Esse caminho única via de comunicação com a vizinha freguesia de Sousela era completamente desabitado pelo menos até aos princípios do século XX. Eram matas de vários proprietários e só começou a ser habitado no primeiro quartel do século XX. Hoje por via da nova zona industrial esse antigo caminho foi alargado e urbanizado em parte pelo norte tornando-se numa boa via de comunicação. A comissão de toponímia de 1993, nas comemorações dos 60 anos de Vila, não esqueceu este Santo Taumaturgo dedicando-lhe esta rua com o seu nome.
Segundo uma tradição oral, muito antiga, mas ainda agora perfeitamente conservada entre os mais velhos moradores da freguesia, a primitiva igreja paroquial de Freamunde nem era no lugar da actual, nem tinha a invocação do Divino Salvador, que a de hoje tem. Era seu padroeiro S. Martinho, e ficava no extremo nordeste da paróquia, no sítio que ainda hoje conserva o nome deste santo, próximo a Freamunde de Cima. 
Até ao meado do século VI, eram raríssimas entre nós as igrejas paroquiais.                                    
A Diocese do Porto, que era uma das que maior número delas possuía contava, no ano de 563, vinte e quatro ao todo; entre as quais a de MAGNNETO (Meinedo), e a de LEPOSETO (Lordelo), eram as mais próximas de Freamunde. Por isso, frequentemente, o proprietário de uma quinta, o senhor ou Domus (dono) de uma Vila, erigia junto da sua habitação, ou dentro da sua propriedade uma pequena igreja (ou, antes, capela) para comodidade sua, de sua família, criados e companheiros. Afluiam a ela, para os actos de culto, os pastores, colonos e habitantes dos lugares circunvizinhos; e assim constituída, a igreja ficava sendo propriedade do senhor, que podia vendê-la, trocá-la, doá-la ou legá-la a seus herdeiros. Deste modo foram levantadas muitas igrejas, e transmitidas à posteridade. Desta forma sucedeu certamente com a primitiva igreja de Freamunde, pois que as Inquirições Reais de 1258, ainda a dão como pertencente aos herdeiros: Martinus Johanis, prelatus Ecclesias Salvatoris de Fremundi, interrugatus cujus est ipsa ecclesia, dixit quod est herdatorum (para melhor entendimento dos meus estimados leitores, vou passar esta leitura para vernáculo), Martinho João, prelado da mesma igreja, ajuramentado e interrogado a quem pertencia a dita igreja, disse que pertencia aos herdeiros, e que, com a apresentação deles o Bispo do Porto o colocara nela. Interrogado se o senhor Rei tem aqui ou deve ter algum direito, disse que não. Interrogado se fazem daí algum foro ao senhor Rei, disse que não.
Destas palavras se vê também que, já nos meados do século XIII, o padroeiro da igreja de Freamunde era o Divino Salvador; mas não se pode deduzir daí que antes dessa época, não tivesse sido o S. Martinho, como afirma a tradição. Os livros das confrarias, o catálogo dos Bispos do Porto nada, absolutamente nada dizem a tal respeito. No Censual do Cabido, nos arquivos da Câmara Eclesiástica, parece que também nada se poderá averiguar. Sendo assim parece pois verdadeira a afirmativa da tradição.
S. Martinho, Bispo de Tours, na Gália (actual França), foi um dos maiores taumaturgos da Igreja, durante a sua longa vida de 81 anos, e após a sua morte nos finais do século IV. A fama dos seus milagres, entre os quais a ressuscitação de alguns mortos, estendeu-se celeremente por toda a cristandade, e chegou aos ouvidos de Teodomiro, Rei suevo da Galécia, em 560. Tinha este Rei um filho, Ariamiro, em perigo de vida. Quanta prata e ouro pesava o filho mandou-o a França de oferta ao santo, solicitando uma relíquia dele para salvar o enfermo. Veio ela, restituiu a saúde ao moribundo, e Teodomiro agradecido abandonou a seita do arianismo, e edificou a igreja de S. Martinho da Cedofeita, no Porto; e logo outro S. Martinho, o de Dume, que da França tinha acompanhado a santa preciosidade, principiou a conversão dos suevos, que haviam abraçado a seita de Ario, desde o Rei Remismundo, para o seio da Igreja Romana, da qual se tinham apartado. 
Desde então a fama de S. Martinho aumentou prodigiosamente, e daí principiou ele a ser escolhido para padroeiro de muitíssimas igrejas em Portugal, principalmente ao Norte.
Ora, notando-se que 100 anos antes, pouco mais ou menos, é que principiou a ser arroteada a vila Fremundi, como vimos, é muito provável que prosperando ela, o seu proprietário, atendendo à distância a que ficavam as igrejas de Meinedo e Lordelo, edificasse uma capela dentro da sua quinta, sob o patrocínio de S. Martinho, cujo a fama tanto impressionara.
O certo, porém, e incontestável, é que a primitiva igreja de Freamunde, qualquer que fosse o seu orago, foi propriedade de um particular, de um senhor ou dominus, como dizem as Inquirições Reais. E igualmente certo é também que, neste sítio, houve um templo qualquer, pois nele por volta de 1850, foram desenterradas pedras lavradas, pias de água-benta, lágeas de sepulturas, ossos, e até esqueletos, que se pulverisaram logo ao contacto do ar. Testemunhas destes achados foram: João Marques, jornaleiro, Bernardino Caetano, Belmiro Rêgo, lavradores, etc.
Enterravam-se mortos juntos, ou dentro desse templo; havia e suponho que ainda há perto desse sítio, um pequeno outeiro chamado Alto da Paixão (Calvário?): tudo nos induz a crer que esse templo foi igreja paroquial, a primeira que teve esta freguesia, ficava dentro da quinta do senhor Fresimundi, e foi edificada, ou estava na posse de seus herdeiros e sucessores.
  "TOPONÍMIA FREAMUNDENSE" - JOÃO CORREIA - JORNAL GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA