
QUADRAS SOLTAS
--Somos "capões", sim senhor!...
A natureza, a brincar,
tirou ao galo o melhor
pô-lo no dono a dobrar...
--Cá tenho as minhas razões
(ou eu não fosse mulher...):
vendo pra fora os capões
que em casa ninguém os quer...
--Somos pobres saltimbancos
exibindo tradições:
no peito, um par de tamancos,
na boca, um par de capões.
--Se vais partir, não te esqueças
(disse meu velho, entre abraços):
"mete" capões nas conversas,
"pinta" de azul os teus passos.
--Pintei a nossa bandeira.
Meti um fundo azulão.
Pus um tamanco, a palmeira,
no centro, um grande capão.
--Meu estilo é popular.
Sem ser Quim Bica ou Rodela,
eu sei "pintar" e "cantar"
as gentes da Gandarela.
--"Cultura, trabalho e paz",
poema azul, nosso rumo.
Um povo hmilde que faz
da vida um fio de prumo.
--Quando a varina, a cantar
solta o pregão na viela,
traz na canastra a bailar
pedaços da Gandarela.
--Agrelo, daquele abraço,
que à noite nos viste dar,
resta no ventre um pedaço
de uma noite de luar.
--Se um incauto forasteiro
tua bica for beijar
Agrelo, se for solteiro
tem sede de cá morar.
--Não resisti a provar.
Agrelo, tanto bebi
que não bastou cá ficar:
já digo que sou daqui...
--Sorva a água gota a gota.
Verá que a fonte o confunde:
quanto mais bebe, mais nota
ter sede de Freamunde.
--O Freamunde, à cautela,
(esconjurando a má sorte...)
usa uma bola amarela
que o pontapé sai mais forte.
--Emigrar - sonho dourado!...
Vim descobrir, afinal,
que o tão sonhado eldorado
vai da Calçada a Leigal.
--Adoro o bombo a rufar,
o cortejo, a procissão.
Mas tenho que confessar:
o fogo é a minha paixão...
--Já foi do Mártir, outrora.
Festas da Vila, eu sei lá...
Sebastianas, agora,
Sempre a melhor, amanhã...
--Cortejo cheio de graça,
vacas de fogo a granel,
um caldo verde na praça,
valente sessão de mel.
--Carros, cestas, carrocel,
poço da morte, aviões.
A marcha, o fogo e o mel...
...um vendaval de emoções.
Fernando Lacerda - Alma Freamundense