ÉPOCA 1949 / 1950 (SEGUNDA PARTE)
O TÍTULO ESTEVE POR UM FIO
O pontapé de saída para a desgastante prova deu-se com a visita do Progresso ao campo do Carvalhal. Esperavam-se algumas dificuldades mas nada que atemorizasse o "onze" que Gil Aires escalou para este desafio, ganho por 3-1.
Oito dias depois após, a risonha cidade da Póvoa recebia de braços abertos centenas de freamundenses. Algumas senhoras aproveitaram o passeio que lhes foi proporcionado pelos maridos para se "espraiarem" um pouco e "dar ao dente" - o habitual farnel, onde nem sequer faltava o tradicional garrafão do branco da região, que sempre acompanhava o "pessoal" nestas cirunstâncias. A visita ao "Cego do Maio" ficava para depois.
Ao lado, o jogo, arbitrado pelo conceituado Pina Júnior, prometia.
Impondo forte dinâmica, viu-se um Freamunde rápido, acutilante, senhor do confronto com o todo poderoso Varzim. O 4-4 final - um fartote de golos - espelha na perfeição o trabalho desenvolvido pelos dois conjuntos, que se portaram com louvável correcção, dignificando o espectáculo.
Porém, a primeira contrariedade haveria de surgir.
Os rapazes de Freamunde subestimaram o valor da frágil equipa de Gaia e lá se foram os três pontos da ordem. A perder por 2-0 (num abrir e fechar de olhos), os azuis e brancos ainda conseguiram igualar. O golo que ditou a derrota surgiu nos instantes finais do prélio.
Alertada para as consequências de tais distracções, a "rapaziada" encheu-se de brios, não dando veleidades à concorrência que se seguiu: 4-1 ao Ramaldense, 5-0 ao Rebordões e 4-2 ao Oliveira do Douro.
Neste encontro o Freamunde estreou Capô, genuíno ponte de lança que actuou no lugar de Bica. Era um atleta possante, de forte pontapé e que aceitava bem a condição de 2ª escolha, mas quando jogava...quase sempre marcava.
O grupo mantinha a veia goleadora, apenas "ferida" em Paredes onde soçobrou por 1-0.
À 12ª jornada o anfitrião dava pelo nome de Perosinho.
Os azuis e brancos costumavam dar-se mal com os ares de Gaia e este jogo não fugiu à regra.
Nova derrota pela margem mínima (1-0) e...os dentes fugiam.
Mas vamos ao jogo: após o último apito do árbitro Veríssimo Miranda, houve festa nas hostes locais. O público afecto aos da casa, invadiu pacificamente o campo, passeando aos ombros o guarda redes "Rebola", grande herói da partida. Este "keapper" gaiense, defendeu tudo o que havia para defender, para desespero dos dianteiros freamundenses. Estava assim consumado novo desaire que custou imenso a digerir. Mas que foi contagiante ver a alegria estampada no rosto de toda aquela gente, lá isso foi!
O 13º jogo foi de "azar" para os "capões".
Os forasteiros "olhavam de cima" e fizeram valer o estatuto de líderes, vencendo por 3-1.
O desafio teve fases espectaculares e uma enorme assistência a presenciá-lo. O Freamunde bem tentou levar a "cruz" ao calvário mas não conseguiu. Os outeirenses consolidavam o 1º posto, com o Varzim e Ramaldense por perto.
O desânimo instalou-se no seio do grupo que se viu batido por outros de menor expressão. Foram momentos delicados, rapidamente ultrapassados com o interregno do campeonato.
No final da 1ª volta o Varzim liderava com 40 pontos. O Freamunde ocupava o 6º posto com 32 pontos.
Recomeçada a prova, o Progresso iria testar as capacidades técnicas e psicológicas dos pupilos de Gil Aires.
Amaro "Cavada" foi a novidade no "onze". Sob rigoroso temporal - chovia como Deus a dava - o Freamunde triunfou merecidamente por 5-4 (mais parecia um jogo de hóquei em patins), com "hat trick" de João Taipa. A equipa ganhava alma, alento.
O próximo desafio iria dissipar, por completo, as dúvidas.
O comandante Varzim estava aí, de peito feito, a querer puxar dos galões.
Enorme assistência afluiu ao Carvalhal. O jogo foi um espanto. O resultado final (5-5), proporcionou golos para todos os gostos. Sempre que o Varzim marcava respondia de pronto o Freamunde com a igualdade. Algumas escaramuças, entre adeptos mais exaltados, não tiraram brilho aos espectáculo.
O "mister" não mudava a "linha". Ataque endiabrado e lá vinham as "seisadas". No rol das vítimas encontrava-se o Gaia, Rebordões e Paredes. Sob a batuta de Taipa a "orquestra" afinava e a música era outra. Um regalo!
Em casa era sempre a aviar. Fora é que foi o diabo. Se a derrota no Ramaldense (2-4), sério pretendente ao título, não surpreendeu, já as consentidas nos redutos do Oliveira do Douro (0-2) e Coimbrões (2-4), foram de todo imprevistas. A equipa "amedrontava-se" sempre que atravessava a ponte. Complexos!
Manuel Pinto apresentava-se como "reforço". O grupo voltava a ficar compacto com os regressos de Bica e José Maria "da Couta", após arreliadoras lesões.
As contas complicavam-se um pouco e o título parecia já uma miragem.
No entanto, quatro vitórias consecutivas (7-1 ao Bonfim, 5-0 ao Atlético Rio Tinto, 3-2 ao Ermesinde e 6-1 ao Perosinho) fizeram regressar a esperança.
Neste último desafio o Freamunde beneficiou de duas grandes penalidades. Na primeira, Taipa, como sempre, fintou o guarda redes "Rebola", (esférico para um lado, homem para o outro), herói do desafio da 1ª volta, lembram-se? Na segunda, este simpático defensor da baliza gaiense, dirigiu-se ao goleador azul e perguntou-lhe em surdina: "E agora, pá, para que lado vais atirar? - Sei lá!...Ainda vou pensar, respondeu-lhe Taipa". Estão mesmo a ver o que aconteceu, não estão?...
Depois do desafio, já em plena "galhofa" no Café Teles, o "nosso" amigo "Rodela", ainda frustrado e desiludido, chamou ao lado o Joãozinho e segredou-lhe ao ouvido: "Preferia ter perdido quinhentos "paus" a ser "levado" daquela forma! E depois ainda fui alvo de chacota da "canalhada" que se ajoelhava atrás das redes!"
No campo do Outeiro, propriedade do Cruz, tudo se iria decidir.
Separadas por três pontos esta era, para a equipa do Freamunde, ocasião de vital importância para poder acalentar aspirações ao título. Do jogo do tudo ou nada deu...nada. Com uma desastrosa actuação defensiva na segunda metade, os "capões" foram crucificados e depenados por Carvalhinho (4 golos), autêntico carrasco dos freamundenses, que saíram vergados a uma escandalosa derrota por 8-2. Os "azuis" ficaram, assim, irremediavelmente afastados da luta pelo lugar mais alto da tabela.
O Freamunde despediu-se do campeonato com mais uma goleada (8-0) ao Desportivo de Portugal. O seu ataque foi o mais realizador da prova.
EQUIPA TIPO:
Peixoto, Alberto "Mirra" e Zeca "Mirra"; Casimiro "Russo", Zé Viana e Regadas; Adão Viana, João Batista "Cherina", Quim "Bica", João Taipa e José Maria "da Couta".
Outros mais utilizados: Casimiro "Vaidoso", Manuel Pinto, Amaro "Cavada", Capô, e José Lopes "Pequito".
EQUIPA:
Em cima: Peixoto, Alberto "Mirra", Casimiro "Russo", Zeca "Mirra, Zé Viana,Manuel Pinto
Em baixo: Adão Viana, João "Cherina", Quim Bica, João Taipa, José Maria "da Couta"
MARCADORES DOS GOLOS:
João Taipa (38), João Batista "Cherina" (24), Adão Viana (22), José Maria "da Couta" (11), Bica (10), Zé Viana, Capô e adv. p/b (1 cada).
A época oficial terminaria em 10 de Abril de 1950, com a realização do jogo particular, entre o Sport Clube de Freamunde - 1 / Boavista - 3, integrado no programa festivo relativo à inauguração do campo de futebol da Cavada em Paços de Ferreira.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"








