Mostrando postagens com marcador Jornal Gazeta de Paços de Ferreira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jornal Gazeta de Paços de Ferreira. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Toponímia Freamundense

 RUA MARTINHO CATANO
Caminho rural em parte ladeado por terras da antiga família e muito abastada Ferreira Alves de Freamunde de Cima e hoje na posse de herdeiros de D. Maria das Neves Nunes a quem à roda de 1920, aquela família doara. A rua que começa junto ao Largo Costa Torres e termina no local onde está instalada a fábrica de mobiliário "Dismóvel", está em parte urbanizada.
Martinho Nogueira Nunes, nasceu em Freamunde a 10 de Dezembro de 1875 e faleceu em 10 de Janeiro de 1971. Casou com Sofia Alves, que lhe deu sete filhos: Maria, Ana, Arnaldo, Constância, António, Ludovina e Saúl, com quem falei para esta nótula nas vésperas de atingir a bonita idade de 100 anos, que completou em 14 de Março de 2012 e com uma lucidez invejável.
O senhor Martinho, era lavrador, caseiro de uma quinta pertencente a Cândida Sousela, e certo dia ao arrancar um raizeiro dum velho carvalho, notou que o coval punha a descoberto qualquer coisa que lhe chamou a atenção; como pessoa de sensibilidade que era, aprofundando à enxada a escavação, acabou por descobrir os degraus de uma escaleira de pedra no lugar que a tradição chama ainda hoje de S. Martinho. Doutra vez e no mesmo local, o senhor Martinho, que trabalhou com o senhor padre Francisco Peixoto em escavações a que este pôde proceder no local, com autorização dos proprietários, a terem-se ali desenterrado pedras que o sacerdote «classificou de mós de antigos moinhos manuais, uma pedra grande, aparelhada à semelhança dum cunhal de habitação e que o padre Francisco Peixoto tomou como possivelmente pertencente à igreja da originária povoação». Assistiu a tudo isto com o filho, sr. Saúl, que com toda a naturalidade em casa das sobrinhas me contou estes acontecimentos e às quais eu agradeço a atenção dispensada.
Acta da sessão em que foi instalada a Associação de Socorros Mútuos Freamundense e eleitos os corpos gerentes na presença de todos os membros desta Associação:
"No ano da Graça do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil Oitocentos e Noventa e Um, ao Primeiro de Fevereiro nesta freguesia de Freamunde, lugar de S. Francisco e morada de Albino Augusto da Costa Torres, teve lugar uma assembleia geral com a presença de todos os associados para a escolha de um clínico para a futura Associação".
Apresentaram as suas propostas em carta fechada os médicos Joaquim Leão Nogueira de Meireles, de Paços de Ferreira (que anos mais tarde viria a ser director da Associação) e o clínico António José Ferreira Marnôco e Sousa. Depois de abertas as cartas e escolha recaiu neste último clínico, com o vencimento anual de 100$00.
Pouco tempo depois, este clínico natural de S. João de Covas, convidou para seu cocheiro (ainda muito novo) o senhor Martinho e como este já entendia um pouco de ossos com a ajuda do dr. Marnôco foi aperfeiçoando esta delicada arte de tal forma que aquele clínico o encarregava por vezes de visitar alguns dos seus doentes.
O senhor Martinho ainda criança já tinha habilidade para lidar com ossos, tratava com tal carinho as pessoas que as dores eram horríveis mas as suas mãos na parte dorida pareciam de seda.
Seu pai, António Nogueira Nunes o «António Catano» tinha por hábito em qualquer desordem dizer que pegava numa catan para acabar com a contenda e, por esse motivo ficou conhecido pelo António Catano, alcunha que seu filho e familiares herdaram desde então até hoje.
Recordo quando era criança ter fracturado um pé, o sr. Martinho veio a casa dos meus pais para me curar, as dores eram terríveis, mas o sr. Martinho enquanto apalpava o pé ia dizendo: «não vejo nada de especial», e de um momento para o outro e quando me apanhou distraído dá um jeito e o pé foi ao lugar, ao dizer que não via nada de especial era apenas para me tranquilizar e distrair. Meu pai quis-lhe pagar, mas o sr. Martinho não aceitou dinheiro nem coisa que o valesse e a paga foi um abraço ao meu pai e um adeus e sempre às ordens. Mas, a medicina não admite este tipo de tratamento e, aos 87 anos de idade foi chamado a tribunal, e este facto entristeceu-o muito e daí em diante só tratava com muito segredo e em sua casa aqueles que o procuravam, tratamentos sempre gratuitos.
O senhor Martinho Catano viveu sempre com a família e amizade de vizinhos e amigos não lhe faltavam, homem simples e bom, atendia generosamente todos quantos o procuravam sem nada pedir.
Em tempos que não havia televisão nem núcleos de futebol, os jovens nas longas noites de Inverno faziam da casa do senhor Martinho (também conhecida por Casa de Colmo) o seu ponto de encontro para passar os serões, mas só os rapazes, as raparigas, essas ficavam com as mães em casa a fazer meia ou a dobrar o linho para o bragal, o Manel já cumpriu o serviço militar e o casamento não tarda.
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

terça-feira, 9 de abril de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado ( XI )

De igual modo, a Mesa da Consciência e Ordens em 23 de Agosto degradara e entregara à justiça secular Pedro de Baeça, Belchior Correia da França e Diogo de Brito Nabo. Consideraram os tribunais, logo no dia 26, que a prova fora feita e acusaram-nos dos mesmos crimes, condenando-os igualmente à perda de todos os seus bens e pena máxima. Morte menos honrada, todavia, em virtude do seu estatuto social inferior que detinham «morra morte cruel, seja enforcado com forca mais alta findo o qual será levado a rastos na forma costumada e depois da morte seja esquartejado e seus quartos sejam postos em lugares públicos e costumados». Sem a mais pequena hesitação, o monarca confirmou-a nesse mesmo dia em escrito da mão de Francisco Lucerna, e a execução foi também marcada para o dia 29.
Testemunhos oculares em várias narrativas deixaram-nos a memória cruel deste triste dia. Os quatro réus fidalgos foram alojados, na véspera, numa das casas de Gaspar de Faria Severim, em aposentos separados, cada um com seu crucifixo, com duas velas e seus confessores. Das janelas da sala principiava um passadiço de madeira, no género de uma ponte, até um teatro também de madeira que se tinha construído para o efeito. Foi coberto de baeta e nele colocados quatro cadeiras do mesmo material e cobertas com igual tecido. Cada cadeira estava em seu estrado, tinham dimensões diferentes e estavam elevadas em acordo com o estatuto de cada um dos condenados: maiores e de dois degraus as primeiras duas que se destinavam ao 7º Marquês de Vila Real e ao Duque de Caminha, mais pequenas as seguintes, de um só degrau para o Conde de Armamar, rasa a de D. Agostinho Manuel. Em volta dois esquadrões, formando 14 companhias comandadas por D. Francisco de Noronha (que em vão se tentara escusar ao posto «para não correr o sangue de que tinha parte de seu»).
No Paço da Inquisição ficaram o Desembargador da Relação e os seis fidalgos juízes. A este acto veio assistir muita população contabilizada por alguns em cerca de 50.000 pessoas. (continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

segunda-feira, 25 de março de 2013

Toponímia Freamundense

 RUA DA ORIGEM SUÉVICA
Começa na rotunda da Rua Brigadeiro Alves de Sousa e termina na rotunda da Rua de Freamunde de Cima. Numa das muitas reuniões que a comissão de toponímia teve para nomear as ruas de Freamunde, eu lembrei o nome dos Suevos, ao que o meu colega e prezado amigo Ernesto Pereira disse que não achava lá muito bem evocar um povo que já não existia, motivo porque eu retorqui dizendo que segundo a tradição Freamunde fora fundada pelos suevos, e por isso as suas origens eram suévicas e nunca é demais lembrar os nossos antepassados, mais um pouco de conversa e os quatro membros da comissão concordaram com este topónimo que eu havia sugerido.
A rua era completamente desabitada, pois tinha sido rasgada havia pouco tempo, por isso não era polémica a alteração do nome (pensamos nós), no caso dos futuros moradores não concordarem com o topónimo da nova rua. Passaram-se cerca de vinte anos  e o nome da rua mantem-se o que dá um certo prazer à comissão de toponímia e em especial a mim mesmo.
As bonitas casas que ali se edificaram do lado sul, começaram a ser construídas a partir de 2002, antes era um campo de cultivo conhecido por Campo Grande e pertencente a herdeiros do comerciante e proprietário Maximino de Matos Nunes. O lado norte continua por edificar, espero bem um dia ver lá prédios tão formosos como aqueles que já foram levantados do lado sul.
Segundo o arqueólogoDoutor José Leite de Vasconcelos, autoridade das mais sábias e fidedignas e ilustre germanista, a palavra Freamunde é de origem germânica. O prefixo FRE ou FREA, corresponde, ao alemão FRIEDE, que significa PAZ; e o sufixo MUNDE, ao MUND alemão, que equivale em português, a apoio, protecção, tutela.
O nome de Freamunde por conseguinte, é um nome de pessoa, como tantos outros, semelhantes, quase idênticos; e significa apoio da paz.
Quanto às hordas dos Bárbaros do norte - Vândalos, Suevos, Visigodos e Alanos, se alastraram e assolaram a Galecia e a Lusitânia, desde os começos do século V, seria realizado no sítio de Freamunde algum tratado de paz?
Estacionou por aqui, transitou por este solo algum homem importante, algum guerreiro, algum embaixador que a negociasse, ou que a ditasse?
Idácio, bispo (de Lugo?), contemporâneo e testemunha daquelas horrorosas invasões, diz, na Crónica que as refere, que os Galaicos, oprimidos pelas contínuas hostilidades e depredações dos Suevos, recorreram ao célebre capitão romano, Accio, que então se achava na Gália, como representante do Império, cuja supremacia, nominal ao menos, os mesmos Suevos ainda reconheciam. O célebre patrício, vencedor dos Hunos, enviou a Hermenerico, Rei dos Suevos que residia no Porto, o embaixador Censorio, que conseguiu a paz. Mas, passado algum tempo, voltou Hermenerico a assolar os Galaicos. De novo estes se queixaram a Accio, que segunda vez enviou o mesmo Censorio; acompanhado, porém, agora de um outro embaixador, denominado Fresimundo, que conseguira, enfim, a paz definitiva e duradoura. De França, em caminho para o Porto, atravessaria Fresimundo o sítio de Freamunde? Seriam os ajustes de paz tratados, não no Porto, mas casualmente aqui?
Seria este embaixador o fundador de Freamunde, demorando-se, ou parando por este sítio?
O que é, porém, muito crível, quase incontestável, é que Freamunde é a alteração fonética de Fresimundo, e não de Fradamundo. Razão muito convincente, além de outras, é o facto de as Inquirições Reais, em meados do século XIII, escreveram Fremundi.
E porque motivo escrevem eles Fremundi, e com elas também o Catálogo dos Bispos do Porto, publicado em 1623?
Freamunde é o genitivo de Fremundus, bem como Sismundi é o genitivo de Sismundus, Veremundi o de Veremundus, etc. Sucedia isto frequentemente na Idade Média. Um senhor, fidalgo, ou proprietário, fabricava um terreno, possuía uma quinta, uma herdade ( a que naqueles tempos se chamava Villa ou Fundus). Para a designar  dizia-se em latim, Vila Fremundi, como hoje se diz Quinta do Pinheiro, Quinta da Vista Alegre e assim sucessivamente. Depois, com o tempo, os genitivos tomaram só por si independência, e ficaram constituindo os nomes de futuras povoações.
Eis o que sucedeu indubitávelmente com Freamunde.
Eis pois a origem indubitável desta terra. Foram os Suevos os seus fundadores, depois que aqui chegaram, em 410, e provavelmente pouco depois desse ano. Foi um suevo que lhe pôs o nome.
Mas afinal que povo foi esse, cujo nome da rua causou a alguns freamundenses tanta perplexidade, espanto e até admiração!?
Os Suevos eram oriundos da região entre os rios Elba e Oder, na actual Alemanha. No princípio do século V, hostes de povos bárbaros, vindos do norte, invadiram a Península Ibérica e, por onde passavam, matavam, destruíam e saqueavam. Foram os Alanos, Vândalos e Suevos. De todos, apenas os Suevos conseguem fixar-se na parte noroeste da Península. Foi Braga a capital do Reino Suevo, por conseguinte bem perto de Freamunde.
Por um período de dois anos, os Bárbaros destruíram, pilharam, mataram e sem serem muito incomodados pelas tropas romanas estacionadas na Península. O cronista Idácio, Bispo de Chaves, e contemporâneo, descreve-nos em páginas negras esses tempos de insegurança, medo e miséria. Por fim os Bárbaros aceitaram a proposta romana  de um pacto e repartiram os territórios sobre os quais exerciam domínio. Aos Suevos (que no caso é o que nos interessa), tocou-lhes a Galécia, actual Galiza e o Minho até para além do rio Douro.
Cerca do ano 417, os Alanos invadiram os territórios dos Suevos, empurrando estes até à margem direita do rio Douro, onde hoje se situa a cidade do Porto. Os Alanos não conseguiram, apesar de muitos esforços, conquistar a cidade, sendo posteriormente expulsos pelo povo suevo, com o apoio dos romanos. Hermerico, o rei suevo, estendeu os muros do castelo, que fundara no morro da Pena Ventosa (onde actualmente se ergue a Sé), edificando à sua volta casas para as tropas. A este foi dado o nome de Cale Castrum Novum (castro novo de Cale), adquirindo a denominação de civitas (cidade). Ao fundo desse morro existia o Portus Cale (porto de Cale, actual Ribeira), que deu origem ao nome de Portucale, nome esse dado ao castelo novo, e que ficaria a designar a cidade a partir dos finais do século  IV. O castelo antigo ficava do outro lado do rio Douro, no local de Vila Nova de Gaia, posto de defesa avançado de Cale.
O modo de vida dos portugueses da região nortenha foi herdado dos Suevos, principalmente por predominar as pequenas propriedades rurais contrariamente à região sul de Portugal onde predomina o grande latifundiário. Aos Suevos também se atribui a introdução do arado quadrado na península.
Em 585, os Visigodos destroçaram os Suevos e capturaram o seu Rei, Andeca. O reino suevo foi anexado pelo reino visigodo de Toledo.
O reino suevo configura-se como a mais antiga estrutura política das actuais regiões da Galiza e norte e centro de Portugal depois da queda do domínio romano. Foi o primeiro reino que se separou do Império Romano e cunhou moeda. Os Suevos eram um povo germânico que teria entrado no noroeste da Península Ibérica em 407 ou 409, numa vaga migratória ou guerreira mas com pouca população. Rapidamente tomaram o controlo do território, mas devido ao seu número reduzido não modificaram grandemente a estrutura nem a cultura em que se assentaram. As Crónicas de Idácio é uma das fontes que mais dados nos dá sobre a estadia deste povo no noroeste peninsular e possui grande valor por se tratar duma fonte contemporânea dos acontecimentos relatados.
Os Suevos, procedentes do interior da Europa, concentraram-se à sua chegada à Península Ibérica nas dioceses de Braga, Porto e Tui, a região mais desenvolvida e povoada da Gallaccia romana, na zona de influência da capital, Braga. Nomearam como rei, HERMERICO (409 - 438), que assinou um pacto com Roma em 410 ou 411 pelo qual os Suevos estabeleceram o seu reino na província romana de Gallaecia e aceitaram o Imperador de Roma como o seu superior. Depois da morte de HERMERICO reinou REQUILA (438 - 448) que empreendeu uma política expansiva que fez com que os Suevos se consolidassem no norte da Lusitânia. Sucedeu REQUIÁRIO (448 - 456), que adoptou o catolicismo em 449. Em 456, teve lugar a batalha de Órbigo, que opôs visigodos e suevos, com a derrota destes últimos, o que teve como consequência o assassinato de REQUIÁRIO e o saque de Braga pelos Visigodos. Depois, da derrota frente aos visigodos, o reino suevo dividiu-se e governaram-no simultaneamente FRANTANO e AGUIULFO. Os dois fizeram-no desde 456 até 457, ano no qual MALDRAS (457 - 459) reunificou o reino, para acabar sendo assassinado devido a uma conspiração romano-visigótica que fracassou. Apesar da conspiração não ter atingido os seus objectivos, o reino suevo viu-se novamente dividido entre dois reis, FRUMARIO (459 - 463)  e REMISMUNDO, filho do rei MALDRAS (459 - 469) que reunificou novamente o reino de seu pai em 463 e que se viu obrigado a adoptar o arianismo (seita religiosa dos arianos-doutrina de ário) em 465 devido à influência visigótica.
Depois da morte de REMISMUNDO entrou-se na idade das trevas, que durou até 550, ano no qual desapareceram praticamente todos os textos escritos. A única coisa que se sabe desta época é que muito provavelmente TEODEMUNDO governou o reino.
Os suevos adoptaram rapidamente a língua hispano-latina falada nas ex-províncias romanas que ocuparam, pelo que quase nenhuns vestígios linguísticos restam da sua (curta) presença.
Com a adopção do arianismo pelos suevos deve com certeza ter acontecido em Freamunde o abandono do padroeiro S. Martinho e ter sido arrasada a sua igreja, visto nas Inquirições Afonsinas de 1258 o nosso padroeiro já ser o Divino Salvador conforme nos relatam as mesmas inquirições. Muitas pessoas se me têm dirigido a perguntar o porquê do nome desta rua da Origem Suévica. Parece-me que fica assim satisfeita a curiosidade daqueles que gostam de saber o porquê dos acontecimentos.
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado ( X )

No essencial, a defesa do Marquês de Vila Real escudava-se nesta passividade de acção, embora tivesse alguma dificuldade em camuflar a sua afeição a Castela, que entroncava num passado de serviços remunerados com relevantes mercês outorgadas pelos Áustrias. Procurava todavia neutralizar esse argumento ao justificar que ele próprio admitira a D. João IV que «até oito de Dezembro fora castelhano» e que o próprio Rei lhe respondera «que também o ano passado aqui, a Lisboa, viera obedecendo a El Rei de Castela». Depreende-se ainda que se considerava malquisto entre os próximos de D. João e que era o rol extenso de inimizades, que foi nomeado ao longo do processo, que explicava a trama que contra ele se movia.
Relativamente ao Duque de Caminha, seu filho, a questão era mais complexa, pois todos os testemunhos sugerem a repugnância pela conjura. Ele próprio o explicava: «além de ser fiel vassalo era proveito meu, pois em Portugal tinha títulos e minha mulher e casa». Não comunicara ao monarca, porém. Era essa a sua imperdoável culpa.
O factor do receio e da derrota de Portugal mobilizava as gentes catalizando descontentamentos e agravos individuais. No entanto a aferir pelos libelos acusatórios e sentenças a conspiração não convocara um número significativo de vontades, pois como vimos só dez foram sentenciados à pena capital. Foram também alvo de acusação, além do 7º Marquês de Vila Real o Conde de Armamar e D. Agostinho Manuel. Todos haviam sido ao braço secular pela Mesa da Consciência e Ordens, pelo que a sentença, a ser executada com brevidade, para além da parte relativa à apreensão de todos os bens patrimoniais e da Coroa, era «que morra morte cruel para sempre e seja degolado em teatro levantado e público». Esgotados os recursos e os embargos à sentença que os réus acionaram sem sucesso, agendou-se a sua execução para sexta-feira, dia 29 de Agosto, era com simbolismo, o dia da festa em que foi degolado São João Batista.

João Correia 
Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Toponímia Freamundense


RUA DE SÃO MARTINHO
Começa na rua de Freamunde de Cima e termina junto ao Alto da Paixão na vizinha freguesia de Sousela. O sítio de S. Martinho situa-se no extremo nordeste da cidade e é segundo a tradição o lugar mais antigo de Freamunde.
A rua outrora um caminho tortuoso e cheio de covas que obrigava por vezes os lavradores proprietários dessas matas e carreteiros com os seus carros de bois a certos desvios dado o piso ser muito irregular. Esse caminho única via de comunicação com a vizinha freguesia de Sousela era completamente desabitado pelo menos até aos princípios do século XX. Eram matas de vários proprietários e só começou a ser habitado no primeiro quartel do século XX. Hoje por via da nova zona industrial esse antigo caminho foi alargado e urbanizado em parte pelo norte tornando-se numa boa via de comunicação. A comissão de toponímia de 1993, nas comemorações dos 60 anos de Vila, não esqueceu este Santo Taumaturgo dedicando-lhe esta rua com o seu nome.
Segundo uma tradição oral, muito antiga, mas ainda agora perfeitamente conservada entre os mais velhos moradores da freguesia, a primitiva igreja paroquial de Freamunde nem era no lugar da actual, nem tinha a invocação do Divino Salvador, que a de hoje tem. Era seu padroeiro S. Martinho, e ficava no extremo nordeste da paróquia, no sítio que ainda hoje conserva o nome deste santo, próximo a Freamunde de Cima. 
Até ao meado do século VI, eram raríssimas entre nós as igrejas paroquiais.                                    
A Diocese do Porto, que era uma das que maior número delas possuía contava, no ano de 563, vinte e quatro ao todo; entre as quais a de MAGNNETO (Meinedo), e a de LEPOSETO (Lordelo), eram as mais próximas de Freamunde. Por isso, frequentemente, o proprietário de uma quinta, o senhor ou Domus (dono) de uma Vila, erigia junto da sua habitação, ou dentro da sua propriedade uma pequena igreja (ou, antes, capela) para comodidade sua, de sua família, criados e companheiros. Afluiam a ela, para os actos de culto, os pastores, colonos e habitantes dos lugares circunvizinhos; e assim constituída, a igreja ficava sendo propriedade do senhor, que podia vendê-la, trocá-la, doá-la ou legá-la a seus herdeiros. Deste modo foram levantadas muitas igrejas, e transmitidas à posteridade. Desta forma sucedeu certamente com a primitiva igreja de Freamunde, pois que as Inquirições Reais de 1258, ainda a dão como pertencente aos herdeiros: Martinus Johanis, prelatus Ecclesias Salvatoris de Fremundi, interrugatus cujus est ipsa ecclesia, dixit quod est herdatorum (para melhor entendimento dos meus estimados leitores, vou passar esta leitura para vernáculo), Martinho João, prelado da mesma igreja, ajuramentado e interrogado a quem pertencia a dita igreja, disse que pertencia aos herdeiros, e que, com a apresentação deles o Bispo do Porto o colocara nela. Interrogado se o senhor Rei tem aqui ou deve ter algum direito, disse que não. Interrogado se fazem daí algum foro ao senhor Rei, disse que não.
Destas palavras se vê também que, já nos meados do século XIII, o padroeiro da igreja de Freamunde era o Divino Salvador; mas não se pode deduzir daí que antes dessa época, não tivesse sido o S. Martinho, como afirma a tradição. Os livros das confrarias, o catálogo dos Bispos do Porto nada, absolutamente nada dizem a tal respeito. No Censual do Cabido, nos arquivos da Câmara Eclesiástica, parece que também nada se poderá averiguar. Sendo assim parece pois verdadeira a afirmativa da tradição.
S. Martinho, Bispo de Tours, na Gália (actual França), foi um dos maiores taumaturgos da Igreja, durante a sua longa vida de 81 anos, e após a sua morte nos finais do século IV. A fama dos seus milagres, entre os quais a ressuscitação de alguns mortos, estendeu-se celeremente por toda a cristandade, e chegou aos ouvidos de Teodomiro, Rei suevo da Galécia, em 560. Tinha este Rei um filho, Ariamiro, em perigo de vida. Quanta prata e ouro pesava o filho mandou-o a França de oferta ao santo, solicitando uma relíquia dele para salvar o enfermo. Veio ela, restituiu a saúde ao moribundo, e Teodomiro agradecido abandonou a seita do arianismo, e edificou a igreja de S. Martinho da Cedofeita, no Porto; e logo outro S. Martinho, o de Dume, que da França tinha acompanhado a santa preciosidade, principiou a conversão dos suevos, que haviam abraçado a seita de Ario, desde o Rei Remismundo, para o seio da Igreja Romana, da qual se tinham apartado. 
Desde então a fama de S. Martinho aumentou prodigiosamente, e daí principiou ele a ser escolhido para padroeiro de muitíssimas igrejas em Portugal, principalmente ao Norte.
Ora, notando-se que 100 anos antes, pouco mais ou menos, é que principiou a ser arroteada a vila Fremundi, como vimos, é muito provável que prosperando ela, o seu proprietário, atendendo à distância a que ficavam as igrejas de Meinedo e Lordelo, edificasse uma capela dentro da sua quinta, sob o patrocínio de S. Martinho, cujo a fama tanto impressionara.
O certo, porém, e incontestável, é que a primitiva igreja de Freamunde, qualquer que fosse o seu orago, foi propriedade de um particular, de um senhor ou dominus, como dizem as Inquirições Reais. E igualmente certo é também que, neste sítio, houve um templo qualquer, pois nele por volta de 1850, foram desenterradas pedras lavradas, pias de água-benta, lágeas de sepulturas, ossos, e até esqueletos, que se pulverisaram logo ao contacto do ar. Testemunhas destes achados foram: João Marques, jornaleiro, Bernardino Caetano, Belmiro Rêgo, lavradores, etc.
Enterravam-se mortos juntos, ou dentro desse templo; havia e suponho que ainda há perto desse sítio, um pequeno outeiro chamado Alto da Paixão (Calvário?): tudo nos induz a crer que esse templo foi igreja paroquial, a primeira que teve esta freguesia, ficava dentro da quinta do senhor Fresimundi, e foi edificada, ou estava na posse de seus herdeiros e sucessores.
  "TOPONÍMIA FREAMUNDENSE" - JOÃO CORREIA - JORNAL GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado ( VIII )

Sobressaltando tudo e todos a 28 de Julho foi dada ordem de prisão a Nuno de Mendonça 2º Conde de Vale de Reis, a Gonçalo Pires de Carvalho, seu filho, e provedor das obras reais, a D. António de Ataíde, 5º Conde de Castanheira, a Rui de Matos Noronha, 1º Conde de Armamar, a António de Mendonça, comissário da cruzada, a Frei Luís de Melo, religioso da Ordem de Santo Agostinho, eleito Bispo de Malaca, a Paulo de Carvalho, vereador da Câmara e a seu irmão Sebastião de Carvalho, desembargador, a Luís de Abreu de Freitas, escrivão da Câmara do Rei, a Jorge Fernandes de Elvas, a Diogo Rodrigues de Lisboa e seu filho Jorge Gomes Álamo, a Simão de Sousa Serrão e dois filhos seus, a Cristóvão Cogominho, guarda-mor da Torre do Tombo, e seu irmão Fernão Cogominho, bispo de anel de Braga, a Manuel Valente Vilasboas, escrivão da Távola de Setúbal e a António Correia, oficial maior da Secretaria de Estado no tempo de Miguel de Vasconcelos. No dia seguinte foram presos D. Agostinho Manuel e D. Francisco de Faria, Bispo de Martíria.
A participação do 7º Marquês de Vila Real na conjura foi, com efeito, pouco activa. Sabia do caso nos seus pormenores, é certo. Mas apoiava-o discretamente e não sem alguma ambiguidade. Não se lhe denunciaram conversas senão com o Arcebispo de Braga, com o Baeça e o Franca. Se nos seus testemunhos o dava perentoriamente como aliado, outros desmentiram essas afirmações tão taxativas. Luís Pereira de Barcos confessou até que a certa altura na facção o «tinham por traidor porque souberam que aconselhara a Sua Majestade não mandasse sair deste porto a Armada!». Por seu turno, o Franca disse que o Marquês considerava as propostas de Baeça «uma doideira» e que queria dele era dinheiro para acabar de consertar a quinta de Alvalade, e nada mais, afirmou o mesmo do Duque de Caminha que era filho do Marquês, pois também ele enxotara o Baeça. Contudo, o nome do Marquês e o do filho surgiram sempre nos demais interrogatórios. Pelo contexto percebe-se, porém, que essa nomeação sistemática tinha origem, no Arcebispo e que fora por ele usada instrumentalmente com um determinante factor de persuasão e da credibilidade do golpe. Foi, no entanto, a alegada participação do Marquês que provocou suspeitas sobre Luís de Abreu Freitas, um seu criado, que servia no momento uma escrivaninha na Câmara do Rei e conduzira ao seu encarceramento em 28 de Julho. (Continua).
João Correia - Jornal Gazeta de Paços deFerreira

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Toponímia Freamundense

RUA DE ALÉM DO RIO
A rua começa no Largo Costa Torres e termina na Rua de Penelas, perto da junção com a Rua de Talhô.
Até 1985, era um caminho de terra batida, com três metros de largura, ladeado do nascente por quintais e ramadas pertencente a Matias Alves Lima e que este cedeu terreno para o alargamento da rua. Entretanto o genro Fernando Moura construiu aí uma oficina de metalurgia e a sua habitação.
Quase no príncípio da rua e também do nascente o industrial de móveis em pele António Alves Barbosa em 1993, levantou aí uma bonita vivenda. Do poente, havia já algumas habitações antigas e à roda de 1945 a construção de um prédio de Abílio Freire e quase no final da rua foi construida uma casa térrea à volta dos anos 50 / 60 de José Correia. Muito recentemente foi levantada uma bonita habitação também do poente, depois de ser demolida a casa de Agostinho Gomes (Ratoeira) que havia construído em 1954, e um seu familiar agora edificou.
O sulco aberto pelas águas correntes que nasce e alimenta a represa de Freamunde de Cima, talvez, noutros tempos remotos, constituísse um pequeno riacho. Depois, as muitas minas, poços e noras que por esses campos e montes circunjacentes se abriram desviaram para diversos pontos as linhas de água que o formavam. Antigamente dava-se o nome de rios a fios de água pouco mais volumosos do que regos. E ainda hoje no Inverno as águas naturais das chuvas e de uma ou outra nascente que atravessam esses campos tomam por vezes, o volume de um pequeno rio. Essas águas que passam junto ao Centro de Saúde e atravessam a Quinta do Balaio (mais conhecida por quinta da Elisa Torres) foram entretanto drenadas muito perto da estrada nacional que por vezes chegava a ficar intransitável com os «lençóis» de água que ali se formavam.
Essas água juntam-se à nascente da Jóia e formam um pequeno rio que alimenta o lavadouro de Além, onde noutros tempos centenas de mulheres ali iam lavar a sua roupa de casa, e uma parte destas águas ia ainda alimentar o moínho que lá se encontra (hoje desactivado) e por fim vão banhar o Parque de Lazer, seguindo depois o seu curso natural.
Os moradores da aldeia de Freamunde de Cima para designarem os poucos casebres qua lá existiam e lhes ficava a nordeste além do riacho, deram-lhe o nome de Além do Rio. Este topónimo é posterior às Inquirições de D. Afonso III de 1258, visto elas a ele não se referirem.
"TOPONÍMIA FREAMUNDENSE" - JOÃO CORREIA - JORNAL GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Natal

Uma imagem de Natal, da autoria do saudoso freamundense Quim Bica,  publicada no jornal "Gazeta de Paços de Ferreira", da edição da semana passada.
Uma homenagem à memória de Quim Bica nesta quadra natalícia.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Freamunde e a Casa do Infantado ( VII )

A Diplomacia do Rei Filipe IV de Espanha fizera correr na Europa que D. João IV era «rebelde» ao apoderar-se de Portugal pelo que teria de sofrer o castigo da traição que fizera contra a realeza filipina. Esta versão conquistou muitos exilados que em Espanha se opunham à Restauração. Também no Reino havia vários fidalgos que se opunham à nova situação, acusados de traidores acabarm por ficar detidos. Por mais alta que fosse a origem dos acusados, não podia ser diferente a reacção da Coroa, a fim de pôr termo a outras tentativas que pretendessem enfraquecer o ideal da Restauração. A hora era de sacrifícios e havia que assumi-los por inteiro. Esta leva de prisões sucedia às do dia 24 de Julho à noite, em que com menos aparato foram encarcerados Pedro Baeça, Belchior Correia da Franca e Diogo de Brito Nabo. A via da denúncia tivera o seu vértice no 5º Conde de Vimioso, recém chegado do Alentejo. O primeiro relato do plano que se urdia fora-lhe feito por Manuel da Silva Mascarenhas, natural do Torrão, que por seu turno, fora contactado para integrar a conspiração por Manuel de Vasconcelos, secretário do Conde de Vimioso. Assim que soube, o Conde apressou-se a comunicar ao Rei que insistiu em ouvir os detalhes do assunto directamente da boca dos dois denunciantes. Entretanto o Arcebispo de Braga abordou o Conde de Vimioso, julgando-o acessível à conjura pelo facto de o monarca não o ter convidado para o governo geral das armas do Reino. Na ânsia, mas também com a confiança, da sua adesão, confidenciou-lhe bastos pormenores do golpe que o Conde se prestou a transmitir. A confirmação última e com ela o imperativo evidente de acção adveio ao monarca com a denúncia de uns criados do Baeça que o davam combinado na conjura com o Franca e Brito Nabo.
Depois de encarcerados e postos a tormentos, os três confirmaram as revelações já feitas e de novo certificados por Luís Pereira de Barros, contador das Sete Casas de Lisboa e próximo de Miguel de Vasconcelos, em confissão feita alegadamente de moto próprio. Nela narrava a abordagem que o Baeça lhe fizera, como se comprova pelo interrogatório conduzido por António Pais Viegas nesse mesmo dia 24. Os indícios eram indisfarçáveis. Era inevitável agir. E assim, o Rei preparou uma estratégia durante essa noite com os seus mais próximos, tendo-se decidido a ser prudente e a aprontar um forte aparato militar. O pretexto foi o de que Sua Alteza Real desejava ir no dia seguinte da parte da tarde revistar pessoalmente os terços que se deviam posicionar, um no campo de Santa Clara, outro no Rossio e o outro no Terreiro do Paço. Mandaram também convocar os Conselheiros de Estado para as 3 horas da tarde. Entre essa hora e as cinco, o dispositivo militar estava prestes e os cavalos do Rei e do Estribeiro-Mor à beira da escadaria do palácio. No intuito de constituírem a comitiva régia, os fidalgos acorreram ao paço e a fim de comparecerem na reunião do Conselho de Estado, que o Rei também convocara, afluíram os seus membros, entre os quais se encontrava o 7º Marquês de Vila Real. Nessa altura foram presos o 7º Marquês de Vila Real, o Arcebispo nde Braga, o Bispo Inquisidor-Geral. Logo de seguida chegava o 2º Duque de Caminha, que ainda dentro do coche foi detido por Pedro de Mendonça e António de Saldanha. Foram detidos ainda mais implicados na conjura e, conduzidos uns para a Torre de Belém outros para o Castelo de S. Filipe de Setúbal e de Lisboa e ainda para a Torre do Outão, fortaleza de Cascais. (continua)
João Correia - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Freamunde e a Casa do Infantado ( VI )

O levantamento do 1º de Dezembro de 1640 surpreendeu o 7º marquês de Vila Real numa das suas estadas em Leiria. Não cuidaram os fidalgos aclamadores de o informar e até ao dia 8 de nada sabia. Diziam eles que a sua adesão seria segura e, de facto, depois de informado pelo 2º duque de Caminha, seu filho, rapidamente fez aclamar em Leiria o novel monarca e jurou-o sem problemas nas Cortes de Janeiro. Seguindo a política de manutenção dos nomeados nos postos, D. João reconduziu-o no cargo de conselheiro de Estado. Mas para nada mais de relevo o chamou. Antes pelo contrário, a mercê que o Rei lhe fez de o nomear coronel do terço da Nobreza sentiu-a como agravo.
Um dos acontecimentos mais inquitantes do 1º de Dezembro, foi seguramente a partida da fidalguia tão grada para Castela, no mês de Fevereiro. Eram todos eles de nobreza antiga donatários de terras, cavaleiros e comendadores de Ordens Militares e alcaides-mores. Alguns eram mesmo titulares, como D. Duarte de Meneses, 3º conde de Tarouca, ou herdeiros de Casas, como D. Pedro de Mascarenhas, D. João Soares de Alarcão e D. Luís da Silva.
Essa fuga para Castela, provocou uma generalizada insegurança, pois mostrava aos olhos de todos que a aparente unidade da Restauração estava longe de ser verdadeira.
Fôra a precipitação da partida dos fidalgos que impediu o Arcebispo de Braga de os acompanhar. Ficava então em Lisboa para avaliar a possibilidade, ou mesmo preparar, um contragolpe. Aproveitou, por isso, o ensejo para, através de D. João Soares de Alarcão, enviar cartas suas para o Rei Filipe IV, para o conde-duque, para Diogo Soares e para as pessoas do Conselho em que asseverava fidelidade. (continua)
João Correia - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Freamunde - Benfica de 1972

...Para quem não sabe - e será tanta gente, penso eu! - , o Benfica já esteve em Freamunde. É verdade. Foi no longínquo ano de 1972.
O jogo com os "azuis" não contava para nada, ou quase nada; não estavam em disputa quaisquer pontos; mas houve festa. E que festa!
As "águias" tinham sido convidadas pela direcção do Sport Clube de Freamunde para participarem na homenagem que iria ser prestada ao seu jogador-treinador, Santana. O clube da Luz logo confirmou a presença dada a consideração de que era credor o seu antigo atleta.
Santana havia sido um dos expoentes máximo dos benfiquistas, campeão europeu, inclusive, na década de sessenta.
Santana, já saudoso, foi um virtuoso do futebol. Poucos lhe chegaram aos "calcanhares". Representou o desportista completo: à mestria da técnica aliou a elegância no jogar. Já lá vão 40 anos. Ainda me lembro do ambiente então vivido. A ilustre comitiva foi recebida às portas de Seroa, dirigiu-se para Frazão onde o simpatizante encarnado, Manuel Coelho de Sousa, lhe prestou uma calorosa recepção, com foguetes e tudo. Até uma rosca de pão de ló foi distribuída a cada um dos atletas.
Chegados ao "Carvalhal", a abarrotar, Simões, de braço ao peito, com blocos de ingresso nas mãos, ajudava o seu ex-companheiro de tantas tardes e noites de glória.
O Benfica apresentou-se com o melhor que possuía no plantel, à excepção dos internacionais que haviam sido convocados para o Mundialito, no Brasil. Mesmo assim, no "onze", muitos craques. Foram estes os protagonistas do encontro:
Árbitro: Américo Borges
S. C. FREAMUNDE: Miguel (Agostinho "Rita"), Ribeiro, Fernando Viana, Rolando "jogador do F. C. Porto" e Albino (Faria); Jacinto "jogador do F. C. Porto" e Justino (Martinho); Couto, Santana. Yaúca "jogador do Lourosa" e Ernesto.
S. L. BENFICA: Fonseca, Malta da Silva, Rui Rodrigues, Zeca e Franque; Barros (Fausto), João Alves e Vitor Martins; Eurico, Carlos Pereira e Diamantino.
Venceu o Benfica por 0 - 1, com golo de Carlos Pereira, mas o Freamunde deu "água pela barba" ao valoroso e distinto opositor, valorizando o espectáculo.
No final da contenda, depois de Malta da Silva ter recebido das mãos do Vice-Presidente da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, a Taça "António Silva Alves", todos os intervenientes, amigos e convidados, reuniram-se na "Quinta do Monte" onde, num ambiente acalorado, lhes foi servido um esmerado copo d'água.
Uma festa bonita, rara, que gostosamente recordamos.
EQUIPA DO S. C. FREAMUNDE JUNHO 1972
EM CIMA: Miguel, Ribeiro, Fernando Viana, Jacinto (jogador do F. C. Porto), Albino, Fernando Ribeiro (director), Abílio Gomes (director), António Alves (director), Rui Magalhães (director) e Abílio Freire (director).
EM BAIXO: Rolando (jogador do F. C. Porto), Justino, Santana, Couto, Ernesto, Jaime Gomes (director), Fernando Moreira (director) e Yaúca (jogador do Lourosa)
Joaquim Pinto - Gazeta de Paços de Ferreira

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Associação Musical de Freamunde - 1822 / 2012

Em 15 de Junho de 1933, a Banda de Freamunde, deu a sua preciosa colaboração nas grandiosas celebrações da elevação de Freamunde à categoria de Vila. A Banda que nesse dia actuava na Trofa, regressou mais cedo e surgiu inesperadamente na sua terra a meio da tarde para não faltar a esta festa tão especial para os freamundenses. À noite, por volta das 21 horas, junto ao jardim público, uma enorme multidão comprimia-se, deliciada pela audição de alguns trechos musicais que a Banda ia executando. Meia hora depois, a Banda de Freamunde, juntamente com todas as colectividades locais, incorporou-se num longo cortejo em direcção à casa do sr. Tenente Carlos Luciano Alves de Sousa, homem da terra, a quem Freamunde ficou a dever a elevação a Vila. Na cauda do cortejo, a Banda de Freamunde, garbosa e altaneira, executando bonitas marchas, empolgava toda aquela imensa mola humana, pondo nesta festa já de si alegre uma nota de grande euforia. Para abrilhantar ainda mais esta celebração, a Banda de Freamunde subiu ao coreto por volta da meia noite e, sob a regência do maestro Eduardo Nobre Leitão, executou várias obras do seu vasto reportório, que o numeroso povo aplaudiu com entusiasmo, prolongando até de madrugada a euforia dos freamundenses.
Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Freamunde e a Casa do Infantado ( V )

O 7º marquês de Vila Real e donatário de Freamunde, era filho de D. Manuel de Meneses que foi 7º conde de Viana, 5º marquês de Vila Real, 4º conde de Alcoutim, 5º conde de Valença, 7º capitão-donatário de Ceuta. Na crise da independência, que se seguiu à morte do rei D. Sebastião em 1578, tomou partido por Filipe II de Espanha que o premiou com o título de duque de Vila Real. Casou com D. Maria da Silva, dama da rainha D. Catarina, filha de D. Álvaro Coutinho, comendador de Almoural. Por sua vez o 7º marquês de Vila Real, D. Luís de Noronha e Meneses foi o 9º conde de Viana, 7º marquês de Vila Real, 6º conde de Alcoutim, 7º conde de Valença, 9º capitão-geral de Ceuta e Senhor de todas as terra da Casa de Vila Real.
Como Filipe IV de Espanha fizera constar na Europa que D. João IV era «rebelde» ao apoderar-se do trono de Portugal em 1640, e teria de ser castigado pela traição à Coroa espanhola (quando era precisamente o contrário), impunha-se demonstrar que em 1580 a coroa devia, pelo «benefício de representação», ter pertencido a D. Catarina, duquesa da Casa de Bragança. Como filha do Infante D. Duarte, a ela caberia de justiça o trono de D. Manuel I, pelo que a invasão de Filipe II de Espanha (depois Filipe I de Portugal), violara os foros autênticos do Reino português. A partir desta base legal, os governos dos três Filipes podiam ser considerados como ilegítmos, não sendo aceites pela consciência dos portugueses. O 8º duque de Bragança, ou seja D. João IV, limitava-se, pois, a exercer o princípio jurídico que era pertença da mais antiga Casa Senhorial do país. Assim o entenderam os jurisconsultos de 1640, como Francisco Velasco de Gouveia, D. João Pinto Ribeiro, António Pais Viegas e António de Sousa Macedo, defendendo assim o argumento da restituição da coroa portuguesa a a D. João IV.
D. Catarina de Bragança nasceu em Lisboa a 18 de Janeiro de 1540 e faleceu em Vila Viçosa a 15 de Novembro de 1614. Casou em 8 de Dezembro de 1563, com seu primo direito D. João 6º duque de Bragança. D. Catarina, teve fama de ser muito instruída em latim, grego e astronomia. Fundou o convento das Carmelitas Descalças de Alter do Chão. Filha do Infante D. Duarte, foi pretendente ao trono de Portugal, como vimos, após a morte de D. Sebastião, por ser neta do rei D. Manuel I, como o eram os restantes competidores. Prejudicada pela impopularidade do marido e pela grande influência pelo rei de Espanha, submeteu-se à vontade de Filipe II. Deixou em manuscrito diversos papéis em que defendia o direito que tinha à coroa de Portugal. Foi avó de D. João IV. (continua)
João Correia - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Ecos das Sebastianas 2012

 "SEBASTIANAS": cartaz, símbolo de uma terra, dum concelho, duma região em que o fenómeno do sagrado e do imaginário caminham lado a lado. Parte integrante da cultura de um povo apaixonado, bairrista, que sabe preservar as suas tradições, que se orgulha da sua história, que procura a inovação e faz por acreditar num futuro melhor.
Nestes tempos difíceis que vivemos, com o país a atravessar uma das mais graves crises económicas de sempre, as "Sebastianas" surgiram como o elixir da alegria e da união de todos os freamundenses.
Por uns dias, os rostos da austeridade esqueceram as dificuldades e abriram-se num sorriso rasgado, espontâneo.
Foi um povo inteiro que se reviu na festa e participou nela, construindo os carros alegóricos, carregando os andores, estendendo colchas em quase todas as varandas, contribuindo como ninguém ao longo do ano para que nada faltasse. Povo que poupou nas despesas do dia a dia para poder manter o esplendor das festividades.
Já com grandes impulsos "exteriores", a participação das gentes, das instituições e colectividades desta Terra foram fundamentais para todo este sucesso.
No âmbito das actividades culturais, sociais e recreativas, a Associação "Pedaços de Nós" assumiu, por inteiro, a responsabilidade de organizar, programar a denominada "Semana Cultural". E tudo primou pela originalidade e recreação de factos ou eventos: concurso de quadras alusivas às "Sebastianas" e o serão musical da noite de domingo, 01 de Julho. Fantástica a abertura do espectáculo; contagiante e de enaltecer o neófito coro da "Associação", sob superior direcção da columbiana, já muito freamundense, Jenny Moreno. As componentes do coro, mulheres que nunca se imaginaram em semelhante cenário, demonstraram que com paixão, dedicação, bairrismo, cultura..., em Freamunde tudo é possível. Podemos contar com elas, seguramente.
Na Segunda trilhamos os "Caminhos do Fado", num ambiente característico, castiço, onde não faltou a arte de servir cordialmente à mesa num improvisado recanto com bancos, velas e sem marcações ou reservas. A noite desabrochou ao som das guitarras. Sentindo-se de imediato uma atmosfera diferente: serena, romântica...Que bom recordarmos baladas celebrizadas por Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira...as guitarradas de Carlos Paredes.
Bem diferentes os dias seguintes: ao frenético concerto dos "29th Secret", a Banda de Música de Freamunde brindou-nos com momentos musicais harmoniosos, agradáveis, de se ouvir.
Depois do "aquecimento" de Quinta-feira, com os melódicos "Sean Riley e The Slowriders", onde o folclore se misturou com o rock, géneros que dão identidade à banda e que conquistaram a plateia à conta das suas canções acústicas de embalar, de amor e desejo, a animação passava a morar em cada esquina.
A noite do dia seguinte foi a mais longa e animada do ano. Depois do concerto dos "Clã" - grupo musical português que privilegia o pop/rock..., com letras da responsabilidade, quase todas de Carlos Tê..., e que tem a felicidade de apresentar como vocalista, Manuela Azevedo, a vilacondense de voz fantástica..., que prestaram uma actuação repleta de qualidade e mostraram o seu verdadeiro potencial -, centenas de improvisados Zés P'reiras desfilaram horas a fio pelo coração de Freamunde, com as suas batidas ensurdecedoras nas peles das caixas e bombos, dando largas ao seu entusiasmo, em sintonia com centenas e centenas de "admiradores" espalhados ao longo do seu percurso. Alguns tocavam bem, outros nem por isso. Também havia quem não soubesse o que estava a fazer. Resquícios dos jantares/convívio promovidos por anteriores comissões. Assim como assim, as ruas transbordaram de alegria e algazarra. Quem quis dormir, sofreu, mas os outros divertiram-se até mais não.
No concerto de Sábado, a proposta mais apetecível de todo o certame não defraudou. "Zeca Sempre", projecto especial de tributo a José Afonso, preconizado pelos excelentes músicos portugueses Nuno Guerreiro, Olavo Bilac, Tozé Santos e Vitor Silva, que recuperaram e transportaram para a actualidade um espólio musical, do saudoso Zeca Afonso, rico em mensagens, influências, experiências e vivências. Que provaram a modernidade do compositor. Freamunde também quis homenagear Zeca «como se fora seu filho». No final do último "encore" - todos os membros do grupo, usaram, abraçados, apenas as vozes - vi milhares de braços levantados e lágrimas nos olhos entoando, em uníssono, «Grândola Vila Morena». As estrofes, imortais, ecoaram, sem hipocrisia, pela noite fora. Uma imagem difícil de esquecer, não só por aqueles - e outros tantos, tantos os que ainda não tinham visto a luz do sol quando Zeca morreu (23-2-1987) - que trilharam os mesmos caminhos do autor, que passou definitivamente a constituir uma unidade nacional. Saíram do palco perante a aprovação geral. Perante uma mole humana impressionante que participou, cantou, se emocionou. "Zeca Sempre".
Os elogios distribuem-se também aos "Expansive Soul", de novo entre nós, que actuaram já na madrugada de segunda. A dinâmica da banda é empolgante, completa, com influências no "soul", "funk", "rythm'nblues" e "reggae". A zona do palco foi invadida por milhares de admiradores, seduzidos desde o primeiro acorde, cuja sede de divertimento foi saciada na totalidade. O concerto rapidamente ganhou ritmo e entrou em velocidade de cruzeiro. Por fim, o aplauso generalizado e algumas manifestações de histeria dos fãs.
Nas longas madrugadas dos festivos dias, no palco "do lago", a juventude, irreverente quanto baste, de copo na mão - fosse cerveja, poncha ou caipirinha, era sempre a aviar. Sinceramente, não sei onde isto vai parar -, embalava os corpos com os ritmos dancáveis dos DJ. Ao lado, as "barracas" de pão com chouriço, de farturas e porco no espeto não tinham mãos a medir. Nada como confortar o estômago.
Continuando com música, nos coretos, outros sons, outras melodias. No domingo, tarde e noite, as Bandas de Freamunde e de Arcos de Valdevez, animaram os imensos apreciadores da Divina Arte, gente madura. Que "exige" que a tradição se mantenha. Que se cante a "Gandarela", o hino de Freamunde. O espaço destinado aos "combates" estava a abarrotar. Impressionante! Enfim, romaria que se preze sem bandas, não é romaria. Na componente religiosa, houve missa solene, abrilhantada pelo coro residente e pelos componentes da banda local. O interior da Igreja Matriz estava deslumbrante, ricamente ornamentado. O enfeite dos andores teve mãos de artistas. Um sonho.
No Domingo, ao entardecer, foi dia de procissão, longa e demorada. Uma das jornadas mais altas da festa. Imagem de marca, de um povo e uma cultura que atrai milhares de pessoas. Deslumbrante os tapetes floridos, a mais rica alcatifa, multiplicidade de cores, que as gentes abnegadas da Terra ofereceram à paisagem da procissão. Esta é a altura em que os freamundenses lançam às janelas e varandas as melhores colchas de linho. Enternecedor e emocionante o momento da passagem da procissão pela mítica e bairrista Gandarela e a habitual homenagem prestada pela Associação dos Bombeiros Voluntários ao devoto santo. No pálio, honras para o padre Brito, pároco local, ladeado pelo freamundense padre João.
A noitada de segunda-feira proporcionou-nos o número mais colorido e emotivo de todo o programa: o cortejo alegórico ou marcha luminosa, como queiram, desta feita subordinada à temática, "O mundo aos quadradinhos # 12", tudo saído das mãos hábeis de jovens de Freamunde. Um fantástico universo de criações.
Nas ruas, apinhadas de gente, todos acompanhavam a evolução do cortejo, que atravessou o centro da cidade, espalhando cor. alegria e vivacidade.
Espectáculos deslumbrantes, as sessões pirotécnicas "Encantos", "Fogoll", "Alquimia do Fogo" e "Magia do Fogo". Haverá por aí melhores?!
E as vacas, que tal? Já são tantas...! Mais dóceis, é verdade, devido à "concorrência", mas perigosas. Tanto no estrondo como nos "enfeites" que proporcionam. Há quem não se importe. Parafraseando o artista Emanuel, que terá brilhado - terá porque a crónica foi enviada para a redacção do jornal na manhã de terça - no serão de encerramento de palco, «quando elas querem um encosto à maneira, nós pimba!». Ou muito me engano, perante mais uma enorme plateia. Para não variar.
Pelo "Palco Grupo Martins" havia também passado o grupo "Os Foliões" e no centro da cidade a "Fanfarra Kaustika". Uma divertida "big band" festivaleira de animação de rua.
A tudo isto teremos que gostosamente que juntar, porque da responsabilidade de gente bairrista e participativa da nossa Terra, o festival etnográfico, a tarde infantil / Fun Park insufláveis, para crianças, a XV Concentração de Vespas (organização do Vespa Clube de Freamunde) e a V Corrida de Carrinhos de Rolamentos / AJAF, que emprestaram animação e curiosidade.
Aos festeiros falecidos não foi esquecida a sentida homenagem que lhes foi prestada, iniciativa da Associação das Sebastianas, junto à estátua do santo mártir, no Largo de S. Francisco.
Como se depreende, foi só escolher. Motivos não faltaram aos milhares de foliões - sim, foliões, porque ninguém ficou indiferente ao bulício, ao movimento, ao colorido, à alegria que contagiou tudo e todos - que invadiram literalmente esta cidade. E não é menos verdade que todos os freamundenses ficaram um pouco vaidosos das "suas" Sebastianas.
Parabéns sinceros à comissão de festas. Siga a rusga! Para o ano há mais. Iguais ou até melhores. Querem uma apostinha?
Joaquim Pinto - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Elas aí estão

 Em tempos de crise - e que crise, meu Deus! - até podemos viver com algum aperto orçamental, mas sem festa, sem as "SEBASTIANAS", que nos une na mesma comunhão, que congrega todas as gerações, que nos leva por dez "longos" dias a fugir à rotina e ao peso do quotidiano, é impossível. Teimosamente impossível - como constantemente referia, na longínqua década de cinquenta, o saudoso professor, Gil Aires. As "Sebastianas" são movimento, folia..., uma cidade inteira com emoção bairrista. São as festas do diálogo de culturas, de fantasia, dos concertos, da missa solene, da procissão, dos bombos, da marcha, do fogo de artifício e de muita, muita alegria. Por isso dizemos com certo orgulho e vaidade, que as "Sebastianas" são a alma e a voz da gente desta Terra, que cada vez mais se orgulha das suas raízes. E depois há a hospitalidade, âncora deste torrão. Freamunde: "Rainha da Simpatia", lembram-se?, assim a "baptizou" José Cid, no ano transacto.
Quer pela raiz religiosa, quer pela componente profana, as "Sebastianas" transformam a cidade de Freamunde num local de visita obrigatória. Está, pois, feito o convite. Cá te esperamos de braços abertos.
Joquim Pinto - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Associação Musical de Freamunde - 1822 / 2012

Em 8 de Julho de 1934, a Banda de Freamunde, pela quantia de 12.000.00 escudos, comprou à Auto Viação Pacense, uma camioneta com o nº 3813 Norte, para transporte dos seus elementos. Como sinal e princípio de pagamento, os responsáveis pela transacção, entregaram à referida empresa 2.000.00 escudos, ficando os restantes 10.000.00 a serem pagos em prestações, até à sua total liquidação.
Em 7 de Julho de 1952, a Banda de Freamunde, associou-se à calorosa recepção prestada ao sr. Engenheiro Rui Fernando da Cruz Vasconcelos que, na Universidade do Porto, concluiu a sua formatura em Engenharia Química. Durante a recepção foi queimado muito fogo.
Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Freamunde e a Casa do Infantado ( IV )

Em 7 de Fevereiro de 1641 saíram da barra do Tejo dois navios. Num partiram secretamente seis fidalgos com suas famílias. Entre eles D. Pedro de Mascarenhas e D. Jerónimo de Mascarenhas, filhos do vice-rei do Brasil, marquês de Montalvão. No outro navio, iam os governadores nomeados para Ceuta e Tanger, também com a família e a criadagem. Dias mais tarde, saber-se-ia em Lisboa que havia atracado em portos da Andaluzia com a intenção de se aconselharem em Castela, em sinal de protesto de fidelidade a Filipe IV, que consideravam ser o legítimo soberano de Portugal. Nos Açores a situação era complexa. Se havia notícias que em várias ilhas se tinha aclamado D. João com satisfação, em Angra, o mestre de campo castelhano D. Álvaro de Viveiros teimara em manter-se fiel a Filipe IV. Fora necessário enviar uma frota e homens para reduzir a resistência das tropas castelhanas aquarteladas no castelo de São Filipe. O cerco iniciou-se em 21 de Março de 1641. Mas D. Álvaro resistiria com valentia e coragem, só capitulando cerca de um ano depois. De igual modo, no Norte de África as praças de Ceuta e Tanger persistiram na submissão a Castela. De Angola, Rio de Janeiro e do Oriente nada se sabia ainda e receava-se o desenrolar dos acontecimentos.
Muita da fidalguia portuguesa vivia nestes meses uma espera incerta relativa ao destino dos parentes que a aclamação surpreendera fora do Reino e que por qualquer motivo estavam fora de Madrid, fazendo uso de estratagemas variados, lograram recolher-se a Portugal rapidamente. D. João ajudara ao retorno, disponibilizando barcos e meios. O mesmo não ocorria aos que estavam em Madrid. Mais vigiados tinham maior dificuldade em fugir e, com isso, prolongavam a estada e a aflição da parentela em Portugal. Na Corte, o ambiente era de ansiedade. A euforia dos primeiros dias após a aclamação fora substituída por um clima de desassossego e desacerto.
Desagrado e descontentamento existiam também. Eram sobretudo visíveis entre a nobreza mais ilustre, que, atenta à sua honra e pergaminhos, ponderava meticulosamente as mercês feitas à demais fidalguia, comparando-as com as outorgadas às suas casas. Por isso, e como sempre, as muitas nomeações realizadas pelo monarca eram comparadas, deixando alguns queixosos da desatenção régia. Entre eles, o 7º marquês de Vila Real, D. Luís de Noronha e Meneses e D. Miguel Luís de Meneses seu filho e 2º duque de Caminha donatários de Freamunde. (Continua)
João Correia

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Freamunde e a Casa do Infantado (I I I)

A Casa de Vila Real era uma das mais antigas casas titulares do Reino. Ascendera à titulação logo no início da dinastia de Avis. através de D. Pedro de Meneses em 1424.
Os filhos mais velhos de D. João I, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique lembram ao Pai a conquista de Ceuta - aquela Ceuta que o conde Julião entregara aos Mouros invasores da Península.
Prepara-se tudo em segredo, e no dia 20 de Agosto de 1415 uma poderosa armada portuguesa pára diante de Ceuta. No dia seguinte foi dado o assalto e essa importante praça muçulmana caiu em poder dos portugueses. Propusera-se então aquele fidalgo D. Pedro de Meneses para primeiro capitão dessa fortaleza, após a sua conquista. Desde então, a Casa de Vila Real consolidara-se firmemente, alargando a sua base material e as redes de influência à sombra dos comandos e das proezas militares em terras Marroquinas. Ceuta foi-lhes concedida em capitania hereditária e vários ramos principais e secundários da linhagem militaram e governaram praças ultramarinas, com principal destaque para as norte-africanas. Noronhas e Meneses eram, dois apelidos que, além de enxamearem as genealogias da principal nobreza portuguesa de Seiscentos, identificavam serviços, feitos seculares e poder social político. Detinham significativos senhorios jurisdicionais no Reino, cargos hereditários na administração militar no Norte de 
África através dos quais souberam acumular significativa riqueza e algumas funções maiores na Corte régia, para além de uma bem estruturada e alargada rede de parentesco entre a principal elite nobiliárquica.
O ramo principal impusera-se, logrando acumular no seu historial os títulos de conde de Alcoutim (1496), a elevação a marquês de Vila Real (1489) e depois ao ducado com os Habsburgos, primeiro como duques de Vila Real (1585) e depois como duques de Caminha (1620). 
(continua)
João Correia - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

quarta-feira, 14 de março de 2012

Freamunde e a Casa do Infantado ( I I )

D. João IV foi aclamado no dia 15 de Dezembro de 1640, abrindo assim a dinastia de Bragança ou Brigantina. Assumiu as responsabilidades da Restauração secundado por sua mulher, D. Luísa de Gusmão, da Casa Ducal de Medina Sidónia. D. João IV, como governante foi notável no seu papel ao longo de dezasseis anos, tantos quantos durou a sua governação, pois soube manifestar uma prudência, muitas vezes concretizada em firmeza, que assegurou o triunfo da causa que nele se personificou – a Restauração. Vários autores viram em D. João um tímido que apenas teria aceite a coroa por influência da duquesa D. Luísa de Gusmão. Às hesitações do marido teria ela respondido com a frase que a história celebrizou e que todos nós conhecemos: «Antes rainha uma hora que duquesa toda a vida». Mas esta versão da historiografia liberal, com o evidente fim de diminuir o trabalho de D. João IV, não merece hoje crédito, ainda que seja um facto a determinação que D. Luísa pôs no movimento restauracionista. Filha do 8º duque de Medina Sidónia, poderia a rainha hesitar na grave opção ou aconselhar prudência ao marido. Pelo contrário, deu o seu caloroso apoio à Restauração, unindo-se pelo espírito ao seu país adoptivo. Quanto ao marido esteve à altura da confiança que nele depositaram os conjurados do primeiro de Dezembro. Todo o Reino colaborou no grandioso esforço de que D. João foi o símbolo. Nas Cortes de 1641 – 1642 exigiram-se novas contribuições em dinheiro, que os três estados, Clero, Nobreza e Povo, aceitaram. As cidades e vilas não olharam a sacrifícios para que a Nação pudesse vencer a inevitável ameaça espanhola. Mas de início não foi total a adesão ao novo monarca, pois nos meados de 1641 descobriu-se uma conjura para assassinar o rei. Eram seus cabecilhas o Arcebispo de Braga, o inquisidor-mor, D. Francisco de Castro, o conde de Armamar entre outros. O Marquês de Vila Real sabia do caso, mas nunca se manifestou, assim como seu filho, o duque de Caminha. Influenciados por alguns dos seus familiares que viviam em Madrid, deixaram-se arrastar para uma aventura contrária ao rumo natural da Restauração. (continua)
João Correia - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Associação Musical de Freamunde - 1822 / 2012

Em 29 de Junho de 1930, a Banda de Freamunde conquistou mais um prémio num certame realizado na freguesia de Sobreira, concelho de Paredes, em confronto com a Banda de Revelhe de Fafe. Uma Batuta de Marfim com incrustações de prata e um diploma d'honra, foram entregues no salão nobre da Associação de Socorros Mútuos Freamundense pela comissão de festas de S. Pedro da referida freguesia de Sobreira que se deslocou propositadamente para esse fim, sendo recebida festivamente pela Banda de Freamunde, Bombeiros Voluntários e muito povo, tendo sido queimado bastante fogo do ar. À noite foi-lhe oferecido um lauto jantar no salão do Clube Recreativo, que decorreu muito animado e no meio do mais franco convívio.
Em 10 de Maio de 1931, em benefício da Banda de Freamunde, realizou-se na Associação de Socorros Mútuos Freamundense, em espectáculo promovido pelo Grupo D'Amadores Dramáticos Freamundense, que foi muito concorrido. Este espectáculo foi abrilhantado pela Orquestra do Clube Recreativo Freamundense e pela Banda de Freamunde.
Em 1933, a Banda de Freamunde, pela sua distinção, foi agraciada por um grupo de Amadores de Idanha - Anta - Espinho, com uma linda medalha de ouro.
"Jornal Gazeta de Paços de Ferreira"