(...) Os foguetes e as bandas de música a acompanhar são números de agrado geral, que muito enfeitam e animam o pequeno cortejo. Desapareceu o antigo uso do lenço de seda, atado na cabeça dos mordomos a evitar o chapéu, as moças também já remiram os «raminhos de armador» em que caprichavam os seus apaixonados.
Ramos...! Aleluia!...Ressurreição!...O padrão de Deus das Alturas entre os homens!...
As casinhas por humildes, apresentam-se airosas, cuidadas, com banhos de cal por fora e por dentro. Sai a «limpeza» das arcas e dos gavetões. Caminhos e carreiros cobertos de «rosas» e ervas bentas. Onde o arruamento se presta, estendem-se tapetes de murta e de «espaganas» a ligar entradas das moradias, num pregão de amizades que mais se manifesta ainda nos desenhos de flores desfolhadas. Colchas de chita e de seda que prendem das sacadas. Tudo varridinho, um amor.
(...) A missa primeira, no Domingo de Páscoa, a única quase sempre em todas as freguesias, decorre entre pressas. Em meio já se distribuem as opas pelo Juiz da Cruz, mordomos e rapazes da campainha e da caldeira.
O «compasso» sai, enfim, a coroar uma aurora rara de anseios, de lidas, de brics em mil coisinhas, caseiras, sem perder o seu verdadeiro significado. Como primeiro acto, os companheiros do sacerdote beijam a Cruz Paroquial, no que são secundados pelos componentes da música. O estrondo glorioso dos foguetes mistura-se com o rapique dos sinos.
Dentro de horas, muitas casas estarão visitadas.
O pequeno almoço é servido em casa dum paroquiano. Momentos depois, o povo acode ao logradoiro da aldeia, e ali se demora e descobre, reverente, apreciando as entradas nos lares.
Na Trindade e Sobrão (Meixomil), no Carvalho (Frazão), em Vilar (Seroa), na sede de Freamunde, os «compassos» costumam atrair grande concurso de gente, assim como no largo do Cô, onde a mocidade manda queimar muito fogo.
O «compassso» é recebido na «casa limpa», a melhor salinha, e, na grande maioria, o quarto do casal. A cama ostenta vistosas mantas e rendados guarda-pés. Para oscularem a imagem de Jesus crucificado e a estola do pároco ajoelham os da família, alguns vizinhos e parentes.
A mesa ao centro da salinha está arranjada com gosto. Sobre a toalha, uma jarra bonita com flores naturais (ou de papel de seda, compradas na feira da Páscoa, no Cô, às mulheres de Aldozinde, Carvalhosa, e da Lameira, Meixomil), hábeis neste artesanato caseiro. Dispostos pela mesa da casa dum lavrador, uma rosca de «pão-leve» e outra de pão branco, um prato com ovos, laranjas ou maçãs. No lar dum outro lavrador-caseiro: dois pratos com três ou seis ovos cada, uma rosca de pãoo-trigo, vendo-se flores soltas e em raminhos a alegrar a mesa. Curiosa a colocação dos retratos do casal por entre os doces. Mais além, na casa dum comerciante, mesa igualmente convidativa, lavores saídos das mãos das filhas a cobrir as guloseimas e a enxugar lágrimas de vinho fino do «Dão José».
Nas famílias de mais destaque o Abade descansa um pouco e mimoseiam-no com um chá e doces, um cálice de vinho do Porto ou uma laranja das bandas de Refojos e de S. Miguel do Couto.
Entretanto os ovos, muitos deles tingidos, as maçãs, as laranjas, vão caindo na cesta dos mordomos. O folar em dinheiro é entregue ao Abade. Em várias residências é fácil encontrar nas mesas da Páscoa uma laranja com uma peça (moeda) espetada ao alto, e algumas famílias permutam raminhos com o cura das almas. E é assim aqui e além sob contínuas provas de regozijo e de sentir profundamente cristão.
O jantar em casa do Juiz da Cruz decorrerá animado. A banda de música terá o seu beberete sem falar nas «graças» que já lhe fizeram nas «casas boas». Novo foguetório anunciará que o «compasso» vai romper para delícia dos paroquianos que o esperam.
(...) Já noite cerrada, os «compassos» vão recolhendo ao templo paroquial. Os sinos bimbalham de novo e os foguetes riscam profusamente o céu, dando a impressão de uma noite sanjoanina. A benção, com música a acompanhar, rematará o dia d glorificação máxima do Salvador.
Situa-se à parte a ceia oferecida e servida em casa do Abade aos membros do «compasso». Conta-se o dinheiro apurado para a música. Se sobrar, será o excedente aplicado em missas de sufrágio por alma dos mortos da freguesia ou em alfaias de que o templo carece. Quando a receita faz negaças, um rateio por vinte e tantos rapazes resolve a questão.
Na segunda-feira de Páscoa, sai ainda o «compasso» em Arreigada, Codessos, Modelos e Sanfins. O povo guarda o dia, comparecendo à missa como de preceito se tratasse. (...)
MANUEL VIEIRA DINIS - "ETNOGRAFIA DE PAÇOS DE FERREIRA"