ÚLTIMAS PALAVRAS
Este ciclo de anedotário teatral foi aberto com um dito de um dos nossos maiores humoristas cujo nome permanecerá sempre gravado a letras de ouro na história do Teatro Português: André Brun. Pois é dele, outra vez, a piada de hoje; e está espantosamente definidora do elevado espírito humorista que possuia, se atendermos a que foi proferida poucas horas antes de morre e numa situação angustiante e trágica.
André Brun morreu bastante novo - 39 anos, se não me engano. Uma doença pulmonar, que hoje se cura com relativa facilidade mas que na sua época era, quase sempre fatal, roubou ao Teatro e à Literatura Portuguesa um notável escritor que muito ainda nos teria a dar e a transmitir.
No seu leito de doente, o autor dessa admirável "Malta das TRincheiras", de "Os Meus Domingos", das notas sobre a "Sra. D. Aninhas" ( a sua filhinha idolatrada) e de tantas maravilhas literárias que criminosamente muitos desconhecem, André Brun esperava a hora final. As visitas estavam proibidas. Mas um amigo houve que ainda o queria ver. Impossível: ordens médicas o impediam. O amigo chorou, insistiu...Lá o deixaram entrar: já agora, se nada havia a fazer, se já tudo e todos estavam desenganados e resignados...Lá lhe abriram a porta...De chapéu na mão, muito a medo, silenciosamente tentando desvanecer o semblante de sincero pesar que o compangia e ensaiando um falso sorriso, o amigo lá penetrou. Habituando os olhos à semi-obscuridade do quarto, descobriu, lá ao fundo, o leito onde o príncipe dos nossos humoristas parecia dormitar...Para ali se atreveu dois curtos passos e aventurou-se a quebrar o sereno silêncio ambiente:
- "Então, André?...Como vais?..."
André Brun abriu os olhos com algum esforço, reconheceu o amigo, sorriu-lhe tristemente agradecido pela visita e disse-lhe cheio de resignação:
- "Olha! Devo ir de fato preto e de sapatos de verniz!..."
Julgo que ainda morreu nesse dia.



