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quarta-feira, 18 de março de 2020

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XXVII )

ÉPOCA 1951 / 1952 (PRIMEIRA PARTE)
"SANDES" TROCADAS POR DINHEIRO
Com a base do plantel praticamente inalterada - apenas Laurindo tinha sido recrutado à U. D. Penafidelense - Gil Aires não perdia a esperança e conquistar, sob a sua égide, o tão almejado título.
O clube, logicamente restritivo nos seus gastos e organização, continuava a basear-se na prata da casa.
A Direcção, apesar das vicissitudes e limitações do meio futebolístico, sem poder contar com o auxílio e entidades externas, muito menos da autarquia, insensível a estas questões de foro desportivo e com os cofres fragilizados, numa tomada de posição surpreendente, decidiu substituir o habitual lanche aos jogadores, após os jogos, por prémios em dinheiro.
Abria-se, assim, um novo ciclo.
Tratava-se, sem dúvida, de um enorme esforço financeiro, de uma ideia um tanto ao quanto arrojada, mas que poderia trazer dividendos a nível desportivo. Motivação não iria faltar, com certeza!
Eis a deliberação:
Primeiras categorias: Jogos fora: Vitória (25$00), Empate (15$00), Derrota (5$00).
Jogos em casa: Vitória (20$00), Empate (10$00).
Reservas: Jogos fora: Sempre 5$00.
Jogos em casa: Nada.
FERNANDO REGO
Mesmo em "alta", o clube acusava uma "crisezita" financeira, sendo recebida de bom grado qualquer tipo de oferta. Uma bola, por exemplo, como a enviada por Fernando Rego e que custava, na altura, bom dinheiro.
Tão dispendiosa era a aquisição das "bexigas" que, para os treinos, o saco só albergava duas, às vezes três...e "era um pau"!
O trabalho desenvolvido com a lavagem de equipamentos, a cargo de Armando Martins, sofreu também um significativo (?) aumento de 1$50.
Eram uns "mãos largas" estes dirigentes!
O nosso artesão tamanqueiro, já uma saudade, dias antes da sua morte, numa entrevista concedida para programa radiofónico da "Inovassom", confidenciou-nos: «Ah!...O Freamunde do meu tempo era uma equipa infernal. Jogadores como o Taipa, os "Mirras", os Vianas, o Bica, o Cherina, o Zé Maria, e tantos outros, ninguém os batia cá pelas bandas! E não tinham prémios, não senhor. Aqui e ali uma sandezita para enganar o estômago. Agora?...Agora só jogam pelo dinheiro. O futebol já não presta.»
É verdade. No campo do Carvalhal as gerações de ouro ganhavam um copo de vinho e um pão com dois bolinhos de bacalhau. «Nessas épocas - escreveu Renato Magalhães "in Fredemundus" - as camisolas não se despiam nem se trocavam, eram a própria pele do peito e o suor do jogo não era não era pago a centenas de contos a gota, o suor do jogo regava gratuitamente a terra como chuva fertilizadora. Era o tempo sagrado do amor à camisola, do amor ao torrão onde nasceu, do orgulho em ser freamundense. Um tempo em que a saudade chora, um tempo só acessível pela recordação e que se perderá quando o último sobrevivente dessas épocas baixar à terra.»
Para fazer face às despesas inerentes, os responsáveis máximos do clube tinham que fazer pela "vidinha". Decidiram, então, lançar sorteio de uma bicicleta motorizada A receita do mesmo superou as expectativas e caiu como sopa no mel.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

quinta-feira, 5 de março de 2020

Bombeiros Voluntários de Freamunde (XXII)

5.7 CONSTRUÇÃO E INAUGURAÇÃO DO QUARTEL
No ano de 1972 a direcção foi limando arestas com a inspecção relativamente ao projecto de construção, mas foi em 1973, tendo já na presidência o Dr. Jaime Manuel Nogueira de Barros, que chegou a notícia do subsídio do Ministério das Obras Públicas para a construção do edifício que ainda hoje alberga a sede da associação e o seu corpo activo.
É o início de um novo ciclo da instituição. O Dr. Jaime Barros dirigiu os bombeiros de Freamunde até ao fim de 1990, conheceu o comandante Dr. Fernando Cruz, nomeou o comandante Carlos Felgueiras e o actual (2005) comandante Mendonça Pinto, tendo ele próprio, num curto espaço de tempo, assumido o comando da corporação.
É com o comandante Carlos Felgueiras que a direcção de Jaime Barros constrói, mobila, equipa e inaugura o quartel sede da associação a 4 de Setembro de 1977, numa grande festa de bombeiro. É no período da sua governação que se assiste a um rápido desenvolvimento da corporação, comprando novas viaturas e equipamentos, ou aceitando ofertas de outros e mudando hábitos e tradições antigas. Fruto das transformações ocorridas na instituição e na sociedade "ao longo do seu reinado", foram introduzidas novas regras e "inventadas" novas formas de fazer receitas para as velhas necessidades. Os peditórios continuaram, a Festa da Flor deu origem à venda de autocolantes que ainda hoje se faz, trocando a flor pela etiqueta. O bar dos bombeiros deixou de ser no campo da Feira e sazonal, para ser na sede da corporação e durante todo o ano. Os discos pedidos do "Bar dos Bombeiros" no Largo da Feira deram lugar à organização de bailes no salão dos bombeiros, durante os anos 80.
INAUGURAÇÃO DO QUARTEL
É neste período que se assiste à definição de áreas de actuação no concelho para os bombeiros de Freamunde e Paços de Ferreira. O aumento dos meios e dos homens no corpo activo, produz também um maior volume de trabalho na instituição, cuja gestão moderna obriga a ter um administrativo a tempo inteiro.
Já antes tinham sido contratado motoristas para o serviço da corporação. O profissionalismo tinha chegado aos bombeiros.
Em 1991, depois de ter participado vários anos na direcção do Dr. Jaime Barros, cujas tarefas directivas levaram à construção e modernização do corpo de bombeiros, uma nova etapa surge na vida da instituição. António Rogério Gomes Pereira assume a presidência da direcção que tem em mãos uma nova necessidade: a ampliação do novo quartel. A obra foi iniciada em 1991 e concluída em meados de 1994.
A par do andamento das obras de ampliação do quartel, o parque de viaturas foi modernizado e igualmente ampliado.
Este ano (2005) os freamundenses viram juntar-se ao grupo de viaturas da instituição um veículo especial: a auto-escada. Mas na gestão de Rogério Pereira outras marcas foram deixadas pelos bombeiros na cidade. Em 13 de Julho de 2002 foi inaugurado um monumento ao soldado da paz, da autoria do escultor Manuel Pereira da Silva, numa das rotundas da cidade de Freamunde. Ao nível da instituição, uma importante alteração ocorreu na gestão de Rogério Pereira e ainda recentemente: os estatutos foram completamente remodelados, definindo as regras pelas quais se rege a instituição, à luz da sociedade actual.
Coube também a esta direcção a organização e comemoração das bodas de diamante da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Freamunde, e cujo programa consta o lançamento da primeira pedra do futuro quartel. Pela passagem deste aniversário, a Câmara decidiu, por unanimidade, a atribuição da Medalha de Ouro de Altruísmo e Mérito à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Freamunde.
Este é o resultado do trabalho dos bombeiros sem farda ao serviço da população.
INAUGURAÇÃO DO MONUMENTO AO SOLDADO DA PAZ
VI
FINANCIAMENTO DOS BOMBEIROS:
UMA OPORTUNIDADE PARA ANIMAR A FREGUESIA
Na mesma hora em que se lançou e abraçou a ideia de criar a corporação de bombeiros,não se esqueceu do velho ditado: "sem ovos não se fazem omoletes". Os sócios do Clube Recreativo não só abriram uma subscrição voluntária com um donativo de mil escudos, como prometeram ajudar no máximo das forças. Ao longo dos três quartos de século da sua existência os bombeiros de Freamunde e os seus dirigentes, com maiores ou menores dificuldades, sempre souberam honrar os seus compromissos, recorrendo a muitas formas para angariar os meios necessários ao seu eficaz funcionamento.
JOÃO VASCONCELOS - " BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE FREAMUNDE - 75 ANOS"

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Gente da Nossa Terra

 JOÃOZINHO CORREIA

Joãozinho do Venturinha
é um historiador que eu gosto.
Pra falar da terra minha,
nunca noutro eu aposto.

Não há canto, nem recanto,
que o Joãozinho não conheça
e há sempre mais um encanto
que ele lá lhe reconheça.

E então na matemática
é que ele tem uma tática...
pra guardar as moedinhas!

Principalmente as de reis
que, já não ditando leis,
ensinam-lhe as ladainhas!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O Santo Entruido

Ao Carnaval insípido da cidade responde a aldeia com o seu Entruido ainda um tudo-nada alegre, pontinha de graça que faz bem no meio de tantas tristezas da vida.
É claro que o Santo Entruido rural e local cifra-se hoje em pálida amostra do que fora. Nem todos souberam dosear os atrevimentos, a ponto de muitos o condenarem em absoluto.
Há bons anos não se podia sair ao caminho. Surgia logo o assalto da cinza e parinheira do forno, molhadas em azeite. Reboliço e risota pegada. A mocinha, toda ataviada para ir às «quarenta horas», regressava a casa cheia de furrascas, mostrando-se furiosa, mas a rir lá por dentro...As inconveniências vieram a perder quase tudo desse Entrudo de farruscadoiros, bichas de rabiar, estalos, foguetes e entrajados, no coração das aldeias.
Os mais idosos jogam o Entrudo na panela, farta merenda de arroz com orelheira e chouriço, e dizem que a graça se escondeu, envergonhada do pouco rasgo dos novos.
Grupos de entrajados, eles com roupas delas ou elas com a vestimenta deles e do ofício, andaram por carreiros e caminhos a fazer pantominas e a variar as falas. Vimo-los, este ano em Penamaior, em Meixomil, Frazão e Serôa.
O Entrudo de 1950 teve anúncios muito cedo. Após os Santos Reis, os estalos e as bombas soaram a miúde ao entardecer.
Na festa romeira a S. Gonçalo, em Eiriz, o Entrudo atraiu a mocidade. E jogaram-se os brilhantes, miudinhos, de cores vivas, em mistura, em redor da ermida. Por sinal demos com o abade a barafustar com a mulher do baú dos brilhantes para que retirasse para longe do adro. Pois, sim...O negócio estava a correr bem, e o moço sacerdote foi iludido...Verdade seja que as cachopas retiram tristes da festa, se não vêm abrilhantadas...
Adiante, na festa da vila a Santo Amaro, encontravam-se alinhadas junto dos Paços do Concelho, as Maçotas, mãe, filha e netas, a Vieira, de Meixomil, na venda animada dos brilhantes. No arraial, o pó de arroz abrancou algumas caras bonitas...
A mocidade aproveita também as feiras locais, anteriores ao Entrudo, para se divertir, semeando pós e brilhantes. O Município evitou os arremedos  do Entrudo na feira do Cô, de 21 para 22; ali o Entrudo manifesta-se com entusiasmo, e de quando em vez trabalha a varapau desapiedado e de rijo...
Os estalos, as bichas e os foguetes tiveram mais saída na terça-feira de Entrudo, desde a meia tarde até roçar a Quarta-Feira de Cinzas.
De tarde, o rapazio não esqueceu  também de procurar e ajuntar silvados secos para a fogueira do Entrudo. A fogueira é número característico. Faz lembrar a noite de S. João o último dia do Entrudo no concelho pacense. O fogaréu situa-se lugar alto e voltado à povoação. Os rapazitos juntam-se em volta e lançam estalos. De uma ou doutra janela caem lágrimas, e aqui e ali sobem ao ar pequenos foguetes.
As bombas mais potentes são, no geral, usadas pelos mancebos, que, lá para a meia-noite, vão queimar uma dúzia ou mais à porta da namorada. Esta atenção é promessa de a cachopa ter festa na noite de Aleluia. Por sinal ouvimos o estoirar de uma dúzia de bombas à Maria do Sadoc e à Henriqueta do Camola (Meixomil). Espero também pelas festas, velha tradição que os novos apreciam e em nada os diminui.
Aos entrajados, uso de estalos, brilhantes e fogueira, junto ainda um costume que se mantém nas freguesias de Serôa, Penamaior, Frazão e Arreigada:
Na manhã de terça-feira de Entrudo - o verdadeiro dia de Santo Entruido - as rapariguitas armam o lar na borda da estrada e pedem pelos vizinhos um bocadinho de carne para o caldo do Entruido. Ao lado da panela de três pernas, vê-se o tacho do arroz, que a pequenada saboreará com satisfação, porque a Milinha da Quinta e a Se Rita da Luvada as contemplaram com generosidade.
Antigamente - sempre lá vão uns trinta anos - a mocidade espetava um pinheiro novo no chão, fazia-lhe em roda uma meda de silvas e chegava-lhe o fogo. Os rapazes acendiam alumieiras de colmo e jogavam o Entrudo, dizendo:
E muito milhã prós da Lameira,
Entrudo fora,
Vai-se a Páscoa embora...
Muito milho prá nossa eira.
A cantilena, vozeeirada no velho funil ou chifre, vinda lá do alto de Basto (Penamaior), servia para intrigar os lavradores da agra de Meixomil. A milhã ou milhãe é erva que nasce ao acaso entre milhão.
Em Codeços perdeu-se outro curioso costume:
Na terça-feira de Entrudo, um ou outro grupo de foliões de foliões magicavam a quem poderiam pilhar a panela da orelheira. Pensada a brincadeira um dos comparsas entrava na rua, chamava à fala a dona da casa e sob qualquer pretexto alongava a conversa, e, todo mesuras, ia forçando a dona da casa ou a criada a abandonar por momentos as atenções da cozinha.
Entretanto, com mil cuidados, a panela da orelheira ou o tacho da odorífera arrozada, seguia outro destino. Os brincalhões reuniam-se então onde estava combinado e gozavam a seu modo a patuscada. Por vezes, a proeza deu que falar e que entender...
Enquadrada no período do Entrudo, deixou de ver-se nos terreiros e casas boas a interessante e velha dança dos pedreiros. A toada harmoniosa e lenta, ligada a cada figurante (pedreiros, mestre e mulher, rapaz dos picos, meirinho, soldados e um preto) pode colher-se ainda em Ferreira, Meixomil, e sobretudo, em Penamaior. A festiva dança representou-se pela última vez, em 1936, no cortejo regional do I Centenário do Concelho.
Dispostos em duas filas, com picos assentes no ombro direito, os pedreiros começavam:
Milagroso carnavais
Vamos hoje festejar:
Vamos dar princípio ao baile,
Não podemos demorar.
Ainda a servir de intróito:
Nós só queremos que o Entruido
Nos dê nova animação:
E agora nós queremos
Que presteis vossa atenção.
Seguem-se trinta e três quadras que aludem ao enredo da peça.
No finalentram todos a bailar, batem os picos, dão mãozadas e meias-voltas. Formam um arco e passam, dois a dois, por baixo. Esta dança há-de merecer-nos noutros rabiscos.
Vai longa esta colheita. Perdoem-nos. A Quaresma e a Páscoa nos chamam. E que motivos de ternura e encanto apresentam a quem puder e souber vivê-los e apreciá-los!
MANUEL VIEIRA DINIS - "ETNOGRAFIA DE PAÇOS DE FERREIRA"

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A indústria do mobiliário escolar em Paços de Ferreira ( XIII )

O caso da fábrica Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda.
CAPÍTULO 2
DA FÁBRICA À GRANDE EMPRESA
1. OS PEREIRAS
António Pereira da Costa ligado cerca de dois anos à fábrica de Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda., foi indubitavelmente um homem ligado à industrialização do concelho.
António Pereira da Costa (1888-1961) nasce na freguesia de Freamunde.
Filho de um casal de gente simples que repartia entre o campo e uma alfaiataria o seu labor quotidiano, muito cedo começou a ajudar a família no amanho de umas terras tomadas de arrendamento na freguesia de Ferreira. Tinha sete anos de idade quando lhe faleceu a mãe D. Rosa de Jesus, duro golpe numa criança que necessitava dos afectos e da ternura que só uma mãe pode dar. Aos dez anos (1898) quis seu pai, Teodoro Pereira Gomes, agora casado de novo, fazê-lo seminarista, para que mais tarde se tornasse sacerdote e, deste modo, lhe assegurar o futuro. Indiferente à ideia e tendo reflectido pouco na proposta, aceita ir com o pai a Lustosa consultar o pároco da freguesia, mais tarde Bispo António Barbosa de Leão, para auscultar a sua opinião e este lhe mostrar as responsabilidades clericais e tudo aquilo que ele deveria ser, caso aceitasse a vida de sacerdócio. Não aceita. O seu mundo teria de ser outro. Agora com doze anos (1900) e com a benção do pai vai para Sobrosa, Paredes, aprender a arte de marceneiro na casa do que foi um dos grandes mestres da arte, Júlio Barbosa Correia da Fonseca. Revelou-se um bom aluno, retendo os ensinamentos do mestre e rapidamente se apercebeu que estava ali o seu futuro. Serrar, moldar, entalhar, conceber coisas da madeira, era o que mais gostava. Durante 14 anos trabalhou António Pereira da Costa em Sobrosa não abandonando o seu mestre e amigo de tantas horas de labuta agora doente e senil. Após a sua morte, e com 26 anos de idade, regressa definitivamente a Freamunde e monta uma pequena oficina no Lugar do Calvário, com as poupanças, cerca de 200$00, que ao longo do tempo fizera. Corria o ano de 1914, época agitada e pouco propícia a negócios estáveis. Casa em 1915 com Adelaide de Sousa Castro.
ASCENDENTES E DESCENDENTES DE ANTÓNIO PEREIRA DA COSTA (1888/1961)
Foi então que no espírito do grande industrial começou a esboçar-se a ideia de achievemente motivation no seu projecto industrial, em parceria com o seu irmão Joaquim Pereira da Costa, que no Porto tinha frequentado a Escola de Belas-Artes onde adquiriu um curso de desenho, e Abílio Pacheco de Barros, entalhador e natural da freguesia de Figueiró. O projecto poderia ser arrojado, mas, mesmo assim, surge a sociedade Pereiras & Barros Lda. que, de imediato, inicia a construção, agora na Rua do Comércio, de novas instalações, como refere o jornal "Progresso de Paços de Ferreira" na sua edição do dia 13 de Junho de 1920:
Já se acha devidamente instalada em casa própria, na Rua do Comércio, desta povoação (Freamunde) a nova oficina de Mobiliário e Material Escolar, sob a firma Pereiras, Barros e Companhia Lda.
A sua inauguração realizar-se-há no próximo domingo, 13 do corrente, dia de feira anual de Santo António.
Pouco tempo depois, em 1921, morre o irmão, o que o abalou profundamente. Era o primeiro contratempo surgido inesperadamente. Ainda mal reposto da perda do irmão, um voraz incêndio destrói-lhe a fábrica (hoje edifício escolar) em 23/03/1923 que, juntamente com Abílio Pacheco de Barros tinha construído a Rua do Comércio.
(...)manifestou-se hoje n'esta freguesia, cerca das 3 horas, um pavoroso incêndio, na importante Fábrica de Serração Moagem e Mobiliário, da firma Pereiras, Barros e Companhia Limitada, destruindo-a por completo.
As labaredas do incêndio alcançaram grande altura e iluminaram distintamente toda a freguesia.
Apenas se pôde salvar o cofre, escrituração e o mobiliário de escritório.
A fábrica apenas estava segura em cento  dez mil escudos, nas companhias Phoenix  Royal, sendo os prejuízos importantes, pois ardeu uma grande encomenda de móveis de grande valor que estava para seguir para o seu destino. 
Em 1923 com o dinheiro do seguro e com algumas poupanças, entram para sócios da Sociedade Comercial Albino de Matos, Sucessores, Limitada, com a nota de 68 contos cada, passando a adoptar o nome de Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda. agora com 28 sócios, sendo-lhe atribuído art 5º do contrato de sociedade:
A gerência social com dispensa de caução, fica a cargo dos sócios António Pereira da Costa e José Maria Ferreira de Matos, ao sócio Abílio Pacheco de Barros compete as funções de encarregado da secção de máquinas, madeiras e marcenaria (...).
Parágrafo 1º: Fica, contudo, estipulado que compete exclusivamente ao sócio António Pereira da Costa a direcção técnica da fábrica, bem como os serviços de errecadação e expedição.
Estávamos em 1924 e esta sociedade, que parecia um projecto audaz para António Pereira da Costa, torna-se um novo pesadelo em virtude de uma série de incidentes - com António Alves Pereira de Castro, o "Padre Castro" como era conhecido e que veio a marcar uma gerência forte num período de grande desenvolvimento industrial - que terminaram com o encerramento temporário da fábrica, isto cerca de dois anos volvidos após a sua abertura. Exonerado em assembleia-geral em 21/11/1926, regressa, agora só, ao lugar do Calvário, onde tinha iniciado a sua actividade industrial, com toda a sua experiência de grande artífice. Movido por uma grande força de querer vencer, retoma a actividade, recuperando lentamente não só a dignidade de industrial, mas também o património que perdeu com estas duas sociedades que se mostraram um fracasso.
CARTAZ PUBLICITÁRIO
No catálogo, que à imagem de Albino de Matos mandou elaborar pode ler-se:
Do meu trabalhoe pelo meu trabalho nasceu e se tem desenvolvido o que é hoje a minha fábrica de móveis, mobiliário escolar e material didáctico, denominada - Fábrica do Calvário, de Freamunde - cujos produtos não receiam qualquer confronto com os de qualquer outras fábricas.
Não cuido de reclames falhos duma base sólida, que possa comprova-los.
E para não ir mais longe, bastará referir que ainda na Exposição do Congresso Pedagógico de Viseu (1928) à qual nenhuma outra fábrica de Freamunde concorreu, mas aliás, foi exposto mobiliário e material de outras procedências, foi-me conferido o 1º prémio, medalha de ouro e diploma de honra.
Assim respondo e identicamente responderei, quando necessário seja, áqueles dos meus competidores que malévola mas baldamente tentem prejudicar-me, estabelecendo, embora, para tanto, uma mal alinhada confusão.
Freamunde, Junho de 1933.
Refere ainda o jornal "O Comércio do Porto" em 27 de Março de 1929:
(...)trabalhando em sua arte, desde a idade de 12 anos, António Pereira da Costa é o técnico competentíssimo, o mestre de grande experiência para quem aquela arte não tem segredos, e que só à sua conta tem preparado e educado mais de 300 operários, hoje artistas perfeitos na arte de marcenaria.
O material saído das suas mãos e da sua fábrica é tão perfeito, que lhe tem merecido os prémios da Exposição do Palácio de Cristal (Feira do Porto), do Rio de Janeiro, Exposição do 2º Congresso Pedagógico do Ensino Secundário Oficial de Viseu (1928), com o 1º prémio, medalha de ouro e diploma dehonra.
FÁBRICA DO CALVÁRIO
Em 1953, António Pereira da Costa, em escritura lavrada no cartório notarial de Paços de Ferreira, constituiu entre Joaquim Ribeiro, Fernando Eduardo de Sousa Delgado da Silva Ribeiro dos Santos, Dona Zeferina Pereira de Castro e Felisbina Pereira de Castro filhas e genros) uma sociedade por cotas de responsabilidade limitada, adoptando o nome  de António Pereira da Costa, Limitada a quem coube a responsabilidade de perpetuar todo um património de sucesso industrial. Esta fábrica, cujo peso na industrialização do concelho e na formação de pessoal especializado foi importante para a formação do cluster do mobiliário que existe actualmente. Encerrou as portas em 2001 por passividade e ineficiência da gestão e pouca adaptação dos serviços/produtos às novas exigências do mercado.
PRIMEIRO EXPOSITOR DE MÓVEIS EM FREAMUNDE E NO CONCELHO PERTENCENTE À FÁBRICA DO CALVÁRIO, CONSTRUÍDO POR VOLTA DE 1937.
2. OS BARROS
Abílio Pacheco de Barros (1886/1961) nasce na freguesia de Carvalhosa, concelho de Paços de Ferreira. Cedo emigra para o Brasil, onde exerce a profissão de carpinteiro. Desiludido regressa a Portugal e com alum dinheiro que conseguira amealhar aceita o comvite de António Pereira da Costa nascendo, assim, a sociedade denominada Pereira da Costa & Barros, Limitada. Com percurso idêntico ao de Albino de Matos, Sucessores, Lda. onde ficou, ao contrário do amigo, até à sua morte, em 1 de Fevereiro de 1961.
JOAQUIM MANUEL FERNANDES DE CARVALHO - "A INDÚSTRIA DO MOBILIÁRIO ESCOLAR EM PAÇOS DE FERREIRA"

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Banda de Freamunde (XXIX)

Inserindo as suas actuações no âmbito das actividades culturais e recreativas, a banda colaborava, e colabora, com as autoridades e organismos civis na realização de alguns concertos anuais: Semana Cultural das "Sebastianas"; programa comemorativo do 25 de Abril; concerto de Ano Novo...Freamunde, como terra de cultura, virtude que sempre lhe foi tradicional, deve, no entanto, retirar mais benefícios da "sua" banda.
Tê-la mais vezes junto de si, se é que isso é possível. Concertos ou outras actividades que proporcionem à cidade e freguesias circunvizinhas - Figueiró foi um exemplo recente - uma real oferta cultural. Para tal, é necessário, porque merecido, que continuemos a distingui-la, a ampará-la e a estimulá-la.
No concerto comemorativo da revolução dos cravos, decorria o ano de 1994, a direcção da banda aproveitou a solenidade do acto para prestar justa homenagem a Alfredo Matos "Cherina", músico que havia abandonado a banda no ano anterior após 62 anos (!) ao seu serviço. Com inusitada paixão. Alfredo "Cherina" é uma lenda viva, testemunha privilegiada de épocas áureas, outras difíceis, um dos mais profundos conhecedores de histórias e episódios ocorridos na banda, de quem sempre me socorri. Talvez o único, actualmente. Ainda hoje, no habitual cantinho do Café Teles, ponto de encontro diário depois da "morte" do Café Popular, lá surgem deliciosos relatos, conjunto de memórias acerca de acontecimentos ocorridos na sua "segunda casa". Nota-se, no entanto, uma voz melancólica que nos transporta para um passado cada vez mais distante. Bem haja, Alfredo "Cherina".
Em 1995, corria o mês de Maio, a Banda de Freamunde, pelo terceiro ano foi convidada para concertos em terras francesas - Montluel, localidade situada perto de Lyon, e Clermont Ferrand, cidade fronteiriça no ntuito de abrilhantar várias festividades que a comunidade portuguesa lá organizava, e continua a organizar, certamente, deixando atrás de si um rasto de simpatia e admiração devido às excelentes prestações. Festividades que, curiosamente, costumam juntar cerca de 20 mil portugueses.
"Espreitavam" as Sebastianas e a banda preparava-se para proporcionar aos interessados momentos inesquecíveis. Tudo porque, com a renovação das peças apresentadas, nomeadamente com temas populares, dos ritmos modernos e de música ligeira - quem não se lembra do "Pop Show nº 4? -, a banda conseguiu despertar inusitado interesse na população mais jovem. Não foi difícil contagiá-la. Música agradável, que não exigia um ouvido muito atento, e recompensava imediatamente o apreciador.
A partir de então, recintos sempre prenhes de entusiastas. Depois, havia a "Gandarela", espécie de rapsódia. O arranjo, da autoria do maestro Ulídio Costa, tinha sido o culminar de um acontecimento colorido de afectividade, que não nasceu espontaneamente mas, sim, pensado para continuar a homenagear o "pai" do GTF e da opereta "Gandarela", Fernando Santos. Para homenagear Freamunde, afinal.
Até aqui tudo bem. O pior veio depois.
Após vários anos "amuadas", o presidente das Sebastianas / 1995 conseguiu que as bandas "rivais" de Freamunde e de Paços de Ferreira voltassem a alternar, primeiro na romaria do Corpo de Deus, na sede do concelho, e posteriormente nas festividades mais representativas de Freamunde.
Enterrado o machado de guerra, fumava-se de novo o cachimbo da paz. Pura ilusão!
A polémica voltou a instalar-se e houve um factor que concorreu para esta situação: alguns dirigentes da congénere invocaram quebra de protocolo - a Banda de Freamunde, como anfitriã, terminou o concerto, após a anuência do mestre e contra-mestre da Banda de Paços, a repetir a "Gandarela", tal como no ano transacto, no despique com a Banda de Famalicão, sem que daí adviessem quaisquer incómodos.
Ora, como todos sabemos, os freamundenses presentes, às centenas e que encheram literalmente o recinto, entregaram-se à marcha com contagiante alegria e bairrismo, características das gentes desta terra. Foi o delírio!
Sentindo-se ofendidos com os "excessos" - as palmas e os "bis" não paravam -, os responsáveis da Banda de Paços de Ferreira, inseriram, sem o conhecimento dos dirigentes freamundenses, na correspondência dirigida, posteriormente, a várias comissões de festas (cartas, orçamentos, etc.), os seguintes dizeres: « Devido ao mau comportamento, não alternamos com a Banda de Freamunde ».
Como se pode imaginar, os prejuízos foram incalculáveis e posto em causa o bom nome da instituição e a sua pública imagem.
Ambiente insustentável, troca constante de "galhardetes", com repercussões nefastas nos jornais e rádio concelhio, e só a reunião com a presença dos presidentes das duas instituições, promovida, no dia 2 de Novembro de 1995, pelos responsáveis autárquicos que não entendiam o diferendo, se modo nenhum compatível com os prestígio e importância das duas bandas, autênticos embaixadores culturais do concelho de Paços de Ferreira, resultou uma vontade comum de que as relações voltassem à normalidade, dado que tudo não tinha passado de um mal entendido.
Pelas partes em causa foi posto "o preto no branco" e ficado decidido que quatro dias depois, feriado municipal, se deveria proceder à entrega a cada uma das instituições das "Medalhas de Ouro de Altruísmo e Mérito" já deliberadas pela Câmara Municipal, o que efectivamente veio a acontecer, como reconhecimento dos seus papéis insubstituíveis no campo da música e da formação.
JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS"

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Poesia de Freamundenses

PRISÃO DA BORBOLETA

Cacei uma borboleta,
Metia-a num frasco,
De côr amarela e preta
E fui p'ra ela carrasco.

Depois de muio saltar
E com a tampa fechada
Acabou por se cansar
E cair inanimada.

Suas asas amarelas,
Cairam sem força ou vida
E eu fiquei a olhá-la
E comigo ofendida.

Com o ar novo e fresco,
Ela esvoaçou e mexeu,
E dentro de mim a esperança
De nova vida nasceu.

Prometi para mim mesma
Não fazer nada parecido
E nunca tirar a vida
A um ser que tenha nascido.

FERNANDINHA FELGUEIRAS - "FREAMUNDE E O SENTIMENTO POPULAR"

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A sua culpa

V
Percorreram algumas ruas do Porto de mãos dadas, a arremedar uma felicidade que se esvaía nas cenas que se pressentiam e nas palavras que ficavam por dizer.
- Olha aqui, Carolina! - exclamou Carlos, fazendo parar a mulher. - Esta casa tem coisas deslumbrantes.
- Sim, são realmente muito bonitas. Mas não vale a pena entrar. Os preços devem ser exorbitantes...
- Que importa o preço, Carolina? O nosso filho merece o melhor. É o nosso primeiro filho. E depois...depois pode vir mais outro...
- Outro?
Carlos sentiu o sangue a aflorar-lhe o rosto, numa boémia de cores. Ardia.
- Não era isso que ambicionávamos?
 Sim, mas a vida trocou-nos os passos. Entrincheirou-nos num beco sem saída, onde não há lugar ao sonho. Abre os olhos à realidade, Carlos. É tempo de perceberes que casaste com uma mulher deficiente e toda a textura dos nossos sonhos dissolveu-se nas águas em que naufragámos. No mar das realidades.
O ardor que assoberbava Carlos converteu-se num frio glacial. Não esperava aquele discurso. Agarrou-a pela mão e foram para o carro, sob o olhar exoftálmico da funcionária que os observava, por detrás da montra.
Fizeram um percurso instrospectivo, até ao carro. Espiralavam-se palavras ocas, para impedir um pugilismo verbal que deterioria a situação. Só já no carro, Carlos, olhando-a bem de frente, tentou desafiá-la e despertá-la.
- Não repitas o que me disseste há pouco. Estás a flagelar-te e a fazer de mim um nómada nas ideias e nas atitudes. É que não sei mesmo o que fazer, não sei o que dizer-te. Estás a sofrer por causa duma pequena mazela que é ultrapassável. Foi já ultrapassada. Estás grávida.
- Só te fiz recordar uma realidade que não podemos escamotear, nem olvidar. Sou defeituosa...
- Porque insistes? Estás a interiorizar um tremendo complexo de inferioridade que te abala, que te afunda. Sofres, por tua culpa.
- Isso mesmo, Carlos, por minha culpa. Eu padeço duma deficiência anatómica e funcional que...
- Cala-te, por favor. Disse apenas "por tua culpa", para tentar alertar-te para a melancolia em que submergiste e que te domina. Não quis acusar-te do que não tens culpa...Via-te taciturna e meditativa e só há dias percebi a causa de tudo isso, quando te ouvi sonhar alto...vamos ter um filho, livra-te de preconceitos, estás arreigada a coisas comezinhas. Vem aí o nosso filho, Carolina, pensa nisso.
- Nosso? a interrogação vinha eivada de ironia, mas de agonia também.
Era a segunda vez. Carlos compreendeu então a intensidade da dúvida em que a mulher vivia. Ficou espigaitado, sentiu náuseas, tonturas. Optou pelo silêncio, o das palavras, porque os olhos, as mãos e a cor do rosto transmitiam melhor o seu estado do que qualquer signo verbal. Mas ela não conseguia entender. Parecia querer magoá-lo. Mas não. Vivia atordida num sismo mental e emocional que lhe destruía a clarividência.
Em casa, Carlos procurou livros e enciclopédias para deslindar os aspectos que começavam a toldar-lhe os dias, como se todos os dias fossem dias de Halloween. Haveria possibilidade de troca de gâmetas, no laboratório? Após buscas infrutíferas, foi à cozinha, apertou a mulher, beijou-a, mas não sentiu reciprocidade no seu gesto. Ela permanecia direita  intangível, como a palmeira do jardim, em dias serenos.
Sentaram-se à mesa e delongaram-se num diálogo difícil de descodificar. As palavras têm também esse condão de opacidade e de não tradução. Sintonizaram a televisão para amenizar o momento. Mas, por estranha e perturbante coincidência, debatia-se, naquele canal, a procriação artificial. Carlos quis mudar de canal mas ela não permitiu, sob a justificação de que estava no debate um médico conhecido e que gostaria de o ouvir. Ele fez não perceber que a desculpa era esfarrapada e não quis descoroçoá-la. Ouviram o debate sem tecerem comentários. Entre eles, a presença autoritária e veemente silêncio.
Carlos ia-se apercebendo da angústia em que vivia a mulher e das suas causas, mas sentia-se impotente para mudar as coisas. Era já patológico. E se conseguisse levá-la a consultar um psicólogo?
ROSALINA OLIVEIRA - "A SUA CULPA"

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

A sina dum revoltado

BILHETE DE IDENTIDADE

Um cravo vermelho ao peito
dá respeito a qualquer um,
mas quem lhe perde o respeito
nem com ele tem nenhum.

O novo rico perdeu
o que de mais rico tinha,
apenas porque esqueceu
da família que provinha.

O pé descalço calçado
nem por muito calejado
se vê na origem do pé.

Só porque já tem sapato,
abre a boca ao desbarato,
sem deixar de ser quem é.

RODELA - "A SINA DUM REVOLTADO"

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XXVI )

ÉPOCA 1950 / 1951 (TERCEIRA PARTE)
A CLASSIFICAÇÃO FINAL "SOUBE A POUCO"
O tiro de partida para o campeonato foi dado em Ermesinde:
Os "Sonhos" tornaram-se pesadelo. O adversário era bem modesto mas a ausência de Taipa tolheu os passos aos colegas da dianteira e a derrota por 1-0 foi mesmo uma triste realidade.
Esquecido o infortúnio, e após vitória caseira (2-1) sobre o Oliveira Douro, lá tínhamos de novo o Varzim à perna.
Mais ciente do seu valor e com todo o plantel disponível, o Freamunde produziu um futebol de nível superior demonstrando que estava preparado para uma época de relativo sucesso. Para o empate a uma bola muito contribuiu o tento de José Maria "da Couta".
A primeira "seisada" surgiu à 5ª jornada e logo ao Avintes, um dos principais candidatos ao título.
Em São Mamede esperava-se tarefa complicada. Gil Aires armou a teia e ao apostar numa toada de contra ataque surpreendeu o Infesta com um soberbo golo de José Maria "da Couta". Os anfitriões arregaçaram as mangas, atacaram de toda a forma e feitio mas Peixoto esteve insuperável.
Os "senhores" que se seguiram (Perosinho 2-0, At. Rio Tinto 2-1 e Gaia 5-2) não tiveram melhor sorte. O Freamunde superiorizava-se aos adversários em todos os capítulos.
Viviam-se momentos de enorme entusiasmo e paixão. O povo andava nas "nuvens".
Para a deslocação ao campo do Cruz várias camionetas foram fretadas. Os adeptos queriam estar ao lado dos seus ídolos.
A "linha" apresentada era a do costume. Dos "argentinos" esperava-se "tango".
A incerteza no "placard" manteve-se até ao último minuto. O jogo, disputado em recinto impraticável e perante numerosa e entusiástica assistência, foi extremamente emocionante, onde nem sequer faltaram os golos (3-3). No entanto, os "azuis" foram a formação mais convincente. Com este resultado as duas equipas passaram a partilhar o primeiro posto.
Refreada a euforia, as atenções viraram-se para Rio Tinto onde nos esperava um osso bem duro de roer.
O campo da Ferraria foi pequeno para tamanha multidão que não quis perder pitada das incidências da partida.
Para este encontro a equipa viu-se privada do do concurso de Zé Viana, substituído pelo "reserva" Alexandrino "Marrana".
O terreno estava um autêntico lamaçal obrigando os atletas a um esforço redobrado. A vitória (2-1) elevou o Freamunde a comandante. O Rio Tinto foi grande em valentia mas os rapazinhos de Gil Aires colocaram em campo todos os seus recursos e venceram com inteira justiça. O árbitro, caseirinho que chegasse, invalidou, erradamente, logo aos 2 minutos, um golo aos azuis e brancos.
Mesmo claudicando nos desafios seguintes (empates com Vilanovense 2-2 e Pedrouços 1-1), a vitória, justa, sobre o Coimbrões por 2-0, serviu para o Freamunde conservar a liderança. A um ponto seguia o Avintes.
Sentindo os calcanhares roídos, o grupo despertou de um sono ligeiro e voltaram as goleadas.
Tudo parecia perfeito. As ambições eram desmedidas. Cheirava-se a título.
Mas à 18ª jornada o Varzim foi desmancha prazeres e venceu, no Carvalhal, por 1-0.
O "terramoto" abalou o grupo e as consequências, nefastas, não se fizeram esperar
O Avintes, na luta pelo ceptro e sedento de vingança, aproveitou com mestria o momento menos bom do adversário para o humilhar.
Pega lá seis "broas" e não digas que vais daqui! O Freamunde atrasava-se na luta pelo 1º posto. Só Alberto "Mirra", bem ao seu jeito, remou contra a maré. Zeca "Mirra" e Casimiro "Russo", lesionados, regressaram mais cedo aos balneários. O Freamunde acabou com nove porque ainda não eram permitidas substituições.
Mais uma derrota (3-1) em Perosinho e o Freamunde hipotecava, quase por completo, as aspirações ao lugar mais alto do pódio. Neste encontro a equipa actuou bastante desfalcada, notando-se as ausências de Zé Viana, Quim Bica e João Taipa, substituídos por António Rego, Capô e Quim Rego.
Surpreendentemente, e quando se esperava o descalabro, o grupo, sujeito a uma terapia de choque - não fosse Gil Aires "especialista" na vertente psicológica - apareceu completamente transfigurado, voltando às vitórias e às "seisadas".
As esperanças eram ténues mas ainda se vislumbrava uma luzinha ao fundo do túnel.
Para "Soares dos Reis", em Vila Nova de Gaia, o público acorreu em grande número. O Vilanovense também estava intrometido  na luta pela subida. O campeonato estava ao rubro.
O Freamunde foi o primeiro a abrir as hostilidades por Adão, que atirou fortíssimo após passe primoroso de João "Cherina". Estava feito o 1-0. Rejubilavam os adeptos azuis e brancos que agitavam, entusiasticamente, as bandeiras. A alegria, porém, pouco durou. O Vila reagiu de pronto e em escassos minutos virou o resultado para 3-1. O Freamunde, num último esforço, esteve perto de reduzir, mas foram os locais que ampliaram a vantagem para os 5-1, "score" final, deitando, definitivamente, por terra as ilusões dos "Capões".
No adeus ao campeonato (campo do Candal) nova derrota, desta feita por 3-2.
O 4º lugar final soube a pouco.
EQUIPA TIPO:
Peixoto, Alberto "Mirra" e Zeca "Mirra"; Manuel Pinto, Casimiro "Russo" e Zé Viana; AdãoViana, João Batista "Cherina", Quim "Bica", João Taipa e José Maria "da Couta".
OUTROS MAIS UTILIZADOS: Casimiro "Vaidoso", Leonel, "Capô", Alexandrino "Marrana", António Rêgo e Quim Rêgo.
EQUIPA:
Em cima: Peixoto, Alberto "Mirra", Casimiro "Russo, Zeca "Mirra", Zé Viana, Manuel Pinto.
Em baixo: Adao Viana, João "Cherina", Quim "Bica", João Taipa, José Maria "da Couta".
MARCADORES DOS GOLOS:
João Taipa (21); João Baptista "Cherina" e Adão Viana (16 cada); Quim "Bica" (10); José Maria "da Couta" (7); Capô, Zeca "Mirra" e Adv. p/b (1 cada)
OS JOGOS DE PÉ DESCALÇO
A bola fascinava, cada vez mais, o jovem. Só pensava nela. Sonhava com ela. Apaixonava-se por ela.
Não bastava os jogos de mrua, os despiques no Largo da Feira.
A "miudagem" queria mostrar-se no palco do Carvalhal, perante plateias bem compostas.
A anteceder um jogo do escalão de juniores, entre um grupo de jovens desta terra, seleccionados por Zeca "Mirra" (a formação em embrião) e a equipa do Sporting Clube Braga -  tudo convencionado pelo Eng. Hercílio Valente, então a residir na cidade dos arcebispos -, evoluíram duas formações de rapazinhos, entre os 15/16 anos, denominadas de "Norte e Sul". Possuíam camisolas, calções..., os próprios guarda redes apresentavam-se de boné e joelheiras. Tudo como os "grandes". Menos "chuteiras". Por isso, jogaram...de pé descalço.
Venceram os "sulistas" - se é que o resultado importa - por 2-1.
«Fui eu o autor dos dois golos - Contou-nos, emocionado, Rui "da Praça". Nessa altura - quem me viu e quem me vê! - possuía já um "cabedal" respeitável. À beira dos outros era um mariolas e distinguia-me não só pela envergadura física mas também pela habilidade que demonstrava. O Eng. Hercílio ficou tão entusiasmado com a minha exibição que pediu ao Zeca "Mirra" para me incluir na "linha" da equipa de juniores do Freamunde, no decorrer da segunda metade».
EQUIPA "PÉ DESCALÇO" NORTE:
Em cima: Fernando "Passareca", Barbosa, Ivo, Augusto Cardoso, Claudino "Mirra", Aníbal Torres.
Em Baixo: Fernando "Barrigana", Maximino "Candeeiro", Zulmiro, Luís "Mirra", Carlos Felgueiras.
EQUIPA "PÉ DESCALÇO" SUL:
Em cima: Jaime Rêgo, Rui "da Praça", Nuno Augusto, Rogério Pereira, Joaquim Lúcio, António "Baião".
Em baixo: Júlio, Carlos "Capas Negras", Luís Moreira, Humberto, Paulino "Mineira".
 JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A indústria do mobiliário escolar em Paços de Ferreira ( XII )

O caso da fábrica Albino de Matos, Pereiras e Barros, Lda.
Estávamos em 1909, os tambores da revolução republicana já se ouviam. Albino de Mattos, comerciante talentoso e aberto ao progresso, não descura a importância da imprensa para a divulgação da sua oficina e dos produtos lá produzidos. Envia para o jornal Progresso de Paços de Ferreira, cuja publicação se estende a nível do país e do Brasil, um exemplar do seu catálogo de material escolar. Pelo agradecimento feito, pelo jornal, podemos dimensionar o impacto que esta oficina já ia tendo no concelho:
Tivemos o prazer, ficando extremamente gratos de sermos mimoseados com um exemplar do bem elaborado catalogo geral do material escolar, que o nosso amigo distincto professor official e director da officina dos mesmos objectos escholares snr Albino de Mattos, teve a amabilidade de nos offerecer.
Pelo mesmo catalogo se vê quão desenvolvida está esta officina e os incontestáveis beneficíos que presta á instrução e ao publico em geral.
Faz ainda, publicar em A Federação Escolar o seguinte anúncio e alertando para o uso indevido do nome da sua fábrica:
Mobília escolar e material de ensino Albino de Mattos, professor complementar pela Escola Normal do Porto, que ha mais de 17 anos se dedica ao estudo e construção de mobília escolar e material de ensino para a escola primaria vem participar aos seus colegas no magistério, Ex.mos Srs Inspectores Primários, Ex.mas Câmaras Municipais e ao publico em geral que, não obstante a casa Lopes & C.ª, do Porto, ter cometido o abuso de anunciar que as suas mobílias escolares e material de ensino são de fabrico de Albino de Mattos, não é este fornecedor, não lhe cabendo portanto, responsabilidade alguma nos artigos de má construção ou que não satisfaçam ás exigências pedagógicas e higiénicas que a referida casa tenha vendido ou venha a vender, garantindo ao mesmo tempo, que quem se diriga a Albino de Mattos para Freamunde, onde tem as suas oficinas e residência, será bem servido debaixo de todos os pontos de vista.
Fornece tudo quanto seja preciso para a montagem de estabelecimentos de instrução especialmente para as escolas primárias; dá orçamentos e manda vir do estrangeiro quaisquer material que se deseje.
Fabrica carteiras escolares para dois alunos, desde 2$20 para três alunos desde 3$00, satisfazendo as principais exigências da pedagogia e da higiene.
Se alguém desejar uma carteira individual, para determinada estatura da criança ou adulto, é suficiente indicar a altura para a construir em condições garantidas de satisfazer.
Especialidade em caixas métricas, garantindo que no estrangeiro se não executam mais perfeitas nem mais completas.
Endereço postal: Albino de Matos - Freamunde
Endereço telegráfico: Albino - Paços de Ferreira.
Acreditando no mercado, o seu material escolar espalhou-se por todo o país o que é suficiente para avaliar o valor dos seus produtos, o génio empresarial e o importante papel no contexto concelhio, pelo seu carácter de pioneirismo da indústria do mobiliário escolar.
Em 25 e 26 de Março de 1918, participa naquelas que foram as suas últimas Conferências Pedagógicas, onde faz, antes do início dos trabalhos, um elogio ao seu amigo o senador Dr. Joaquim Leão Nogueira de Meireles há pouco falecido e uma saudação ao Ministro de Instrução, não no sentido político, mas pelo restabelecimento das conferências pedagógicas tanto do seu agrado e tão úteis para o ensino.
Morre pelas 18 horas do dia 24 de Setembro, com 55 anos, vítima de tuberculose pulmonar.
Na rúbrica Crónica de Freamunde do Jornal de Paços de Ferreira, em 26 de Setembro de 1918 pode ler-se:
Faleceu ante-ontem, dia 24 do corrente, pelas 18 horas, nesta freguesia, após cruciantes e prolongados sofrimentos o nosso bom amigo snr Albino Ferreira de matos, professor oficial aposentado e proprietário da acreditada oficina de mobiliário escolar e material de ensino, desta localidade.
O seu funeral que se realizou ontem pelas 20 horas, esteve muito concorrido.
Albino de Matos foi um homem plural. Vivenciador de inúmeras experiências conseguiu conjugar várias maneiras de ver, de sentir e agir. A expansão da escola pública, iniciada nos princípios do século XX sob os auspícios da República, irá favorecer os herdeiros e a sociedade que se constituirá sobre a sua obra.
JOAQUIM MANUEL FERNANDES DE CARVALHO - A INDÚSTRIA DO MOBILIÁRIO ESCOLAR EM PAÇOS DE FERREIRA

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A sina dum revoltado

PÕE-TE À TABELA MANEL

Põe-te à tabela Manel:
a PIDE deu um suspiro
e o bufa do Coronel
voltou a fazer o giro.

Quer passasse por passar
ou só p'ra gastar papel,
é sempre de duvidar...
põe-te à tabela Manel.

Vai passando o testemunho
a quem saúdas de punho
e a quem mais te for fiel,

não te deixes enrolar,
eles querem-te apanhar,
põe-te à tabela, Manel.

RODELA - " A SINA DUM REVOLTADO" - 2016

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Bombeiros Voluntários de Freamunde ( XXI )

5.5 A ERA DA MODERNIDADE
Atendendo ao que diz o Coronel Barreiros e a testemunhos como os de José Maria Gomes Taipa ou do Dr. Jaime Barros, é de facto com a direcção de Chamusca que os bombeiros ganham um novo impulso que os catapulta para a modernidade granjeando o prestígio e a aceitação na sociedade.
A mudança permanente de direcções nos primeiros anos de vida da instituição, imposta pelos estatutos e ao que parece também pela vontade dos seus dirigentes, os conflitos ou rivalidades permanentes e as dificuldades sociais e económicas da época não contribuíram para um melhor desenvolvimento da instituição, mantendo-se apenas com um pronto-socorro, moto-bomba e uma bomba manual.
A partir daqui as relações com as instituições dos bombeiros foram enormemente valorizadas, não só porque se filiaram na Liga dos Bombeiros Portugueses, mas também porque se notam constantes e profícuas relações com o Inspector de Incêndios e com as autoridades locais, distritais e centrais. É nesta teia de relações que surgem enormes ajudas do Estado que permitem a compra de equipamentos indispensáveis e que foram alterados os estatutos para permitir que os seus dirigentes possam manter-se em funções, por simples reeleição, sem qualquer limitação de mandatos. Esta continuidade dos dirigentes permitiu que fossem debeladas as dificuldades primárias de funcionamento dos bombeiros, dotando-o com os meios mínimos de funcionamento: a primeira auto-ambulância e um pronto-socorro novo com os devidos apetrechos para o desempenho que lhes era esperado, compras que demoraram da decisão à concretização mais do que dois anos, o tempo máximo que os estatutos originais permitiam aos dirigentes estar em funções. As duas novas máquinas foram inauguradas numa festa solene a 18 de Setembro de 1951 com a presença do Governador Civil do Porto, Braga da Cruz. Era já comandante António da Costa Brito.
Por força do empenho da direcção sobem substancialmente as receitas, não só por via dos subsídios do estado central, mas também pelas receitas conseguidas nas Festas da Flor, realizadas na feira anual de Santo António e de Santa Luzia, bem como em épocas especiais nas festas das freguesias vizinhas. Na direcção de José Chamusca foram ainda feitos peditórios e ainda aproveitada e amplamente desenvolvida uma ideia que já tinha germinado anteriormente, o "Parque dos Bombeiros", que levou à construção do rink no campo da feira, entretanto destruído pela construção recente do novo centro cívico de Freamunde. Até à construção do actual quartel, a exploração daquele espaço, entre Junho e Setembro, constituiu uma importante fonte de receita para os bombeiros e um pólo de animação do centro de Freamunde.
Com José Chamusca foi possível, graças ao empenho dos dirigentes e às ajudas obtidas quer do Estado quer da população de Freamunde e das freguesias vizinhas, conseguir afastar o espectro do fim da associação. No fim desta sequência de mandatos, afasta-se da direcção deixando a esperança e a viva aspiração de construir um quartel sede de raiz.
CHAMPANHE NA FESTA DE RECEPÇÃO ÀS NOVAS VIATURAS. A VOLKSWAGEN
5.6 AS VOLTAS DO QUARTEL
Continuando a ideia do antecessor, Arnaldo Costa Brito (1955-1959) entra na direcção com os olhos postos na construção do novo quartel. Reconhecendo o esforço feito pela direcção anterior e encarando a dificuldade de encontrar o terreno em lugar central, bem como o desenvolvimento do plano de urbanização para a Vila, a direcção dá poderes ao presidente para tratar do assunto.
Durante o primeiro ano, faz visitas a várias instituições congéneres para conhecer os seus quartéis e chega a pedir emprestado o projecto dos Bombeiros de S. Mamede de Infesta. Apesar de feito um ante-projecto de quartel, pelo arquitecto Fernando Leal, os seus cinco anos de mandatos terminaram, com várias tentativas para adquirir diferentes terrenos, mas sem sucesso.
António Teles Menezes Júnior, nos seus dois mandatos, também não vai ter melhor resultado no que diz respeito ao quartel, apesar das novas tentativas. As direcções cessantes tinham montado e mantido uma organização que este continuou. Neste período, continuando as práticas de Chamusca e de Cruz, nota-se um acentuar de apoios ao regime, nomeadamente ao oficiar o Presidente do Conselho e Minisitro do Interior "protestando contra as caluniosas afirmações proferidas na Assembleia-geral da ONU, acerca das nossas províncias ultramarinas, dando ao Governo da Nação o seu apoio e oferecendo os seus serviços para a defesa da Pátria".
É na fase final do segundo mandato de António Teles Menezes Júnior que o comandante António Costa Brito pede a sua demissão. Mas a substituição pelo Dr. Fernando Cruz, médico e filho do fundador Alberto Cruz, acontece já no mandato seguinte, com a repetição na direcção de José António Nunes Chamusca. Regressam com ele os sucessos directivos. Chamusca consegue não só a reforma do rink, como a reparação da auto-ambulância e ainda a aquisição de uma nova viatura, o "Jeepão". Aumentam os subsídios (quer para a compra de novos equipamentos, quer para a manutenção dos existentes) e as receitas próprias da corporação, fazendo de novo espectáculos a reverter para a associação. Apesar de não ter conseguido comprar um terreno mais central, quando Chamusca deixou a direcção no fim de 1967 tinha adquirido parte do terreno onde hoje está implantado o actual quartel.
A direcção de Teodoro Alberto Machado Pereira, que se lhe segue, não estava satisfeita com a localização e insiste em novas tentativas para comprar um terreno central, mas sem qualquer resultado. Nesta direcção que se manteve em funções até 1972 é adquirido algum material e vendido o primeiro carro da corporação para um coleccionador de Vizela. É também com Teodoro Machado que se realiza a primeira festa de aniversário da corporação em Julho de 1971, com honras de reportagem na Emissora Nacional. Nessa festa participaram apenas os membros da direcção, assembleia-geral, comando e corpo activo.
Em 1971 já estavam dados os primeiros passos rumo à construção do quartel sede, conseguindo o apoio do engenheiro freamundense Ulisses Valente que não só oferece o projecto como a sua ajuda para tentar arranjar subsídios para a sua construção. Curiosamente, é neste ano que aparece uma lista alternativa à direcção, verdadeiramente opositora. Numa assembleia-geral muito concorrida,a lista alternativa acabou por não ser votada por não apresentar os impressos com a sua lista, que seriam os boletins de voto, o que acabou por gerar alguma confusão e os lamentos do presidente ada assembleia-geral.
JOÃO VASCONCELOS - "BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE FREAMUNDE - 75 ANOS"

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Caminhos

XVII
"Afinal, a melhor maneira de viajar, é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras,
Sentir tudo excessivamente, ..."
                                          Álvaro de Campos 
Viajar é sentir! Lentamente eu vou chegando, como José Régio, não ao local que nem ele sabe qual é "a pouco e pouco vou chegando. Não sei a quê", mas aos quatro cantos de Freamunde.
Apetecia-me ver um pouco de televisão, mas cansei de novelas e dos seus dislates repetidos. Há poucas reportagens da realidade para nos conhecermos melhor, neste pequeno rectângulo nas bordas ajardinadas do Atlântico. Opto por mais uma viagem. A pé, como sempre. Irrita-me a mãozinha nervosa do condutor apressado que atrás de nós, toca freneticamente, logo que aparece o semáforo verde. E lança um epíteto pouco abonatório, pela janela do descontentamento. Para mim, é pior que uma pedra lançada dum viaduto sobre a A1. Há automobilistas que pensam ser usucapientes da circulação.. E únicos! Além de testes de código e condução deveriam ser submetidos a testes de boas maneiras e de saber estar com os outros.
Sento-me num café, a ler o jornal. Numa mesa ao lado ouço uma conversa que me surpreendeu. Não tenho culpa, ouço bem. Predominava a função fática da linguagem. Mas vou-me ocupar da metalinguística. Uma das moças, estudante aí do 10º / 11º ano dizia, zangada: "Supônhamos" que chega aí a minha mãe para irmos às compras e o rapaz nunca mais me traz o café!" A amiga, mais calma, responde: "É preciso que "tênhamos" calma, a tua mãe ainda não veio e, se vier, espera um pouco".
A segunda asneira decalcada da primeira (afinal a asneira nunca é solteira) irritou-me. Levantei-me. Tomei um copo de água ao balcão. Enquanto saboreava a água, cujo gás me apontava ao nariz, subiam-me outros picos - os da recordação. Ah! Dona Cesaltina...Ensinou-me as funções do imperativo e a sua substituição pelo presente do conjuntivo. Ensinou-me ainda que a primeira pessoa do plural do presente do conjuntivo é uma palavra grave. Deu-me uma bela preparação para o exame de admissão ao liceu, exame que fiz no Liceu Rainha Santa, no Porto.
Após a prova oral, uma das examinadoras perguntou à Dona Cremilde (que também ajudou à minha preparação) se, em Freamunde, havia muita desta louça. Não açambarquei o elogio, devolvendo-o imediatamente àquelas doutas professoras. Nós nunca dizíamos "supônhamos" ou sequer "suponhemos". Outras colegas de então podê-lo-ão confirmar. Como a Glória, a esposa do João Barbeiro. Só lamento que não tenha continuado a estudar. Naquela altura havia dificuldades. Mas também, no meu tempo de professora. Tanto gostava que o Fernando Viana tivesse estudado. Que fiz eu? Fiquei-me pela onicofagia e a desilusão. Podia ter feito mais...
Necessito de resfolegar após o acesso das bolhinhas de gás ao meu nariz. Encostei-me ao pilarete das casinhas dali do centro. Como é um pilar pedernal, bati com a cabeça distraída e acordei das minhas congeminações. Regressei. Entrei em casa, como se tivesse um cartão da via verde.
Refugiei-me na leitura, mas não escolhi um romance. Preferi a poesia de Camilo Pessanha que mais se adequava ao meu estado de espírito. "Voltai horas de paz..." e "Aonde vais meu coração vazio?". É esta leitura de Clepsiadra que me faz, de novo, penetrar no passado. E deixo-me imbuir e contaminar, pela tal nostalgia neurasténica. Pensei em regressar aos psicofármacos, mas não era uma  ideia cordata, na minha cabeça. Melhor seria transitar para as leituras budistas ou procurar um centro de ioga para distender as emoções e libertar a ansiedade. Fiquei indecisa, mais uma vez. Opto pela televisão, a amada - odiada solução. Fala de bolsas, a marca preponderante do capitalismo. Atrás viria a publicidade. Desliguei.
Quem me fez assim? EU. Sou uma self-made-woman. Torci, retorci os meus genes e os meus cromossomas. Desafiei os poderes superiores. Não posso queixar-me. Ao olhar ao espelho, ssurge-me um EU que não conheço. Às vezes, a minha voz é desfocada e ridícula, a gritar no deserto das ideias e dos afectos. Queixo-me de ceder às liturgias e saltar muitas vezes, para o avesso do mundo. De não inventar formulários para apalpar o gosto a cada minuto do presente e só retornar atrás. Como cantávamos no átrio da minha escola: "Oh! meu tenente, oh meu tenente, um passo p'ra trás, outro p'rá frente".
Voltar atrás, não será apenas recuar no tempo, mas buscar a memória dum povo de que faço parte. Seria mais fácil não querer saber. Conhecer as raízes e a história dá trabalho à memória.
Mas é preciso treiná-la. Para que não surja como o alforge das moedas do avarento, cheio de mofo.
"A vida é em frente!" - dizem-me alguns, abanando-me para a realidade. Em busca da Estrela Polar, que até nemm brilha todas as noites.
Também nem sempre a encontro. Falta-me a luneta de Galileu e a intuição de Copérnico. Sempre me orientei mal na Terra, como hei-de orientar-me no Céu?
Mas as estrelas por vezes piscam-nos. Brilham na noite. Por isso, há tantos jovens na noite, em busca duma certa luz em que, à vezes, penetram.
Também se morre de esplendor...
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS"

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Gente da Nossa Terra

 JOÃO ERVILHA

Os Ervilhas são da gente
que honra a nossa freguesia,
não por ser gente valente
e alheios à cobardia.

Honram-nos pela canseira
que têm no seu dia-a-dia,
pra acenderem a fogueira
do amor e da alegria.

Ainda o sol não tem chegado
já eles têm o seu gado
na quinta para lavrar.

E no tempo que lhes resta,
fazem da igreja uma festa
na santa missa a cantar.
 

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XXV )

ÉPOCA 1950 / 1951 (SEGUNDA PARTE)
OS "ARGENTINOS" E A ÉPOCA DAS "SEISADAS"
O futebol continuava na crista da onda.
Com um bom método de formação o clube oferecia nova e talentosa geração de jogadores. Fernando Santos em "Coisas Minhas" - Fredemundus de 1990 - chegou a escrever: «Ainda vejo o meu velho amigo, o professor Gil Aires, treinador efectivo e desinteressado dos tempos das "seisadas", que mantinha uma filosófica fleuma enquanto a turba exigia "só mais um"».
O "Carvalhal" era um autêntico viveiro de futebolistas, uma casa enorme de talentos. O "Mestre" andava empolgado com as "performances" dos seus meninos.
Os rapazes jogavam mesmo muito bem, em constantes simulações, remates de todo o jeito e feitio, fintas prodigiosas, enfim, toda uma série de lances em que a imaginação prevalecia. Era tudo tão perfeito que a equipa ficou alcunhada de "Argentinos", designação que ainda hoje perdura, mais fazendo lembrar a célebre equipa de São Lorenzo de Almagro que encantou, com o seu virtuosismo, todos os portugueses numa digressão que por cá efectivou. Ficou célebre o jogo com o F. C. Porto (31 de Abril de 1947) em que venceram por 9-4.
Os "Azuis" estavam alicerçados numa defensiva sólida e coesa, bem comandada pela magnificência do "keeper" Peixoto, a elegância, a agilidade e visão de jogo de Zeca "Mirra" - um símbolo do futebol arte -, o arrojo e a paixão de Alberto "Mirra", Manuel Pinto e Casimiro Alves "Russo", a pujança, raça e determinação de Zé Viana, jovem que conseguia estar em toda a parte com uma eficiência notável, e o complemento do quinteto maravilha:
Adão Viana - Extremo direito habilidoso que procurava a linha de fundo como um pobre busca um pedaço de broa, daí executando centros perfeitos para o interior da grande área. Aliava estas qualidades às de goleador.
João Batista "Cherina" - Excelente "driblador", por vezes autor de golos impossíveis, protagonista de um futebol sedutor que todos admiravam. Um talento. No entanto, nem sempre se mostrava disponível. Quando entrava em campo com as meias caídas ou as mãos por dentro dos calções, era sinónimo que não tínhamos homem para o jogo. Noutros, lá surgia a ressurreição plena das reais capacidades. Feitios!...
Quim "Bica" -  Jovem avançado, rebelde e bizarro, possuidor de um permanente sentido de humor, imenso, que a todos contagiava. Sempre bem disposto e folgazão, trabalhava, de forma sublime, a bola com os dois pés. O seu remate era forte e certeiro. A "milheirinha" do grupo.
João Taipa - Terrível goleador. A figura de referência do ataque azul. Dele se poderia dizer que tinha a vantagem de jogar com os três pés, sendo um deles...a cabeça, tal a violência e colocação do seu remate. Então na marcação de "penaltys" era quase infalível: guarda redes para um lado e a bola, calmamente, para o outro. Era o ídolo da pequenada que corria a bom correr, colocando-se ajoelhada e colada às redes atrás da baliza sempre que o Joãozinho se aprestava para ludibriar o guardião adversário na conversão de qualquer castigo máximo.
José Maria "Couta" - Não era um esquerdino nato, não senhor, mas "desenrascava-se" muito bem. Fazendo uso dos dois pés, desarmava e saía rapidamente a jogar a preceito. Um poço de temperamento e generosidade que tudo dava em campo. A simplicidade em pessoa.
Nenhuma linha atacante se tornou tão lendária como esta "máquina" de fabricar golos. Deste mítico quinteto avançado, geniais intérpretes, ficaram registos de um futebol de enorme qualidade, inquestionável talento e rara virtusiodade.
A euforia era tal que os êxitos da rapaziada foram transportados, meses após o fecho do campeonato, para os palcos.
Da Revista de Costumes em dois actos "Freamunde é coisa boa" - original e música de Fernando Santos (1ª representação, na ASMF, em 25 de Dezembro de 1951), extraímos o hino, de sucesso assinalável, que jamais se apagará da memória dos freamundenses, várias vezes recordado e cantado em jornadas de evocação e saudade. O "artista" Quim Bica era  um dos personagens que integrava o elenco.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

A sina dum revoltado

MULHERES

Vós, ó berço divinal,
do nosso sono primeiro
mulheres de Portugal!
Mulheres do mundo inteiro!

Depende de vós a terra
como da água sagrada,
que corre, de serra em serra,
p'ra sua fonte encantada.

Mulheres, mães, companheiras,
quer casadas quer solteiras,
viúvas ou divorciadas.

É p'ra vós que esta voz canta
e por vós rasga a garganta
até seres libertadas!

terça-feira, 22 de outubro de 2019

A indústria do mobiliário escolar em Paços de Ferreira ( XI )

O caso da fábrica Albino de Matos, Pereiras e Barros, Lda.
As carteiras concebidas pelo professor Albino de Mattos na sua oficina em Freamunde, revelavam tudo o que se ia fazendo em termos de mobiliário escolar. A preocupação por uma nova forma de fazer estar os alunos na sala de aula, tendo em conta, não só as informações dos médicos higienistas, como também as informações que ia recolhendo através dos congressos que habitualmente frequentava, levam-no a criar um conjunto de carteiras dirigidas fundamentalmente ao emsino primário e liceal, que serão fortemente apreciadas e premiadas. À semelhança de Cardot em França e de Adães Bermudes, Albino de Mattos produzia o seu mobiliário escolar em conformidade com a estatura dos alunos, tendo uma tabela de modelos que referenciava nos seus catálogos.
Em 1907, no âmbito do IV Congresso da Liga Nacional contra a Tuberculose, realiza-se a Exposição de Higiene no mercado Ferreira Borges na cidade do Porto, onde foram expostos diversos modelos de carteiras escolares, entre as quais uma belga e outra do tipo inglês. Ao professor Albino de Mattos é-lhe atribuído o primeiro prémio, como refere a seguinte carta do secretário J. Carteado Mena:
"Venho communicar a v., que o jury nomeado por este Sub-Comité para classificar os materiaes expostos na sala destinada á classe X_Hygiene Escolar - jury formado pelos exc.mos snrs. dr. med. Almeida Dias, de Lisboa; dr. med. Sanches de Moraes, de Coimbra; e dr. med. Aleixo Guerra, do Porto; inspectores sanitários nas respectivas cidades, collocou o mobiliário exposto por v., em 1ª classe.
Permitta-me em nome do snr. Presidente d'este Sub-Comité de Exposição, agradecer a gentileza da sua participação, agradecimento que faço meu e muito penhorado".
Porto e Secretaria do Sub-Comité da Exposição de Hygiene, 10 de Abril de 1907.
Em 1908, António J. Aklves de Melo, director da Escola Normal de Braga, afirma:
"Querem saber qual o meu sentir sobre o material fornecido pelas suas officinas á escola de que sou director, e eu não tenho a menor duvida em lhes affirmar que tanto o mobiliário fornecido para a escola annexa, me satisfazem plenamente, tanto na parte higienica, como no seu acabamento e solidex".
De entre os numerosos objectos que constituem a mobília escolar, os mais importantes estão, sem dúvida, representados na imagem. Este conjunto de carteiras, quadro negro, contador e secretária com cadeira de braços, custava cerca de 1000$00 nos princípios do século XX.
Esta distribuição das carteiras permitia ao professor dirigir-se ao mesmo tempo a toda a classe e facilitava-lhe a vigilância. Definida no século XVIII pressupunha um ensino centrado no professor, que detinha o monopólio da palavra. É a organização tradicional do espaço da aula com os alunos dispostos em fila. Mas, embora hoje se possam encontrar nas nossas escolas outras formas de organizar o espaço pedagógico (em semi-círculo, em ferradura,, em quadrilátero) interessa, sobretudo, a atitude do professor face a esse espaço e à sua intervenção como moderador ou animador.
CARTEIRA PARA ESCOLA INFANTIL
Esta carteira para as escolas infantis tinha duas esteiras de correr, formadas por tiras de madeira de nogueira e plátano. Comportava duas lousas que, quando as esteiras corridas, serviam para os trabalhos manuais. O preço da carteira e das cadeiras em plátano e nogueira era de 260$00.
CARTEIRA PARA ESCOLA PRIMÁRIA
Esta carteira em madeira de pinho com tampo semi-articulado e banco fixo, era um dos modelos mais conhecidos e usado nas escolas primárias. De construção muito sóbria e resistente era dos mais económicos. O seu preço era de 60$00 ou 100$00 escudos em conformidade com a madeira usada.
CARTEIRA PARA LICEU OU ESCOLA NORMAL
Esta carteira em madeira de pinho com tampos articulados e bancos móveis custava entre 85$00 e 127$00.
CARTEIRA PARA ESCOLA SUPERIOR
Este modelo sólido era montado em pés de ferro "viga H". Tinha tampos semi-articulados e banco fixo. Custava entre 85$00 e 110$00.
CARTEIRA PARA COLÉGIO
A carteira era construída com caixa para livros. O tampo e o banco eram articulados. Para dar maior capacidade à caixa, costuma-se fabricar assentado a base da caixa sobre a perna de ferro forjado. Eram construídas em madeira de pinho e de mogno. Fabricavam-se para um aluno ou para dois.
O preço era de 65$000 em pinho e 90$00 em mogno para um aluno; 85 $00 em pinho e 110$00 em mogno para dois alunos.
JOAQUIM MANUEL FERNANDES DE CARVALHO - A INDÚSTRIA DO MOBILIÁRIO ESCOLAR EM PAÇOS DE FERREIRA