"ARES DE FREAMUNDE" - "PERFIL DA SEMANA"
«Bati
esta chapa», em dia quente, com o ar completo de zumbidos, manhã
festiva, sob um sol de oiro. Foi numa manhã primaveril, estava a
Natureza em festa. Hoje, o colega aqui ao lado acotovela-me para que a
fotografe, de novo. São ordens, e elas cumprem-se, tanto mais que, em
honra de Santa Luzia, não deveria ficar mal, e os meus poucos leitores
me saberão perdoar.

Oh! Não
estou arrependido! Lá está ela na mesma! Bonita, como sempre! Mais leve
que os sopros outoniços não perdoam as suas rendas. Continua
inalterável, aguardando a chegada dos planos de URBANIZAÇAO, já tão
cheios de teias de aranha. Sim, ela quer vestir o seu vestidinho novo,
que ela já bem o pagou, e pôr de lado aquele que a gente vê cheiinho de
remendos. Merece-o, merece-o bem. Os seus pais querem-ma bem
arranjadinha, mas..., o que é certo é que ele não vem mais. Assim, está
muito pobrezinha, o seu vestido deixa-a ver as formas elegantes, mas já é
muito antigo, muito velho. Se nos outros, como está causa inveja, a nós
mete-nos dó. Estes remendos costumeiros, como dados a pobre que vai
desdenhar a esmola, em nada alteram a sua beleza. Ficam como um adorno
que se põe a um canto com a ideia de não mais se lhe tocar. Não é isto
que ela precisa. Mas, bonita, cheia de saúde vai resistindo sempre,
sempre. Confia num esperar que não acaba mais. E ninguém se amerceará
desta pobre, antes que ela caia enferma!? É tão lento o seu caminhar que
os que por ela têm trabalhado, perto e longe, parece não chegarem a
vê-la com o seu vestidinho de chita que o seu abençoado suor comprou.
Que importa, se, mesmo pobrezinha, abandonada, desprovida do que lhe
pertence, os freamundenses lhe querem tanto?
Fotógrafo barato (Gil Aires)
Gazeta de Paços de Ferreira - Páginas 3 e 4 - Nº 35 de 10-12-1952
O MERCADO EM FREAMUNDE
Na "Monografia do Coronel Barreiros",
foi descrito como nasceu em 1720 a célebre feira dos treze, por
concessão do rei magnânimo e a requerimento dos povos de Aguiar de
Sousa, Sobrosa e Freamunde, este com a sua confraria de Santo António;
assim como se faz resumida alusão à influência que esta feira teve no
aumento do perímetro da freguesia pela fundação e pelo povoamento
sucessivo de mais um lugar onde antigamente nada mais havia do que uma
grande devesa de carvalhos e azinheiras.
Já na
petição a que os povos a pediram, se solicitara também a sua efectuação
em 27 de cada mês; por essa altura, a provisão régia, todavia, apenas se
referiu a uma feira nos dias 13 de cada mês; veio depois, consentimento
para se prolongar pelo dia 14 de cada e, mais tarde, sob D. João VI, a
importância da freguesia incrementou ao ponto de a Confraria de Santo
António e o povo requererem a concessão doutra feira, a realizar no dia
27 da cada mês, o que foi concedido por provisão régia.
Daqui a
origem da feira dos 27, tendo Freamunde ficado, desde 30 de Julho de
1800 em diante, a efectuar, no mesmo local da dos 13, a nova feira dos
27. Foi esta provisão a que autorizou o prolongamento da feira dos 13
até durante os dias 14.
A
construção de um MERCADO era urgente. Fazia parte de um plano de
realizações entravado por questão melindrosa, tendo a comissão
concelhia concedido que a Confraria de Santo António, para evitar que
uma litigiosa acção de expropriação dos terrenos da devesa da feira, em
que o município seria autor, lhe concedesse todos esses terrenos, o que
implicou a perda dos direitos de cobrança dos assentos das feiras.
Remediado
o problema, foram de imediato derrubadas as barracas permanentes que a
confraria de S. António havia posto e removidos os muros de pedra que a
mesma confraria mandara fazer para os mercadores exporem as suas
fazendas.
Só na
sessão de 17 de Julho de 1889, a Câmara aprovou as condições para
arrematação do mercado, a qual se efectuou a 7 de Agosto e o mercado
ficou em condições de servir o público em 1890.
Tinha o
mercado a forma dum pentágono quase regular, em terreno aberto, com
telheiro coberto a chapa zincada e dispostos nos lados NW, N e parte de
NE, balcões de pedra sob o telheiro de zinco. A largura deste telheiro
era de 3 metros. No interior havia duas pequenas placas, cobertas também
por chapa zincada e o restante da área era aberta e arborizada. A
superfície total do mercado orçava por 600 metros quadrados.
Contudo,
o mercado precisava de água que o abastecesse. Precisava-se de
benemérito. Não demorou muito. Alexandrino Chaves Velho, sempre ao
serviço da "sua" terra", ofereceu a tão ansiada água à Câmara para
abastecimento do mercado. O povo freamundense (sempre o povo!), grato a
quem servia e lutava desinteressadamente pelo progresso e bem estar da
sua terra, preparou para o dia da inauguração (16-4-1896) enormes
festejos, com música, foguetes e embandeiramento.
Depois,
como escreveu alguém desta terra (ROM) no jornal "Fredemundus" (1991),
«Com mais ou menos cem anos, a Praça caiu empurrada pela buldózer e
pelas rectro-escavadoras. Uns choraram a sua derrocada, outros
alegraram-se com ela. Contradições da vida, ou não fosse a vida um jogo
de contradições.
O grupo
dos seus defensores desejava a sua permanência no tempo e no espaço,
porque ela era um dos elementos da identidade de Freamunde. De facto,
não se lhe podia negar um certo valor histórico. Ela nasceu e foi parte
constituinte do período mais florescente de Freamunde. Só mais tarde
adquiriu uma função diferente da inicial, mas de igual importância, uma
multiplicidade que começou na transacção comercial, que assumiu o
lúdico, acolheu o político, expôs cultura, ofereceu uma varanda para nos
vermos a nós próprios.
Não houve, contudo, passado lendário. Ela não o teve. Surgiu, apenas, de uma necessidade económica
Depois,
sim, pela localização e característica de recinto vedado, propício a
diversas manifestações ao ar livre (As Sebastianas agradeceram),
tornou-se um ponto de encontro de massas, num local de convergência. É
por isso que nós, freamundenses, os de antigas gerações, continuam a
ver na Praça um livro de memórias.
O outro
grupo que ficou alegre com a sua demolição, que apostava na renovação,
eventualmente já terá torcido o nariz! É verdade que o novo em algum
momento substitui o velho. É uma lei da vida, e a Praça não podia
furtar-se a esta lei eternamente, por isso caiu. Velha, suja, rota com
rugas e chagas. O importante era que não caísse ingloriamente, como foi o
caso. Foram cortados os laços sociais e sentimentais que unem e dão
espírito ao nosso povo.
Contra
factos não houve (?) argumentos e a PRAÇA, no dia 16 de Julho de 1991
(Há 25 anos, portanto, tinha acabado, eu, de pertencer à comissão de
festas Sebastianas), foi "invadida" pelas máquinas e..."finou-se". Para
todo o sempre.
Nasceu o
novo Centro Cívico mas, lá diz o ditado, "quem nasce torto, tarde ou
nunca se endireita". Nem com pequenos remendos. O Centro Cívico,
passados tão poucos anos, vai ser sujeito (tudo aponta para isso) a uma
"operação" delicada, baseada num diagnóstico profundo sob supervisão de
cirurgião competente. Assim esperamos.