ESCULTOR FORMADO NA ESCOLA DA VIDA
Desde cedo que a vocação de Augusto Ramos para a arte veio ao de cima.
Na escola, ao invés de aprender as letras, transformava as lições da
professora em desenhos. Em casa, todo o pedaço de madeira encontrado era
usado para fazer pequenas esculturas. Expôs pela primeira vez aos 12
anos. E desde aí nunca mais parou. Hoje com 43 anos, os trabalhos de
Augusto Ramos, são reconhecidos não só em Freamunde, de onde é natural,
mas também no Vale do Sousa e em vários pontos do país e do mundo, onde
figuram em colecções particulares.
"A escola da
vida ensinou-me", afirma o freamundense. Muitas das coisas que hoje
sabe, aprendeu-as sozinho ou nos trabalhos que foi desenvolvendo com o
pai, nos restauros, ou como entalhador. Apesar de, mais tarde, ter
ingressado num curso de três anos da APIMA - Associação Portuguesa das
Indústrias de Mobiliário e Afins e ter passado pela Escola Artística
Soares dos Reis, onde estudou restauro, entre outros. "Mas já sabia mais
que os professores", diz modestamente. "Já levava muita bagagem e anos
de experiência", sustenta o escultor.
Augusto
Ramos nasceu e cresceu em Freamunde. Aí realizou o percurso escolar
normal. Mas, conta, "quando estava na escola a professora ditava e eu
desenhava. Transformava o que ela dizia em imagens. E hoje tenho muita
dificuldade em escrever". O bichinho da arte e a vontade e a urgência em
fazer obra, que ainda actualmente lhe fazem o sangue correr mais
depressa, já existiam nessa altura. Aos 12 anos, expôs pela primeira
vez, em Paços de Ferreira.
E não parou
mais. Autodidacta, continuou sempre a desenhar e, em casa, aproveitava
restos de madeira para esculpir rostos. Até que, por volta dos 16 anos, e
apesar da insistência do pai para ingressar numa escola ligada às
artes, foi trabalhar e aprender a arte da talha. "Perante o que já
sabia, a escola não me ia ensinar nada. Preferi a escola da vida", diz.
Ficou na empresa por 10 anos e chegou a encarregado geral dos
entalhadores, 22 no total. Durante esse período, trabalhava também com o
pai, que, laborando na área da construção, fazia restauro de tectos de
gesso. "Na construção aprende-se muito", afirma Augusto. Fez restauros
em casas particulares e igrejas, ganhou a experiência que queria.
Homenagem ao capão foi primeira grande obra
A
primeira grande escultura da carreira está instalada em Freamunde.
Chama-lhe carinhosamente de "a galinheira", embora o nome oficial seja
"Monumento ao Capão e à Cidade de Freamunde". A obra foi inaugurada em
2001 e homenageia a tradição do capão. "Demorou três anos a fazer. Só a
fazia à noite, porque durante o dia trabalhava", recorda o escultor.
Seguiu-se uma outra escultura de grande porte, também instalada na terra
que o viu nascer, a "Homenagem aos combatentes das ex-colónias",
inaugurada em 2005.
A partir
daí, sucederam-se várias obras, instaladas no concelho de Paços de
Ferreira e concelhos vizinhos. Só na freguesia de Louredo estão três: o
busto do Padre Armando; uma peça que homenageia os bombeiros de Paredes;
e um anjo, com seis metros. Tem peças espalhadas por toda a Europa, em
colecções particulares, e mesmo no Brasil. "Há uma Nossa Senhora de
Fátima, oferecida a um particular, que acabou numa igreja brasileira e
saiu na procissão de 13 de Maio, em Campinas, S. Paulo", diz Augusto
Ramos. As exposições, às quais já perdeu a conta, realizaram-se
sobretudo em concelhos do Vale do Sousa.
Pelo
caminho, lançou-se em vários desafios. "A minha paixão é sempre ir
experimentando fazer coisas novas", assume. Já trabalhou no edifício do
Parlamento inglês, na mudança e restauro de uma ponte, que foi
desmantelada e reconstruida, pedra a pedra, com a gravação de 130 nomes.
Em França, em conjunto com escultores locais, trabalhou no restauro e
construção de uma torre de castelo. Em Portugal, fez parte da equipa que
restaurou a Capela das Almas, no Porto, e várias na região.
Já terá feito cerca de duas mil peças
Augusto
Ramos orgulha-se de trabalhar com os mais diversos materiais, desde o
bronze, o granito, a madeira, o inox, o ferro e a fibra de vidro até às
joias e pedras preciosas. "A dificuldade maior é escolher o material com
que vou trabalhar", confessa. Já terá feito cerca de duas mil peças
(calcula), tendo ganho vários prémios ligados ao desenho, escultura e
pintura.
Nesta vida
dedicada à arte, já fez também ilustrações de livros, caricaturas em
jornais locais, cenários para teatro e pintou Vespas. É, desde há 25
anos, um dos elementos que faz os carros alegóricos das Sebastianas,
sendo um dos sócios fundadores da Associação de Artes e Letras de
Freamunde.
Entre as
próximas grandes obras, estão uma homenagem à indústria do mobiliário e
metalomecânica, com 12 metros e custo de cerca de 60 mil euros, que
ficará instalada no concelho ainda este ano. Em curso está também a
realização do monumento à família, que ficará junto às piscinas de
Freamunde. "Umas árvores com cerca de 140 anos, que estavam junto à
capela de São Francisco, em Freamunde, caíram com o temporal. Foram
recolhidas e eu transformei-as numa escultura com cerca de sete metros",
explica.
Sonho é abrir escola para ensinar artes
O
grande sonho de Augusto Ramos é abrir uma escola onde possa trabalhar
com crianças com Trissomia 21. "Já tive uma experiência no INATEL do
Porto. São crianças difíceis, mas com muito jeito para a pintura, gostei
muito", conta. O escultor, diz ter a promessa de um espaço no parque
urbano de Paços de Ferreira, que possa ser transformado numa oficina
onde artistas locais possam expor, trabalhar e ensinar.
"É
possível viver da arte em Portugal?", perguntamos. "Será possível, eu
já vivi e hoje vivo só disto", afirma. "Mas uma peça que antes custava
30 mil hoje está a ser vendida por 10 mil", explica o artista, que
defende que os municípios deviam apoiar mais a cultura.