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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Gente da Nossa Terra

 JOÃOZINHO CORREIA

Joãozinho do Venturinha
é um historiador que eu gosto.
Pra falar da terra minha,
nunca noutro eu aposto.

Não há canto, nem recanto,
que o Joãozinho não conheça
e há sempre mais um encanto
que ele lá lhe reconheça.

E então na matemática
é que ele tem uma tática...
pra guardar as moedinhas!

Principalmente as de reis
que, já não ditando leis,
ensinam-lhe as ladainhas!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Freamunde e a Casa do Infantado (XVIII) conclusão


Para ficarmos com uma ideia da vastidão desta entidade dos segundos filhos dos reis de Portugal, nas vésperas do seu desaparecimento, bastaria recordar que dispunha de entre outros bens fundiários e rendimentos diversos, além de Freamunde, da cidade de Beja, Quinta de Queluz, Serpa, Moura, Vila do Chão da Couve, e sua comarca, Valença do Minho, Pinhel, e sua comarca, Vila Real e Lamas de Orelhão, em Trás-os-Montes, Aveiro, Canelas, Linhares, Fornos de Algodres, Egas, Dones, Vimioso, Bobadela da Beira, Pena Verde, Vila da Feira, Oliveira de Azeméis, Ovar, Macieira de Cambra, Castanheira do Vouga, Cortegaça e depois o vastíssimo priorado do Crato (Vila do Crato e sua comarca, Gáfete, Sertã, Amieira, Proença-a-Nova, Cardigos, Oleiros, Belver, Gavião, Tolosa, Carvoeiros). Nos seus domínios incluíam-se ainda várias lezírias do Tejo e Azurara, próximo de Vila do Conde. Além de rendimentos de vária origem (padroados em igrejas, tenças e comendas, avultavam os provenientes das saboarias do Reino, as «portagens» de Santarém e até os «alfinetes» do Porto...
Nas vésperas da sua extinção (como já foi verificado, por decreto de 18 de Março de 1834), as receitas da Sereníssima Casa do Infantado excediam os 217 contos anuais. Deste imenso conjunto, que seria incorporado nos Bens Nacionais e vendido depois, forma retirados os palácios de Queluz, da Bemposta, do Alfeite, de Samora Correia, de Caxias e de Monteira, aplicados para residência e recreio da Rainha Dona Maria II. (conclusão)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Toponímia Freamundense

RUA DO COMÉRCIO (CONCLUSÃO)
A empresa Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda que chegou a ter mais de 400 empregados, fabricava não só mobílias de alta qualidade mas também material escolar, milhares de escolas primárias foram mobiladas com os móveis da saua marca"ALBAR", mas também colégios, liceus e universidades. A fábrica tinha também uma óptima serralharia que fabricava especialmente móveis sofisticados para hospitais e casas de saúde. Havia uma boa secção de colchoaria e estofos, tinha cromagem, uma vidraria e espelhagem, e até moinhos para moer milho ao público e, nos anos de seca, os moleiros de Sousela, Arreigada, Frazão, etc., aqui traziam o milho para atenderem os seus clientes. Uma completa drogaria para a fábrica e público em geral, onde se vendia cal, telha e até palha trilhada para os camiões da fábrica que os camiões da fábrica traziam ao regressar das entregas do mobiliário. Posto de combustível aberto toda a noite e balança para pesar camiões. Uma cantina para os operários que assim o desejassem almoçar para não se deslocarem a casa.
A fábrica "ALBAR" encerrou as suas portas a partir do dia 1 de Setembro de 2006, oitenta e três anos após a sua fundação. O gerente, senhor Teodoro Alberto Machado Pereira, funcionário da mesma há 56 anos refere que «fecha as portas com apenas 42 empregados sendo todos eles indemnizados», menciona ainda que «durante anos insistimos na fabricação de mobiliário para as escolas, mas a concorrência foi aumentando e as coisas passaram a ficar cada vez mais difíceis (...) talvez se tivéssemos ido por outros caminhos, como outros fizeram, as coisas poderiam ter sido diferentes», conclui.
A notícia do encerramento de actividade desta empresa fabril, foi recebida com surpresa e tristeza, tanto por parte dos funcionários como da população que via nessa fábrica uma espécie de mãe que acudia sempre que necessário a qualquer pessoa que lhe solicitasse fosse o que fosse, pois naquela fábrica nada faltava.
Eu próprio me socorri muitas e muitas vezes dos seus favores.
Ficou na memória de quantos assistiram ao incêndio de 5 de Agosto de 1964, que destruiu a ala nascente da fábrica onde se encontrava a secção da colchoaria e estofos, assim como a drogaria que desapareceram por completo.
 Edifício da antiga "escola dos meninos", ou "escolas amarelas", construído em 1938
Actualmente é a sede da A. C. R. Pedaços de Nós
No local da primitiva fábrica de móveis da firma Pereiras & Barros, Lda, foi construído e inaugurado em 1938, um edifício para a escola de meninos, as chamadas escolas amarelas da rua do Comércio, onde o autor destas linhas que mora a uns escassos metros, ali aprendeu a ler, escrever e contar com os excelentes professores Francisco Fernandes Valente e esposa D. Alcina Valente.
 Edifício da antiga "escola das meninas", construído em 1927
Actualmente é o posto da Guarda Nacional Republicana de Freamunde
Ainda do lado norte, o edifício escolar que deu o nome à avenida das escolas, hoje rua Professor Francisco Valente, foi construído em 1927, e de princípio serviu para os dois sexos, foi depois sede da Junta de Freguesia e hoje está ocupado pela Guarda Nacional Republicana. Assim que a G. N. R. abandone o edifício está previsto a instalação de um museu onde serão expostas entre outros as ferramentas que serviram aos marceneiros das diversas fábricas de móveis e oficinas de Freamunde.
Mesmo no final da rua e numa casa térrea que nos princípios do século XX, pertencia a Martinho Monteiro, vendedor de peixe, foi a pequena habitação vendida a Serafim Pacheco Vieira, que a aumentou com o 1º andar e aquele elegante varandim, está hoje uma frutaria onde por volta dos anos 30 foi uma alfaiataria, depois uma loja de venda de Pão de Ló de Margaride, a seguir uma barbearia, depois um posto de leite, e já há algumas décadas a frutaria acima referida. 
O topónimo de rua do Comércio está perfeitamente adequado.
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XVII)

Como disse no início deste trabalho, a extinção da Casa do Infantado deu-se por decreto de 18 de Março de 1834, juntamente com a legislação governamental de 1834-1835, que extinguiu igualmente os conventos, nacionalizando os respectivos bens (enorme património fundiário que o Estado Liberal lançou no mercado) foi decisivo para a transformação estrutural da sociedade portuguesa, que, nos inícios da década de 1850, se podia considerar já consolidadamente liberal. Com efeito, só após os sobressaltos ocorridos nos anos 30 e 40 do século XIX e as experiências setembrista (1836-1842) e cabralista (1842-1851), é que o Portugal oitocentista encontrou a estabilidade possível, com o advento da Regeneração em Maio de 1851, estabilidade essa que estava a ser pedida como o pão para a boca.
Logo após em 1856, era Lisboa e grande parte do país, invadido por duas epidemias terríveis que causaram numerosas vítimas - a febre amarela e a cólera-mórbus - o Rei fez quando pôde a favor dos doentes, visitando os hospitais a socorrer e a animar os doentes. Mesmo assim continuou o desenvolvimento da Instrução e realizaram-se ainda melhoramentos importantes. Criaram-se muitas escolas e fundaram-se o Curso Superior de Letras e o Observatório Astronómico de Lisboa, foi ainda abolida a pena de morte, para os crimes civis; proibiram-se os trabalhos forçados na metrópele e a prisão perpétua; e aboliu-se também a escravatura em todas as terras de Portugal.
Foi ainda um período áureo nas Letras, com os brilhantes escritores: Almeida Garret, António Feliciano de Castilho, Oliveira Martins, João de Deus, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Pinheiro Chagas e tantos outros que deram a Portugal honra e prestígio. (Continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Toponímia Freamundense

RUA DO COMÉRCIO
Começa desde 1983, na rua Grupo Teatral Freamundense e termina no cruzamento das ruas Padre Castro e rua do Carvalhal.
Foi o principal comerciante desta rua, o vereador em 1902, António José de Brito, a quem a viação desta terra muito deve, mais do que a nenhum outro, importantes serviços, quem lembrou e conseguiu da Câmara Municipal a designação de rua do Comércio. A primeira rua de Freamunde estendia-se desde a calçada da Gandarela até ao largo da Feira. Nas comemorações do cinquentenário de elevação a vila a rua foi dividida no cruzamento das ruas do Carvalhal e Padre Castro.
Foi e ainda é a principal artéria de Freamunde, onde se efectuam grandes transacções comerciais e a maior em trânsito rodoviário. A rua é uma parte da estrada nacional 207 rasgada nos meados do século XIX feita em terra batida, mas numa reunião de conselho de ministros o engenheiro Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas, determinou nos anos 40 do século passado que as terras com o estatuto de vila e com mais de mil almas, a via principal fosse beneficiada com uma pavimentação em paralelepípedos. O brigadeiro Alves de Sousa na altura com o posto de tenente, apressou o processo e Freamunde foi uma das primeiras terras a ser beneficiada, e considerada uma das melhores do país.
Ali havia uma das maiores drogarias do norte do país e a primeira bomba de gasolina do concelho, pertencente à firma António José de Brito & Filhos, Lda, e que o jornal "O Pacense" em 15 de Julho de 1930, publicitava: "Depósito de material eléctrico. Sortido completo de lâmpadas MAZDA - as melhores de todas. Candeeiros de todos os géneros. Aparelhos para aquecimento. Pessoal competente para instalações particulares. Transformam-se candeeiros em diversos estilos. Representantes neste concelho da casa de candeeiros "Electro Bazar" de Ângelo & Irmão. Depositários da Tabaqueira e Fosforeira Nacional. Agentes bancários etc. etc."
A uns cinquenta metros a poente desta importante casa, havia desde 1890, a hospedaria de Valentim Moreira Dias Cardoso, com a denominação de "Restaurante Cardoso". "Além de bastantes e bem arejados quartos, possui uma esplêndida sala de jantar, podendo comportar para cima de sessenta pessoas."
O seu muito digno proprietário não se poupa a trabalhos para ser agradável a seus fregueses e amigos, tendo adquirido para estes dias de festas a Santo António um belo cozinheiro e um escolhido pessoal para o serviço de mesa e balcão", lia-se no reclamo comercial desta casa, que os meus prezados leitores fiquem com uma ideia de como era feita a publicidade nesses tempos.
Do lado sul, onde está o talho e no primeiro andar o Núcleo do Sporting Clube de Portugal, foi em tempos passados um grande estabelecimento de fazendas de Miguel Nunes de Oliveira. No posto de abastecimento e bloco habitacional eram quintais em forma de rampa cobertos de ramadas, ao fundo a casa do reitor que servia de habitação ao caseiro da quinta pertencente ao Dr. Portocarreiro.
Em 13 de Junho de 1920, dia de Santo António, foi inaugurada a fábrica de mobiliário e material escolar sob a firma de Pereiras, Barros e Companhia, Lda, que laborou com qualidade e eficiência durante cerca  de três anos, até que em 23 de Março de 1923, um pavoroso incêndio a tornou pasto das chamas as quais iluminaram quase toda a freguesia. O sinistro dera-se por volta das três da madrugada e o clarão foi notado nas freguesias circunvizinhas, e como nesta data ainda não existiam os bombeiros, a fábrica ficou completamente destruída. Foi então quando se pensou em novas instalações nuns terrenos a duzentos metros a poente e pertencentes ao dr. Alberto Carneiro Alves da Cruz, que fica como sócio da Sociedade Comercial por cotas agora com 28 sócios, entre a viúva da firma Albino de Matos Sucessores Limitada, D. Elisa da Costa Torres, e a nova firma adopta o nome de Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda. (Continua)
João Correia - Toponímia Freamundense - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XVI)

Pelo relato do reitor Lucas Gomes Ferreira em 1758, aparecem como donatários de Freamunde os senhores Infantes do Reino, uma vez que o marquês de Vila Real havia sido banido do plantel da nobreza pela conspiração de lesa Sua Majestade D. João IV.
No tempo do marquês de Vila Real, Freamunde foi património da Ordem de Cristo à qual estavam destinados proventos dados pelo marquês para sustento dos religiosos e a ordem tinha as mesmas honras e privilégios como se fossem dados pelo rei.
Por extinção da Ordem dos Templários em 1307, conseguiu D. Dinis do Papa autorização para criar em Portugal a Ordem de Cristo. Acto político muito importante. Para a nova ordem passaram todos os bens dos Templários, evitando-se assim a saída de grandes riquezas, e os novos freires prestaram a Portugal serviços importantíssimos. A cruz adoptada foi uma cruz prateada com outra branca sobreposta mais ou menos estilizada - a conhecida Cruz de Cristo, considerada hoje um símbolo nacional.
A Ordem de Cristo instalou-se primeiro no castelo de Castro Marim e depois no convento de Tomar.
Diz o Catálogo dos Bispos do Porto: "O Salvador de Friamundi, Ermidas: Santa Lhena, São Sebastião: tem de comunhão 242 pessoas, menores 36. Há préstimo, rende cento e setenta mil reis. Vigaria".
Em 1821, tinha Freamunde 272 fogos. Pessoas de sacramento e menores de 7 anos para cima: 895. Tinha reitor e Coadjutor. Esteve imposta na igreja uma censoria de 200 reis e de 40 alqueires de milho. Pertenciam ao Infantado 587.200 reis, valor dos dízimos em milhão, centeio, milho alvo, vinho, painço e feijão.
Em 1858, o reitor António Ferreira de Matos num relatório enviado à cúria diocesana diz: que Freamunde é aldeia populosa; que era donatário o Infantado e tinha privilégios do mesmo: e que havia mercado duas vezes no mês, nos dias 13 e 27 e as grandes feiras anuais de 13 de Junho e 13 de Dezembro, são sempre concorridíssimas e têm o nome dos santos do dia em que se realizam, Santo António e Santa Luzia respectivamente. (Continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XV)

A Casa do Morgado de Freamunde, foi em parte pertencente a um prazo de Vidas da Casa do Infantado.
Num período de grande agitação social, Freamunde não escapou em 1842 às surtidas e abusos dos soldados sob o comando do Barão de Freamunde, General Soares de Moura, influente no concerto de uma paz que se pedia como pão para a boca. As revoluções sucediam-se a cada momento, sendo as mais importantes a de Setembro que restaurou a Constituição de 1822, a dos marechais Saldanha e Duque da Terceira que pretendiam impor a Carta Constitucional; a de Costa Cabral que substituiu a Constituição pela Carta; a da Maria da Fonte contra o governo de Costa Cabral e ainda a dos Regeneradores, chefiada pelo Marechal Saldanha que lhe deu a chefia do governo e ficou conhecido como o Governo da Regenaração.
Entretanto em Freamunde, reuniram-se uns conjurados contra o governo liberal, entre os quais o capitão-mor António José Lopes de Meireles, do Alto da Feira. Os liberais triunfaram, a denuncia não se provou e os atingidos recuperaram as suas categorias sociais. O capitão-mor Lopes de Meireles creditara-se como grande patrocinador de muitos eventos.
Quando em 1850 se firmou o contrato de casamento do ilustríssimo senhor Henrique Pinto de Vasconcelos Abreu e Lima (vindo da Casa da Manguela - S. Tiago da Carreira - Santo Tirso) viviam na casa da Feira o acima citado capitão-mor Lopes de Meireles, viúvo, e sua legítima filha D. Maria Augusta Lopes de Meireles. Só posteriormente começou a designar-se por Casa do Morgado, (filho mais velho ou herdeiro de bens vinculados) pois até então era conhecida por Casa da Feira, a partir de 1720, data da primeira feira dos 13 de Junho.
O nosso Morgado, figura muito querida em Freamunde, nasceu a 12 de Julho de 1824, e faleceu a 13 de Fevereiro de 1907, contando 83 anos. Seus pais viveram na Casa da Manguela - S. Tiago da Carreira - Santo Tirso e ali devia ter nascido o Morgado.
Não sem propósito as notas que se seguem referentes a um prazo de Vidas que pertencera à Casa do Infantado, sendo morador em 1833, o sargento-mor Leonardo José Lopes Guimarães, sujeito a um fôro de 150 reis, imposto na Casa da Devesa da freguesia de Freamunde e pago à Casa do Infantado.
Em 1822, Henrique Pinto de Vasconcelos Abreu e Lima pediu certidão do dito fôro. Este documento encontra-se na posse de familiares do meu saudoso amigo José Maria Gomes Taipa, na Casa do Morgado no Alto da Feira.
Por esta escritura ficamos a saber que a 9 de Outubro de 1752, Ana Maria Nunes (viúva do capitão Manuel de Sousa Ferreira, morador em Penouços - Ferreira) era tutora de sua filha mais velha Águeda Maria e esta herdeira de uma morada «de cazas com o seu quintal serrado de parede e uma deveza da parte de fora, sito tudo no eirado da Feira da Freguesia de Freamunde».
O auto em referência (de apegação e confrontação) foi lavrado a 27 de Outubro de 1752. Nele figuram: o d
Dr. Manuel Correia de Mesquita Barbosa, corregedor, provedor da Comarca do Porto, juíz dos Tombos da Vila e Honra de Sobrosa, de Azurara e Paços de Ferreira, e com ele o Dr. Rodrigo Coelho Machado Torres (Vila Cova - Sanfins), juíz de Fora de Vila do Conde; o escrivão fiscal Francisco Félix Henriques da Veiga (Casa da Torre Paços), mais tarde 1º Governador da Fortaleza da Póvoa de Varzim e cronista desta Vila de muito merecimento: o meirinho (antigo oficial de diligências) Manuel Teles de Meneses de Paços. Mediram uma cerca toda em redondo com 291 varas e meia (vara, antiga medida equivalente a um metro e dez centímetros) e dentro havia algumas casas, um poço de balde, terra lavradia e de mato. Mediram pela parte de fora desta cerca para a parte norte, um território que foi devesa e fôra até à roda de 1990 chão de feira.
Não restam dúvidas de que este  diz respeito à Casa do Morgado e terrenos vizinhos...que entraram em cedências e formam hoje o Alto da Feira. (Continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XIV)


Freamunde passou à Casa do Infantado por Carta de Doação de D. João IV a seu filho D. Pedro em 1654. Desde 1641, com a extinção do Marquezado Vila Real, as nomeações dos oficiais passaram a ser na Junta de Justiça de Vila Real. A partir de então Freamunde passou a depender juridicamente da Correição de Vila Real, era pois o corregedor (magistrado que naquela época, tinha atribuições idênticas às dos actuais juízes de direito), que determinava os casos judiciais.
A Casa do Infantado era um conjunto de bens com todos os previlégios, isenções e prerrogativas de que gozava a Casa de Bragança. A Casa do Infantado existiu até 1834, ano em que  foi extinta por decreto de D. Pedro IV, com a data precisa de 18 de Março, juntamente a outro diploma que destituia o Infante D. Miguel, seu irmão, de todas as honras, prerrogativas e previlégios por ele usufruídos como Infante de Portugal e o despojava de todas as suas honras e proventos.
Pinho Leal diz: que Freamunde é terra fértil e muito antiga e que era, ao tempo das inquirições reais do concelho de Baião, julgado de Aguiar de Sousa, no reinado de D. Afonso III, 1248 - 1279.
Que a Casa do Infantado apresentava o reitor que tinha: 40.000 reis de rendimento. Que os marqueses de Vila Real destinavam rendimentos à Ordem de Cristo e tinha as mesmas honras e privilégios como se fossem dadas pelo Rei. Que isto e tudo o mais dessa nobre e grande Casa e da do Duque de Caminha (que era da mesma família) perderam os Noronhas em 1641, por tentativa de regicídio, passando a maior parte das suas propriedades para a Casa do Infantado. (continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado"
Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

terça-feira, 23 de julho de 2013

Toponímia Freamundense

 RUA CORAÇÃO DE JESUS
Começa na Travessa de Santa Cruz e termina na Rua de São Martinho.
Foi desde tempos imemoriais um simples caminho de servidão dos proprietários para das matas transportarem o que estas produziam, bravios pertencentes a Matias Alves Lima e uma parte ainda em terrenos de Freamunde sendo na altura seus proprietários a família da Casa do Recanto, que adiante na nótula referente a esta casa, falarei mais em pormenor. Foi este caminho que também dá acesso ao monte do Coração de Jesus e depois de devidamente alargado veio a dar o nome a esta rua e que à roda de 1950 começou por ser habitado. Antes existira uma oficina de serralharia de Rodrigo Marques (Passarinha) e da qual um seu familiar construiu a sua habitação. A rua está urbanizada do nascente, quanto do poente está praticamente desabitada, existindo uma casa quase no princípio da rua e mais ou menos a meio um casebre que dá a ideia de estar desabitado.
Não muito longe desta rua, entrando em Freamunde pelos actuais limites da freguesia de Figueiras, há um lugar chamado ainda agora de “Os Mortórios”. Por toda a província do Minho há muitos lugares com esta denominação, os quais devem ter provavelmente a mesma origem. Mortório no antigo português equivalia a fogo morto, que era o lume do lar apagado, a casa abandonada, o casal desabitado, reduzido a mato e sem cultura. Segundo pois, esta significação, o local de “Os Mortórios” foi em tempos remotos povoado. Seria nele a aldeia de Berto? (lugar antigo de Freamunde citado nas Inquirições dos meados do séc. XII e que nós não sabemos onde ficava). Só se pode admitir supondo que os inquiridores passando de Freamunde de Cima (centro da povoação) a Leigal, e de Leigal a Sistos o deixassem ficar para trás por descuido, o que não me parece muito aceitável. Além disso, o sítio, hoje quase todo coberto de pinheiros e mato, não era nem é próprio pelo menos na sua maior parte para a cultura de cereais ou outros produtos que a terra nos dá.
Nem poderia conter os outros quatro casais que lhe dão as Inquirições.
Contíguos ficam “Os Castros”, dois pequenos outeiros, um deles, mais elevado e agudo, conhecido também pelo nome, mais português de Picôto, que lhe é bem apropriado.
Há em várias terras este nome, Picôto, aqui bem perto de nós, em Carvalhosa há o nome de Picôto, em Braga conheço o mesmo nome, que quanto a mim devem ter o mesmo significado e deviam na altura das incursões do inimigo servirem de postos de vigia.
Deve-se também o nome de Castro aos montes que, pela sua situação geográfica, podiam servir de defesa a uma povoação, e até àqueles que sendo coroados de penedias, se assemelhassem, vistos de longe, a castelos. Alguns desses castros-fortalezas povoaram-se, e ficaram conservando as povoações, servindo de guarda, ou atalaia às campinas ou lugares chão, expostos às invasões dos inimigos. A Citânia de Sanfins, a meia dúzia de quilómetros de Freamunde, é um rico exemplo da cultura castreja do noroeste peninsular e uma das estações arqueológicas mais significativas da vivência desses tempos. Está classificada como monumento nacional desde 20 de Agosto de 1946. A zona escavada mostra um forte sistema defensivo, de várias ordens de muralhas, que envolve uma área superior a 15 hectares, e uma apreciável organização protourbana de estrutura regular com arruamentos octogonais e mais de centena e meia de construções de planta circular e quadrangular agrupadas em cerca de quarenta conjuntos de unidades domésticas.
Em Freamunde, o lugar dos Mortórios, que se estende no sopé e a ocidente do Castro do Picôto seria uma dessas povoações aninhada ao lado de uma fortaleza?
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XIII)


Esta medida extremamente dura que D. João tomou, reconhece hoje a historiografia a relevância deste tipo de representações do poder e quanto são ainda mais importantes em períodos revolucionários. Com efeito e como muitos reconheciam na época, entre os quais os próprios castelhanos, o castigo referido fazia mais duvidosa a conquista de Portugal, entendendo El Rei D. João IV se não arrojara a tanto empenho, se duvidara da sua segurança e obediência dos ânimos de seus vassalos.
O castigo aplicado ao Marquês de Vila Real e a seu filho o Duque de Caminha (senhores de Freamunde), não foi mais que uma trama urdida para incriminar estes fidalgos que nunca estiveram envolvidos na conjura, antes pelo contrário, quando o Marquês teve conhecimento do golpe do 1º de Dezembro pela boca de seu filho, encontrava-se em Leiria e, aí aclamou de imediato o novo monarca. Quanto ao Duque de Caminha, o processo dizia mesmo que nas acusações feitas estas não tinham qualquer fundamento, pelo que estas duas condenações foram mais um acto político, com certeza com o receio que estes dois fidalgos podessem dar algumas informações a Castela.
Talvez o caso não assumisse proporções tão alongadas se o monarca tivesse substituído imediatamente nos postos do governo e do Paço as figuras conhecidas mais afectas à governação castelhana de Diogo Soares e de Miguel de Vasconcelos. Foram todavia, uma decisão política. Se a prática governativa provou que essa opção gerara mais embaraços e intrigas que os consensos pretendidos confirmava-se igualmente que a pressão surda para a renovação do pessoal político tivera enfim vencimento. É por isso, importante sublinhar que muitas das personalidades mais directamente activas na aniquilação da conjura saíram do grupo dos aclamadores. D. João IV socorria-se deles, ou melhor, eram os próprios restauradores que se faziam utilizar como peças determinantes na consolidação do processo da sucessão. Eram o esteio da mudança definitiva com a qual iriam continuadamente identificar-se. (Continua)
JOÃO CORREIA - "FREAMUNDE E CASA DO INFANTADO"
JORNAL GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Toponímia Freamundense

 RUA MARTINHO CATANO
Caminho rural em parte ladeado por terras da antiga família e muito abastada Ferreira Alves de Freamunde de Cima e hoje na posse de herdeiros de D. Maria das Neves Nunes a quem à roda de 1920, aquela família doara. A rua que começa junto ao Largo Costa Torres e termina no local onde está instalada a fábrica de mobiliário "Dismóvel", está em parte urbanizada.
Martinho Nogueira Nunes, nasceu em Freamunde a 10 de Dezembro de 1875 e faleceu em 10 de Janeiro de 1971. Casou com Sofia Alves, que lhe deu sete filhos: Maria, Ana, Arnaldo, Constância, António, Ludovina e Saúl, com quem falei para esta nótula nas vésperas de atingir a bonita idade de 100 anos, que completou em 14 de Março de 2012 e com uma lucidez invejável.
O senhor Martinho, era lavrador, caseiro de uma quinta pertencente a Cândida Sousela, e certo dia ao arrancar um raizeiro dum velho carvalho, notou que o coval punha a descoberto qualquer coisa que lhe chamou a atenção; como pessoa de sensibilidade que era, aprofundando à enxada a escavação, acabou por descobrir os degraus de uma escaleira de pedra no lugar que a tradição chama ainda hoje de S. Martinho. Doutra vez e no mesmo local, o senhor Martinho, que trabalhou com o senhor padre Francisco Peixoto em escavações a que este pôde proceder no local, com autorização dos proprietários, a terem-se ali desenterrado pedras que o sacerdote «classificou de mós de antigos moinhos manuais, uma pedra grande, aparelhada à semelhança dum cunhal de habitação e que o padre Francisco Peixoto tomou como possivelmente pertencente à igreja da originária povoação». Assistiu a tudo isto com o filho, sr. Saúl, que com toda a naturalidade em casa das sobrinhas me contou estes acontecimentos e às quais eu agradeço a atenção dispensada.
Acta da sessão em que foi instalada a Associação de Socorros Mútuos Freamundense e eleitos os corpos gerentes na presença de todos os membros desta Associação:
"No ano da Graça do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil Oitocentos e Noventa e Um, ao Primeiro de Fevereiro nesta freguesia de Freamunde, lugar de S. Francisco e morada de Albino Augusto da Costa Torres, teve lugar uma assembleia geral com a presença de todos os associados para a escolha de um clínico para a futura Associação".
Apresentaram as suas propostas em carta fechada os médicos Joaquim Leão Nogueira de Meireles, de Paços de Ferreira (que anos mais tarde viria a ser director da Associação) e o clínico António José Ferreira Marnôco e Sousa. Depois de abertas as cartas e escolha recaiu neste último clínico, com o vencimento anual de 100$00.
Pouco tempo depois, este clínico natural de S. João de Covas, convidou para seu cocheiro (ainda muito novo) o senhor Martinho e como este já entendia um pouco de ossos com a ajuda do dr. Marnôco foi aperfeiçoando esta delicada arte de tal forma que aquele clínico o encarregava por vezes de visitar alguns dos seus doentes.
O senhor Martinho ainda criança já tinha habilidade para lidar com ossos, tratava com tal carinho as pessoas que as dores eram horríveis mas as suas mãos na parte dorida pareciam de seda.
Seu pai, António Nogueira Nunes o «António Catano» tinha por hábito em qualquer desordem dizer que pegava numa catan para acabar com a contenda e, por esse motivo ficou conhecido pelo António Catano, alcunha que seu filho e familiares herdaram desde então até hoje.
Recordo quando era criança ter fracturado um pé, o sr. Martinho veio a casa dos meus pais para me curar, as dores eram terríveis, mas o sr. Martinho enquanto apalpava o pé ia dizendo: «não vejo nada de especial», e de um momento para o outro e quando me apanhou distraído dá um jeito e o pé foi ao lugar, ao dizer que não via nada de especial era apenas para me tranquilizar e distrair. Meu pai quis-lhe pagar, mas o sr. Martinho não aceitou dinheiro nem coisa que o valesse e a paga foi um abraço ao meu pai e um adeus e sempre às ordens. Mas, a medicina não admite este tipo de tratamento e, aos 87 anos de idade foi chamado a tribunal, e este facto entristeceu-o muito e daí em diante só tratava com muito segredo e em sua casa aqueles que o procuravam, tratamentos sempre gratuitos.
O senhor Martinho Catano viveu sempre com a família e amizade de vizinhos e amigos não lhe faltavam, homem simples e bom, atendia generosamente todos quantos o procuravam sem nada pedir.
Em tempos que não havia televisão nem núcleos de futebol, os jovens nas longas noites de Inverno faziam da casa do senhor Martinho (também conhecida por Casa de Colmo) o seu ponto de encontro para passar os serões, mas só os rapazes, as raparigas, essas ficavam com as mães em casa a fazer meia ou a dobrar o linho para o bragal, o Manel já cumpriu o serviço militar e o casamento não tarda.
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

terça-feira, 9 de abril de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado ( XI )

De igual modo, a Mesa da Consciência e Ordens em 23 de Agosto degradara e entregara à justiça secular Pedro de Baeça, Belchior Correia da França e Diogo de Brito Nabo. Consideraram os tribunais, logo no dia 26, que a prova fora feita e acusaram-nos dos mesmos crimes, condenando-os igualmente à perda de todos os seus bens e pena máxima. Morte menos honrada, todavia, em virtude do seu estatuto social inferior que detinham «morra morte cruel, seja enforcado com forca mais alta findo o qual será levado a rastos na forma costumada e depois da morte seja esquartejado e seus quartos sejam postos em lugares públicos e costumados». Sem a mais pequena hesitação, o monarca confirmou-a nesse mesmo dia em escrito da mão de Francisco Lucerna, e a execução foi também marcada para o dia 29.
Testemunhos oculares em várias narrativas deixaram-nos a memória cruel deste triste dia. Os quatro réus fidalgos foram alojados, na véspera, numa das casas de Gaspar de Faria Severim, em aposentos separados, cada um com seu crucifixo, com duas velas e seus confessores. Das janelas da sala principiava um passadiço de madeira, no género de uma ponte, até um teatro também de madeira que se tinha construído para o efeito. Foi coberto de baeta e nele colocados quatro cadeiras do mesmo material e cobertas com igual tecido. Cada cadeira estava em seu estrado, tinham dimensões diferentes e estavam elevadas em acordo com o estatuto de cada um dos condenados: maiores e de dois degraus as primeiras duas que se destinavam ao 7º Marquês de Vila Real e ao Duque de Caminha, mais pequenas as seguintes, de um só degrau para o Conde de Armamar, rasa a de D. Agostinho Manuel. Em volta dois esquadrões, formando 14 companhias comandadas por D. Francisco de Noronha (que em vão se tentara escusar ao posto «para não correr o sangue de que tinha parte de seu»).
No Paço da Inquisição ficaram o Desembargador da Relação e os seis fidalgos juízes. A este acto veio assistir muita população contabilizada por alguns em cerca de 50.000 pessoas. (continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

segunda-feira, 25 de março de 2013

Toponímia Freamundense

 RUA DA ORIGEM SUÉVICA
Começa na rotunda da Rua Brigadeiro Alves de Sousa e termina na rotunda da Rua de Freamunde de Cima. Numa das muitas reuniões que a comissão de toponímia teve para nomear as ruas de Freamunde, eu lembrei o nome dos Suevos, ao que o meu colega e prezado amigo Ernesto Pereira disse que não achava lá muito bem evocar um povo que já não existia, motivo porque eu retorqui dizendo que segundo a tradição Freamunde fora fundada pelos suevos, e por isso as suas origens eram suévicas e nunca é demais lembrar os nossos antepassados, mais um pouco de conversa e os quatro membros da comissão concordaram com este topónimo que eu havia sugerido.
A rua era completamente desabitada, pois tinha sido rasgada havia pouco tempo, por isso não era polémica a alteração do nome (pensamos nós), no caso dos futuros moradores não concordarem com o topónimo da nova rua. Passaram-se cerca de vinte anos  e o nome da rua mantem-se o que dá um certo prazer à comissão de toponímia e em especial a mim mesmo.
As bonitas casas que ali se edificaram do lado sul, começaram a ser construídas a partir de 2002, antes era um campo de cultivo conhecido por Campo Grande e pertencente a herdeiros do comerciante e proprietário Maximino de Matos Nunes. O lado norte continua por edificar, espero bem um dia ver lá prédios tão formosos como aqueles que já foram levantados do lado sul.
Segundo o arqueólogoDoutor José Leite de Vasconcelos, autoridade das mais sábias e fidedignas e ilustre germanista, a palavra Freamunde é de origem germânica. O prefixo FRE ou FREA, corresponde, ao alemão FRIEDE, que significa PAZ; e o sufixo MUNDE, ao MUND alemão, que equivale em português, a apoio, protecção, tutela.
O nome de Freamunde por conseguinte, é um nome de pessoa, como tantos outros, semelhantes, quase idênticos; e significa apoio da paz.
Quanto às hordas dos Bárbaros do norte - Vândalos, Suevos, Visigodos e Alanos, se alastraram e assolaram a Galecia e a Lusitânia, desde os começos do século V, seria realizado no sítio de Freamunde algum tratado de paz?
Estacionou por aqui, transitou por este solo algum homem importante, algum guerreiro, algum embaixador que a negociasse, ou que a ditasse?
Idácio, bispo (de Lugo?), contemporâneo e testemunha daquelas horrorosas invasões, diz, na Crónica que as refere, que os Galaicos, oprimidos pelas contínuas hostilidades e depredações dos Suevos, recorreram ao célebre capitão romano, Accio, que então se achava na Gália, como representante do Império, cuja supremacia, nominal ao menos, os mesmos Suevos ainda reconheciam. O célebre patrício, vencedor dos Hunos, enviou a Hermenerico, Rei dos Suevos que residia no Porto, o embaixador Censorio, que conseguiu a paz. Mas, passado algum tempo, voltou Hermenerico a assolar os Galaicos. De novo estes se queixaram a Accio, que segunda vez enviou o mesmo Censorio; acompanhado, porém, agora de um outro embaixador, denominado Fresimundo, que conseguira, enfim, a paz definitiva e duradoura. De França, em caminho para o Porto, atravessaria Fresimundo o sítio de Freamunde? Seriam os ajustes de paz tratados, não no Porto, mas casualmente aqui?
Seria este embaixador o fundador de Freamunde, demorando-se, ou parando por este sítio?
O que é, porém, muito crível, quase incontestável, é que Freamunde é a alteração fonética de Fresimundo, e não de Fradamundo. Razão muito convincente, além de outras, é o facto de as Inquirições Reais, em meados do século XIII, escreveram Fremundi.
E porque motivo escrevem eles Fremundi, e com elas também o Catálogo dos Bispos do Porto, publicado em 1623?
Freamunde é o genitivo de Fremundus, bem como Sismundi é o genitivo de Sismundus, Veremundi o de Veremundus, etc. Sucedia isto frequentemente na Idade Média. Um senhor, fidalgo, ou proprietário, fabricava um terreno, possuía uma quinta, uma herdade ( a que naqueles tempos se chamava Villa ou Fundus). Para a designar  dizia-se em latim, Vila Fremundi, como hoje se diz Quinta do Pinheiro, Quinta da Vista Alegre e assim sucessivamente. Depois, com o tempo, os genitivos tomaram só por si independência, e ficaram constituindo os nomes de futuras povoações.
Eis o que sucedeu indubitávelmente com Freamunde.
Eis pois a origem indubitável desta terra. Foram os Suevos os seus fundadores, depois que aqui chegaram, em 410, e provavelmente pouco depois desse ano. Foi um suevo que lhe pôs o nome.
Mas afinal que povo foi esse, cujo nome da rua causou a alguns freamundenses tanta perplexidade, espanto e até admiração!?
Os Suevos eram oriundos da região entre os rios Elba e Oder, na actual Alemanha. No princípio do século V, hostes de povos bárbaros, vindos do norte, invadiram a Península Ibérica e, por onde passavam, matavam, destruíam e saqueavam. Foram os Alanos, Vândalos e Suevos. De todos, apenas os Suevos conseguem fixar-se na parte noroeste da Península. Foi Braga a capital do Reino Suevo, por conseguinte bem perto de Freamunde.
Por um período de dois anos, os Bárbaros destruíram, pilharam, mataram e sem serem muito incomodados pelas tropas romanas estacionadas na Península. O cronista Idácio, Bispo de Chaves, e contemporâneo, descreve-nos em páginas negras esses tempos de insegurança, medo e miséria. Por fim os Bárbaros aceitaram a proposta romana  de um pacto e repartiram os territórios sobre os quais exerciam domínio. Aos Suevos (que no caso é o que nos interessa), tocou-lhes a Galécia, actual Galiza e o Minho até para além do rio Douro.
Cerca do ano 417, os Alanos invadiram os territórios dos Suevos, empurrando estes até à margem direita do rio Douro, onde hoje se situa a cidade do Porto. Os Alanos não conseguiram, apesar de muitos esforços, conquistar a cidade, sendo posteriormente expulsos pelo povo suevo, com o apoio dos romanos. Hermerico, o rei suevo, estendeu os muros do castelo, que fundara no morro da Pena Ventosa (onde actualmente se ergue a Sé), edificando à sua volta casas para as tropas. A este foi dado o nome de Cale Castrum Novum (castro novo de Cale), adquirindo a denominação de civitas (cidade). Ao fundo desse morro existia o Portus Cale (porto de Cale, actual Ribeira), que deu origem ao nome de Portucale, nome esse dado ao castelo novo, e que ficaria a designar a cidade a partir dos finais do século  IV. O castelo antigo ficava do outro lado do rio Douro, no local de Vila Nova de Gaia, posto de defesa avançado de Cale.
O modo de vida dos portugueses da região nortenha foi herdado dos Suevos, principalmente por predominar as pequenas propriedades rurais contrariamente à região sul de Portugal onde predomina o grande latifundiário. Aos Suevos também se atribui a introdução do arado quadrado na península.
Em 585, os Visigodos destroçaram os Suevos e capturaram o seu Rei, Andeca. O reino suevo foi anexado pelo reino visigodo de Toledo.
O reino suevo configura-se como a mais antiga estrutura política das actuais regiões da Galiza e norte e centro de Portugal depois da queda do domínio romano. Foi o primeiro reino que se separou do Império Romano e cunhou moeda. Os Suevos eram um povo germânico que teria entrado no noroeste da Península Ibérica em 407 ou 409, numa vaga migratória ou guerreira mas com pouca população. Rapidamente tomaram o controlo do território, mas devido ao seu número reduzido não modificaram grandemente a estrutura nem a cultura em que se assentaram. As Crónicas de Idácio é uma das fontes que mais dados nos dá sobre a estadia deste povo no noroeste peninsular e possui grande valor por se tratar duma fonte contemporânea dos acontecimentos relatados.
Os Suevos, procedentes do interior da Europa, concentraram-se à sua chegada à Península Ibérica nas dioceses de Braga, Porto e Tui, a região mais desenvolvida e povoada da Gallaccia romana, na zona de influência da capital, Braga. Nomearam como rei, HERMERICO (409 - 438), que assinou um pacto com Roma em 410 ou 411 pelo qual os Suevos estabeleceram o seu reino na província romana de Gallaecia e aceitaram o Imperador de Roma como o seu superior. Depois da morte de HERMERICO reinou REQUILA (438 - 448) que empreendeu uma política expansiva que fez com que os Suevos se consolidassem no norte da Lusitânia. Sucedeu REQUIÁRIO (448 - 456), que adoptou o catolicismo em 449. Em 456, teve lugar a batalha de Órbigo, que opôs visigodos e suevos, com a derrota destes últimos, o que teve como consequência o assassinato de REQUIÁRIO e o saque de Braga pelos Visigodos. Depois, da derrota frente aos visigodos, o reino suevo dividiu-se e governaram-no simultaneamente FRANTANO e AGUIULFO. Os dois fizeram-no desde 456 até 457, ano no qual MALDRAS (457 - 459) reunificou o reino, para acabar sendo assassinado devido a uma conspiração romano-visigótica que fracassou. Apesar da conspiração não ter atingido os seus objectivos, o reino suevo viu-se novamente dividido entre dois reis, FRUMARIO (459 - 463)  e REMISMUNDO, filho do rei MALDRAS (459 - 469) que reunificou novamente o reino de seu pai em 463 e que se viu obrigado a adoptar o arianismo (seita religiosa dos arianos-doutrina de ário) em 465 devido à influência visigótica.
Depois da morte de REMISMUNDO entrou-se na idade das trevas, que durou até 550, ano no qual desapareceram praticamente todos os textos escritos. A única coisa que se sabe desta época é que muito provavelmente TEODEMUNDO governou o reino.
Os suevos adoptaram rapidamente a língua hispano-latina falada nas ex-províncias romanas que ocuparam, pelo que quase nenhuns vestígios linguísticos restam da sua (curta) presença.
Com a adopção do arianismo pelos suevos deve com certeza ter acontecido em Freamunde o abandono do padroeiro S. Martinho e ter sido arrasada a sua igreja, visto nas Inquirições Afonsinas de 1258 o nosso padroeiro já ser o Divino Salvador conforme nos relatam as mesmas inquirições. Muitas pessoas se me têm dirigido a perguntar o porquê do nome desta rua da Origem Suévica. Parece-me que fica assim satisfeita a curiosidade daqueles que gostam de saber o porquê dos acontecimentos.
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira.