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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Professor Albino Ferreira de Matos

 ALBINO FERREIRA DE MATOS
(18-5-1863 / 24-9-1918)
Natural da freguesia de S. Pedro da Raimonda, filho natural de Delfina da Silva Moura, Albino de Matos foi um dos primeiros seis professores habilitados para o ensino primário elementar e complementar pela Escola Normal do Porto, em 1885, e legalmente matriculado como leccionista de instrução secundária.
Registo de baptismo de Albino Ferreira de Matos (Arquivo Central do Registo do Porto)
«Sendo o professor primário o "braço armado do progresso", num país de iletrados, com uma taxa de analfabetismo a rondar os 80%, tanto a monarquia constitucional como a república esperaram que a escola transformasse os "brutos" habitantes de Portugal em cidadãos virtuosos e exemplares "In História de Portugal (Círculo de Leitores), MATTOSO, José».
Avançado no tempo, tolerante, pedagogo, mas de personalidade vincada, de forte consciência cívica, movido por uma astúcia e uma inteligência brilhantes, alheou-se das questiúnculas partidárias - mesmo director (?) e articulista do jornal "Echo de Paredes", supostamente de tendência republicana, cuja publicação terminou em Abril de 1895 - concentrando-se no exercício da sua actividade profissional, iniciada numa escola de província, Paredes, inserida no Círculo Escolar de Penafiel, onde iria leccionar cerca de dez anos, sendo unanimemente considerado "zeloso e ilustrado".
De um livro editado pelo Dr. Joaquim Manuel Fernandes de Carvalho, perante uma dissertação de mestrado, «...o Professor Albino de Matos, deixa de lado o ensino tradicional e crente na modernidade pedagógica, parte do princípio que a criança não deve apenas olhar e escutar, mas agir e participar elaborando o seu próprio discurso, o seu próprio saber. Promove uma educação que tenha em conta o desenvolvimento de atitudes e valores indispensáveis a uma sociedade, cuja intervenção se pretende consciente e responsável».
No "Jornal de Paços de Ferreira", pesquisamos e extraímos respigos de um artigo datado de 16 de Maio de 1895: «... Esta escola que há nove annos é dirigida pelo nosso conterrâneo e amigo Snr. Albino Ferreira de Mattos, e que já conta 41 approvações em exames elementares, entre os quais há muitas distinções (...) devido, incontestavelmente, a actividade, zêlo e inteligência d'aquele nosso amigo e illustrado professor que a dirige.
Por acaso assistimos aos exames d'alguns d'estes meninos e não nos podemos furtar a dizer que elles se distinguem entre os demais pela precisão e rapidez com que respondiam aos srns. Examinadores, mostrando assim que o seu professor lhes fez comprehender o que estudaram deixando de seguir essa desgraçada rotineira de fazer do cérebro das creanças um armazém de palavras que ellas reproduzem inconscientemente. Aceite o nosso amigo e snr. Mattos o nosso parabem, bem como os seus discípulos approvados.
Aos habitantes de Paredes também não podemos deixar de lhes dar os parabens por terem à frente da escola complementar da sede do concelho um professor que sabe desempenhar a altura dos espinhosos e diffíceis deveres do seu cargo».
Como quase sempre os grandes empreendimentos morrem com as primeiras dificuldades, numa louvável dedicação pelos interesses da classe a que pertencia, indubitavelmente sem protecção, oprimida e mal remunerada, alvitrou ainda em 1895, numa atitude digna de verdadeiro altruísmo, a necessidade de fundação d'uma Associação que promovesse o bem estar do professorado primário.
Pôs-se à chuva e sabia que ia molhar-se mas estava preparado para tudo.
Não demorou a ser nomeado director, desde 1896, da Escola Complementar de Paredes, vila que lhe concedeu, nesse mesmo ano, a presidência da Associação de Socorros Mútuos, com estatutos por ele elaborados e aprovados.
Assíduo frequentador de reuniões e conferências de classe, era um dos habituais delegados aos congressos do professorado primário que de tempos em tempos se reuniam no Porto.
Albino de Matos, foi transferido da cadeira de Castelões de Cepeda, Paredes, em Setembro de 1896, para a escola régia de Freamunde, que estava vaga pelo falecimento do padre António Marques de Carvalho.
Não demorou três meses (Dezembro de 1896) para, junto da Câmara Municipal, tentar a criação dum curso nocturno do sexo masculino. Combatente do analfabetismo atroz e persistente lutador pela melhoria das condições de ensino nesta terra, numa reunião com os pais dos alunos - conforme se pode ler numa das páginas do "Jornal de Paços de Ferreira" de 25 de Dezembro de 1896 - «...fez notar a deficiência do mobiliário escolar, tanto no que diz respeito à sua péssima construção como ao número de alumnos que comporta, uns 18 apenas, sendo elles actualmente 94. Incidiu ainda na necessidade de mandar construir uma mobília em condições.
Sem verba da Câmara, organizou uma comissão, presidida por António Ferreira Leão de Moura, que por meio de subscrição, dentro e fora da freguesia, possibilitasse, no mais curto espaço de tempo, a concretização dos seus anseios.
A soma da colecta importou em 63$940 réis, sendo as maiores ofertas as de Fernando Sousa Ribeiro (2$500 réis) e Alexandrino Chaves, António Leão Ferreira de Moura e Ilydio Gomes da Costa Torres, todos com 2$000 réis.
Decorria o mês de Março de 1897 quando foram construídas 18 carteiras».
Onde?
Em Maio de 1900, é louvado pelos bons serviços pelo Conselho Superior de Instrução Pública - "In Diário do Governo, número 104 de 10 de Maio de 1900".
Elisa da Costa Torres (Colecção particular de Joaquim Pinto)
Em 1904, perde-se de amores por Elisa da Costa Torres, com quem iria contrair matrimónio, filha natural de Rufina Ribeiro Nunes. Elisa era viúva de José Luís Affonso, nascido em Valença do Minho, consagrado relojoeiro, com anterior estabelecimento na Rua da Firmeza, nº 37, da cidade do Porto, e que em Julho de 1899 fizera chegar a revolução industrial ao concelho de Paços de Ferreira, requerendo, à Câmara, licença para estabelecer na freguesia de Freamunde, lugar do Calvário, dentro da sua propriedade denominada "Quinta dos Balaes", uma indústria de moagem de farinhas de milho e serragem de madeiras - a quem dera o nome de "Elisa", numa clara homenagem a sua esposa -, empregando uma máquina com caldeira a vapor de alta pressão, dois moinhos e uma serra horizontal.
É de crer, pois, que, com o equipamento legado, estavam encontradas as condições necessárias para a resolução em definitivo da carência de material escolar.
Fonte: Jornal de Paços de Ferreira
Novo ciclo se abriria. A indústria do mobiliário iria emergir, sobretudo o escolar.
Tornou-se mestre de muitos jovens na arte de trabalhar a madeira: António Pereira da Costa, Abílio Pacheco de Barros, Adelino Correia...
Palacete da "Quinta dos Balaes", no Lugar do Calvário (Colecção particular de Joaquim Pinto)
Sem perder a ideia de renovação metodológica deste tipo de mobiliário, o pioneiro Albino de Matos fazia equipar um sem número da salas de aula desta país com carteiras, caixas métricas, sólidos geométricos, sólidos cristalográficos, transferidores, compassos, réguas, mapas, esferas.
Fonte: Albino de Matos P e Barros, Lda extracto do Catálogo de Móveis e Material Escolar, 3ª Edição, 1929
A perfeição e qualidade dos seus produtos, a novidade do mobiliário didáctico, proporcionaram-lhe o primeiro prémio na Exposição de Higiene (1907).
Em 1910, já em plena República (os ventos eram favoráveis), o génio empresarial investe a sua experiência pedagógica na refulgente indústria do material escolar, construindo as célebres carteiras com tampo semi articulado, contadores digitais, colecção de sólidos...
O Professor Albino de Matos era uma personalidade multifacetada. Imiscuído na actividade mutualista, por experiência própria, mostrou-se verdadeiramente interessado no crescimento da Associação de Socorros Mútuos Freamundense, da qual foi secretário da Assembleia Geral em 1897 e presidente da mesma Assembleia em 1898.
ASMF (Colecção particular de Joaquim Pinto)
Morreu pelas 18,00 horas do dia 24 de Setembro de 1918, com 55 anos, já na condição de professor oficial aposentado, vítima de tuberculose pulmonar, mais conhecida por febre espanhola, epidemia que causou, num espaço de poucos meses, dezenas de milhares de mortos no nosso país.
O pioneirismo, a integridade, a inteligência, a capacidade de defesa das suas ideias na valorização do ensino, permitiram-lhe ganhar, com todo o mérito e glória, um lugar de destaque na história dos grandes homens que passaram por Freamunde.
Em Maio de 1983, durante as comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a Vila, a comissão promotora deliberou, sem favor, atribuir o nome de uma das principais artérias de Freamunde ao Professor Albino de Matos - principia na Rua do Comércio e termina na "Fonte dos Moleiros".
Descerramento da placa toponímica por D. Braselina Matos (filha) e Dr. Fernando Vasconcelos (neto)

JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

António Pereira da Costa

 (9-9-1888 / 28-8-1966)
António Pereira da Costa, filho de Teodoro Pereira Gomes e Ana Rosa de Jesus, nasceu na freguesia de Freamunde no dia 9 de Setembro de 1888.

Seus avós paternos, António Pereira da Rocha, célebre comprador e vendedor de objectos antigos, mais conhecido por António Pereira "do Calvário", falecido, com avançada idade, no dia 11 de Março de 1902, e Leonor Nogueira Nunes.

A propósito da vida desta ilustre personalidade, encontrei há tempos, nos abandonados aposentos do genro, Fernando Santos,  exemplar de biografia "trabalhada" por alguém e que realçava a figura do grande criador da indústria de marcenaria nesta terra e arredores, parte dela já referenciada pelo Dr. Joaquim Manuel Fernandes de Carvalho, perante uma dissertação de mestrado, no livro por si editado "A indústria de mobiliário em Paços de Ferreira - O caso da fábrica Albino de Matos, Pereiras & Barros, Ldª".
«... Filho de um casal de gente simples e boa, mas que havia herdado aquela austeridade caldeada na luta pela existência, que repartia entre um campo e uma alfaiataria o seu labor quotidiano, tinha o "Toninho" sete anos apenas ( o sol da vida mal tinha despontado), quando começou a ajudar a família no amanho de umas terras que tomaram de arrendamento na freguesia de Ferreira. 

Por essa altura falecia Ana Rosa de Jesus, e o seu coraçãozito tenro de idade era assolado logo no despertar da infância pela dura tempestade da perda da mulher sublime que era sua mãe.

Aos dez anos quis seu pai, Teodoro Pereira Gomes, agora casado em segundas núpcias com Maria Joaquina Lopes Ferreira Velho, fazê-lo seminarista, para que mais tarde se tornasse sacerdote e, deste modo, lhe assegurar o futuro. A princípio nenhuma reacção lhe ocorreu. Mas quando ambos foram a Lustosa consultar o pároco da freguesia, mais tarde bispo do Porto, Reverendo António Barbosa de Leão, e este lhe fez ver a agra encosta das responsabilidades clericais, António rapidamente respondeu que não aceitava a vida do sacerdócio. O seu "mundo" teria de ser outro. Qualquer profissão lhe servia, menos a de sapateiro. E com doze anos lá se foi para Sobrosa, Paredes, aprender a arte de marceneiro na oficina do grande mestre da arte, Júlio Barbosa Correia da Fonseca.

Serrar, moldar, conceber coisas prodigiosas da madeira seria, doravante, a máxima preocupação na carreira que acabava de abraçar.

Bom aluno, reteve sem dificuldade os ensinamentos mais preciosos.

Durante catorze anos trabalhou António Pereira da Costa em Sobrosa, não abandonando o mestre e amigo de tantas horas de labuta agora doente e senil.

Após a sua morte (1914),  com vinte e seis anos regressa definitivamente a Freamunde, por esse tempo uma terra apagada, rural, sem o menor reflexo de indústria, sobretudo no campo da marcenaria, época agitada e pouco propícia a negócios estáveis.  Com as poupanças, cerca de 200$00 (sobras dos 200 réis que diariamente ganhou),  monta uma oficina no lugar do Calvário. Um pequeno recinto, mas que se adaptava perfeitamente às exigências de quem principiava com tão pouco capital.
Fruto de um namorico que já vinha de Sobrosa, em 1915 casa-se com Adelaide de Sousa e Castro, dessa mesmo freguesia natural.
ANTÓNIO PEREIRA DA COSTA E ESPOSA
Foi então que no espírito do grande industrial de Freamunde, artista de fino gosto, começou a esboçar-se a ideia da primeira fábrica de serração e marcenaria, em parceria com o seu irmão, Joaquim Pereira da Costa, que no Porto tinha frequentado a Escola de Belas-Artes onde adquiriu um curso de desenho, e Abílio Pacheco de Barros, seu primo, entalhador e natural da freguesia de Figueiró, regressado de uma aventura no Brasil.
O projecto poderia ser arrojado, mas, mesmo assim, surge a Sociedade Pereiras & Barros, Ldª. que, de imediato, inicia a construção, agora na Rua do Comércio, de novas instalações, como refere o jornal "Progresso de Paços de Ferreira" na sua edição do dia 13 de Junho de 1920:

"...Já se acha devidamente instalada em casa própria, na Rua do Comércio, desta povoação (Freamunde) a nova oficina de Mobiliário e Material Escolar, sob a firma Pereiras, Barros e Companhia Ldª.

A sua inauguração realizar-se-á no próximo Domingo, 13 do corrente, dia de feira anual de Santo António"
Pouco tempo depois, em 1921, morre o irmão, primeiro contratempo surgido inesperadamente e que o abalou profundamente. Esta fatalidade caída assim abruptamente sobre uma organização de pouca idade e, para piorar a situação, segura no mínimo do seu valor, teve o trágico condão de abrir uma nova fenda no futuro de António Pereira da Costa.
JOAQUIM PEREIRA DA COSTA
Mal reposto da perda do irmão, um voraz incêndio destrói-lhe, em 23-3-1923, a fábrica, implantada nos terrenos onde, mais tarde, seriam edificadas as denominadas "escolas amarelas" que, conjuntamente com Abílio Pacheco de Barros, tinha construído.
ABÍLIO PACHECO DE BARROS
In "O Progresso de Paços de Ferreira", Ano XXI, nº 1080 de 25 de Março de 1923.
(...) Manifestou-se hoje n'esta freguesia, cerca das 3 horas, um pavoroso incêndio, na importante Fábrica de Serração, Moagem e Mobiliário, da Firma Pereiras, Barros e Companhia Limitada, destruindo-a por completo.

As labaredas do incêndio alcançaram grande altura e iluminaram distintamente toda a freguesia.

Apenas se pôde salvar o cofre, escrituração e o mobiliário de escritório.

A fábrica apenas estava segura em cento e dez mil escudos, nas companhias Phoenix e Royal, sendo os prejuízos importantes, pois ardeu uma grande encomenda de móveis de grande valor que estava para seguir o seu destino.
Ainda no mesmo ano de 1923, com o dinheiro do seguro e algumas poupanças, entram para sócios da recém criada Sociedade Comercial Albino de Matos, Sucessores, Limitada, com a cota de 68 contos cada, passando a adoptar, a partir de então, o nome de Albino de Matos, Pereiras e Barros, Ldª, agora com 28 sócios, sendo-lhe atribuído artº 5º do contrato de sociedade:
FÁBRICA ALBINO DE MATOS, PEREIRAS E BARROS, LDA
(...) A gerência social com dispensa de caução, fica a cargo dos sócios António Pereira da Costa e José Maria Ferreira de Matos (irmão do falecido professor Albino de Matos), ao sócio Abílio Pacheco de Barros compete as funções de encarregado da secção de máquinas, madeiras e marcenaria (...).

Parágrafo 1º: Fica, contudo, estipulado que compete exclusivamente ao sócio António Pereira da Costa a direcção técnica da fábrica, bem como os serviços de arrecadação e expedição.

Estávamos em 1924 e esta sociedade que parecia um projecto audaz para António Pereira da Costa, torna-se um novo pesadelo em virtude de uma série de incidentes com António Alves Pereira de Castro, o "Padre Castro" como era conhecido e que veio marcar uma gerência forte num período de grande desenvolvimento industrial, que terminaram com o encerramento temporário da fábrica, isto cerca de dois anos volvidos após a sua abertura. António Pereira da Costa seria exonerado em Assembleia Geral de 21-11-1926.
Afinal, o grande marceneiro, o artista fecundo ficava de novo só depois de ter esbanjado grande parte de capital emprestado no litígio que sustentou com a firma cessante. Se desejava vencer teria que desprezar mentores e capitalistas, burocratas e políticos, todos, em suma, os que só serviam para lhe impor peias e nenhuma ajuda lhe traziam.
E o grande industrial cada vez mais pobre, com uma dívida de 50.000$00, lá se foi, desta vez só (e tendo que lutar com uma concorrência de capitais organizados) a criar o seu mundo de arte concebido segundo as suas ideias e o seu pensamento.
E ao contrário do que seria de esperar, António Pereira da Costa apareceu cada vez mais enrijecido pela fé nos seus próprios dotes e disposto a vencer a batalha da existência.
António Pereira da Costa volta de novo ao lugar do Calvário para recomeçar as suas actividades num pobre barracão. O seu "capital" constava de nove dúzias de tábuas emprestadas e três metros cúbicos de madeira a crédito adquiridos na firma Rodrigo Ferreira & Filho, Porto.
António Pereira da Costa recuperava lentamente a dignidade de industrial.
Para vencer precisou de anular, até, os seus grandes reveses, impondo-se por um merecimento sem paralelo.
A par do mobiliário escolar, a genial criação de mobiliário doméstico e de escritório da Fábrica do Calvário de António Pereira da Costa, que, com auxílio de mestres formados na Escola Soares dos Reis, concebeu todo um conjunto de móveis vulgarmente denominados por "reclame".
Conforme refere o "Comércio do Porto" em 27 de Março de 1929: (...) Trabalhando em sua arte, desde a idade de 12 anos, António Pereira da Costa é o técnico competentíssimo, o mestre de grande experiência para quem aquela arte não tem segredos, e que só à sua conta tem preparado e educado mais de 300 operários, hoje artistas perfeitos na arte de marcenaria.
O material saído das suas mãos e da sua fábrica é tão perfeito, que lhe tem merecido os prémios da Exposição do Palácio de Cristal (Feira do Porto), do Rio de Janeiro, Exposição do 2º Congresso Pedagógico do Ensino Secundário Oficial de Viseu (1928), com o 1º prémio, medalha de ouro e diploma de honra.
Num armazém por si construído por volta de 1937, junto à capela de Santo António, tornou-se no primeiro expositor de móveis em Freamunde e no concelho. 
Em 1953, António Pereira da Costa, em escritura lavrada no cartório Notarial de Paços de Ferreira, constitui entre Joaquim Ribeiro, Fernando Eduardo de Sousa Delgado da Silva Ribeiro dos Santos, Zeferina Pereira de Castro e Felisbina Pereira de Castro (genros e filhas solteiras) uma sociedade por cotas de responsabilidade limitada, adoptando o nome de "António Pereira da Costa, Limitada".
Pensava ele que só assim o seu nome permaneceria na sua fábrica eternamente.
António Pereira da Costa atravessou durante a sua vida, por vezes, situações tão angustiantes que, a não ser a astúcia que possuía, o teriam vitimado.
E uma delas ocorreu na festa da Páscoa de 1918, quando se viu forçado a receber em sua casa o Compasso, dispondo de meia dúzia de cadeiras e uma cama de ferro, isto depois de ter vendido todo o mobiliário que tinha para fazer jus a compromissos inadiáveis.
Tanta coragem e tanta honestidade não eram muito frequentes nesses tempos (nos de agora, então!!!), nem foi sempre o apanágio principal de muitos ricos que por lá abundavam lançados no caminho do triunfo, às vezes mais por golpes de artifícios malabares, ou inconfessáveis aliciamentos da própria consciência do que por louvável iniciativa do seu próprio esforço».
Depois foi o que se sabe: Esta fábrica, cujo peso na industrialização do concelho e na formação de pessoal especializado foi importante para a formação do "cluster" do mobiliário que existe actualmente, encerrou as portas em 2001 por passividade e ineficiência da gestão e pouca adaptação dos serviços/produtos às novas exigências.
António Pereira da Costa, o homem que tinha um grande e farfalhudo bigode que contornava o lábio superior com prolongamento, personalidade forte e enérgica, repudiava os "medricas".
Pioneiro de um ramo industrial que projectou Freamunde e o concelho, foi um espírito brioso no fabrico do mobiliário. Todo o êxito alcançado foi fruto do seu excepcional instinto empresarial, que o tornou poderoso e célebre.
Coração generoso, e com pendor especial para dar uma reviravolta estrutural a Freamunde no seu todo, batalhou junto dos poderes municipais por aquilo que mingava nas franjas do seu berço terreno, chegando mesmo, a expensas suas, na elaboração de um projecto capaz de maravilhas, com "risco" do multifacetado artista Salvador "Santa Marta". Insistia constantemente na necessidade de uma reforma de mentalidade, de visão urbanística, condição para o progresso e transformação do centro da vila.
O processo correu os gabinetes dos poderes autárquicos. A questão parecia irreversível, fizeram-se planos de pormenor, mas os ares administrativos não eram lá muito favoráveis...
Serenada a "euforia", sobrou-lhe tempo para atenções redobradas à Associação de Socorros Mútuos Freamundense, a necessitar urgentemente das receitas do teatro, quase parado desde meados de quarenta.
Fernando Santos, director de um grupo cénico portuense, foi, por ele, atraído a Freamunde para representações nesta vila, sobretudo no 19 de Março. Gostou disto, gostou de uma das suas filhas, Brasinda, com quem casou, e por cá ficou. Ainda bem.
Exemplo de vida, de cidadania, devotou-se com alma e coração ao associativismo desta terra, às suas realizações, lúdicas, festivas, culturais... Tudo o movia.
Membro, em 1928, da "Grande Comissão Organizadora da Corporação de Bombeiros de Freamunde", foi no seio da ASMF que mais se notabilizou. Tesoureiro e presidente da direcção entre 1939 e 1952, foram, neste último ano, a expensas próprias e com o produto da venda de rifas e das festas por si promovidas, levadas a cabo importantes obras no edifício da benemérita associação: restauração, cedência de água para instalações sanitárias, oferta de mobiliário de consultório médico...
Parte do terreno, que lhe cabia, onde foram implantadas as "Escolas Amarelas", da Rua do Comércio, inauguradas no dia 2 de Outubro de 1938 (ele mesmo fez parte da comissão promotora das festas alusivas as acontecimento), foi cedido gratuitamente à Junta de Freguesia, principal interessada no projecto.
Devoto do "Condestável" D. Nuno Álvares Pereira, o respeito pela tradição fê-lo membro das Festas ao Mártir, como Presidente, em dois mandatos, pelo menos, (1936 e 1944). Integrou ainda a denominada "Comissão de Honra" das "Sebastianas" durante uma década (1954 a 1963).
Como político, serviu a Autarquia, na condição de vogal da Comissão Administrativa, entre 1942 a 1946.
As horas de ócio eram passadas à noite, no convívio do "Recreativo", Clube que serviu em diversas ocasiões nos cargos de Presidente do Conselho Fiscal e Direcção.
Pelo Natal de 1954, foi sujeito, na Casa de Saúde da Avenida, no Porto, a uma melindrosa cirurgia. Já restabelecido, o respeitável industrial foi recebido, nas imediações do seu lar, pelos amigos e gente anónima desta terra, sempre gratos a quem lhes fez bem, ao som de estrondoso foguetório, em sinal de regozijo. A própria comunicação regional fez manchete do acontecimento.
AO LADO DA ASMF, A CASA ONDE ANTÓNIO PEREIRA DA COSTA MOROU
A doença acabou definitivamente com a sua resistência, vindo a falecer na tarde de 28 de Agosto de 1966 na sua residência, no Alto da Feira. Contava 78 anos de idade.
Por alturas das comemorações de elevação de Freamunde a Vila (1983), a Junta de Freguesia em conjugação com a Comissão de Toponímia deliberaram atribuir, muito justamente, o nome de uma das artérias a António Pereira da Costa - principia no Largo da Feira e termina no cruzamento de Panelas, para o Ciclo Preparatório.
Gil Aires, na edição de 1 de Outubro de 1952 da "Gazeta de Paços de Ferreira", rubrica "Ares de Freamunde - Perfil da Semana", fotografou-o assim:
«Pobrezita!
Do olho, focinho abaixo, rola uma lágrima de saudade.
Pobre "Chica", triste, encostada a um canto, espera.
Olhem, agora, como salta dengosa, com um "salero" que já fica mal à sua idade. É que ele já chegou. Pressente-o, e não o confunde no meio dos seus operários, no seio dos quais o seu traje o iguala. Sim, que, à semana em nada difere a sua vestimenta da do mais modesto dos seus empregados. Mas, leitor amigo, vê-lhe a cerimónia nos dias festivos, opa lavrada, abrindo caminho ao andor da sua da sua devoção, e não te parecerá o mesmo.
Se te falo no seu característico bigode (à Sloan), ficas desenhando a sua figura; aquele bigode, que nos dias de má disposição, toma aspecto aterrador.
Amigo da sua Terra, bairrista, sonhou projectos, concretizados numa tela que a sua vista entristece os Freamundenses.
Desilusão! O mundo dos homens é o mundo dos enganos! Enganaram-no, e não lhe falem nos seus antigos planos, se não querem vê-lo irritado, e de punhos cerrados falar com todas as letras. A verdade cabe em todo o lugar e não há quem não lhe dê razão. Freamunde fica tão longe...
Infeliz nos seus treinos de condução (nem sempre as paredes eram seguras), não fica contente quando um dos seus carros sai a arejar, pois que o grande só nos dias de festa mostra o brilho dos seus cromados, e, nessa altura, também ele vai.
Devoto da lavoura, tem uma predilecção especialíssima pela estratégia da sua propriedade de Talhô, onde... regala a vista, mirando os campos de milho ou centeio.
Tem uma "pinga" afinadíssima, que os amigos, em "conjunto" muitas e muitas vezes gostam de saborear. Previno-te, leitor amigo, de que o tempo está prestes a chegar; e também podes entrar na roda, que, com isso, só dás alegria a este homem que só tem por brasão o trabalho». 

JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

José Pinto Pereira Gomes "Zézinho da Casimira"

(4 - 8 - 1870 / 16 - 9 - 1942)
Filho de Joaquim Pereira Gomes e de Joaquina Pinto, casou, no dia 1 de Novembro de 1896, às 6 horas da manhã, na Igreja Matriz de Freamunde, com Carolina da Costa e Sousa, sendo celebrante o Pároco Maximino Ferreira Alves.
Testemunharam, Manuel Augusto Pinto de Barros, farmacêutico, do lugar da Feira, e António Ferreira Alves, estudante, do lugar de Freamunde de Cima.
Carolina da Costa e Sousa e José Pinto Pereira Gomes "Zezinho da Casimira"
O casal ocupou, primeiramente, uma casa emprestada por Bernardo Ferreira, em S. Sebastião, e por esses lados ficou.
Do matrimónio resultou o nascimento de 7 filhos: Helena, Zulmira, Joaquim, Julieta, José da Conceição, Augusto e Horácio, todos presentemente falecidos.
Augusto (filho); Julieta (filha); Carolina (mulher); Zezinho da Casimira; Hermínio (neto); Horácio (filho)
Freamundense autêntico, possuído de paixão, espalhou tantos pormenores sobre a sua vida que, hoje, é perfeitamente possível estabelecer uma pequena biografia.
Terna e carinhosamente conhecido por "Zézinho da Casimira" - sua avó, onde foi criado, chamava-se Casimira -, era um homem de ideias, de carácter jovial, simplório e humilde, leal para os seus amigos e generoso para aqueles que encontrava com problemas. Uma alma nobre.
Para além de proprietário, sem ser capitalista, à actividade de comerciante alia novas e sucessivas ocupações, sem nunca dar sinais de dissabores e cansaço. Chegou mesmo a ser ajudante escriturário dos tabeliões Alexandrino Chaves Velho e Dr. Costa Eiras.
Fotografia tirada no início do séc. XX. Fila de baixo: Zezinho da Casimira, 2º a contar da esquerda
Ganha o gosto de ler e devora todo o livro que lhe cai nas mãos. Não era dos que fugia dos compêndios como o diabo da cruz. Pelo contrário. As suas estantes passaram a intercalar autores clássicos com outros mais contemporâneos. Quando os "reais" lhe sobravam, comprava livros.
Foi a leitura quem o pôs pouco a pouco em contacto com o teatro, primeiro, e com o ensino particular, depois. A muitos rapazinhos que o procuravam, numa altura em que o analfabetismo grassava, ensinou as primeiras letras, abnegada e desinteressadamente, no palheiro de cereais do caseiro, ou, quando o tempo o permitia, na eira, no então lugar da Lage, ali pr'ós lados de S. Sebastião, quem vai para Freamunde de Cima.
Foi assim que preparou para exames de instrução primária do 1º grau, em meados dos anos vinte, dezenas de instruendos - o que o transformava numa autêntica instituição de utilidade pública -, conforme me elucidou Alfredo de Matos "Cherina", seu ex-aluno, colega de João "Catano", Zeca Pedra, Alberto Pinto... Já antes, ainda no período monárquico, tinham passado pelas suas mãos muitos jovens, alguns referenciados: Albino R. C. Machado, Ilídio Correia da Fonseca, Joaquim de Sousa Mendes, João Pereira, Felisbina da Costa Seixal (sua afilhada, por sinal)... É verdade, uma menina, numa época em que pouquíssimas crianças do sexo feminino frequentavam o ensino.
Estreou-se como ensaiador da arte de Talma, em 1908, à frente da "Troupe Artística Dramática Freamundense", levando à cena alguns Autos, de cariz essencialmente popular.
Volta à actividade teatral, em 1914, oferendo ao público interessado hilariantes comédias. Pôs, assim, à prova todos os seus recursos criativos, imaginativos e com uma entrega total.
Homem simples, do povo, foi com simplicidade que realizou o seu trabalho, sentido, apaixonado, com sinceridade e respeito.
Mas, além dos atributos de homem culto, Zézinho era, sobretudo, um cidadão exemplar, uma personalidade íntegra.
Com ele muitos aprenderam a sabedoria das coisas simples e naturais.
Tornou-se rapidamente uma figura de interesse local pela imagem que criou na comunidade.
Nas festas que se faziam nessas épocas, na freguesia de Freamunde, em honra ao Mártir S. Sebastião, Menino de Deus, Sagrado Coração de Jesus, Senhora da Hora, S. Tiago, S. José, Santo António, Divino Salvador, Senhora da Conceição, Santa Luzia..., o seu contributo era indispensável.
Extremamente habilidoso - nos tempos livres, trabalhava, com uma pequena serra manual, a madeira como ninguém, conseguindo pequenos brinquedos em miniatura, de várias formas e feitios (roletas, rapas, piões, carrinhos...), que amavelmente oferecia às crianças mais carentes pela quadra natalícia -, eram dele as cascatas, dum gosto desusado, que se faziam, quase sempre, junto à casa das "Elvirinhas". Zézinho era um cascateiro emérito. Um pequeno génio inventivo. Das suas mãos surgiam maravilhas em forma de figuras.
Bairrista de gema, serviu com denodo várias colectividades e instituições locais. Em 30 de Novembro de 1890, foi um dos elementos que compôs o grupo de cidadãos que convidaram a freguesia para a reunião efectuada na moradia de Albino Augusto da Costa Torres, em S. Francisco, tendo em vista a criação da Associação de Socorros Mútuos Freamundense. Nomeada a comissão, fez parte da mesma.
Durante, aproximadamente, 30 anos, destacou-se como elemento activo nos diversos orgãos sociais da referida benemérita Associação.
Associação de Socorros Mútuos Freamundense
Foi, também, um dos fundadores da Assembleia Freamundense.
Cidadão que não se sujeitava à humilhação nem alugava consciências, revelou-se, na política, propagandista republicano, integrando, em 1895, a 1ª Comissão Municipal Republicana do Concelho, liderada pelo Dr. Leão de Meireles.
Na Junta de Freguesia, serviu vários mandatos como tesoureiro e vogal, sendo nomeado secretário/escrivão da mesma de 1927 a 1941.
Este simpático e empenhado bairrista, faleceu no dia 16 de Setembro de 1942, com 72 anos de idade, no estado de viúvo desde 3 de Dezembro de 1933, no edifício da Ordem Terceira de S. Francisco, Freamunde, onde residia sua nora Carolina Marques da Costa.
O funeral, onde se incorporaram dezenas e dezenas de freamundenses, traduziu-se numa cerimónia simples, como ele gostaria; discreta, como discreto ele soube ser em vida; sentida como a sua rara sensibilidade exigia.
O "Homem" que só pensava estar ao serviço dos entes queridos, da terra que o viu nascer, dos desprotegidos, mesmo depois de morto surpreendeu. No seu testamento deixou expresso que grande parte das suas economias, fossem distribuídas pelos indigentes da freguesia.
Em 1983, por altura das comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a Vila, o seu nome ficou perpectuado em placa toponímica: Rua Zézinho da Casimira (Começa na Rua Brigadeiro Alves de Sousa; Acaba na Rua Pintor Santa Marta).
Descerramento de placa toponímica pelo neto, Hermínio Pinto
JOAQUIM PINTO - BLOG FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Cecília "Loreira"

 UMA MULHER DE "VERDADE"
"A VERDADEIRA" BAIRRISTA
Filha de Miguel Moreira, natural de Sousela, e de Emília Nunes, natural de Freamunde, Cecília nasceu no mítico lugar da Gandarela.
O pai era pedreiro, a mãe, para compor o orçamento do lar, fazia broa de milho.
Esta e outras passagens da história caíram-me no colo, entre lembranças do antigamente. Já lá vão uns tempos, moravam as nossas famílias quase paredes-meias no "túnel" do Carvalhal.
Adolescente, sem saber ler nem escrever, eventualmente despertou paixões, sofreu, chorou a rudeza da vida para onde fora atirada bem cedo.
Cecília, diz quem com ela privou, não era um estafermo qualquer. Pelo contrário, exibia dotes físicos que facilmente seduziam os rapazes da freguesia.
O namorico com um membro da família dos "Loreiras", Vitorino Carneiro da Silva, pedreiro de profissão, espigadote, a caminho dos quarenta, logo deu em casamento, corria o ano de 1944.
Em 1958, já com 6 filhos para criar, Cecília passou por uma das maiores dores humanas ao perder o homem, vítima de síncope cardíaca. Residiam, então, a norte do campo do "Carvalhal", hoje rua 25 de Abril.
Tão nova e quase tudo havia confrontado: a infância e a adolescência difíceis, a morte prematura do marido, mas nada a inclinou à melancolia.
Forte, de mãos robustas e calejadas, com tantos filhos para sustentar, para os ajudar a bem crescer, não era gente para se deixar desencorajar e rapidamente percebeu que tinha armas para vencer as contrariedades do seu próprio destino. Nunca a condição de mulher a inibiu, num mundo dominado pelo poder masculino. O que a esperava, então? Canseiras, suor, paixão... Fez de tudo: calcorreou quilómetros, foi distribuidora de pão, vendedeira de fruta, eu sei lá!... Saiu vencedora, num período, pós II Grande Guerra Mundial, quando nas ruas se desmaiava (e alguns morriam) com fome. Sem as regalias de hoje: subsídios, cantina, refeitório, habitação camarária, rendimento de inserção, segurança social, médico de família... A sua vida, feita de honestidade e honradez, para justificar o nível que ostentava, não foi pois, um mar de rosas.
Cecília "Loreira" nunca se esforçou por descobrir um sorriso. Nem sequer, nos olhos, lágrimas de recordações de tempos dolorosos. Tornou-se um símbolo de força e determinação feminina.
Acarinhada e respeitada por tudo e todos, com a "casa" arrumada (filhos casados e com emprego), Cecília focou-se em vários ideais: amor ao próximo, disponibilidade, bairrismo... Festas ("asilou-se" na Cantina da Praça onde trabalhou, ajudou, desinteressadamente, com amor a paixão, os festeiros das Sebastianas, anos a fio), associações, futebol (uma ferrinha sempre presente nos incitamentos aos jogadores do "seu" S.C. Freamunde onde havia, para ela, a obrigação "patriótica" de jogar e ganhar. Então contra o Paços!... Os filhos, Orlando e Sacramento, também foram dos craques que pisaram o pelado do saudoso "Carvalhal"), em tudo se imiscuiu. Por Freamunde, apenas e sempre.
Cecília "Loreira" orgulhava-se de ser freamundense. Encarnava a mística, numa terra já liberal e democrata.
No dia 1 de Junho de 1995 calou-se a voz da bairrista verdadeira. Contava 68 anos de idade. Um pedaço de nós que partiu bem cedo. A sua última visão deve ter sido a de um céu sem nuvens, azul, muito azul. A cor de Freamunde. A cor que sempre lhe comandou a vida.
Fica aqui este pequeno tributo a uma MULHER simples, do povo, que, muitos de nós, ainda não deram conta da sua grandeza.
Evocá-la, agora, é ao menos impedir que fique para sempre no esquecimento. É tempo das pessoas não serem "julgadas" pelo seu estrato social e sim pelo seu carácter, altruísmo, determinação, bondade, freamundismo, neste caso... Entre a repulsa e a saudade, uma sugestão, apenas isso, vinte anos após o desaparecimento físico de CECÍLIA "LOREIRA": quando é que o poder local lhe atribuirá a mais que merecida lembrança na toponímia do burgo? Nem que seja numa simples quelha. É certo e sabido que ninguém é profeta na sua terra e a nossa, como muitas outras, eventualmente, o nada de fora estima, o muito dos seus despreza. É que não há assim tantas Cecílias "Loreiras" em Freamunde. Hoje passam quase anónimas.
OBRIGADO, CECILINHA
JOAQUIM PINTO - 1 DE JUNHO DE 2015 - FACEBOOK

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Cremilde Queirós - Uma mulher - Uma vida

Cremilde Augusta Neves Queirós nasceu em S. Cosmado, lugar e freguesia do concelho de Armamar, distrito de Viseu, no dia 8 de Agosto de 1916. Filha de Augusto dos Santos Queirós e de Emília Augusta das Neves.
Finalizou o Curso do Magistério Primário em 1935, em Lisboa. Começou a trabalhar como preceptora de uma jovem, numa casa particular, no lugar do Pinheiro, no concelho de Baião. Começou a trabalhar em Escolas Públicas no lugar de Ribeira, Vila Chã, no concelho de Amarante, de Fevereiro a Julho de 1938; de Novembro de 1938 a Julho de 1939, leccionou em Baldos, Moimenta da Beira, passando por S. Cosmado, sua terra natal, de Outubro de 1939 a Setembro de 1940.
De Outubro de 1940, a Setembro de 1943, deu aulas em Viariz, no concelho de Baião, onde passou a efectiva. De Outubro de 1943 a Setembro de 1946, leccionou nas Alcáçovas, no concelho de Viana do Alentejo.
A partir de 1 de Outubro de 1946 até à sua aposentação em 17 de Setembro 1983, leccionou no Ensino Público em Freamunde, sendo que, como Directora da Escola Feminina, desde 7 de Novembro de 1949, data da posse.
Tempo de trabalho como professora: 45 anos, 6 meses e 13 dias, no Ensino Público.
Em Freamunde, casou com Rogério Monteiro no dia 15 de Março de 1951. O casal teve quatro filhos - Ângelo, Rogério, Madalena e José Luía. No dia 28 de Dezembro de 1972, morre o seu filho Rogério, vítima de trágico acidente, com mais dois amigos na curva que hoje é designada por "Curva dos Três".
Em 15 de Março de 2001, o casal, comemora as Bodas d'Ouro.
Em 1975 foi registado este instantâneo (em cima). A curiosidade desta foto reside no facto de um menino que não chegou a conhecer o pai e foi acolhido aos cinco meses pelo casal Monteiro, tendo partilhado o quarto até aos cinco anos, e vivido nesta casa até à idade de constituir família, aqui sorridente, era, e é, mais um "irmão". Assim, temos no passe-partout o filho Rogério, que já não se encontrava, infelizmente entre nós, vítima de trágico acidente, no dia 28 de Dezembro de 1972, com mais dois amigos na curva que hoje é designada por "Curva dos Três", o Francisco com o seu infantil sorriso, extravasava alegria com o braço por cima do "irmão" José Luís, a filha Madalena, muito bem disposta, a nossa homenageada D. Cremilde, com o braço apoiado na sua querida nora Lígia e o seu filho Ângelo.
UMAS QUANTAS REFLEXÕES E MEMÓRIAS DA MINHA VIDA DE PROFESSORA...
Ontem, num ontem de há mais de meio século, mas tal como hoje, escolher, como actividade profissional, o Ensino Primário, ou o Ensino no Primeiro Ciclo do Ensino Básico, como hoje se diz, apesar de ser sempre o Primeiro e o Primário, é uma opção que se toma muito cedo e nunca a meio da vida ou de uma carreira profissional, o que tem significações profundas, comigo, assim mesmo aconteceu.
Ao iniciar a minha vida de Professora Primária, o número de Professoras, e digo Professoras porque, tal como hoje, o ensino primário, ou básico, era ministrado, quase a cem por cento, por mulheres.
Apesar de nessa época também ser menor o número de alunas, houve anos em que tive turmas de cerca de 60 crianças, distribuídas pelas quatro classes de então, isto é, da 1ª à 4ª classe (a obrigatoriedade da 4ª classe, e respectivo exame, só ocorre alguns anos mais tarde, quando começa a generalização da maquinaria industrial, cujo manejo exigia a leitura de manuais de instruções).
Nesse tempo, e ainda hoje acontece a muitas colegas, fui leccionar para muito longe de casa, ao longo de vários anos, o que implicava, como alojamento, um quarto numa casa particular, (quando havia quem se dispusesse a receber uma professora em casa), até porque os salários eram bastante pequenos e não havia qualquer outro tipo de alojamento possível fora das cidades de então. As desvantagens pessoais que representava, e representa ainda, a deslocação para longe de casa, transformavam-se, não raras vezes, em facilidades de relacionamento no seio das comunidades de então.
De facto, a Professora ia adquirindo o estatuto de amiga, a quem se recorria para ler algo mais complicado ou, tão somente uma carta.
A preparação académica das Professoras Primárias, bem como o ensino que ministravam às crianças, contibuía para a aquisição de um estatuto de autoridade, baseado no saber que detinham e no conhecimento que transmitiam, de par com o respeito que lhes era tributado.
Naturalmente, não devemos esquecer que a taxa de analfabetismo era bastante mais elevada do que hoje; bastará recordar que, durante muitos anos dei aulas a adultos, enquadradas num sistema apoiado pelo Estado.
Por outro lado, não esqueço que conhecia quase toda a gente das terras onde leccionei e, em relação à última, que como sabem, foi Freamunde, conheci ainda gerações sucessivas de alunas, que, com o passar dos anos se foram transformando em mães de novas alunas.
Num país tão rural como era o Portugal de grande parte do meu tempo de Professora e a dar os primeiros passos na industrialização, com salários baixos e famílias numerosas, as crianças foram, muitas vezes, usadas como apoio à família fosse nas tarefas domésticas, fosse nas lides do campo ou com o salário das fábricas; muitas vezes, foi a autoridade da Professora que impediu a saída da escola ou as fez regressar, mais do que o recurso, permitido por lei, à autoridade da Guarda Nacional Republicana.
Ao olhar para trás, para a minha actividade como Professora, não deixo de sentir que, também, fui um pouco "mãe" de muitas filhas, com algum prejuízo dos meus próprios filhos, que tinham em casa uma Mãe a tempo parcial, só depois de ser "mãe" de muitos outros; não substituí as mães e os pais, mas fui (fomos e somos), para além de Professora, um prolongamento da família, ora mais "mães", ora mais "pais", num tempo em que as mães tinham mais tempo para dedicar às crianças.
Recordarei para sempre, tal como muitos dos presentes, as palmatórias, as réguas, as canas de bambu...tal como recordarei a dor das palmadas, repartidas com a minha mão...mas, também recordarei sempre, e aqui com imensa alegria, frases que tantas vezes ouvi, anos mais tarde, sobre si ou sobre as filhas:
"Senhora Professora, se acabei a Escola, à Senhora devo."
"Senhora Professora, não se preocupe; só foi pena as que caíram ao chão."...

Cremilde Augusta Neves Queirós - 18/01/1998
TEATRO - UMA GRANDE PAIXÃO

O gosto pelo Teatro, pela poesia, pela música e outras manifestações artísticas não passaram ao lado desta mulher de grande têmpera, dura, disciplinada e simultaneamente dócil.
Freamunde reunia todas as condições, para além do seu Rogerinho, para se sentir realizada.
Foi organista, valorizando as liturgias. Preparou as crianças para os saudosos "19 de Março" nos aniversários da Associação de Socorros Mútuos Freamundense nas récitas e representações ali apresentadas. Chegou mesmo a encenar a Fantasia Infantil "Maria Migalha" de parceria com Maria José Machado Pereira, sua colega e ex-aluna e o experiente Fernando Santos (Edurisa, Filho).

AS CRIANÇAS NA ESCOLA E NO PALCO

Com a perseverança que é apanágio das pessoas bem formadas, os encenadores que montaram este espectáculo, todo ele, e já lá vai meio século, é recordado como um grande êxito. A professora Cremilde Queirós teve papel relevante na encenação.

TEXTO DE APRESENTAÇÃO DO PROGRAMA DAS SEBASTIANAS'95

As nossas "Sebastianas"
São um mundo sem igual.
Orgulho de Freamunde
Encanto de Portugal.

É assim. São assim as tradicionais Festas da Vila "As Sebastianas" em honra do Mártir S. Sebastião, que em simultâneo, o veneram e dão a Freamunde uma animação, uma alegria e muito, muito calor humano.
Umas se acabam,...e logo outras se começam a preparar, pois é necessário trabalhar muito para que se consiga um novo êxito e aqueles que nos visitam, possam afirmar convictos: estas são as Festas a que não podemos faltar anualmente.
E a vila, a mais populosa do concelho, rica em cultura e trabalho, possas recebê-los com a lhaneza que lhes é habitual. Realizam-se estas Festas anualmente no segundo fim de semana de Julho e se não esquecer o calendário, temos a certeza que enquanto Deus lhe der vida e saúde, não faltará, nesta data, à Grandiosas Festas "Sebastianas".
"PEDAÇOS DE FREAMUNDE"

A Professora Cremilde Queirós foi homenageada pela Associação Cultural e Recreativa Pedaços de Nós, em Julho passado, nas IV Jornadas de Reflexão e Saudade, na Semana Cultural das Sebastianas'10, com a Exposição Documental "Cremilde Queirós - Uma Mulher - Uma Vida".