Em meados do
século XIX, com a remodelação e actualização do instrumental – as Bandas só
começaram a adquirir brilho e notoriedade com os novos naipes de instrumentos
que começaram a surgir - , com a proliferação de novas partituras, de timbre,
andamento, acentuação e intensidades diferentes e modernizadas, pela acção exercida por ensaiadores habilitados, que se
prontificavam, mediante contrato estipulando as condições de remuneração e de
presença, a ensinar e a reger, quer nos ensaios, quer nas saídas, as
filarmónicas explodem e, já por uso tradicional, vão tocar às romarias, às
festas cívicas e religiosas, despertando o maior interesse das populações.
É, porém,
durante o período da Regeneração, entre, sensivelmente, 1850 e 1890, que se
assiste à época áurea das bandas filarmónicas, muitas delas estimuladas, em
parte, pelas rivalidades políticas. As várias facções rapidamente se
aperceberam que as filarmónicas eram importantes centros de comunhão social e
artística e que podiam desempenhar “excelentes bases de apoio eleitoral, o que
pode justificar, em muitos casos, a existência de duas bandas filarmónicas na
mesma terra” (Cascão, 1993:526).
Será que
daqui, nesta paróquia, se vivia de forma intensa os ideais liberais e os novos
calores da crescente burguesia? Veremos.
Ninguém
escreve sobre Freamunde, sobre as suas instituições, ninguém conta a “Banda”,
neste caso, sem ter procurado fontes credíveis, “potáveis”, onde saciar a sede
e prosseguir a longa caminhada do conhecimento…Sem beber no padre Fancisco
Peixoto ou no coronel José Baptista Barreiros. E porque não somos distraídos,
lá fomos consultar a monografia de Freamunde, da autoria do coronel, onde se
encontra bem explícita a influência dos “Ferreiras Velho” que se haviam
excedido na evolução, divulgação e valorização da arte musical nesta terra. Assim, desde
1840 a 1860, Joaquim Luís Ferreira Velho tomou a seu cargo a regência da então
denominada “Banda Velha”. Depois malquistou-se por motivos de carácter social
com o pároco da freguesia, António Ferreira Matos, vulto local de certa
importância e homem enérgico que impunha à paróquia a sua despótica vontade,
tanto pelo exercício paroquial como pela via dos favores políticos. Como o
pároco não conseguisse submeter ao seu predomínio o mestre Joaquim Luís,
procurou feri-lo no interesse que sempre havia evidenciado pela “Banda Velha”
e, pelos anos de 1870, fundou mesmo a “Banda Nova”, roubando à “Velha”, muito
pelas pressões exercidas, diversos dos seus elementos e juntando-lhe outros.
Desde então passou a existir em Freamunde duas filarmónicas. Como regente da
“Nova” o mestre Ildefonso, um dos instrumentistas separados da “Velha”.
Desfalcada a
“Banda Velha”, diminuiu a sua eficiência, mas apenas temporariamente, porque mestre
Joaquim Luís, despicado e brioso, tanto trabalhou que conseguiu ensinar novos
elementos e preencheu os claros deixados pela deserção dos que haviam
transitado para a “Nova” e a “Banda Velha” continuou a manter-se superior em
mérito à “rival” que, afinal, durou apenas três anos.
Em 1872,
mestre Joaquim Luís, vergado ao peso da velhice, entregou a chefia da sua
filarmónica ao filho, Albino Lopes Ferreira Velho, que ele havia devidamente
preparado para lhe suceder; mas este em 1874, passou a batuta ao músico
Ferreira Rato. O projecto teve continuidade, fruto da acção desenvolvida pelo
colega Augusto Pereira Gomes.
Porque o
período entre 1870 e 1890 foi bastante conturbado para a vida das filarmónicas
que incentivadas pelas forças políticas passaram por situações complicadas de
rivalidades partidárias e intrigas que acabaram por prejudicar o desenvolvimento da sua prática musical
sustentada essencialmente por factores alheios à própria música, não é de
estranhar que, por cá, mais propriamente
em 1875, se voltasse a organizar a “Banda Nova”. Porém, a mesma apenas se
manteve por outros dois ou três anos. Evidentemente, a terra não tinha
elementos para acudir às duas.
E, assim, os
membros da “Banda Velha”, depois de épocas conflituosas, lá partiram, perseverantes,
com carisma e paixão, “lutando”, nas romarias circunvizinhas, pela honra e
pergaminhos da filarmónica.
Mas…a presença
das filarmónicas nos arraiais seria do agrado geral? Não. Nem de todos. Para o
célebre escritor, Camilo Castelo Branco, “In Romarias do Minho”, (…) acabaram as chulas, as rondas, as estúrdias,
em que as requintas e os clarinetes guinchavam uns assobios estridentes, que
punham echos alegres e estridentes, nas colinas e tiravam dos peitos das
crianças gritos de júbilo. As Bandas Musicais mataram as chulas. O tocador de
rabeca, sentindo em si uma faísca de génio de Paganini, vai alistar-se na banda
musical, que lhe chama a equestra, para injuriosamente lhe não chamar
orchestra.
Como estas bandas têm Libré (espécie de
uniforme de lacaios e cocheiros de casa rica), este engodo com doze vinténs de
música bem bufada de serpentes de metal oxydado, tem dado cabo daquelas
ruidosas, festivas e nacionalistas chulas da nossa infância.
É verdade que
a filarmónica não se inspirava nas tradições regionais, sendo, como tal,
interpretada pelo famoso escritor – e não só ele – como uma prática sem
carácter local que representava ainda o perigo de poder acabar por substituir
as “velhas folias tradicionais”.
Na imagem da
Festa que residia na consciência popular, integrando, já nessas épocas (finais
de setenta, princípios de oitenta do século XIX), dimensões religiosas e
profanas, as Bandas, conforme Pierre Sanchis (1983 : 105), “ocupavam um lugar central e desempenhavam um papel privilegiado de
síntese”.
Porém – ainda
com base na “História da Música Popular”, de Pedro de Freitas - , (…) só seriam admitidos na Igreja ou, mais em
geral, só teriam licença de acompanhar as manifestações de culto, os músicos
que pudessem apresentar um certificado de conduta cristã, moral e sacramental.
As
filarmónicas gozavam de um estatuto efectivo privilegiado: eram sustentadas
como uma espécie de bandeira do sítio, um cartão de visita e um órgão de trocas
culturais, ao mesmo tempo de colaboração e de competição entre aldeias.
Todas as
filarmónicas eram o que eram os seus regentes. Não se estranhe, pois, que por
volta de 1895, ano II da fundação do primeiro periódico concelhio, “Jornal de
Paços de Ferreira”, encontremos transcritos vários episódios da “Banda de
Augusto Pereira Gomes”, em festividades que se realizavam anualmente em
diversas freguesias das redondezas, em honra dos seus padroeiros e outros
santos: S. Mamede (Seroa), S. Brás e Nª Srª da Purificação (Frazão), S.
Sebastião (Meixomil), S. João (Ponte Nova, Sobrão), S. José (Paços de
Ferreira), S. Pedro (Raimonda), Nossa Senhora do Rosário (Carvalhosa), Nossa
Senhora da Guia (Sanfins), Senhora da Hora (Penamaior), Senhora de Todo o Mundo
(Figueiró), Senhora do Amparo (Covas, Lousada), Vinhal (Lordelo), S. Sebastião
(Sobrosa), S. Tiago da Serra (Ferreira)…Curiosamente – conforme citação do Dr.
José Pinto, no livro por si editado, “Sobrosa / História e Património” -, esta
festa de S. Tiago (25 de Julho) era antigamente feita por quatro freguesias:
Sobrosa, Ferreira, Beire e Louredo. Os encargos da festa eram divididos
“irmãmente”, mas nem sempre o sistema era pacífico e o dia da romaria
terminava, muitas vezes, em desacatos, em especial entre gente de Sobrosa e
Ferreira, fruto de uma rivalidade latente que existia de longa data. Vários
anos se passaram, os desentendimentos continuaram, até que, num ano, a festa
não se realizou.
Mas…o que tem
a ver tudo isto com o historial da “Banda” que tentamos aprofundar?...
JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS"