 |
| PADRE CASTRO |
PADRE CASTRO (ANTÓNIO ALVES PEREIRA DE CASTRO)
(5 - 12 - 1894 / 2 - 5 - 1949)
Em
meados de 2009, indicaram-me o Dr. José Pinto, entretanto falecido,
morador, então, na Travessa do Padrão, em Sobrosa, que me revelou
peripécias, muitas delas inseridas no livro por si editado, intitulado
"Sobrosa - História e Património", sobre os ascendentes do Padre Castro.
«
(...) Natural de Freamunde, Bernardino Pereira veio casar à casa da
Boavista, Sobrosa, em 22 de Novembro de 1868, com Bernarda Alves
Moreira, filha de Manuel Alves Moreira e de Maria Coelho Duarte, que,
possivelmente, estariam na origem da construção da Casa da Boavista, em
1775, data que se encontra gravada no pedestal da cruz que ornamenta,
juntamente com duas pirâmides laterais, a sua entrada principal.
Bernardino
e Bernarda, já de meia-idade, por alturas do seu casamento - ele com 42
anos e ela com 41 -, não tiveram filhos, pelo que fizeram uma doação da
Casa da Boavista a seu sobrinho, José Alves Moreira, mas, como
usufrutuário, com certas reservas e condições: "Declararam os doadores
que, se o doado fizesse casamento segundo aprovação deles, nesse caso,
lhe cederiam no acto de tal casamento, o usufruto dos bens da Casa da
Boavista e do Paço, que estavam sendo fabricados pelo caseiro, António
Caetano..."
José
Alves Moreira veio a casar, em 25 de Outubro de 1883, com Maria
Francisca Gomes Pereira, natural da freguesia de Eiriz, Paços de
Ferreira, que trouxe, como dote, três contos de réis que lhe foram dados
por um tio que, ao tempo, vivia no Brasil.
Com
a aprovação dos doadores, a Cada da Boavista passou a ser habitada pelo
jovem casal, com o usufruto das suas pertenças, conforme o teor da
doação.
 |
| CASA DA BOAVISTA |
Como
era habitual na época e dada a juventude do casal, ele com 25 anos e
ela com 20, os filhos não se fizeram esperar, atingindo o número de dez».
Entre
eles, o "nosso" António, quinto a vir ao mundo, depois de Joaquim,
Fortunato, Felícia e Luzia, e antes de Mariana, Manuela, Cândida, Ana e
Acácio.
António
frequentou os primeiros estudos na Escola Primária de Sobrosa, sob
orientação do professor oficial, Jacinto Ferreira Leal que marcou, pela
sua competência, as crianças do seu tempo.
António
Alves Pereira (de Castro) viria a ordenar-se sacerdote, tendo,
primeiramente, desempenhado as funções de professor de matemática no
Seminário dos Carvalhos, V.N. Gaia, onde leccionou durante alguns anos.
Seguiu-se
a actividade pastoral, como coadjutor em Matosinhos, depois como pároco
nas freguesias de S. Paio de Casais e Nespereira, do concelho de
Lousada.
Este
pastor espiritual, igualmente vocacionado para a indústria, foi, na
"Fábrica Grande" (Albino de Matos, Pereiras & Barros, Ldª), um dos
grandes impulsionadores do ramo mobiliário. Os tempos, dificílimos, não
empolgavam mas eram propícios aos bons investimentos. Estávamos em 1923,
período de grande desenvolvimento industrial. Dos 27 sócios,
pertencia-lhe a quota de 68.000$00, correspondente a 9,7% do capital
social, elevado para 700.000$00.

Inicia
então uma rápida e calculada marcha para o controlo total da empresa.
Como? Por mérito próprio, escudado na sua indiscutível competência
laboral, da visão sobre questões económicas, por um conjunto de
condições favoráveis.
Não
era a Fábrica que crescia em todas as vertentes sectoriais: mobiliário
escolar e hospitalar, marcenaria, serralharia, moagem, latoaria,
carvoaria, serração, vidraria, colchoaria, drogaria...

Perfil
empreendedor, dinâmico e sagaz, fixou os seus operários (chegaram a ser
mais de 300, entre homens e rapazes, vindos de todos os lados, com
manifesta falta de formação profissional, gente maioritariamente
analfabeta não qualificada, recém chegada do campo ou a ele ligado, que
aproveitava o Domingo - sim, Domingo, porque ao Sábado também se
trabalhava. A semana "à inglesa" ainda não tinha chegado -, para os
"biscates", noite dentro muitas vezes, de tamanqueiro, pauseiro,
jornaleiro..., o que calhasse) em redor da unidade industrial,
construindo cantina com quartos onde alojava técnicos especializados,
oriundos de outros concelhos (Porto, Vila Nova de Gaia, Felgueiras,
sobretudo da freguesia da Longra...), refeitório e um clube desportivo,
"Os Onze Vermelhos", que daria mais tarde origem ao Freamunde Sport
Clube. Um "Alfredo da Silva" em ponto pequeno!
 |
| OS "ONZE VERMELHOS" |
De
média estatura, p'ró gordo, muito (então aquela barriga bojuda!), não
valia a pena persistir em organizar prescrições alimentares. Não. O que
era posto à sua frente ia tudo! Um verdadeiro triturador de comida - os
nacos vermelhinhos de presunto eram a sua perdição! -, capaz de fazer um
suculento capão parecer um vulgar pintainho. É de crer, mesmo, que
comia de pé pois não teria cadeiras com assento adequado ao seu
traseiro.
Fumador
inveterado, quase sempre vestido de escuro à padre de antanho, era um
homem fantástico, com uma energia inesgotável, viciado em trabalho e que
fazia dessa vocação o seu estilo de vida. Falava sem esforço mas
exprimia-se... "axim".
Mais
adjectivos para o qualificar?! Inteligente, filantropo, raposão, de
humor fácil e corrosivo, vaidoso - perfumava-se constantemente... Mas
forreta quanto baste.
Referindo
várias fontes (antigos empregados, que comeram o pão que o diabo
amassou, alguns com mais de oitenta, noventa anos, tentando fintar a
morte, são a nossa memória viva. Este ou aquele já pouco recorda, outros
têm os pensamentos cansados, confusos, distantes mas nostálgicos...
Também há os que não querem sequer ouvir falar desses tempos), o padre
Castro, para evitar aumentos - de longe a longe lá vinha mais um
"centavo" e viva o velho! -, "jogava" com hipotéticos despedimentos.
Como a procura era superior à oferta devido à escassez de agentes
empregadores no sector industrial, o remédio era aceitar, sem levantar
cabelo, o ordenado que lhes davam (em 1938, 14$00 por dia, em média),
números baixos, mas que mesmo assim aliciavam muitos operários que
fizeram da "Fábrica Grande" o local de uma vida no "mundo" do trabalho,
abdicando de tudo: liberdade, cultura e descanso.
Tempos
em que proliferava a mão de obra infantil; os meninos, que
representavam uma percentagem impressionante da força de trabalho
industrial, logo que saíam da escola (os que haviam frequentado a
escola), iam laborar para a Fábrica - fugiam, como "ratos", sempre que
apareciam os "fiscais". Só era permitido trabalhar, 8 horas por dia, com
12 (!) anos feitos (D.L. nº 24402 de 24/8/1934).
Fosse
como fosse, os "tostões" que caíam ajudavam, e muito, ao sustento de
vários lares, onde imperava uma miséria franciscana. Era a verdade nua e
crua.

Exigente,
também. Era capaz de se misturar com o operariado, de contar anedotas,
mas duro e frio nos juízos, firme e implacável na disciplina. Encarnava o
chefe como figura autoritária. Indivíduo que não se deixava guiar
demasiado pelas emoções. Diz, quem com ele privou e trabalhou, que nem
ao melhor amigo perdoava entradas tardias, logo que o canudo chamava
para a luta pelo pão. Minuto que fosse. Lá ia meio dia para o
"galheiro"! Não havia tempo, sequer, para trincar a bucha. Flexibilidade
era adjectivo que não fazia parte do seu dicionário
Mas
foi assim - outras épocas! - que a indústria do mobiliário prosperou e o
nome de Freamunde correu mundo, com proveito, desenvolvimento e nível
social e económico.
A
"ALBAR", assim também conhecida, com depósitos no Porto, Vila Real,
Mirandela, Águeda, Leiria e Lisboa, mobilou as principais escolas e
liceus do país e colónias, sendo premiada nas Exposições da Palácio de
Cristal (1º prémio) e do Rio de Janeiro (Grande prémio).
Acérrimo
defensor dos interesses freamundenses, o padre Castro foi suporte
generoso de algumas instituições locais, em notória crise (a Banda de
Música, por exemplo), a quem emprestava amiúde dinheiro, mesmo cobrando
taxa de juro à razão de 8% ao ano.
Influente em todos os sectores da vida pública, tinha o "mundo" nas mãos.
Não
viveu muito tempo - morreu com 54 anos, na força da idade, por volta
das 6 horas da manhã do dia 2 de Maio de 1949, na sua casa de Vilar,
vítima de pneumonia -, mas... atravessou duas guerras mundiais.
Foi a sepultar no cemitério de Sobrosa, de onde era natural, constituindo o seu funeral uma enorme manifestação de pesar.

De
grande reconhecimento público, homem de convicções graníticas e de uma
personalidade que o levou a semear alguns inimigos mas também uma legião
de admiradores, com uma vida assinalada por alguns episódios que o
colocaram em posição nebulosa (ainda hoje o seu bom nome é motivo de
alguma controvérsia), ficará, contudo, eternamente na nossa recordação,
na nossa memória.
O
Clube de Futebol, os Bombeiros Voluntários, o Museu do Móvel, uma
avenida com o seu nome (Começa na Rua Prof. Albino de Matos e acaba na
Rua Nova de Abrute), estão entre as marcas que o tempo jamais apagará.
 |
| DESCERRAMENTO DA PLACA, QUE DEU O NOME À AVENIDA, PELO SOBRINHO, DR. ACÁCIO |