terça-feira, 19 de março de 2013

S. C. Freamunde - 80 anos

ÉPOCA 1980 / 1981 
COMPLEXO DESPORTIVO EM SITUAÇÃO DE IMPASSE
O Sport Clube de Freamunde apresentava “palmarés” mas sem estruturas condignas. Não era, todo por todo, necessário viver de forma opulenta, mas assim também não…
Precisava-se de um parque de jogos que reflectisse melhor o estatuto, a grandeza do clube que não podia esquecer o futuro.
O “Carvalhal” estava condenado como espaço para jogos oficiais, dada a sua exiguidade e impossibilidade de alargamento.
Em finais da década de setenta, “picado” por amigos do “Recreativo” que nele viam a figura ideal para liderar o processo, José Maria Taipa seria eleito, em Assembleia Geral Extraordinária de 26 de Outubro de 1977, para presidir à Comissão de Obras P’ró Estádio, fazendo-se secundar pelos Vice Abílio Carlos Pinto Felgueiras e Adriano Antero Leitão Soares; Tesoureiros Luís Alberto Gomes Teles Menezes e Abílio Fernando Pinto Leal; Secretários Vitorino Ferreira Ribeiro e António Costa Alves; Vogais Agostinho Ferreira Leal, António Luís Leão Costa Torres, Anselmo Ferreira Marques e Domingos Ribeiro Alves.
Um grande empreendimento só o merecia um grande clube, que para ser grande precisava de gente com capacidade, interessada e diligente, de muitos e bons sócios. O futuro não poderia estar hipotecado nas mãos de qualquer um.
Garantidos os terrenos, logo outorgados, numa zona arborizada, bonita, iniciaram-se os trabalhos de terraplanagem e a implantação dos esgotos. O projecto, da autoria de J. Carlos Loureiro e L. Pádua Ramos, arquitectos com gabinete na Rua da Alegria, cidade do Porto, tinha custado trezentos contos. Ganhava forma o complexo desportivo que, para além de um espaço relvado onde se praticasse o futebol, deveria obedecer a outras infra-estruturas, capazes de rentabilizar o investimento e proporcionar o lazer e confraternização entre os adeptos – piscinas, pavilhão, pista de atletismo, circuito de manutenção, parque infantil, campo para hóquei, basquetebol e andebol de sete, “courts” de ténis, restaurante…
Porém, orçamentos incomportáveis e falta de senso no problemático caso da venda do “Carvalhal”, inviabilizaram parte do “sonho”, pelo que o projecto, na sua globalidade, não passou do papel.
Para agravar a situação José Maria Taipa iria ficar sozinho pois, à excepção de Vitorino Ribeiro, em quem depositava uma confiança ilimitada, todos os restantes elementos se afastaram.
De repente a obra parou. Ou melhor, pouco evoluiu.
As “partes” entraram em conflito, caprichos atrás de caprichos, e seria necessário esperar dez anos para que tudo recomeçasse.
Bilhete sorteio P'ró Estádio
A COMPRA DA “TOYOTA”
Um grande esforço financeiro para uma colectividade que via entrar nos cofres pouco dinheiro. Os sócios – 1.600, aproximadamente – apenas pagavam entre 25$00 e 50$00 por mês.

Valeu-lhes o apoio da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, manifestado na concessão de dois subsídios: um, como anteriormente, no sentido do normal funcionamento do clube; o outro, substancial, para a aquisição de uma carrinha para o transporte dos atletas – Toyota Dyna TM-63-18, adquirida por um preço de 1.746.668$50.

EQUIPA TIPO 1980 / 1981
Serafim, Fernando, Mendonça (Américo), Viana I e Domingos; Martinho, Coelho e Pinto; Agostinho, Rui e Laurindo.
Outros mais utilizados: Sousa, Luís, Leão, Machado, Viana II, Abel, Tadeu, Ramalho, Clemente, Pereirinha, Ribeiro, Ramiro, Faria, Peixoto, Leonel, Filipe, Jorge e José Carlos.
EQUIPA:
Em cima: Serafim – Américo – Martinho – Ramiro – Pinto – Laurindo
Em baixo: Agostinho – Rui – Coelho – Fernando “de Lousada” – Mendonça

 EQUIPA TIPO 1981 / 1982
Rui, Viana I, Leão, Zeca e Fernando; Barreira, Vitor e Viana II; Agostinho, Laurindo e Abreu.
Outros mais utilizados: Serafim, Luís, Martinho, Afonso, Carrega, Coelho, Ramiro, Vilar, José Carlos, Filipe, Paulo, Pinto, Pereirinha, Estevão, Batista, Américo, Jorge e Leonel.
EQUIPA: 
Em cima: António Alves – Laurindo – Pinto – Abreu – Leão – Zeca – Martinho – Daniel Taipa
Em baixo: Agostinho – José Maria Viana – Rui – Barreira – Fernando Viana

Camioneta pejada de adeptos para o jogo do título
ÉPOCA 1982 / 1983
EXALAVA UM PERFUME DE…VITÓRIA
O campeonato principiou com um clássico: Freamunde e Aliados esgrimiram forças na “Parteira”, perante um mar de gente, saldando-se o resultado num empate a uma bola. O golo dos “azuis” foi da autoria de Ramalho.
Vá lá…vá lá…Para começo, nada mau.
Seguiram-se algumas vitórias, aqui e ali uma derrotazita, mas…nada que barrasse o caminho a percorrer.
Apenas em Lever – vitória por 1-0, com golo de Fangueiro – aconteceu “borrasca”. Sem árbitros oficiais, a assistência local, delirante e arruaceira, não respeitou o trio recrutado na assistência e o jogo descambou para a violência, dentro e fora de campo.
A falta de vedação, habitual em quase todos os recintos, não punha os jogadores ou árbitros a salvo de comportamentos animalescos. 
Da refrega, saíram seriamente lesados Zeca, agredido selvaticamente, sem bola, a murro e a pontapé – acabaria transportado de urgência ao hospital de S. João onde foi assistido a uma fractura do maxilar – e Laurindo, com um hematoma bem visível junto ao olho esquerdo. 
Ah! Também em Custóias houve atritos. Um “penalty” assinalado pelo árbitro Aires Filipe, a escassos minutos do fim, contra os locais, fez regressar a indisciplina. Efervescência e apupos marcaram o final do prélio. O homem do apito foi insultado “abaixo de cão” e os seguidores “azuis” viram-se obrigados a escalar o muro numa fuga desenfreada à ira dos descontrolados adeptos do clube da casa.
No termo da primeira volta o Freamunde liderava, seguido de perto pelo Oliveira do Douro. Em dezanove jogos o clube do “Carvalhal” apenas tinha cedido duas derrotas ( 0-1 em Rio Tinto e 2-3 no Oliveira do Douro) e quatro empates.
A campanha continuava ao rubro. Porém, as constantes e inoportunas lesões vieram prejudicar a dinâmica do grupo que se viu ultrapassado.
Os gaienses do “Oliveira” – chegaram a usufruir da vantagem de sete pontos – e os maiatos do Castelo incomodavam, e muito. Despachar, quanto antes, a concorrência era de todo importante.
Os embates contra os “inimigos” realizaram-se, num espaço de quinze dias, no “Carvalhal”, completamente encharcados pela chuva diluviana que caiu, mas repleto de entusiastas, indiferentes ao estado do tempo.
O Freamunde sobreviveu aos duros testes e ultrapassou dois difíceis obstáculos, ambos pela mesma marca ( 1-0 ), rumo ao objectivo pretendido.
O campeonato passou a ter um novo “patrão”.
Na penúltima jornada, o jogo com o lanterna vermelha, Custóias, fez o “Carvalhal” transbordar. Cheirava a título. O retorno à III Divisão Nacional estava ali, pertinho, mesmo à mão de semear.
Os golos não tardaram a surgir. As invasões de campo, pacíficas, sucederam-se quase…minuto a minuto. Por dez vezes, tantas quantos os tentos obtidos. Houve loucura no final. Os atletas foram despidos de tudo quanto fosse camisola, calção ou meias. Troaram foguetes no ar. Champanhe correu com força. Mas…cuidado, muito cuidado! Afinal de contas só era promovida uma equipa. A última jornada iria definir, por completo, a situação.
Os candidatos achavam-se separados apenas por três pontos.
Nada que arrefecesse os ânimos. A continuidade da “festa” ficou logo com data marcada. Para oito dias depois, em Gaia.
O Sport Clube de Freamunde estava em plena comemoração do ano do cinquentenário e queria a todo o custo brindar a idade e os seus associados com a conquista do campeonato.
Para “Soares dos Reis” – o reduto do Coimbrões estava interdito – partiram os adeptos freamundenses à procura do sonho, palpitando-lhes no coração quentes luzes de esperança.
Uma jornada esperada com evidente ansiedade e vivida minuto a minuto.
 Invasão pacífica no final do jogo do título, Freamunde / Coimbrões
As camionetas – tantas, meu Deus, Tantas! – transportavam carradas de adeptos de todas as freguesias do concelho. Um ritual que começou bem cedo. O “Candeeiro” sorria. Tagarelava como ele tão bem sabe; alto e bom som. Pois!...”S. Miguel” deste não aparece todos os dias. “Moni”, seu companheiro de luta, mais sereno, contava, um por um, os clientes.
A ponte foi atravessada calmamente. Gaia vislumbrava-se ao fundo.
14.00 horas. O “parque” já apresentava uma moldura humana impressionante, a deitar por fora. Gente e mais gente continuava a entrar. O azul imperava.
Para o “homem das bandeiras” – alto, magro, só pele e osso, bigodinho à “Errol Flynn”, boné na cabeça, faces queimadas pelas agruras da vida – era ocasião única. «Trouxe mais de duzentas e já as vendi todas» - rejubilava.
Abriam-se as “sombrinhas” – azuis e brancas, pois claro…- porque o sol era tórrido, abrasador.
Até Arnaldo Brito, 91 anos de idade, velha e carismática figura desta vila, marcou presença! «Podia lá eu deixar de vir! Era o que faltava! Não quero morrer sem gozar de novo o meu Freamunde campeão».
Cá fora os “candongueiros” faziam pela sua vidinha.
14.40 horas. O desafio aproxima-se do seu início.
Entram as equipas. O Freamunde apresenta-se assim constituído: Guilherme, Vilar, Júlio, Zeca e Fernando; Mário, Bites e José Carlos; Ramalho, Fangueiro e Laurindo. (Com o decorrer do desafio, Viana I e Dé haveriam de substituir Júlio, por lesão, e Laurindo).
Os corações batem aceleradamente. O árbitro apita. Abrem-se as hostilidades. O jogo desenrola-se a um ritmo alucinante, intenso, frenético. O Coimbrões não é nenhum coitadinho, não senhor. Dá imenso que fazer. Se perder desce de divisão.
Os minutos avançam. Nada. A angústia apodera-se dos freamundenses. Aos 71 minutos, de um livre apontado por Bites, Mário, em lance espectacular, faz o golo que seria o da vitória. As bandeiras voltam a tremular. O ambiente, pintado de azul, é contagiante. Todos acreditam que será outra vez a hora. E foi…
Soou o apito final. 1 – 0 chegou  para a subida à 3ª Divisão Nacional. A comoção foi a nota dominante e as lágrimas, imensas. Para os freamundenses, de júbilo, para os homens do Coimbrões, de tristeza.
Água, cerveja, sumos, tudo o que fosse líquido inundava as gargantas sequiosas.
A invasão de campo, pacífica, foi inevitável. Os jogadores tentaram escapar à multidão. A fuga tornou-se impossível. Não resistiu um só pedaço de camisola.
As vicissitudes deste encontro jamais irão varrer-se  da memória daqueles que tiveram a felicidade de o presenciar.
Zeca era a imagem da felicidade. O suor corria-lhe, em bica, pelo rosto. «Estou radiante, trabalhámos muito durante a época para conseguirmos este título. É Freamunde inteiro que está de parabéns. Fomos campeões por obra e graça do talento de um punhado de valiosos jogadores e pela acção, extraordinária, do presidente e seus colegas de direcção».
Tamanha glória emudeceu os “críticos”. Os factos sobrepõem-se a tudo o resto. Mesmo quando não se gosta. Zeca igualou um registo de sucesso só ao alcance de um restrito leque de outros treinadores (3) que passaram pelo Freamunde, colocando o seu nome no galarim dos técnicos campeões.
Armando Teles não cabia em si de contente: «Quero agradecer a todos os que confiaram em mim, desde o primeiro dia em que assumi a presidência. Foi a vitória da humildade mas também da classe dos nossos jogadores. O Sport Clube de Freamunde volta, com todo o mérito, para o lugar que merece».
O POVO SAIU À RUA
O regresso foi apoteótico. O centro da Vila estava pejado de entusiastas, fraternalmente abraçados, para saudar e vitoriar os campeões.
Subia estrondoso foguetório, que se confundia com o estoirar das rolhas do generoso espumante. Os Zés Pereiras tocavam afanosamente os seus bombos. Finalmente chegavam as camionetas. Era ensurdecedor o seu constante buzinar.
Bandeira na mão, coração aos saltos, Cecília “Loreira” – mulher d’armas esta saudosa freamundense – dava vivas ao seu clube. «Já somos campeões, “carago”! Já cá canta! Mas nem queira saber o que sofri! Tremi como varas verdes durante todo o jogo. Olhe, irei a Fátima, como prometi, mas…não é para já, “Senhora” me perdoe. Agora vou descansar».
Taça de Campeões Distritais
CLUBE E VILA IRMANADOS NO MESMO SENTIMENTO
O povo continuava a dançar alegremente. Nada que lhe perturbasse a alma. A “festa” fazia-se na rua. À toa. Caprichosamente, Freamunde comemorava as bodas de ouro da sua elevação a Vila. Ali estava o seu clube do coração a prestar a homenagem à Terra.
Dias após sucederam-se outras manifestações: imposição de faixas e festa/convívio, no recinto da Praça, para todos os associados e simpatizantes.
 EQUIPA TIPO 1982 / 1983
Guilherme, Fernando I, Júlio, Zeca e Fernando II; Mário, Bites e Ramalho; Dé, Fangueiro e Laurindo (Ernesto).
Outros mais utilizados: Serafim, Luís, Viana I, Vilar, José Carlos, Agostinho, Viana II, Filipe, Baptista, Leandro, Paulo e Netinho.
Equipa (com faixas):  
Em cima: Daniel Taipa – Fernando II – Costinha – Fernando Leal – Jorge Ribeiro – Serafim – Baptista – Luís – José Maria Pinto – Guilherme – Leandro – Agostinho – Armando Teles – Júlio – Fernando I – Manuel Mendes – Fangueiro – Zeca – Mário – Ramalho – Amaro Martins – António Moreira Alves – Vieira da Silva
Em baixo: Paulo – Nelinho – Filipe – Dé – Fernando Viana – Ernesto – José Maria Viana – Vilar – Bites – José Carlos – Laurindo – Fernando Neves – Baltazar Santos – Maximino “Candeeiro” – Joaquim Cardoso
FORMAÇÃO
Ribeiro sonhou e…nasceram os “Infantis”. «Tive a apoiar-me, desde o primeiro minuto, os amigos Joaquim Pinto e Luís Rego. Da Direcção, o entusiasmo foi nulo. Só com muita carolice, empenho e dedicação conseguimos levar o projecto pr’á frente. Do clube apenas nos foi concedido o balneário, quando liberto, o rectângulo de jogo e a carrinha, desde que disponível.
Com uns sorteios realizados, a colaboração de alguns bons freamundenses e a nossa “teimosia”, juntámos uns “tostões que nos possibilitaram inscrever a equipa, adquirir equipamentos completos – “chuteiras” incluídas – e respectivas saquinhas individuais, toalhas, fatos de treino e bolas. A minha mulher era a roupeira de serviço – trabalho desenvolvido de forma gratuita, como é bom de ver…- e o meu filho Rui o engraxador das botas. O próprio gás para o banho retemperador, a cal para a marcação do campo e o combustível para a viatura, eram e expensas nossas. O clube só nos concedeu o “nome”. Mais nada.
No final ainda sobraram uns trocos para o jantar-convívio, onde se incorporaram os “miúdos”, os “fundadores” – acumulávamos todos os cargos, desde treinadores, dirigentes, massagistas a marcadores de campo - , e alguns colaboradores e amigos, sobretudo o “samaritano” Toninho Torres.
Desportivamente a campanha foi bem sucedida, alcançando a equipa a fase final da prova».
Equipa de Infantis: 
Em cima: Ribeiro – Toninho – Rui – Vilar – Raul – João Carlos – Vitor – Jorge Humberto – Álvaro
Em baixo: Taipa – Adriano – Antero – Artur Agostinho “Cancela” – Quim Zé – Rui Neto – Abílio – Agostinho
VOLEIBOL….SOL DE POUCA DURA
O clube procurava estender o ecletismo. Pensou-se – pensou, deslumbrado, o Toninho Correia – no Atletismo mas só vingou o Voleibol. Por pouco tempo, diga-se. Um ano bastou para que todo o entusiasmo dos seus seccionistas se esfumasse.
A sementeira, para novas modalidades, ficou lançada. Até hoje…
Festa de homenagem a Martinho
A “FESTINHA” DE MARTINHO
No primeiro dia do mês de Maio de 1983, os freamundenses homenagearam Martinho pela grande dedicação ao clube, demonstrada ao longo de quinze anos de actividade desportiva com o emblema do Freamunde ao peito.
Martinho exibiu-se, nos palcos da bola, de uma forma séria, rigorosa, pendular. Jogava sempre nos limites. Por vezes, o que lhe faltava em inspiração sobrava-lhe em espírito de missão. Varria tudo o que havia para varrer na intermediária, dando enorme confiança e tranquilidade aos colegas da retaguarda. Um mouro de trabalho. Cativava pela disponibilidade e capacidade mobilizadora. Martinho foi um servidor dedicado do futebol. Foi bom o modo como se viu rodeado de carinho e apreço por colegas e adversários.
Do programa constaram dois jogos: o primeiro entre duas formações de escolinhas do clube e o segundo, prato forte da festa, entre os seniores do Freamunde e do Paços de Ferreira.
 Cinquentenário: Hastear da bandeira pelo sócio nº 1, Ernesto Taipa
19 DE MARÇO DE 1983 – “BODAS DE OURO
Cinquentenário: é bom fazer anos, chegar aos cinquenta e poder festejá-los em paz, com a “família” unida, a consciência do dever cumprido, da obra feita – sólida, pronta a resistir às mais fortes intempéries - , dos compromissos assumidos e honrados, o futuro garantido pelo talento dos “mais novos” e o trabalho insano dos seus dedicados seccionistas e orientadores.
As solenes celebrações, festejadas com brilhantismo em período de grande pujança, constituíram, para além do simbolismo, um momento deveras marcante.
Meio século é, sem dúvida uma data incontornável. Sem ostentar, porque as finanças estavam apertadas, a organização conseguiu dar dignidade e algum brilho ao evento.
As comemorações foram ao encontro de todos, como era de esperar, com um programa recheado. Houve uma grande adesão de adeptos, daqueles que nunca viram as costas à Instituição, em ambiente de grande fervor clubista.
Vários freamundenses, com vinte e cinco ou mais anos de associados, foram agraciados.
A própria Câmara Municipal de Paços de Ferreira concedeu a medalha de oiro ao Sport Clube Freamunde, num dos momentos altos da noite.
Mas o mais importante de tudo foi a alegria, o contentamento, a amizade entre todos e firme determinação de “continuar”.

 ÉPOCA 1983 / 1984
TAÇA DE PORTUGAL
Ultrapassado o Desportivo das Aves por ( 2 – 1 ), após prolongamento – golos apontados por Fangueiro e Virgílio - , coube em sorte ao Freamunde a fortíssima equipa do Marítimo.
Ficha do jogo:                              
Freamunde 0 – 1 Marítimo
Árbitro: Fernandes Pereira (Braga)
Freamunde: Guilherme, Abel, Júlio, Filipe e Armindo; Bites ( José Carlos) e Baptista; Sacramento, Virgílio, Fangueiro e Coelho.
Marítimo: Quim, Olavo, Arnaldo Carvalho, Leonardo e Quim Manel; Águas e David (Caetano e depois Richards); Marinho (Camacho), Chico, Faria, Ademar e Paulo Campos.
Marcador: Richards (64 minutos)
Autêntico jogo da Taça de Portugal.
O Sport Clube de Freamunde não “respeitou” o Marítimo e maravilhou, com excelente exibição, a assistência que encheu por completo o campo do “Carvalhal”.
O árbitro – maior adversário dos locais - , aos 39 minutos, fez vista grossa a um derrube a Sacramento no interior da área.
Júlio viu um seu remate embater com grande estrondo no poste do guarda redes do Marítimo. O Sport Clube de Freamunde saiu da prova de cabeça bem erguida.

EQUIPA TIPO 1983 / 1984
Guilherme, Abel, Júlio, Lamas e Armindo: Baptista (José Carlos), Coelho e Bites; Sacramento, Fangueiro e Virgílio (Laurindo).
Outros mais utilizados: Serafim Luís, Fernando, Viana I, Filipe, Vilar, Dé, Agostinho, Nelinho, Dantas, Ramalho, Paulo, Pietra e Barbosa.
EQUIPA: 
Em cima: Fangueiro – Virgílio – Armindo – Baptista – Júlio – Guilherme
Em baixo: Fernando “de Lousada” – Coelho – Laurindo – José Maria Viana – Bites

Festa de homenagem a José Maria Viana
SUCEDIAM-SE AS HOMENAGENS
No dia 6 de Março de 1984, José Maria Viana foi alvo de uma singela festa de homenagem.
José Maria, o mais velho dos “Vianas”, pequeno na estatura mas grande e forte no carácter, metódico, reservado, e pouco dado a polémicas, de excelente leitura de jogo, era um jogador se medo, mas leal como nenhum.
Fez bem, muito bem mesmo, o seu papel.
Teve a simplicidade para saber agradecer a “Festinha” que amplamente mereceu.
Do programa constaram dois jogos de futebol: Freamunde / Paços de Ferreira (3-0), em femininos – a equipa “azul e branca” estava reforçada com atletas do Águas Santas e do Lordelo - , e Sport Clube de Freamunde / Penafiel (2-2), em equipas de honra.
FUTEBOL FEMININO
A mulher, muitas vezes votada à solidão e ao ostracismo, ganhava a sua emancipação – estas histórias do sexo fraco eram já “balelas” -, e mesmo certos “tabus” como o futebol, por exemplo, tinham sido atiradas borda fora.
Isto vem a propósito do jogo de futebol feminino integrado na festa de homenagem a José Maria Viana.
As raparigas abriram as “grilhetas”, baldaram-se ao marido ou ao namorado, deitaram os preconceitos paratrás das costas e apresentaram-se para o pontapé na bola como qualquer futebolista que se preze.
E foi bonito ver-se os conjuntos equipados a preceito, disputando o esférico com seriedade, sem temor às “canetas” e cumprindo, a rigor, as instruções que vinham do banco.
Como bonito foi presenciar “alguns” a olhar para “elas” de um modo tão pacóvio!
Houve, mesmo, quem fosse só para “as” ver!...
ÉPOCA 1984 / 1985
“O SONHO TEVE BARREIRAS”
O Sport Clube de Freamunde sentia-se calibrado para uma época em cheio. Um sentimento indisfarçado transpirava das intervenções dos jogadores e até do próprio presidente. Francisco Ribeiro de Carvalho haveria de destacar-se pela humildade, competência e fidelidade. Comandou o clube com paixão mas racionalizou as emoções com discursos que vincaram o seu coração bom e a sua conduta humana, sensata e ponderada. Terminaria o mandato com a tranquilidade de consciência perante o dever cumprido.
O orçamento aprovado – 18.000 contos era “uma pipa de massa” – obrigava a fazer pela vida. Pensaram…pensaram…e várias iniciativas surgiram: exploração do bar, jogo do quino, freloto, cantar de janeiras, jantar de aniversário, magusto, noite de fados, exploração de publicidade sonora e estática, sorteio de automóvel, etc.
A confiança aumentava gradualmente com o aproximar do campeonato.
Contavam-se os dias para o pontapé de saída.                                  
A eloquente pré-temporada – vitória no torneio de S. Martinho, com óptimas referências dos talentos contratados: Jorge Regadas, Bento, Cassanga, António Alves (todos ex- Paços de Ferreira) e Mário – indiciava tudo de bom, contudo os resultados em competição, acabaram por não obedecer a uma análise tão linear.
Zeca passou a auferir, durante onze meses de contrato, a remuneração mensal de 120.000$00. A subida de divisão, a acontecer, iria valer-lhe um prémio de 350.000$00 e a conquista do título nacional, 400.000$00. Era dinheiro!
A primeira fase do campeonato foi titubiante. Mais. Foi no mínimo decepcionante o arranque do Freamunde. Derrota em Ovar por 1 – 0 e empate a uma bola no terreno do Esmoriz.
A equipa precisava de ganhar ritmo competitivo e de rotina.
Não faltou quem visse nesta falsa partida o prenúncio para mais uma época negra. Puro engano…
A partir dos com o Trofense – goleada por 5 – 0, com quatro golos de Dé – e Oliveirense – 3 – 1, com mais três tentos do “africano”, “coqueluche” deste início de temporada - , as expectativas regressaram e com elas a promessa de glória, sucesso e felicidade. O grupo foi recuperando ânimo, energias e, consequentemente, vários degraus na classificação.
O campeonato seguia o seu rumo sem o Freamunde desarmar.
Depois de um precioso empate em Lamas (1-1), a primeira volta terminava com um sempre interessante Sport Clube Freamunde / Paredes. Frente a frente dois candidatos ao título que iriam proporcionar excelentes momentos de futebol perante moldura humana impressionante. A perder por 1-0, o Freamunde deu a volta ao resultado nos últimos minutos, com golos de Dé e Fangueiro. O primeiro posto era seu com 22 pontos, seguido de perto pela Ovarense. O Sport Clube Freamunde vivia o momento de maior fulgor.
Um recomeço de prova irreconhecível – empate caseiro (1-1) com a Ovarense e derrota em Amarante (2-0), jogo onde houve mosquitos por cordas – originou mudança no comando técnico. Até em Merelim, para a Taça, o Freamunde perdeu (1-0) e foi eliminado.
A vida de um treinador é um risco permanente, vitimando, desta feita, Zeca, cuja relação com parte dos adeptos não era muito pacífica. Alguns ironizavam que…a inteligência do sistema não dava para mais.
Os fantasmas do passado estavam de regresso e em força.
Santana, dono de uma personalidade fascinante, foi o escolhido para desanuviar o céu carregado, cenário a condizer com o “ambiente”.
Santana, só após o jogo com o S. Martinho (vitória por 1-0, com golo de Jorge Regadas, resultado que originou a rescisão do técnico Piruta com os campenses) – Júlio tinha assumido interinamente as rédeas do grupo – “pegou” na equipa, colocando em prática um futebol bonito, de ataque, privilegiando o espectáculo, bem ao seu gosto e estilo.
Os resultados positivos não demoraram muito a surgir. As vitórias tornaram-se bâlsamos, céus azuis.
Os derradeiros quatro desafios iriam clarificar, por completo, a situação: três vitórias consecutivas obtidas frente ao Valadares (3-0), Cucujães (4-0) e União de Lamas (2-0), atiraram para o Parque das Laranjeiras, em Paredes, a decisão do segundo lugar, pois o Amarante, com um final de campeonato soberbo, já estava promovido. Para o Freamunde até o empate servia.
Era dia de sonho ardente para os rapazes de Santana. O campo encontrava-se superlotado. O ambiente era de cortar à faca.
Sob arbitragem de Fernando Costa, de Lisboa, as equipas fizeram evoluir os seguintes elementos:
Paredes: Paquete, Mascarenhas, Sidon, Filipe e Carneiro; Carvalhinho, Quim e Hermínio; Meireles, Carlitos (Dilson, 85) e Móia (Guerra, 75).
Freamunde: Guilherme, Abel, Américo, Lamas e Armindo; Jorge Regadas e Mário; Dé, Bento, Fangueiro e Cassanga (Sacramento, 60).
Marcadores: Meireles (1 e 46), Carlitos (2), Fangueiro (34) e Filipe (65).


Lances risíveis nos dois primeiros minutos deitaram tudo a perder. Guilherme, guarda redes do Freamunde, bom entre os postes, eficaz nas saídas para conforto e segurança dos seus colegas da retaguarda, teve, porém, - há dias assim! - Uma tarde infeliz. Neste jogo tudo lhe correu mal, tornando-se o patinho feio dos adeptos. O Sport Clube Freamunde saiu derrotado por 4 – 1 e foi o fim do sonho em partida esmaltada de lances controversos. Na ressaca da derrota muito se insinuou. Falou-se, falou-se, falou-se, mas…ninguém descartou.
O terceiro lugar acabou por ter aspecto de vitória moral.
EQUIPA TIPO 1984 / 1985
Guilherme, Abel, Américo, Lamas e Armindo; Baptista e Jorge Regadas; Dé, Sacramento, Bento e Cassanga.
Outros mais utilizados: Serafim, Luís, Júlio, Alves, Fangueiro, Fernando, Agostinho, Mário, Laurindo, Filipe, José Carlos e Vilar.
EQUIPA: 
Em cima: Armindo – Fangueiro – Jorge Regadas – Dé – Baptista – Guilherme
Em baixo: Américo – Cassanga – Lamas –Abel – Sacramento

Festa de homenagem a Zeca "Mirra"

TRIBUTO A JOSÉ MONTEIRO DOS SANTOS “ZECA MIRRA”
Em Setembro de 1984 alguns dos seus “meninos” proporcionaram-lhe momentos de convívio, de alegria, de nostalgia.
A “Festinha”, bem organizada, nada sofisticada, antes saída do coração, teve o condão de reunir à sua volta antigos atletas, muitos, quase todos, para um sentido abraço de amizade e gratidão.
Importante, oportuna, porque o Clube quase sempre o ignorou.
É assim a memória das pessoas, egoísta.                                                
Zeca “Mirra” viveu o futebol de cabeça erguida, resistindo onde muitos teriam desistido.
Mais importante  que as proezas foi o papel que desempenhou na formação de homens e cidadãos – uma imensidão de jovens atletas que passaram pelas suas mãos - , a quem soube incutir as fundamentais normas éticas e salutares.
Lealdade, camaradagem, sentido de honra – eis algumas lições que instruiu desde o “berço”.
Se a grandeza dos homens não fosse avaliada pela ostentação, prepotência ou arrogância, antes sim, pelo carácter, honestidade e rectidão, talvez “Zeca Mirra” tivesse um lugar mais consentâneo nos anais da Agremiação.
Zeca “Mirra”, de aspecto jovial, recordava emocionado: «Nesses tempos o investimento (?) nos juniores era o garante fundamental do futuro do clube. Os seniores eram anualmente  “abastecidos” com jovens de potencial garantido. O recrutamento era grande. De todas as freguesias do concelho apareciam “miúdos” habilidosos que, depois de “trabalhados”, acabavam por ascender à equipa principal.
Ainda hoje me ligam a todos os mais fortes laços de amizade».
Do elogio ao Homenageado, escrito e lido por Fernando “Lacerda”, transcrevemos alguns excertos:
“…O seu brilhante passado de jogador e treinador mais que justificariam outro tipo de discurso, bem elaborado, mais pomposo, mas a sua simplicidade e a sua modéstia, de todos conhecidas, quadram melhor com meia dúzia de palavras simples e despretensiosas como simples e despretensiosa é a homenagem que estamos a prestar-lhe.
…Esta adesão pronta e maciça é o testemunho mais que evidente da grande estima em que o temos, da saudade desses velhos tempos e do respeito que, como homem, de todos merece.
Ao senhor José e ao grande Zeca “Mirra” (dos que mais intimidade têm para assim o tratarem) eu dou um grande abraço em nome de todos os seus pupilos, como homenagem e como sinal da nossa eterna gratidão”.
Joaquim Pinto - "Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória"

domingo, 17 de março de 2013

150.000 Visitas - Obrigado!

Obrigado, aos que junto a mim, desde Maio de 2007, caminham para atingir este bonito número de visitas - 150.000! Este número, merece-o. Um número para não passar despercebido. Quero agradecer a todos os visitantes que, há quase 6 anos o visitam, e alguns, desde que este blogue existe.
Obrigado a todos!

sexta-feira, 15 de março de 2013

Sebastianas 1959

PROGRAMA
DIA 11 DE JULHO
Alvorada ruidosa com foguetes e morteiros. Anunciação das Festas por numeroso grupo de Zés Pereiras, Gigantones e Cabeçudos.
DIA 12 DE JULHO
ÀS 7 HORAS: Alvorada com estrondoso fogo.
ÀS 8 HORAS: Entrada da Marcial Banda de Freamunde.
ÀS 11 HORAS: Missa Solene e Festiva subindo ao pulpito o distinto orador sagrado Padre Alberto da Rocha Martins, de Barcelos. Esta Santa Missa, que será a grande instrumental, terá a colaboração da Banda Marcial de Freamunde.
ÀS 14 HORAS: Entrada da cnsagrada Banda de Música de Vila Verde, seguindo-se a subida aos respectivos coretos  destes dois anunciados conjuntos musicais que iniciarão os esperados concertos.
ÀS 19 HORAS: Saída da respeitável, magestosa e tradicional PROCISSÃO DE SÃO SEBASTIÃO na qual se incorporarão Confrarias, Irmandades, Pias Uniões, Associações Religiosas, encantadores grupos de anjos e querubins e deslumbrantes andores, precedida por um garboso grupo de Centuriões Romanos.
HÀS 22 HORAS: Início do surpreendente arraial nocturno, com fedricas iluminações do reputado decorador e ornamentador Snr. Pontes, da Póvoa de Varzim.
ÀS 22:30: Novos concertos musicais pelas Bandas Marcial de Freamunde e Vila Verde.
ÀS 24 HORAS: Sensacional certame de fogo de artíficio, pelos conhecidos pirotécnicos Pontes e Filho, de Raimonda.
ÀS 2 HORAS DA MADRUGADA: Encerramento deste festivo dia, com a tradicional e pitoresca corrida de uma bravíssima Vaca de Fogo.
DIA 13 DE JULHO
Durante o dia funcionará a habitual «Feira dos Treze» que se prevê de grande concorrência, dada a excepcional circunstância de ser enquadrada nas «Festas Sebastianas».
ÀS 15 HORAS: Diversos divertimentos e números desportivos a anunciar brevemente.
ÀS 16 HORAS: Concerto pela Banda Marcial de Freamunde.
ÀS 18 HORAS: Entrada dos Ranchos Folclóricos das freguesias circunvisinhas.
ÀS 21 HORAS: Início do Grandiosos Festival Regional, que terá lugar em recinto fechado e no qual colaboram muitos agrupamentos regionais.
ÀS 23 HORAS: Desfile do grandioso e já afamado CORTEJO LUMINOSO E ALEGÓRICO no qual se incorporarão todos os agrupamentos citados, e um numeroso Grupo de Gigantones e Cabeçudos, Banda Marcial de Freamunde, atroador Grupo de Zés Pereiras, conjuntos infantis de diversos significados e maravilhosos Carros Alegóricos.
ÀS 24 HORAS: Grandiosa sessão de fogo de artíficio pelos mesmos piroctécnicos.
As festas encerrarão com uma nova corrida de uma furiosa Vaca de Fogo.
Lindo e verdadeiramente delicioso este programa das sempre nossas Festas Sebastianas. Ontem, tal como hoje, continuam sempre belas e sempre nossas...

quarta-feira, 6 de março de 2013

Poesia de Freamundenses

UM PEDAÇO DE TODOS NÓS 

Elo a elo vai crescendo
Na bigorna da cultura
Esta corrente de gente
Dia a dia mais segura

Criada a partir da obra
Dum poeta popular
A corrente se desdobra
Para mais elos ganhar

Num desdobrar sempre atento
P'ra não perder horizontes
Fechando as portas ao vento
Mas abrindo suas fontes

Aos jovens e menos jovens
Que queiram participar
Dum projecto que é de todos
Numa abertura sem par

Nesta obra que abraçamos
E a que demos nossa voz
Pra levarmos em frente
Estes pedaços de nós.

JOSÉ LEAL - ALMA FREAMUNDENSE

sexta-feira, 1 de março de 2013

Augusto Ramos

ESCULTOR FORMADO NA ESCOLA DA VIDA
Desde cedo que a vocação de Augusto Ramos para a arte veio ao de cima. Na escola, ao invés de aprender as letras, transformava as lições da professora em desenhos. Em casa, todo o pedaço de madeira encontrado era usado para fazer pequenas esculturas. Expôs pela primeira vez aos 12 anos. E desde aí nunca mais parou. Hoje com 43 anos, os trabalhos de Augusto Ramos, são reconhecidos não só em Freamunde, de onde é natural, mas também no Vale do Sousa e em vários pontos do país e do mundo, onde figuram em colecções particulares. 
 "A escola da vida ensinou-me", afirma o freamundense. Muitas das coisas que hoje sabe, aprendeu-as sozinho ou nos trabalhos que foi desenvolvendo com o pai, nos restauros, ou como entalhador. Apesar de, mais tarde, ter ingressado num curso de três anos da APIMA - Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins e ter passado pela Escola Artística Soares dos Reis, onde estudou restauro, entre outros. "Mas já sabia mais que os professores", diz modestamente. "Já levava muita bagagem e anos de experiência", sustenta o escultor. 
 Augusto Ramos nasceu e cresceu em Freamunde. Aí realizou o percurso escolar normal. Mas, conta, "quando estava na escola a professora ditava e eu desenhava. Transformava o que ela dizia em imagens. E hoje tenho muita dificuldade em escrever". O bichinho da arte e a vontade e a urgência em fazer obra, que ainda actualmente lhe fazem o sangue correr mais depressa, já existiam nessa altura. Aos 12 anos, expôs pela primeira vez, em Paços de Ferreira.
 E não parou mais. Autodidacta, continuou sempre a desenhar e, em casa, aproveitava restos de madeira para esculpir rostos. Até que, por volta dos 16 anos, e apesar da insistência do pai para ingressar numa escola ligada às artes, foi trabalhar e aprender a arte da talha. "Perante o que já sabia, a escola não me ia ensinar nada. Preferi a escola da vida", diz. Ficou na empresa por 10 anos e chegou a encarregado geral dos entalhadores, 22 no total. Durante esse período, trabalhava também com o pai, que, laborando na área da construção, fazia restauro de tectos de gesso. "Na construção aprende-se muito", afirma Augusto. Fez restauros em casas particulares e igrejas, ganhou a experiência que queria. 

Homenagem ao capão foi primeira grande obra

A primeira grande escultura da carreira está instalada em Freamunde. Chama-lhe carinhosamente de "a galinheira", embora o nome oficial seja "Monumento ao Capão e à Cidade de Freamunde". A obra foi inaugurada em 2001 e homenageia a tradição do capão. "Demorou três anos a fazer. Só a fazia à noite, porque durante o dia trabalhava", recorda o escultor. Seguiu-se uma outra escultura de grande porte, também instalada na terra que o viu nascer, a "Homenagem aos combatentes das ex-colónias", inaugurada em 2005.  
 A partir daí, sucederam-se várias obras, instaladas no concelho de Paços de Ferreira e concelhos vizinhos. Só na freguesia de Louredo estão três: o busto do Padre Armando; uma peça que homenageia os bombeiros de Paredes; e um anjo, com seis metros. Tem peças espalhadas por toda a Europa, em colecções particulares, e mesmo no Brasil. "Há uma Nossa Senhora de Fátima, oferecida a um particular, que acabou numa igreja brasileira e saiu na procissão de 13 de Maio, em Campinas, S. Paulo", diz Augusto Ramos. As exposições, às quais já perdeu a conta, realizaram-se sobretudo em concelhos do Vale do Sousa. 
 Pelo caminho, lançou-se em vários desafios. "A minha paixão é sempre ir experimentando fazer coisas novas", assume. Já trabalhou no edifício do Parlamento inglês, na mudança e restauro de uma ponte, que foi desmantelada e reconstruida, pedra a pedra, com a gravação de 130 nomes. Em França, em conjunto com escultores locais, trabalhou no restauro e construção de uma torre de castelo. Em Portugal, fez parte da equipa que restaurou a Capela das Almas, no Porto, e várias na região. 


Já terá feito cerca de duas mil peças

Augusto Ramos orgulha-se de trabalhar com os mais diversos materiais, desde o bronze, o granito, a madeira, o inox, o ferro e a fibra de vidro até às joias e pedras preciosas. "A dificuldade maior é escolher o material com que vou trabalhar", confessa. Já terá feito cerca de duas mil peças (calcula), tendo ganho vários prémios ligados ao desenho, escultura e pintura. 
 Nesta vida dedicada à arte, já fez também ilustrações de livros, caricaturas em jornais locais, cenários para teatro e pintou Vespas. É, desde há 25 anos, um dos elementos que faz os carros alegóricos das Sebastianas, sendo um dos sócios fundadores da Associação de Artes e Letras de Freamunde. 
 Entre as próximas grandes obras, estão uma homenagem à indústria do mobiliário e metalomecânica, com 12 metros e custo de cerca de 60 mil euros, que ficará instalada no concelho ainda este ano. Em curso está também a realização do monumento à família, que ficará junto às piscinas de Freamunde. "Umas árvores com cerca de 140 anos, que estavam junto à capela de São Francisco, em Freamunde, caíram com o temporal. Foram recolhidas e eu transformei-as numa escultura com cerca de sete metros", explica. 

Sonho é abrir escola para ensinar artes
 
O grande sonho de Augusto Ramos é abrir uma escola onde possa trabalhar com crianças com Trissomia 21. "Já tive uma experiência no INATEL do Porto. São crianças difíceis, mas com muito jeito para a pintura, gostei muito", conta. O escultor, diz ter a promessa de um espaço no parque urbano de Paços de Ferreira, que possa ser transformado numa oficina onde artistas locais possam expor, trabalhar e ensinar.
"É possível viver da arte em Portugal?", perguntamos. "Será possível, eu já vivi e hoje vivo só disto", afirma. "Mas uma peça que antes custava 30 mil hoje está a ser vendida por 10 mil", explica o artista, que defende que os municípios deviam apoiar mais a cultura.