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terça-feira, 2 de julho de 2019

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XXIII )

ÉPOCA 1949 / 1950 (SEGUNDA PARTE)
O TÍTULO ESTEVE POR UM FIO
O pontapé de saída para a desgastante prova deu-se com a visita do Progresso ao campo do Carvalhal. Esperavam-se algumas dificuldades mas nada que atemorizasse o "onze" que Gil Aires escalou para este desafio, ganho por 3-1.
Oito dias depois após, a risonha cidade da Póvoa recebia de braços abertos centenas de freamundenses. Algumas senhoras aproveitaram o passeio que lhes foi proporcionado pelos maridos para se "espraiarem" um pouco e "dar ao dente" - o habitual farnel, onde nem sequer faltava o tradicional garrafão do branco da região, que sempre acompanhava o "pessoal" nestas cirunstâncias. A visita ao "Cego do Maio" ficava para depois.
Ao lado, o jogo, arbitrado pelo conceituado Pina Júnior, prometia.
Impondo forte dinâmica, viu-se um Freamunde rápido, acutilante, senhor do confronto com o todo poderoso Varzim. O 4-4 final - um fartote de golos - espelha na perfeição o trabalho desenvolvido pelos dois conjuntos, que se portaram com louvável correcção, dignificando o espectáculo.
Porém, a primeira contrariedade haveria de surgir.
Os rapazes de Freamunde subestimaram o valor da frágil equipa de Gaia e lá se foram os três pontos da ordem. A perder por 2-0 (num abrir e fechar de olhos), os azuis e brancos ainda conseguiram igualar. O golo que ditou a derrota surgiu nos instantes finais do prélio.
Alertada para as consequências de tais distracções, a "rapaziada" encheu-se de brios, não dando veleidades à concorrência que se seguiu: 4-1 ao Ramaldense, 5-0 ao Rebordões e 4-2 ao Oliveira do Douro.
Neste encontro o Freamunde estreou Capô, genuíno ponte de lança que actuou no lugar de Bica. Era um atleta possante, de forte pontapé e que aceitava bem a condição de 2ª escolha, mas quando jogava...quase sempre marcava.
O grupo mantinha a veia goleadora, apenas "ferida" em Paredes onde soçobrou por 1-0.
À 12ª jornada o anfitrião dava pelo nome de Perosinho.
Os azuis e brancos costumavam dar-se mal com os ares de Gaia e este jogo não fugiu à regra.
Nova derrota pela margem mínima (1-0) e...os dentes fugiam.
Mas vamos ao jogo: após o último apito do árbitro Veríssimo Miranda, houve festa nas hostes locais. O público afecto aos da casa, invadiu pacificamente o campo, passeando aos ombros o guarda redes "Rebola", grande herói da partida. Este "keapper" gaiense, defendeu tudo o que havia para defender, para desespero dos dianteiros freamundenses. Estava assim consumado novo desaire que custou imenso a digerir. Mas que foi contagiante ver a alegria estampada no rosto de toda aquela gente, lá isso foi!
O 13º jogo foi de "azar" para os "capões".
Os forasteiros "olhavam de cima" e fizeram valer o estatuto de líderes, vencendo por 3-1.
O desafio teve fases espectaculares e uma enorme assistência a presenciá-lo. O Freamunde bem tentou levar a "cruz" ao calvário mas não conseguiu. Os outeirenses consolidavam o 1º posto, com o Varzim e Ramaldense por perto.
O desânimo instalou-se no seio do grupo que se viu batido por outros de menor expressão. Foram momentos delicados, rapidamente ultrapassados com o interregno do campeonato.
No final da 1ª volta o Varzim liderava com 40 pontos. O Freamunde ocupava o 6º posto com 32 pontos.
Recomeçada a prova, o Progresso iria testar as capacidades técnicas e psicológicas dos pupilos de Gil Aires.
Amaro "Cavada" foi a novidade no "onze". Sob rigoroso temporal - chovia como Deus a dava - o Freamunde triunfou merecidamente por 5-4 (mais parecia um jogo de hóquei em patins), com "hat trick" de João Taipa. A equipa ganhava alma, alento.
O próximo desafio iria dissipar, por completo, as dúvidas.
O comandante Varzim estava aí, de peito feito, a querer puxar dos galões.
Enorme assistência afluiu ao Carvalhal. O jogo foi um espanto. O resultado final (5-5), proporcionou golos para todos os gostos. Sempre que o Varzim marcava respondia de pronto o Freamunde com a igualdade. Algumas escaramuças, entre adeptos mais exaltados, não tiraram brilho aos espectáculo.
O "mister" não mudava a "linha". Ataque endiabrado e lá vinham as "seisadas". No rol das vítimas encontrava-se o Gaia, Rebordões e Paredes. Sob a batuta de Taipa a "orquestra" afinava e a música era outra. Um regalo!
Em casa era sempre a aviar. Fora é que foi o diabo. Se a derrota no Ramaldense (2-4), sério pretendente ao título, não surpreendeu, já as consentidas nos redutos do Oliveira do Douro (0-2) e Coimbrões (2-4), foram de todo imprevistas. A equipa "amedrontava-se" sempre que atravessava a ponte. Complexos!
Manuel Pinto apresentava-se como "reforço". O grupo voltava a ficar compacto com os regressos de Bica e José Maria "da Couta", após arreliadoras lesões.
As contas complicavam-se um pouco e o título parecia já uma miragem.
No entanto, quatro vitórias consecutivas (7-1 ao Bonfim, 5-0 ao Atlético Rio Tinto, 3-2 ao Ermesinde e 6-1 ao Perosinho) fizeram regressar a esperança.
Neste último desafio o Freamunde beneficiou de duas grandes penalidades. Na primeira, Taipa, como sempre, fintou o guarda redes "Rebola", (esférico para um lado, homem para o outro), herói do desafio da 1ª volta, lembram-se? Na segunda, este simpático defensor da baliza gaiense, dirigiu-se ao goleador azul e perguntou-lhe em surdina:  "E agora, pá, para que lado vais atirar? - Sei lá!...Ainda vou pensar, respondeu-lhe Taipa". Estão mesmo a ver o que aconteceu, não estão?...
Depois do desafio, já em plena "galhofa" no Café Teles, o "nosso" amigo "Rodela", ainda frustrado e desiludido, chamou ao lado o Joãozinho e segredou-lhe ao ouvido: "Preferia ter perdido quinhentos "paus" a ser "levado" daquela forma! E depois ainda fui alvo de chacota da "canalhada" que se ajoelhava atrás das redes!"
No campo do Outeiro, propriedade do Cruz, tudo se iria decidir.
Separadas por três pontos esta era, para a equipa do Freamunde, ocasião de vital importância para poder acalentar aspirações ao título. Do jogo do tudo ou nada deu...nada. Com uma desastrosa actuação defensiva na segunda metade, os "capões" foram crucificados e depenados por Carvalhinho (4 golos), autêntico carrasco dos freamundenses, que saíram vergados a uma escandalosa derrota por 8-2. Os "azuis" ficaram, assim, irremediavelmente afastados da luta pelo lugar mais alto da tabela.
O Freamunde despediu-se do campeonato com mais uma goleada (8-0) ao Desportivo de Portugal. O seu ataque foi o mais realizador da prova.
EQUIPA TIPO:
Peixoto, Alberto "Mirra" e Zeca "Mirra"; Casimiro "Russo", Zé Viana e Regadas; Adão Viana, João Batista "Cherina", Quim "Bica", João Taipa e José Maria "da Couta".
Outros mais utilizados: Casimiro "Vaidoso", Manuel Pinto, Amaro "Cavada", Capô, e José Lopes "Pequito".
EQUIPA:
Em cima: Peixoto, Alberto "Mirra", Casimiro "Russo", Zeca "Mirra, Zé Viana,Manuel Pinto
Em baixo: Adão Viana, João "Cherina", Quim Bica, João Taipa, José Maria "da Couta"
MARCADORES DOS GOLOS:
João Taipa (38), João Batista "Cherina" (24), Adão Viana (22), José Maria "da Couta" (11), Bica (10), Zé Viana, Capô e adv. p/b (1 cada).
A época oficial terminaria em 10 de Abril de 1950, com a realização do jogo particular, entre o Sport Clube de Freamunde - 1 / Boavista - 3, integrado no programa festivo relativo à inauguração do campo de futebol da Cavada em Paços de Ferreira.
    JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

terça-feira, 25 de junho de 2019

Poesia de Freamundenses

EU

Até agora eu não me conhecia
Julgava eu que era outra Aurora
Não sei se sou agora o que queria
Ou se não sou aquela que era outrora

Em ti eu me conheço e desconheço
Contigo eu me procuro e me revelo
Alegro-me se sou o que mereço
E o que sou me assusta ao conhecê-lo

Eu não me fiz existo ou nasci
´Que importa como quando sou um ser
Em busca neste mundo conturbado

Mas tudo o que procuro há em ti
E se me negas continuo a ser
À procura de amar e ser amado

AURORA BICA - "ALMA FREAMUNDENSE"

terça-feira, 18 de junho de 2019

Bombeiros Voluntários de Freamunde ( XVIII )

 V
OS DIRIGENTES
5.1 OS RUMOS DA INSTITUIÇÃO
Apesar do fulgor inicial os momentos iniciais da vida da instituição não foram fáceis. A primeira direcção da instituição levou os seus intentos por diante, mas formalmente ultrapassou uma norma estatutária. A direcção deveria, à luz dos estatutos, ser constituída por cinco elementos, contudo foi eleita com sete.
O tenente Carlos Luciano Alves de Sousa e a sua direcção (anos 1930 e 1931) tiveram como tarefas a admissão e inscrição dos primeiros sócios, protectores e activos, bem como a instalação da associação, administrativamente e em termos físicos. Instalação essa que compreendeu a incorporação dos primeiros bombeiros e fazer a sua instrução, as obras de adaptação da garagem de São Francisco para servir de quartel, bem como arranjar o seu mobiliário. Em termos administrativos foi preciso registar as contas, acertar calendários para inaugurações, para fazer peditórios e arranjar receitas, pedindo até a colaboração de um grupo de senhoras para ajudar a instituição. A esta direcção coube ainda a tarefa de comprar o primeiro carro e transformá-lo num pronto-socorro para os bombeiros, bem como os primeiros equipamentos necessários.
5.2 DE SÃO FRANCISCO PARA A RUA DO COMÉRCIO
Cumpridos dois anos na instituição, os estatutos forçavam a que novas figuras assumissem as suas rédeas. Em Dezembro de 1931 é eleito o Dr. António Pinto de Vasconcelos, mas logo em Janeiro, na assembleia em que deveria tomar posse, este dá conta que não o pode fazer porque a "lei se opõe". Acabou por ser eleito para o substituir, a 13 de Fevereiro de 1932, o Dr. Alberto Carneiro Alves da Cruz. É com esta direcção à frente dos destinos da instituição que acabam por se revelar algumas divisões. Os sinais são visíveis na acta de direcção de 31 de Dezembro de 1932: o presidente declara que "a razão da nossa estada nos lugares ocupados dentro da associação de bombeiros voluntários é explicada pela necessidade da aquisição da moto-bomba para a corporação e de dar tempo ao tempo necessário para que se apaguem os vestígios de ressentimento contra a associação e em especial contra a corporação, do que não temos a mínima responsabilidade, sendo necessário compassar valiosos elementos que deixaram a associação e esperar que vá esquecendo e desaparecendo o propósito firme e decidido com que se encontrava o propulsor e grande activador da corporação de bombeiros para que se volte a ocupar o seu lugar". Esta posição parece também querer justificar a não realização de uma assembleia que, à luz dos estatutos, os poderia ter reeleito. O facto de não se ter realizado essa assembleia e respectiva eleição e de os mesmos sócios se manterem em funções no ano seguinte vai contribuir para que lhes falte legitimidade para por ordem na casa.
Durante o mandato de 1932, foi levantada a necessidade de um fardamento próprio para as representações, sobretudo em funerais, bem como a necessidade de se substituir a bandeira por uma de seda. Mas as preocupações centrais desta direcção foram a aquisição de uma moto-bomba, cujas dificuldades financeiras não permitiram a ainda dar continuidade à instrução no corpo activo, coisa que também teve de ficar adiada para 1933. É precisamente dessa instrução que se inicia em Março que vem a suceder um episódio amplamente relatado nas assembleias e que envolve a indisciplina de um bombeiro face ao instrutor. Tal como no mandato anterior o presidente da direcção tinha ssumido o comando. E, face a este caso, usando regulamentos de outra corporação, o Dr. Alberto Cruz decide-se pela suspensão do bombeiro que tinha estado na origem da contenda. As divisões eram notadas quer dentro do corpo de bombeiros quer no seio dos associados. Por esta altura, a direcção vê-se também em casa emprestada e com necessidade de arranjar um novo quartel. Alberto Cruz aainda propõe a compra de um terreno para esse efeito, o que lhe foi negado pela assembleia-geral de 12 de Março de 1933. A instrução e a aquisição da moto-bomba passaram a necessidades de segundo plano e o novo quartel foi a prioridade.
A RUA DO COMÉRCIO, PASSA A SER A RUA DOS BOMBEIROS
Em poucos meses estavam na rua do comércio com todos os seus haveres. Assim que terminaram este objectivo apresentaram as contas das obras de adaptação do quartel e toda a direcção pediu a demissão, aceite na assembleia-geral de 20 de Agosto de 1933. Ainda foi marcada outra assembleia para o dia 23 de Agosto desse ano para eleger novos corpos sociais, mas a corporação acaba nas mãos de uma comissão administrativa nomeada pelo Governo Civil, que foi sindicada em 1934 e que se manteve em funções até 1936.
JOÃO VASCONCELOS - "BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE FREAMUNDE - 75 ANOS"

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A sua culpa

III
(SEGUNDA PARTE)
O regresso a casa foi lento e quase mudo. O entusiasmo de ambos estava rasgado em pedaços de noite e de dor. Carlos tentava amenizar a viagem de reflexão e interioridade, mas as palavras quedavam-se em estertor, engranzadas na garganta, como as ovelhas no redil, à espera da abertura da porta. Só, em casa, ele ultrapassou o sufoco e perfurou a penumbra.
- Não te apoquentes, Carolina. Há sempre uma porta que pode abrir-se. Vamos repousar e reflectir. E...sem pressas, seremos capazes de encontrar a melhor solução. Só não tem remédio a morte, Carolina! É um pequeno contratempo que não esperávamos, é certo, mas com a ajuda da médica, tudo será remediado.
- Sinto uma nódoa a toldar-me o raciocínio. Parece-me que o comboio vai recuar, porque emperrou no seu caminho. Eu é que emperrei na vida, perdoa-me, Carlos.
- Estás mesmo a descarrilar, não posso sentir-te assim, tão magoada e desgostada. Vamos deitar-nos...amanhã é outro dia.
Carlos pegou-lhe nas mãos quentes, demasiado quentes e deu-lhe a tomar o comprimido aconselhado pela médica, para lhe serenar o espírito e desomplicar o sono.
Ele dormiu muito mal. A sua tarefa era bifacetada , tinha de ocultar a sua própria dor e a desilusão que sofrera e encontrar com a mulher e a médica a solução da equação.
Muniram-se de literatura adequada, pesquisaram por aqui e por acolá, ouviram opiniões de outros médicos...mas não, não queriam açodar a resolução. Carolina abandonou o seu projecto de se especializar em neurologia, para concentrar todas as suas energias na resolução do problema que tanto a perturbava. O amplexo de ternura com que Carlos a envolvia ajudava-a a minorar o seu sofrimento e a extirpar os momentos de grande mágoa e angústia que toldavam as suas águas, mas era tudo passageiro. Depressa retornavam as dores e a melancolia, a introspecção penosa.
Após um longo período de reflexão e de ponderação, optaram pela fertilização "in vitro", tendo escolhido uma clínica particular. Carolina não queria ser embulhada nos zunszuns das colegas ou nas palavras condoídas que não ajudam, mas aviltam e molestam. Carlos estava disposto a impedir tudo o que pudesse atenazar mais a mulher. Deixava a alma espraiar-se pelas paredes alvas da casa mas, perante ela,  exibia uma centelha no olhar forte, de que se desprendia um halo de frescor matinal. O processo não foi difícil. O genetista conseguiu fazer-lhe a colheita do óvulo sem lhe provocar demasiada dor, para se proceder em laboratório, à fecundação. Era um homem famoso, com a sensibilidade na ponta dos dedos e a excelência profissional no rótulo e no âmago.
Após a fecundação e a colocação do ovo no ventre de Carolina, a gravidez começou a desenrolar-se sem percalços. Ao rosto da jovem retornou o sorriso afável e simpático, vencidos que foram os momentos de baixios e revoltas. Mas foi sol de pouca dura. Volvido o entusiasmo inicial, a acalmia desejada, Carolina começou a deixar-se imbuir de sentimento de culpa e a pensar-se numa barriga de aluguer. Carlos apercebeu-se que algo estava a dominar a mulher, mas não conseguia entrar naquele casulo. Atribuía, muitas vezes, o estado melancólico de Carolina, ao seu estado de gravidez, ao reflexo dos tumultos anteriores e à ansiedade que também a possuía e amachucava. Ele esperava também que o tempo galopasse para que pudesse ter nos seus braços, o rebento tão ansiado. A fecundação ter-se dado dentro ou fora do ventre da mulher, era apenas um pormenor que não o magoava já. Já tinha ultrapassado os piores momentos. Ela parecia que não.
ROSALINA OLIVEIRA - " A SUA CULPA"

quinta-feira, 6 de junho de 2019

A sina dum revoltado

CAMINHOS DA LIBERDADE

Sou de Maio, sou de Abril,
sou do povo e sou Manel,
bebo por este cantil
e só a ele sou fiel.

Corro atrás deste ideal
como o Adão p'ro paraíso.
Só que ele portou-se mal,
mas eu tenho mais juízo.

Deixem passar quem deseja,
não os empurrem p'ra igreja
só porque querem passar.

Se não sujeitam-se, um dia,
a ter a igreja vazia
e Abril com medo de entrar.

RODELA - "A SINA DUM REVOLTADO"

terça-feira, 4 de junho de 2019

Banda de Freamunde ( XXVI )

Era bem verdade que sim, mas tudo isso criava encargos. Inclusive, já estava, num ou outro sector, semi-profissionalizada, com um naipe de bons artistas mas "pesados", e algumas "sensibilidades" não estavam para aí viradas. Nem com os "sermões" do padre Meireles: «...Que os apaixonados pela mais bela das artes façam chegar a sua voz firme e clamorosa às entidades superiores para que não se pense apenas em "pedras", monografias, museus, folclore...(tudo muitíssimo bem), mas se apoie de modo justo, o que está na alma do povo, o cultivou e dele é imagem: as bandas de música.
Tudo tem o seu lugar. Não é justo que nos roubem "lugares cativos" adquiridos com tanto amor e sacrifício. A Banda de Freamunde tem sabido ocupar o seu lugar. Continuará se todos (mas todos) quiserem».
Recorrendo-me da informação escrita, em 1985, a banda, mesmo com futuro sombrio, deu concertos em Carriéres, França, a convite de uma associação de emigrantes portugueses. Facto que originou o requerimento de um "certificado colectivo de identidade e viagem", pois a maioria dos instrumentistas não era possuidora de passaporte.
A sua actuação agradou de tal forma que, no ano seguinte, as "Mairies" (câmaras) de "Carriéres-Sur-Seine" e "Ruel Malmaison" renovaram o convite à  banda, anunciada nos programas dos festejos como "Grand Orchestre Philarmonique de la Ville de Freamunde (Portugal).
Recebida condignamente pela edilidade local e por dezenas de freamundenses radicados em terras gaulesas, orgulhosamente presentes em todos os momentos, com incondicional apoio e simpatia, a banda exibiu-se a preceito nos concertos dos dias 27 (Igreja de Notre Dame du Reveil Préau) e 28 de Setembro (Parc do Bois Préau). Grande parte dos encargos inerentes só foram possíveis graças à preciosa ajuda de algumas empresas de Freamunde e do município, representado com a presença amiga do então vice-presidente, professor Arménio da Assunção Pereira.
O seu prestígio e identidade reforçavam o aumento de pedidos. Para novas actuações, para novas digressões, desta feita ao Brasil e Estados Unidos da América. Desejos inviabilizados pelos enormes custos financeiros que tais viagens acarretavam.
Os abnegados directores bem faziam pela vida: organizavam sorteios, torneios de futebol de salão no rinque das escolas primárias de Santa Cruz, saíam à rua para o canto das "janeiras", ao frio, ao vento, à chuva...Boas ajudas, mas insuficientes para o alívio da tesouraria.
A própria casa de ensaios não estava à altura das exigências, dos pergaminhos, da instituição, que bem merecia ser amparada, distinguida...
Vai daí, alguém urdiu um sonho: procurar um terreno a que a banda pudesse chamar seu, afim de nele tentar instalar salas para reuniões e ensaios.
As reacções foram positivas, uniram-se vontades, celebrou-se um "contrato de locação financeira mobiliária", entre a Locapor e a Associação Musical de Freamunde, representada por quatro dos seus membros directivos, atribuindo-se à fiança o valor de 132.645$00, e a 30 de Outubro de 1987 a nova sede social da Associação Musical de Freamunde foi inaugurada, ainda insuficiente mas que correspondia, no imediato, às necessidades mais prementes.
A inauguração revestiu-se de uma cerimónia simples, pesidida pelo, então, presidente interino da câmara, professor Arménio da Assunção Pereira, mas com alto significado. Abertas as portas da nova "casa" aos convidados, o aperitivo da praxe. Para mais tarde, na sede social do Sport Clube de Feeamunde, sita na Rua do Comércio, um alegre convívio onde não faltaram os discursos de circunstância e a distribuição de medalhas de reconhecimento aos músicos ainda em actividade e com mais de 65 anos: Manuel Moura e Sousa, José Ribeiro Nunes e Alfredo Gomes de Matos "Cherina".
Outras manifestações de apreço se seguiram. Primeiro o reconhecimento a alguns ex-executantes, os da "velha guarda", que, por motivos de saúde ou devido à avançada idade, tiveram de colocar ponto final na longa - de décadas - e brilhante carreira musical ao serviço da banda que sempre honraram e mantiveram orgulhosamente nos seus corações: António Ferreira Rego Júnior; Arménio Ferreira Rego; Bráulio Pereira Gomes; Arménio Ribeiro de Sousa; José Ribeiro da Costa; Agostinho Gomes e José Maria Nunes Gomes.
Para além do enaltecimento aos apoios da autarquia, representada pelos presidente e vice-presidente, Dr. Fernando de Vasconcelos e prof. Arménio Pereira, respectivamente, do constante estímulo que do município sempre tiveram para que o futuro da colectividade fosse brilhante em saudável convívio, os "carolas", os "amantes" da associação musical, da arte dos sons, que ao longo dos anos e duma forma desinteressada "seguraram" a banda, sobretudo nos momentos mais delicados, foram também justamente distinguidos com placas de sentido e profundo agradecimento: Luís Teles de Menezes, José Maria Pinto de Moura, Valentim Pinto de Moura, Teodoro Alberto Machado Pereira e Abílio Carlos Pinto Felgueiras.
Porém, o ponto mais alto das cerimónias, o mais comovente, o que mais tocou nas cordas sensíveis, foi a homenagem póstuma ao antigo e carismático componente e chefe da banda, Antonino Nogueira Nunes, verdadeiro espírito da "alma freamundense". Pelo presidente da associação musical, padre Arnaldo Baptista de Meireles, foi ali descerrada uma fotografia do homenageado, transferida, posteriormente, para a nova sede das instituição, onde permanecerá à vista para todo o sempre.
 JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS"

terça-feira, 28 de maio de 2019

Caminhos

XIV
Ainda não tinha ido a Talhô, a não ser para admirar as austrálias e relembrar a apanha das pinhas. Mas decidi ir. Como Chico Buarque "corro aatrás do tempo, vim de não sei onde/devagar é que não se vai linge".
Embaracei-me nos braços das árvores vivas, libertei-me das garras duma vida sempre igual e procurei as companhias habituais - a imaginação e o sentimento. Sentia-me na paz dum riacho ameno, na mansidão da seara de trigo ondulado, no regaço da mãe que mebala o filho...
Sentei-me na mata fria e piquei-me. Afinal há também dificuldades, no seio da paz. Há frutos verdes colhidos em árvores frondosas que nos acidificam a boca. Nesta náusea de existir. Ali, pouco ou nada se passava. Apenas um olhar curioso, um carro para homenagear os mortos e um pássaro a saltitar e trinar, em frente a mim.
De repente...senti-me esmagada pelo silêncio e a monotonia. Apeteceu-me regressar. A ausência também mata. Mas, depois de me erguer, decidi voltar-me a sentar. Estava num dos dias em que não sabia o que queria.
Sentei-me agora numa pedra polida. Os ventos da memória assolaram-me com mais intensidade. Era a cabra-cega, a aventura na penumbra do passado, com  protagonistas distantes e evasivos que me causavam frios alvoroços. Procurava agarrá-los "não me fujais sombra benina".
Vi amigos a construir castelos de ilusões e os meus e os seus a ruírem, no encontro contra a realidade que desfaz os sonhos como os castelos de areia.
Fugi do caminhar labiríntico dum quotidiano sem sentido e absurdo e mergulhei no passado. Vi a minha amiga Luísa Baião a tentar vencer a morte e a tombar nela como uma galinha no bico do milhafre. Com ela gritei, quando descobri a cegueira do meu filho (magro como as meninos do Biafra, na latura) um mês antes de morrer. A ela me agarrei num desespero de mãe quase amputada. Passados meses, tocou à Luísa, a mesma doença impiedosa e galopante. Não valeu a pena, Luísa, ires à igreja, quando reprovaste no exame, revoltar-te contra Deus. Ele haveria de usar o seu poder sem limites, meses depois. Pior que reprovar no exame, foi ser chumbada na urna.
Levantei-me da pedra polida que, apesar da sua textura, começava a inquieta-me e a espicaçar-me como o moscardo a que Châtelet comparava Sócrates porque espicaçava as consciências dormentes.
Ergui-me. Vim lentamente para casa. Olhei com desgosto para a Fábrica do Calvário, cheia de ervas e musgo, inactiva e encerrada. Ali, onde se tinha erguido uma das primeiras indústrias do concelho, cuja sirene nos acordava despertando também os melros, as rolas e os tordos que dormiam nos ninhos da Quinta do Balai e na de Francisco Carneiro, o pai do malogrado Zé Carlos, vizinho e amigo.
Recordei, de novo, o problema da mudança. O avanço do moderno quebra raízes das árvores que concebíamos mais fortes e seguras. Nada está seguro, nesta avalanche de novidades que não se compadecem com as raízes nem com os cânticos dos pássaros, a fazer a corte aos passantes e passeantes (já não os operários daquela fábrica).
Somos presas fáceis num movimento de mudança que nós próprios geramos. O homem torna-se prisioneiro e o próprio carcereiro de si próprio, nesta senda do que é novo.
Mais abaixo revi o Arménio pequenino, a tocar a harmónica, alegrando os nossos lugares na passagem. Agora, alegra outras paragens com outros instrumentos e outra voz. A da experiência e do olhar de poeta-cantor. O aedo grego cedeu lugar ao trovador a que gostaríamos de grudar os nossos ouvidos. Mas as ondas sonoras deixaram de chegar até nós. Nem os ecos. Nem as ressonâncias...
Agora ouvimos a música dos bares ou discotecas, sobretudo quando o ar está húmido. É nestas alturas, em que nos apetece aquecer debaixo dos cobertores, que a propagação do som é mais veloz e nos afecta o sono. Obriga-nos a lançar mão dum livro ou dum qualquer soporífero para dominar os ruídos.
Cheguei a casa. Remeti-me ao meu local onde escrevo e me escrevo, como Dali pintou Guernica. As ideias e as recordações misturam-se numa salada multivariada. É mais difícil sair desta sarilhada do que foi a de Gaulle chefiar a marcha libertadora sobre Paris. Ele sabia que venceria. Eu, nesta luta comigo não sei se vencerei. É a incerteza da viagem. Como a das imigrantes que chegam de Leste. Trazem nos olhos uma miragem e aparece-lhes, como destino, o leilão dos seus corpos. Há dias, num cruzamento com semáforos, uma romena grávida e com um filho ao colo, tentava vender-me pensos para as feridas. Tentei tirar o dinheiro - esmola da carteira, mas apareceu o verde e o automobilista de trás assustou-me com a buzina. Nunca precisou de vender nada, para sobreviver! Ou é xenófobo, racista e indiferente. Ou simplesmente importante e mal-educado!
Nunca teria emigrado? Pareceu-me conhecê-lo. Deu-me a impressão que era o filho dum conterrâneo que labutou (ou labuta ainda) em terras de França! Incoerência de atitudes! "Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu!".
Faz-me lembrar aqueles políticos lutadores pelos ideais democratas enquanto estão na oposição e chegados ao governo se tornam arrogantes e autoritários...A história mostra-os. Embora nem todas as histórias sejam consensuais. A marca do historiador está lá! Como nos telejornais em que os jornalistas, às vezes, se tornam, comentadores...
Sentada então na minha mesa, comecei a ler e a escrever. Gasto neurónios em tudo. Não é melhor ir fazer crochet? Enquanto conto os pontos, a cabeça fica ocupada. E faço alguma coisa útil e palpável para os meus netos.
Tenho de optar. Mas "ai que prazer não cumprir um dever, ter um livro para ler e não o fazer!".
Às vezes a leitura assusta-me. Encontro desculpas e subterfúgios para me dedicar a outras actividades! Não pela rebeldia do poeta mas pelo temor. Temor de quê? Não vale a pena explicar. Porque nunca será muito possível explicar. "Eu me confesso de ser assim como sou". Deixem-me acrescentar ao poeta: "Mas como sou?" Definir-me seria a maior das veleidades.
Há dias estava a almoçar calmamente com um amigo apenas para usufruir o prazer da companhia. Não havia um assunto a determinar o almoço. Tudo estava bem...de repente ele começa a tirar a comida da travessa com as mãos. Não compreendi. Depressa se recompôs. Não se trata dum louco. Aconselhei-o a ir a um psicólogo...Não sei se foi.
Esta e outras passagens da vida trocam-me o entendimento das pessoas. O homem é um ser complexo...Às vezes é um Deus...outras vezes é um bicho. Mas é um homem. A tal unidade que às vezes se destrambelha. Engrenagem que desarticula...
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS"

terça-feira, 21 de maio de 2019

Esta é mesmo verdadeira

O HUMOR DE ANDRÉ BRUN
Vamos contar uma do escritor André Brun, que foi um dos maiores humoristas deste país, e que a morte arrebatou muito cedo, só com 39 anos. André Brun era autor teatral, e com a sua veia humorística, dedicava-se a comédias e revistas. Certa vez, tinha ele montada no Teatro Apolo, da cidade do Porto, teatro que hoje já não existe, pois foi deitado abaixo para poder ser rompida a Avenida de Ceuta, que foi desembocar, precisamente, onde ele se situava, na Rua José Falcão, tinha ele em cena, dizíamos, uma revista que era um autêntico fracasso de público e estava a dar prejuízo enorme. Um dia apareceu-lhe um exemplar da praga de borlistas, que então proliferava, e que, muito humildemente e de chapéu na mão, lhe pediu uma entrada de favor. André Brun, olhou-o espantado e descarregou em cima do pobre homem:
- Então você não sabe o prejuízo que estamos a ter com a revista, e tem o descaramento de me vir pedir uma entrada de borla?
O homem encolhe-se e murmura uma desculpa fraca.
- Sabe que o público não aparece, que já nem pagamos ao pessoal e quer uma borla? Tem o descaramento de me pedir tal coisa?!!
E perante o desgraçado, espantado, que já não sabia onde se havia de meter, exclama meio ofendido e solenemente:
- A empresa não dá menos de uma fila!!..
FERNANDO SANTOS - "ESTA É MESMO VERDADEIRA"

quinta-feira, 16 de maio de 2019

A indústria do mobiliário escolar em Paços de Ferreira ( VIII )

O caso da da fábrica Albino de Matos, Pereiras e barros, Lda.
 1.3 Do professor ao industrial (1898 - 1918)
 As escolas eram pequenos espaços, nos quais se apinhavam um elevado número de alunos, sem condições mínimas de salubridade e higiene. Simples habitações particulares alugadas ou pequenos aposentos, por vezes cheios de humidade, com pequenas janelas e sem retretes. Os primeiros edifícios escolares primários aparecem só no último quartel do século XIX construídos com o testamento de Joaquim Ferreira dos Santos, Conde de Ferreira, que pôs nas mãos do governo 144000 reis para a construção de 120 escolas devidamente mobiladas e distribuídas pelas sedes dos concelhos. O Estado que já vinha denotando um esforço no sentido de alterar as condições do ensino elementar para o estender às camadas pobres e desvalidas da sociedade, aquelas que no fundo constituíam o fim principal da escola pública, vai agir e repensar toda uma política de apoio à construção escolar primária de acordo com as normas higiénicas que, desde ao século XVIII, através da obra de António Ribeiro Sanches, Tratado da Conservação da Saúde dos Povos publicada em Paris em 1756, se vinham impondo na sociedade portuguesa. A ideia de mens sana in corpore sano e que a saúde pública é da responsabilidade do Estado, vai orientar a acção dos governos para a melhoria da situação de vida das populações e principalmente naqueles espaços onde, por aglomeração de pessoas, são mais susceptíveis de se transmitirem as doenças contagiosas. É o caso das escolas onde a higiene vai ser considerada não só como matéria de ensino, mas também como exigência arquitectónica. O espaço escolar tal como o mobiliário vão ser precisados numa base científica. As condições de salubridade do local, a localização do edifício,, a volumetria, a exposição, a iluminação, as retretes, a temperatura, a ventilação, o mobiliário, tudo tem de ser considerado, porque todos estes factores podem influir na propagação de doenças contagiosas e não contagiosas como como a miopia, a mais frequente, cuja causa reside no hábito de ler muito de perto e em condições de luminosidade deficientes, ou o estrabismo. No que diz respeito ao mobiliário está provado que um grande número de defeitos na forma do corpo é devido à posição mais ou menos viciosa que as crianças assumem durante as aulas.
IMAGEM DE UMA ESCOLA DO SÉCULO XIX
Os desvios da coluna vertebral e as condições cefálicas, pela dificuldade de circulação do sangue nas veias comprimidas, em virtude da altura desproporcionada das mesas que obrigavam os alunos a inclinarem-se para a frente para ler, escrever ou desenhar, são maleitas frequentes nas "escolas-pardieiros" que por esse Portugal fora se achavam espalhadas. Segundo estatísticas referidas por Pinheiro Alves na Revista de Educação e Ensino e no que concerne à visão, refere o autor:
Segundo estatísticas que temos à vista, em 2354 alumnos de differentes escolas, eram myopes 34,2 por cento.
O estudo do mobiliário escolar não passou indiferente, a partir da década de 1880, aos médicos-higienistas; só eles poderiam fornecer as dimensões às quais deveria obedecer o mobiliário escolar, visto só eles conhecerem as necessidades que a autonomia e a fisiologia do aluno exigiam. Estudos ergonómicos e antropométricos vão ser levados a cabo na elaboração do mobiliário escolar, para que se adapte à anatomia dos alunos e satisfaça as suas necessidades fisiológicas e pedagógicas, garantam o bem-estar físico e evitem os incómodos de uma má postura, prejudicial ao desenrolar dos trabalhos lectivos.
Foram os americanos, em 1854, os primeiros a estudar as formas e melhoramentos que a mobília escolar deveria receber. Só um pouco mais tarde, - numa primeira fase as preocupações com o mobiliário escolar serão de alguma maneira marginalizados pela ideia obsessiva com a contaminação do ar -, é que os médicos-higienistas e pedagogos europeus se começaram a preocupar com o estudo desta questão, surgindo várias medidas de carteiras, de acordo com a estatura do aluno. Entre eles sobressai o francês Cardot em 1887 que, depois de várias medições, cria cinco modelos de carteiras escolares de acordo com as dimensões dos alunos.
Em Portugal vislumbraram-se algumas preocupações com o mobiliário escolar influenciadas pelas exposições universais, nomeadamente pela Exposição Universal de Paris de 1867, onde foi verdadeiramente focada a questão do mobiliário escolar, possibilitando a troca de experiências entre os países. A visibilidade do interesse é evidente pelos docentes portugueses, num país falho de recursos, com as poucas escolas que tem, desgraçadamente mobiladas com uns toscos bancos e muitas vezes com uma única mesa onde as crianças teem que executar os seus exercícios escritos, uns poucos de cada vez, que procuram criar uma carteira que seja higiénica, pedagógica e económica.
Não foi só no campo teórico e prático da nova pedagogia que Albino de Mattos deu as melhores provas da sua aptidão e faculdades de trabalho. Empreendedor, criativo e consciente da oportunidade do negócio do mobiliário escolar, concebeu e pôs em prática um plano amadurecido pela experiência do dia a dia. Notando que o mobiliário e o material didáctico das escolas era de tal forma defeituoso, impróprio e anti-higiénico, montou, cerca do ano de 1899, nos anexos da sua casa em FReamunde, uma oficina, pioneira no concelho, onde criou e aperfeiçoou tipos de carteira e outro material que obedecia às normas higiénicas e pedagógicas como refere na sua introdução o catálogo da fábrica:
Há cerca de 30 anos (cerca de 1899) que, em Freamunde, concelho de Paços de Ferreira, o eminente pedagogo - Albino de Matos - cheio de patriotismo e de amor pelo futuro das populações escolares, solta o grito de revolta e põe em execução um plano maravilhoso, fruto de muito estudo e trabalho: - A reforma, em todos os estabelecimentos de ensino oficiais e particulares, do mobiliário escolar desproporcional e anti-higiénico, por modelos novos, em que se respeitem todos os preceitos higiénicos e pedagógicos. 
JOAQUIM MANUEL FERNANDES DE CARVALHO

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Pedaços de Nós

 O RODELA E O BRANQUINHO

Já fui cantador de feira
fingindo ser um gaguinho,
a cantar por brincadeira
eu e o Domingos Branquinho.

Mas a brincar, a brincar
co' a massa que ali caiu,
foi comer até deixar
e a gaguês até saiu.

Ó Domingos sê tu franco
foi esta a história mais bela
que nós criamos, vizinho.

Eu de gago tu de manco
tu imitaste o Rodela
eu imitei o Branquinho.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XXII )

ÉPOCA 1949 / 1950 (PRIMEIRA PARTE)
A "CARA NÃO CONDIZIA COM A CARETA"!
BOA EQUIPA, BONS JOGADORES MAS...DIRECÇÃO DE BOLSOS VAZIOS
Viviam-se ainda períodos conturbados na panorâmica desportiva, económica e social.
As bolsas dos portugueses continuavam vazias.
Por cá, atletas havia que passavam por algumas privações. Vivas estão ainda algumas recordações de gente desse tempo. Por alturas do Natal, por exemplo, era criado um "fundo" especial, e dele saíam verbas destinadas a alimentar algumas "bocas" mais necessitadas. Os mais carentes "rondavam" os dirigentes ou amigos do clube - Américo Taipa e Toninho Torres, os mais solicitados - que recheavam as "gigas", "benesses" recebidas de bom grado. Os "cabazes", próprios da quadra que se atravessava. Tudo isto feito no maior sigilo, é claro, não fosse as esposas saberem. Caso contrário...!
Outros donativos passavam pelo habitual "subsídio" de casamento e uma ou outra notita na mão para quem assentasse praça. E viva o velho!
Lanches?!...Só no final de alguns jogos, constituídos por "sandes" e um copo de vinho branco. Um e só um copo. Mesmo assim o "farnel" já custava uma boa maquia.
Também da adega do Ernesto Taipa saía, às escondidas, para os nossos "amiguinhos" de circunstância (estão mesmo a ver quem eram, não estão?), um ou outro garrafãozito do tal tintol do "pinheiral". Havia quem optasse por umas avezinhas canoras, do amante da ornitologia e grande columbófilo Toninho Torres.
Voltando ao futebol, continuavam os momentos de impasse, habituais no início de época, e, na incerteza, os adeptos - o seu clube era tudo - esperavam o pior mas...a força anímica de todo o grupo de trabalho era indestrutível. Depois, a boa vontade e o amor à camisola faziam, quase sempre, verdadeiros "milagres" e as soluções lá apareciam.
Esta popular modalidade era uma realidade exclusiva com as suas próprias leis. Era do povo. Do povo, da burguesia e do clero, pois claro! Todos precisavam dele. Para muitos uma outra vida.
Sem surpresas Gil Aires assumia, de novo, o comando do grupo.
O Freamunde, com um plantel soberbo e a atravessar um período áureo da sua crescente evolução, prometia exibir nos palcos futebolísticos, aplaudida arte, fazendo erguer as plateias ante o fascínio e sortilégio de geniais intérpretes.
Para o campeonato a fasquia era alta mas a equipa assumia-se, uma vez mais, como uma das principais favoritas.
Porém, na longa maratona de 30 jornadas, o entusiasmo e a incerteza caracterizaram a competição.
No final, o S. C. Cruz seria consagrado campeão distrital, após luta titânica, até aos derradeiros segundos, com o Vrazim (2º), Ramaldense (3º) e Freamunde (4º).
Os rapazes do Carvalhal foram uns verdadeiros heróis, apenas vencidos por capricho da sorte. Perderam a guerra mas tiveram o orgulho de cair de pé.
"Só circunstâncias fortuitas - lamentava-se Zeca "Mirra" - que surgem assiduamente em jogos deste cariz, permitiram que o título nos  fugisse".
Os "azuis" do Carvalhal tiveram uma participação brilhante (todos os "tablóides" regionais foram unânimes em considerar), assim analisada por um diário portuense na sua página desportiva:
"Os outeirenses foram os campeões, não resta a menor dúvida. Contudo, é justo referir o "team" do Freamunde que formou com o da Póvoa o par de equipas mais entusiasmantes, com um futebol ligado, dinâmico e de grande sentido ofensivo.
Assistimos, com agrado, a prestações maravilhosas, plenas de codícia e de apreciávell nível técnico. Mas tudo isto não bastou, pois...em qualquer desporto em que entre a bola, o que proporciona títulos e taças são os tentos que se marcam. As exibições, por mais perfeitas que sejam, nem sempre fazem resultados.
O Freamunde foi, quanto a nós, a grupo que melhor futebol praticou nesta divisão. Conservando-se nos primeiros lugares durante largo período, claudicou um pouco na parte derradeira. No entanto, o seu sector mais adiantado revelou fantástico poder finalizador, e a comprová-lo o facto de ter sido aquele que maior número de golos obteve, 108, contra 61, os consentidos pela sua defesa".
Peixoto era o dono da baliza. O guarda-redes, proveniente do vizinho Penafiel, que conseguia "alegrar" o posto mais triste do futebol, tinha assinado pelo Freamunde a troco de 1.000$00. A direcção ofereceu-lhe, ainda, uma motorizada "Kreidller", em segunda mão.
O Freamunde possuía, sim senhor, uma equipa de ferro com jogadores de enorme potencial. Até no vestir a moçarada era vaidosa e asseada. Bem barbeados, fato com calças vincadinhas, camisa engomada e gravata a preceito. Na lapela, distintivo do clube, onde há muito de nobre e dignificante, exibido com orgulho.
Pelo desempenho na sua competição - o prometido é sempre devido - a direcção meteu as mãos ao bolso e lá pagou uma "arrozada" de frango a todos os atletas e colaboradores.
"E que bem que soube!...Comer à grande e à francesa e por pouco dinheiro só no "Pinto & Vasconcelos"  ou então na "Ovarense", tabernas sediadas na rua do Almada, perto da Avenida dos Aliados, no Porto. Quando a equipa actuava na situação de visitante, e porque os jogos de reservas (as "primeiras" e as "segundas" viajavam juntas no mesmo autocarro) tinham o seu início aprazado para as 13:00 horas - por conseguinte, teríamos de almoçar fora - eram escolhidas quase sempre aquelas casas de pasto onde toda a comitiva, sem excepção (outros tempos!) aproveitava a oportunidade para dar "largas" ao seu constante e voraz apetite. Éramos todos bons garfos e queríamos sempre o prato cheio". Assim ironizou Quim Bica, sempre expansivo, comunicador e divertido.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

terça-feira, 23 de abril de 2019

Bombeiros Voluntários de Freamunde ( XVII )

IV
OS DIRIGENTES ( ÚLTIMA PARTE )
A 30 de Dezembro de 1990, em segunda convocatória, eleições para 1991
Assembleia-geral:
Presidente: Eng. José Manuel da Costa Soares
Primeiro Secretário: Alfredo Ferreira Rego
Segundo Secretário: José Manuel Neto de Sousa Mendes
Direcção:
Presidente: António Rogério Gomes Pereira (foto)
Vice-Presidente: Luís Alves de Andrade
Tesoureiro: Teodoro da Silva Freire
Primeiro Secretário: Ernani Maria Pereira Cardoso
Segundo Secretário: Maria Celina Pedra Torres Fazenda
Vogal: José Belmiro de Jesus Nunes Chamusca
Vogal: José António da Silva Santos

Em 22 de Fevereiro de 1992, segunda convocatória, foram reeleitos para 1992.
Em 26 de Dezembro de 1992, segunda convocatória, eleições para 1993
Assembleia-geral:
Presidente: Eng. José Manuel da Costa Soares
Primeiro Secretário: Rogério Monteiro
Segundo Secretário: José Manuel Neto de Sousa Mendes
Direcção:
Presidente: António Rogério Gomes Pereira
Vice-presidente: Maria Celina Pedra Torres Fazenda
Tesoureiro: Domingos Soares Pereira
Primeiro Secretário: António Fernando Moreira Pinto de Matos
Segundo Secretário: José António da Silva Santos
Vogal: José Belmiro de Jesus Nunes Chamusca
Vogal: Joaquim Gonçalves de Sousa

A 26 de Dezembro de 1993, em segunda convocatória, eleições para 1994
Assembleia-geral:
Presidente: Eng. José Manuel da Costa Soares
Primeiro Secretário: Rogério Monteiro
Segundo Secretário: Fernando Alberto Gomes Pereira
Direcção:
Presidente: António Rogério Gomes Pereira
Vice-presidente: Maria Celina Pedra Torres Fazenda
Tesoureiro: Domingos Soares Pereira
Primeiro Secretário: José António da Silva Santos
Segundo Secretário: José Pinto Marques
Vogal: Fernando Baptista da Silva Ribeiro
Vogal: Jaime Barros Gomes

Em segunda convocatória, a 16 de Dezembro de 1994, a Assembleia dita a reeleição para 1995, e a 15 de Dezembro de 1995, faz eleições para 1996
Assembleia-geral:
Presidente: Eng. José Manuel da Costa Soares
Primeiro Secretário: Rogério Monteiro
Segundo Secretário: José Maria de Moura Gomes Pereira
Direcção:
Presidente: António Rogério Gomes Pereira
Tesoureiro: Fernando Baptista da Silva Ribeiro
Primeiro Secretário: Jaime Barros Gomes
Segundo Secretário: José Pinto Marques
Vogal: Fernando Alberto Gomes Pereira
Vogal: Fernando Manuel Torres Leão da Rocha Matos
ANTÓNIO ROGÉRIO GOMES PEREIRA
Nova reeleição, a 20 de Dezembro de 1996, em segunda convocatória para 1997, e a 19 de Dezembro de 1997, em segunda convocatória, eleições para 1998
Assembleia-geral:
Presidente: Eng. José Manuel da Costa Soares
Primeiro Secretário: Rogério Monteiro
Segundo Secretário: José Maria de Moura Gomes Pereira
Direcção:
Presidente: António Rogério Gomes Pereira
Vice-presidente: José António da Silva Santos
Tesoureiro: Fernando Manuel de Jesus Francisco
Primeiro Secretário: Jaime Barros Gomes
Segundo Secretário: José Pinto Marques
Vogal: Fernando Alberto Gomes Pereira
Vogal: Fernando Manuel Torres Leão da Rocha Matos

Em segunda convocatória, a 18 de Dezembro de 1998, para o ano de 1999 e no dia 17 de Dezembro de 1999, para 2000, foram reeleitos
Foi concorrida a Assembleia-geral de 15 de Dezembro de 2000 que, em segunda convocatória, elegeu os corpos sociais para 2001. Foram apresentadas duas listas. Estiveram no escrutínio:
Lista A - Francisco Adolfo Felgueiras Graça Leão
Lista B - Fernando Manuel Jesus Francisco
Ganhou a Lista B que obteve 96 votos contra 70 da Lista A
Assembleia-geral:
Presidente: Eng. José Maria de Moura Gomes Pereira
Primeiro Secretário: Rogério Monteiro
Segundo Secretário: Fernando Alberto Gomes Pereira
Direcção:
Presidente: António Rogério Gomes Pereira
Vice-presidente: José António da Silva Santos
Tesoureiro: Fernando Manuel de Jesus Francisco
Primeiro Secretário: Jaime Barros Gomes
Segundo Secretário: José Pinto Marques
Vogal: Fernando Baptista da Silva Ribeiro
Vogal: Fernando Manuel Torres Leão da Rocha Matos

Nova reeleição a 14 de Dezembro de 2001, em segunda convocatória.
O mesmo acontece a 20 de Dezembro de 2002, para o ano de 2003. A 19 de Dezembro de 2003, em segunda convocatória, eleições para 2004
Assembleia-geral:
Presidente: Eng. José Maria de Moura Gomes Pereira
Primeiro Secretário: Rogério Monteiro
Segundo Secretário: Fernando Alberto Gomes Pereira
Direcção:
Presidente: António Rogério Gomes Pereira
Vice-presidente: José António da Silva Santos
Tesoureiro: Cândido José Coelho Gomes
Primeiro Secretário: Jaime Barros Gomes
Segundo Secretário: José Pinto Marques
Vogal: Fernando Baptista da Silva Ribeiro
Vogal: Fernando Manuel Torres Leão da Rocha Matos

A 17 de Dezembro de 2004, na primeira assembleia a decorrer à luz dos novos estatutos, foram, em segunda convocatória, eleitos os novos corpos sociais para o triénio 2005/2007, agora já com Conselho Fiscal
Assembleia-geral:
Presidente: Eng. José Maria de Moura Gomes Pereira
Vice-presidente: Miguel António Leão de Brito
Primeiro Secretário: Rogério Monteiro
Segundo Secretário: Fernando Alberto Gomes Pereira
Suplentes: Miguel Fernando Lopes Gomes e José Maria Pacheco Taipa Rego
Conselho Fiscal:
Presidente: Dr. José Luís Ribeiro de Barros
Vice-presidente: Henrique José de Castro Pinto Marques
Relator:: Eng. José de Fátima Ribeiro de Bessa
Suplentes: Pedro Nuno Martins Ferreira Lopes e Célio José Teixeira Ferreira Mendes
Direcção:
Presidente: António Rogério Gomes Pereira
Vice-presidente: José António da Silva Santos
Tesoureiro: Cândido José Coelho Gomes
Primeiro Secretário: Jaime Barros Gomes
Segundo Secretário: José Pinto Marques
Vogal: Fernando Manuel Torres Leão da Rocha Matos
Vogal: Nuno Augusto Pedra Sousa
Suplentes: Adão Queirós Teixeira da Silva, José Fernando Ferreira Ribeiroo e José dos Santos Nogueira
JOÃO VASCONCELOS - "BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE FREAMUNDE - 75 ANOS" - 2005

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Tradições pascais no concelho

(...) Os foguetes e as bandas de música  a acompanhar são números de agrado geral, que muito enfeitam e animam o pequeno cortejo. Desapareceu o antigo uso do lenço de seda, atado na cabeça dos mordomos a evitar o chapéu, as moças também já remiram os «raminhos de armador» em que caprichavam os seus apaixonados.
Ramos...! Aleluia!...Ressurreição!...O padrão de Deus das Alturas entre os homens!...
As casinhas por humildes, apresentam-se airosas, cuidadas, com banhos de cal por fora e por dentro. Sai a «limpeza» das arcas e dos gavetões. Caminhos e carreiros cobertos de «rosas» e ervas bentas. Onde o arruamento se presta, estendem-se tapetes de murta e de «espaganas» a ligar entradas das moradias, num pregão de amizades que mais se manifesta ainda nos desenhos de flores desfolhadas. Colchas de chita e de seda que prendem das sacadas. Tudo varridinho, um amor.
(...) A missa primeira, no Domingo de Páscoa, a única quase sempre em todas as freguesias, decorre entre pressas. Em meio já se distribuem as opas pelo Juiz da Cruz, mordomos e rapazes da campainha e da caldeira.
O «compasso» sai, enfim, a coroar uma aurora rara de anseios, de lidas, de brics em mil coisinhas, caseiras, sem perder o seu verdadeiro significado. Como primeiro acto, os companheiros do sacerdote beijam a Cruz Paroquial, no que são secundados pelos componentes da música. O estrondo glorioso dos foguetes mistura-se com o rapique dos sinos.
Dentro de horas, muitas casas estarão visitadas.
O pequeno almoço é servido em casa dum paroquiano. Momentos depois, o povo acode ao logradoiro da aldeia, e ali se demora e descobre, reverente, apreciando as entradas nos lares.
Na Trindade e Sobrão (Meixomil), no Carvalho (Frazão), em Vilar (Seroa), na sede de Freamunde, os «compassos» costumam atrair grande concurso de  gente, assim como no largo do Cô, onde a mocidade manda queimar muito fogo.
O «compassso» é recebido na «casa limpa», a melhor salinha, e, na grande maioria, o quarto do casal. A cama ostenta vistosas mantas e rendados guarda-pés. Para oscularem a imagem de Jesus crucificado e a estola do pároco ajoelham os da família, alguns vizinhos e parentes.
A mesa ao centro da salinha está arranjada com gosto. Sobre a toalha, uma jarra bonita com flores naturais (ou de papel de seda, compradas na feira da Páscoa, no Cô, às mulheres de Aldozinde, Carvalhosa, e da Lameira, Meixomil), hábeis neste artesanato caseiro. Dispostos pela mesa da casa dum lavrador, uma rosca de «pão-leve» e outra de pão branco, um prato com ovos, laranjas ou maçãs. No lar dum outro lavrador-caseiro: dois pratos com três ou seis ovos cada, uma rosca de pãoo-trigo, vendo-se flores soltas e em raminhos a alegrar a mesa. Curiosa a colocação dos retratos do casal por entre os doces. Mais além, na casa dum comerciante, mesa igualmente convidativa, lavores saídos das mãos das filhas a cobrir as guloseimas e a enxugar lágrimas de vinho fino do «Dão José».
Nas famílias de mais destaque o Abade descansa um pouco e mimoseiam-no com um chá e doces, um cálice de vinho do Porto ou uma laranja das bandas de Refojos e de S. Miguel do Couto.
Entretanto os ovos, muitos deles tingidos, as maçãs, as laranjas, vão caindo na cesta dos mordomos. O folar em dinheiro é entregue ao Abade. Em várias residências é fácil encontrar nas mesas da Páscoa uma laranja com uma peça (moeda) espetada ao alto, e algumas famílias permutam raminhos com o cura das almas. E é assim aqui e além sob contínuas provas de regozijo e de sentir profundamente cristão.
O jantar em casa do Juiz da Cruz decorrerá animado. A banda de música terá o seu beberete sem falar nas «graças» que já lhe fizeram nas «casas boas». Novo foguetório anunciará que o «compasso» vai romper para delícia dos paroquianos que o esperam. 
(...) Já noite cerrada, os «compassos» vão recolhendo ao templo paroquial. Os sinos bimbalham de novo e os foguetes riscam profusamente o céu, dando a impressão de uma noite sanjoanina. A benção, com música a acompanhar, rematará o dia d glorificação máxima do Salvador.
Situa-se à parte a ceia oferecida e servida em casa do Abade aos membros do «compasso». Conta-se o dinheiro apurado para a música. Se sobrar, será o excedente aplicado em missas de sufrágio por alma dos mortos da freguesia ou em alfaias de que o templo carece. Quando a receita faz negaças, um rateio por vinte e tantos rapazes resolve a questão.
Na segunda-feira de Páscoa, sai ainda o «compasso» em Arreigada, Codessos, Modelos e Sanfins. O povo guarda o dia, comparecendo à missa como de preceito se tratasse. (...)
MANUEL VIEIRA DINIS - "ETNOGRAFIA DE PAÇOS DE FERREIRA"

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Esta é mesmo verdadeira

A LICENÇA DO ESPECTÁCULO
Estava-se na época de fim de curso e ia realizar-se a festa da "Queima das Fitas", da qual, como número principal, fazia parte a récita teatral. Esta récita era, geralmente, constituída por uma revista expressamente escrita para esse fim.
Estou a falar-vos das récitas do Instituto Industrial do Porto para as quais escreveram diversos autores que, mais tarde, até adoptaram o profissionalismo: o Manuel Sílvio, o João Manuel (que hoje dirige "A Voz dos Ridículos"), o Castro e Silva e muitos outros, entre os quais este vosso maçador...Nesse ano coube-me a mim a incumbência, até porque eu pertencia, como finalista de curso, à comissão organizadora.A revista lá foi escrita: chamava-se "Gatas à Porta" (mais tarde, ainda escreveria outras: "A Grande Fita", "Está na Hora", "Abaixo o Grêlo!"...). Os ensaios estavam quase concluídos; somente as "coristas" se tinham negado terminantemente a rapar os pelos das pernas, como eu exigia...Havia que tratar da legalização do espectáculo, que se obtinha, no Governo Civil. O assunto tinha de ser tratado com um funcionário gordo, carrancudo e pouco comunicativo, que se chamava Nunes. Ninguém  queria ir falar com o Nunes, que nos anos anteriores tinha recebido a "malta" com cara de poucos amigos e tinha mesmo chamado a polícia de segurança para os pôr no olho da rua. Em face de tanta timidez, prontifiquei-me eu a lá ir. E fui. O sr. Nunes tinha gabinete próprio...Entrei a medo e levei logo nas trombas com um "que é que quer", que o Nunes me atirou sem para mim olhar e sem ver mesmo se me acertara..."Diga o que quer" - repetiu bruscamente...Lá gaguejei ao que ia e o homem berrou que tinha de lhe levar "cem mil reis" em selos fiscais para inutilizar com o pedido de licença.
Cem escudos naquela altura era muito dinheiro e o quiosque da esquina não tinha selos de tal valor. Por sinal que, naquele momento, até só tinha selos de tostão.
Quando voltei ao gabinete do Nunes e senti outra vez na cara mais um "que é que quer", que ele me voltou a atirar sem olhar para mim, estendi-lhe o braço direito tendo entre os dedos da mão daquele braço dez folhas de 100 selos de $ 10 cada, dizendo-lhe com um sorriso amarelo:
- Como não havia selos maiores e Vossa Excelência (!!) disse que eram para inutilizar, achei que estas folhas eram melhores, pois dão mais jeito a rasgar..."
A fera Nunes ia tendo uma apoplexia, mas preferiu rir-se e mandar-me trocar os selos...
FERNANDO SANTOS - " ESTA É MESMO VERDADEIRA"

terça-feira, 9 de abril de 2019

Caminhos

XIII
"Ai há quanto tempo que eu parti chorando, deste meu..." - perdoe-me Guerra Junqueiro desvirtuar os seus versos e completar: "desta minha saudosa terra!". Nem sequer foi há tanto tempo. Estive na Galiza e apetecia-me sempre regressar. É neste recanto envelhecido que me apetece estar. É mórbido, eu sei!
Os lugares bonitos, as praias, o desenvolvimento ordenado fazem-me nostalgia e até...inveja. Egotismo exacerbado? Talvez...Não preciso que os outros reconheçam...eu sei fazer uma auto-reflexão lúcida. O que não sou capaz é de me modificar. Nasci não sei como e depois fui pervertendo os meus genes.
Caminhei ao invés, como quem aponta a Estrela Polar na ponta da "ursa" mais pequena e se norteia por uma estrela duma qualquer grandeza. Se calhar  uma cadente. E tenho massa cinzenta dentro do crânio e até tenho espinal medula. Mas tenho um coração que bate, bate e aquece as informações do meu sistema periférico. A ordem chega, assim, distorcida. Nunca serei o cão do Pavlov mas também não sereio autómato de Augusto Comte. Nem sei classificar-me à luz dos conceitos de definição de personalidades. Nem quero. As definições e as caracterizações são estáticas...e eu baloiço tanto que quebro a corda em que me apoio.
Quando regressei vi tudo engalanado para a festa da Senhora da Conceição, ali em São Francisco. Havia bombos na rua, como não podia deixar de ser, nesta terra de alguns excessos, como o dos ruídos. Hábitos de aldeia em tempo de cidade. Ou tradições que não se querem perder? Mas em vez da moderação, às vezes hiperbolizamos.
Mesmo assim preferi ao sossego e à beleza do Monte da Senhora da Roca, ali em Baiona, o movimento e o barulho desta cidade-aldeia, onde gostaria de morrer, um dia.
Amanhã é dia da Senhora da Conceição, a festinha feita por jovens (hoje já com meninas na comissão) e chove! Vai sorrir a Luzia? Espero que sim.
Não vou ver os "ferreirinhos", tudo o que é fogo mete-me medo. E fogo no ar, a rabiar, ainda mais. Mas vou ouvir os estalidos e os estrondos. É obrigatório! não vou fugir a correr dos sons desta terra! A sua falta é que poderia ensurdecer-me. Sigo, neste aspecto, Virgílio "trahit sue quem que voluptas".
Ainda há foguetes a anunciar a festa. A chuva impiedosa obriga-nos ao remanso da casa, enquanto estouram as bombas. Amanhã continuará a chover, dizem os entendidos. Estamos sobre influência dum centro anticiclónico e vêm aí as perturbações da frente polar. Ainda mais frio.
O tempo está a mudar - diz-se por aí. Mas o frio do Inverno é mesmo frio. E sente-se na cara dos meninos, a encolher a cabeça e a oferecer as mãos ao tempo, carregando livros, por as mochilas já irem superlotadas!
Mas o tempo está a mudar, é verdade. A culpa é do homem. Estará perto o fim do mundo, como vaticinam alguns? Para haver vida na Terra, na atmosfera primitiva formou-se o ozono. Agora está a eliminar-se essa camada protectora e amiga. Até um dia! A natureza não perdoará...
O Homem tem necessariamente de fazer o seu acto de contrição. Mas também arrepiar caminho. Não valeu ao mundo, Einstein ter-se arrependido da carta a Roosevelt. A bomba atómica, baseada na sua teoria, cairia mais tarde sobre Hiroshima.
Apetece-me repetir Pablo Neruda "Pai nosso que estais na terra, na água e no ar, de toda a nossa extensa latitude silenciosa, tudo toma o teu nome, pai, na nossa morada". Vale a pena rezar a Javé ou a Alá, ao nosso Deus ou ao dos outros e pedir clemência e tino para os homens. Os homens que não agradecem a dádiva suprema que é a vida e a vão delapidando, a sua e a dos outros.
Um dia...quando conseguirmos criar água líquida em Marte, iremos degradar outro planeta, em nome da civilização dos humanos. Que às vezes parecem Ets.
Se eu soubesse fazer golpes de magia como Harry Potter, poria uma escada para Marte e de lá lançaria papéis para baixo, para alertar os do planeta azul a serem comedidos. E fugiria das bombas dos ferreirinhos, admirando só, de cima, o esplendor e o feérico.
Se eu tivesse o poder hipnotizador do Alexandrino, o bruxo que era meu amigo, usava o meu poder nos momentos do derrube das árvores, das descargas poluentes...de tudo enfim que pudesse fazer mais rendilhados na camada de ozono, rendilhados que roubam à atmosfera o seu poder de filtro.
Porque tudo muda...nas mãos do Homem, à luz da ciência e do progresso. Mas amanhã há ferreirinhos, Senhora da Conceição, banda e procissão...Há tradição e convívio...E frio.
E daqui por alguns dias haverá os capões...Só não haverá cavalos à minha porta. Porque tudo muda. Em nome de quê?
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" 
NO ENCERRAMENTO DA FESTA À SENHORA DA CONCEIÇÃO OS "FERREIRINHOS" SÃO UMA TRADIÇÃO QUE VEM DE LONGA DATA

terça-feira, 2 de abril de 2019

Banda de Freamunde ( XXV )

Para 1984, foi contratado, oriundo da Banda de Ramalde, o professor Saúl Rodrigues da Silva.
Natural de Ansião, estudou no Conservatório de Música do Porto, tendo-se diplomado em oboé. Aos 24 anos, era já solista da Orquestra Sinfónica do Porto da Radiodifusão Portuguesa, onde trabalhou com maestros de craveira mundial.
Aperfeiçoou os seus estudos na Academia Internacional de Nice (França).
Aqui, em Freamunde, do que viu não gostou, sobretudo no que concerne a condições de trabalho.
José Maria Gomes Taipa, de quem se tornaria eterno amigo, conseguiu dissuadi-lo da repentina intenção - abandonar o "barco". Para tal teve que "mexer-se" nos arranjos do salão onde a banda ensaiava.
Saúl Silva teve a honra de dirigi-la, com 51 elementos, na abertura da 1ª Feira e Agrícola do Concelho de Paços de Ferreira (16/9/1984).
Mestre hábil e astuto, "exigiu" instrumentistas efectivos de bandas civis e militares de reconhecido valor. Do Porto, de Lisboa..., do melhor que havia. A banda atingia um relevo, um nível artístico difícil de igualar.
E foi bonito - oh se foi! - ver o maestro de batuta imperativa arrancar dos seus distintos homens, trechos admiráveis de expressão. Só que a tesouraria ressentiu-se de tamanho esforço financeiro, daí projecto abortado e o adeus prematuro a Saúl Silva.
Ninguém "assentava" por cá. A banda emergia numa pequena crise, longe de ter contornos dramáticos mas sem soluções à vista. Era urgente o rigor, o equilíbrio nas contas.
A figura impoluta do padre Arnaldo Meireles mantinha-se firme nas rédeas de um grupo de jovens entusiastas e dinâmicos.
Num "raid" surpreendente, a conselho do professor Saúl Silva, perpetrado por uma delegação directiva,  (havia alguns anti-corpos no seio do grupo e era importante agir com astúcia), o "proscrito" maestro António Sousa Baptista, profissional da Orquestra Sinfónica do Porto há 20 anos como instrumentista - já havia, inclusive, dirigido, bem como a Sinfónica de Lisboa; mais lá para a frente, iria ter a honra de dirigir a Sinfónica da RDP, no cenário deslumbrante do Teatro de São Luís, em Lisboa, e a Orquestra Sinfónica da Corunha, Espanha, por convite especial -, é abordado nos "Carvalhos", após um concerto em Oliveira de Azeméis, nas festividades da Senhora de La Salette. Acordo apalavrado e voltavam recarregadas as baterias da esperança. Aliciado, acumula o cargo de director artístico da Escola Infantil de Música de Freamunde.
Baptista lá superou as adversidades, através dum amadurecimento constante do grupo. Tarefa nada fácil, pois tratava-se de um "leque" onde imperava a juventude o que, por si só, dificultava qualquer projecto. No entanto tudo foi superado, dado o interesse que colocaram no trabalho; dado o bom ambiente que nele se vivia; dadas as relações, profundas e sadias, que passaram a existir entre direcção-maestro, maestro-executantes e executantes-direcção.
António Baptista teceu, mesmo, nas páginas do "Fredemundus", algumas considerações deveras interessantes sobre o que poderia ser, hipoteticamente, o futuro da banda: «...É uma privilegiada em relação a outras congéneres, pelo facto de ter tantos elementos daqui. Mas esse privilégio poderia ser ainda muito maior, já que poucas terras têm uma veia musical como Freamunde. Ora, se essa vantagem fosse devidamente aproveitada e ampliada, se, imagine-se, todos os músicos desta povoação que passaram a integrar bandas militares, orquestras sinfónicas,  o ensino, continuassem a "deitar a mão" à banda onde nasceram para a música, nenhuma outra, mas mesmo nenhuma, a poderia igualar ».
JOAQUIM PINTO - "BANDA DE FREAMUNDE - 190 ANOS"

quinta-feira, 21 de março de 2019

Gente da Nossa Terra

JAIME MINEIRA

Abram alas!...Vai passar
o senhor Jaime Mineira,
com saudades de rachar
do Ramiro e da palmeira.

Mal acaba de chegar
e nem um minuto passa
já estava a despejar
ele ali algo pla praça.

Este é que é o catecismo
que canta o nosso bairrismo!...
Por muito que vá custar

À nova filosofia
cá da nossa freguesia,
que tudo faz pró calar!

RODELA - "GENTE DA NOSSA TERRA"

terça-feira, 19 de março de 2019

A sua culpa

III 
(PRIMEIRA PARTE)
O tempo ia rolando, mas aquele par, sentia-o lento...Era a sua pressa de poderem unir as suas vidas que os punha desassossegados e zangados com o tempo.
Mas...um dia Carolina terminou o seu curso e com boa nota, como desejava. Houve jantar de festa em casa e Carlos foi o convidado de honra. Depressa surgiu também a colocação num hospital do Porto, como esperava. Carlos já tinha começado a trabalhar com o pai. Era a hora de marcação  do dia do enlace, porque tudo já vinha a ser preparado por ambos, cientes que estavam do que queriam e de que se queriam. Maria dos Anjos, sempre que podia, dava alvitres para uma grande cerimónia, que Carolina rejeitava. Era sóbria e enveredou por uma pequena festa, que reuniria apenas familiares e amigos mais íntimos.
- O meu casamento não é uma romaria! - dizia sempre a quem alvitrava este ou aquele pormenor, a quem sugeria mais este ou aquele convite.
No dia aprazado, a moça estava estonteante dentro de um longo vestido pérola que lhe cingia o corpo e lhe desnudava os ombros cabrochos, em que Carlos pousava os olhos sequiosos e ardentes. Ela retribuía-lhe com esgares do céu. A igreja estava radiosa, ornamentada com flores pérola que eram entremeadas com folhas cor do mar revolto. Dona Luzia tinha convidado as meninas Vieiras, conhecidas que eram pelo seu gosto estético e de índole religioso, para procederem a essa tarefa e o resultado foi enternecedor e cativante.
Quando o Padre, no altar-mor cheio de círios a arder, perguntava a Carlos, como ordena o ritual, se aceitaria os filhos que Deus quisesse dar-lhes, o sim gordo e sonoro fez ressonância nas paredes e no coração de todos e fez regurgitar lágrimas comovidas e ousadas de olhos desprevenidos, mas atentos. Luzia apertou a mão da filha, com as lágrimas (também dela) a tingirem o vestido de cor pérola, então luminoso, então resplandecente. Carlos esboçou um sorriso lateral, compreensivo e desvanecido.
A vida a dois começava ali, sem escolhos, sem noite da cor da dor a ensombrar o trajecto. Acreditavam. A casinha oferecida pelo pai dele, entre Valongo e o Porto, transcendia tudo o que haviam arquitectado no sonho. A vida começou a rolar como se sentada no carrinho de rolamentos com que Carlos entretinha alguns dos tempos da sua infância.Ajudavam-se, completavam-se e cada um prodigalizava ao outro um sucedâneo de carinhos e cuidados.
Mas...e há-de vir sempre a adversativa a chamuscar os mais belos romances de amor e os dias do céu radiante...a gravidez, a tal gravidez tão desejada, não surgia.
- Excesso de ansiedade - era o convencimento da ginecologista - a Carolina tem de se abstrair dessa espera e aguardar com serenidade, sem pressas.
Era difícil. A dor múrmura e desapiedada consumia os seus dias e as suas noites, já. A falta profiosa de qualquer indício de gravidez causava-lhe um enorme aperto no peito que era evidente no incêndio que radiava dos seus olhos cor do céu. Seguiam, à risca, os conselhos da médica, mesmo a incidência das relações sexuais em datas aconselhadas, mas era tudo debalde. Os dias iam rolando e, hora após a hora, aprofundava a ansiedade. Os ais de Carolina trespassavam a casa, onde tudo já não fazia sentido, onde tudo lhe parecia labiríntico.
Carlos sentia-se também já cansado e traído na sua esperança mais doce. E exauria as suas forças, inventando eufemismos que pudessem desanuviar o sofrimento da mulher e ocultar a sua própria dor, que tinha já aderido à sua pele, como visco. Dava voltas e reviravoltas na casa que lhe parecia já velha e carunchosa. Sentia calafrios.
Exames mais minuciosos ordenados pela ginecologista, haveriam de detectar, mais tarde, no corpo de Carolina, uma anomalia que coarctava o encontro das gâmetas. Parecia que o seu organismo tinha operado uma auto-laqueação que impedia os óvulos do trajecto normal e anulava a fecundação. Foi o desencanto total! A treva desceu sem cerimónias nem licença e veio preencher todos os interstícios do seu ser. Gotas de água salgadas e espessas tombaram nas mãos trementes de Carolina que a enredou nos seus braços amplos, mas que lhe pareceram mortiços. A dor e o silêncio marcariam presença num trajecto de vida que lhes parecia prometida de paz e sucesso, de equilíbrio e dias ditosos.
- Tenha calma, Carolina! Há processos de procriação artificial que podem colmatar esta pequena falha, sem qualquer espécie de melindre - sugeriu a médica, também ela contaminada pelo pesar que sentiu ali.
ROSALINA OLIVEIRA - " A SUA CULPA"