ALBINO FERREIRA DE MATOS
(18-5-1863 / 24-9-1918)
Natural
da freguesia de S. Pedro da Raimonda, filho natural de Delfina da Silva
Moura, Albino de Matos foi um dos primeiros seis professores
habilitados para o ensino primário elementar e complementar pela Escola
Normal do Porto, em 1885, e legalmente matriculado como leccionista de
instrução secundária.
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| Registo de baptismo de Albino Ferreira de Matos (Arquivo Central do Registo do Porto) |
«Sendo
o professor primário o "braço armado do progresso", num país de
iletrados, com uma taxa de analfabetismo a rondar os 80%, tanto a
monarquia constitucional como a república esperaram que a escola
transformasse os "brutos" habitantes de Portugal em cidadãos virtuosos e
exemplares "In História de Portugal (Círculo de Leitores), MATTOSO,
José».
Avançado
no tempo, tolerante, pedagogo, mas de personalidade vincada, de forte
consciência cívica, movido por uma astúcia e uma inteligência
brilhantes, alheou-se das questiúnculas partidárias - mesmo director (?)
e articulista do jornal "Echo de Paredes", supostamente de tendência
republicana, cuja publicação terminou em Abril de 1895 - concentrando-se
no exercício da sua actividade profissional, iniciada numa escola de
província, Paredes, inserida no Círculo Escolar de Penafiel, onde iria
leccionar cerca de dez anos, sendo unanimemente considerado "zeloso e
ilustrado".
De um livro editado pelo Dr. Joaquim Manuel Fernandes de Carvalho, perante uma dissertação de mestrado, «...o
Professor Albino de Matos, deixa de lado o ensino tradicional e crente
na modernidade pedagógica, parte do princípio que a criança não deve
apenas olhar e escutar, mas agir e participar elaborando o seu próprio
discurso, o seu próprio saber. Promove uma educação que tenha em conta o
desenvolvimento de atitudes e valores indispensáveis a uma sociedade,
cuja intervenção se pretende consciente e responsável».
No "Jornal de Paços de Ferreira", pesquisamos e extraímos respigos de um artigo datado de 16 de Maio de 1895: «...
Esta escola que há nove annos é dirigida pelo nosso conterrâneo e amigo
Snr. Albino Ferreira de Mattos, e que já conta 41 approvações em exames
elementares, entre os quais há muitas distinções (...) devido,
incontestavelmente, a actividade, zêlo e inteligência d'aquele nosso
amigo e illustrado professor que a dirige.
Por
acaso assistimos aos exames d'alguns d'estes meninos e não nos podemos
furtar a dizer que elles se distinguem entre os demais pela precisão e
rapidez com que respondiam aos srns. Examinadores, mostrando assim que o
seu professor lhes fez comprehender o que estudaram deixando de seguir
essa desgraçada rotineira de fazer do cérebro das creanças um armazém de
palavras que ellas reproduzem inconscientemente. Aceite o nosso amigo e
snr. Mattos o nosso parabem, bem como os seus discípulos approvados.
Aos
habitantes de Paredes também não podemos deixar de lhes dar os parabens
por terem à frente da escola complementar da sede do concelho um
professor que sabe desempenhar a altura dos espinhosos e diffíceis
deveres do seu cargo».
Como
quase sempre os grandes empreendimentos morrem com as primeiras
dificuldades, numa louvável dedicação pelos interesses da classe a que
pertencia, indubitavelmente sem protecção, oprimida e mal remunerada,
alvitrou ainda em 1895, numa atitude digna de verdadeiro altruísmo, a
necessidade de fundação d'uma Associação que promovesse o bem estar do
professorado primário.
Pôs-se à chuva e sabia que ia molhar-se mas estava preparado para tudo.
Não
demorou a ser nomeado director, desde 1896, da Escola Complementar de
Paredes, vila que lhe concedeu, nesse mesmo ano, a presidência da
Associação de Socorros Mútuos, com estatutos por ele elaborados e
aprovados.
Assíduo
frequentador de reuniões e conferências de classe, era um dos habituais
delegados aos congressos do professorado primário que de tempos em
tempos se reuniam no Porto.
Albino
de Matos, foi transferido da cadeira de Castelões de Cepeda, Paredes,
em Setembro de 1896, para a escola régia de Freamunde, que estava vaga
pelo falecimento do padre António Marques de Carvalho.
Não
demorou três meses (Dezembro de 1896) para, junto da Câmara Municipal,
tentar a criação dum curso nocturno do sexo masculino. Combatente do
analfabetismo atroz e persistente lutador pela melhoria das condições de
ensino nesta terra, numa reunião com os pais dos alunos - conforme se
pode ler numa das páginas do "Jornal de Paços de Ferreira" de 25 de
Dezembro de 1896 - «...fez notar a deficiência do mobiliário escolar,
tanto no que diz respeito à sua péssima construção como ao número de
alumnos que comporta, uns 18 apenas, sendo elles actualmente 94. Incidiu
ainda na necessidade de mandar construir uma mobília em condições.
Sem
verba da Câmara, organizou uma comissão, presidida por António Ferreira
Leão de Moura, que por meio de subscrição, dentro e fora da freguesia,
possibilitasse, no mais curto espaço de tempo, a concretização dos seus
anseios.
A
soma da colecta importou em 63$940 réis, sendo as maiores ofertas as de
Fernando Sousa Ribeiro (2$500 réis) e Alexandrino Chaves, António Leão
Ferreira de Moura e Ilydio Gomes da Costa Torres, todos com 2$000 réis.
Decorria o mês de Março de 1897 quando foram construídas 18 carteiras».
Onde?
Em Maio de 1900, é louvado pelos bons serviços pelo Conselho Superior de Instrução Pública - "In Diário do Governo, número 104 de 10 de Maio de 1900".
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| Elisa da Costa Torres (Colecção particular de Joaquim Pinto) |
Em
1904, perde-se de amores por Elisa da Costa Torres, com quem iria
contrair matrimónio, filha natural de Rufina Ribeiro Nunes. Elisa era
viúva de José Luís Affonso, nascido em Valença do Minho, consagrado
relojoeiro, com anterior estabelecimento na Rua da Firmeza, nº 37, da
cidade do Porto, e que em Julho de 1899 fizera chegar a revolução
industrial ao concelho de Paços de Ferreira, requerendo, à Câmara,
licença para estabelecer na freguesia de Freamunde, lugar do Calvário,
dentro da sua propriedade denominada "Quinta dos Balaes", uma indústria
de moagem de farinhas de milho e serragem de madeiras - a quem dera o
nome de "Elisa", numa clara homenagem a sua esposa -, empregando uma
máquina com caldeira a vapor de alta pressão, dois moinhos e uma serra
horizontal.
É
de crer, pois, que, com o equipamento legado, estavam encontradas as
condições necessárias para a resolução em definitivo da carência de
material escolar.
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| Fonte: Jornal de Paços de Ferreira |
Novo ciclo se abriria. A indústria do mobiliário iria emergir, sobretudo o escolar.
Tornou-se
mestre de muitos jovens na arte de trabalhar a madeira: António Pereira
da Costa, Abílio Pacheco de Barros, Adelino Correia...
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| Palacete da "Quinta dos Balaes", no Lugar do Calvário (Colecção particular de Joaquim Pinto) |
Sem
perder a ideia de renovação metodológica deste tipo de mobiliário, o
pioneiro Albino de Matos fazia equipar um sem número da salas de aula
desta país com carteiras, caixas métricas, sólidos geométricos, sólidos
cristalográficos, transferidores, compassos, réguas, mapas, esferas.
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| Fonte: Albino de Matos P e Barros, Lda extracto do Catálogo de Móveis e Material Escolar, 3ª Edição, 1929 |
A
perfeição e qualidade dos seus produtos, a novidade do mobiliário
didáctico, proporcionaram-lhe o primeiro prémio na Exposição de Higiene
(1907).
Em
1910, já em plena República (os ventos eram favoráveis), o génio
empresarial investe a sua experiência pedagógica na refulgente indústria
do material escolar, construindo as célebres carteiras com tampo semi
articulado, contadores digitais, colecção de sólidos...
O
Professor Albino de Matos era uma personalidade multifacetada.
Imiscuído na actividade mutualista, por experiência própria, mostrou-se
verdadeiramente interessado no crescimento da Associação de Socorros
Mútuos Freamundense, da qual foi secretário da Assembleia Geral em 1897 e
presidente da mesma Assembleia em 1898.
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| ASMF (Colecção particular de Joaquim Pinto) |
Morreu
pelas 18,00 horas do dia 24 de Setembro de 1918, com 55 anos, já na
condição de professor oficial aposentado, vítima de tuberculose
pulmonar, mais conhecida por febre espanhola, epidemia que causou, num
espaço de poucos meses, dezenas de milhares de mortos no nosso país.
O
pioneirismo, a integridade, a inteligência, a capacidade de defesa das
suas ideias na valorização do ensino, permitiram-lhe ganhar, com todo o
mérito e glória, um lugar de destaque na história dos grandes homens que
passaram por Freamunde.
Em
Maio de 1983, durante as comemorações do cinquentenário de elevação de
Freamunde a Vila, a comissão promotora deliberou, sem favor, atribuir o
nome de uma das principais artérias de Freamunde ao Professor Albino de
Matos - principia na Rua do Comércio e termina na "Fonte dos Moleiros".
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| Descerramento da placa toponímica por D. Braselina Matos (filha) e Dr. Fernando Vasconcelos (neto) |
JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"































