...Pois bem: o
incidente entre as gentes de Sobrosa e as de Ferreira foi causado precisamente
pela música a contratar para a dita festa. O professor oficial da freguesia de
Sobrosa, e que foi vogal da Junta de Freguesia, de 1919 a 1922, Jacinto
Ferreira Cunha Leal, narrou, assim, o acontecimento: «
Há-de haver 35 para 40 anos que, sendo a festa de Santiago feita pelas
4 freguesias, coube à de Sobrosa, dar a música que chegou a estar tratada.
Surgiu, porém, um tal Eduardo, de Barrimau, (…) que se impôs para que fosse a
música de Freamunde. O pároco de Ferreira, padre Libório, que residia em
Freamunde, impôs-se, também, para que fosse a música da sua terra e chegou a
combinar que iriam as duas. Por fim a festa não se fez. Parece que a política
não foi estranha a esta questão das músicas. Então o padre Libório, íntimo amigo do
Vigário da Vara, abade de Duas Igrejas, fez com que este informasse
favoravelmente o Cardeal-Bispo D. Américo e este, sem ouvir as outras
freguesias, determinou que a festa passasse a ser feita somente pela freguesia
de Ferreira, com a obrigação de a realizar todos os anos e, se algum ano
deixasse de a organizar, passaria para uma das outras freguesias».
É esta a
situação actual. Há mais de cem anos que a freguesia de Ferreira vem fazendo a
festa, sem falhar. E, certamente, não deixará de a fazer, sabendo o perigo que
corre, se isso acontecer.
O certo é que
durante muitos e muitos anos, a Banda de Freamunde foi a preferida para
abrilhantar os referidos festejos. Coincidências?
Mas era em Freamunde
que a banda mais se distinguia, mais se exibia. Neste torrão, por exemplo,
chegaram a efectuar-se, no princípio do século XX, treze (!) festas de carácter
religioso, «
com missa a grande
instrumental, pela chamada “Capella” da banda da terra, onde eram interpretadas
com proficiência e mestria, obras de grandes compositores como Badoni, Gounot
ou Bizett».
Mas
não só. Tudo o que “cheirasse” a inauguração solene, recepções (sobretudo aos
denominados “brasileiros”, que, em terras de Vera cruz, se haviam tornado
opulentos capitalistas, como, por exemplo – segundo fontes do “Jornal de Paços
de Ferreira”, - “Abílio Ferreira Barbosa,
Seroa, vindo de Manaus, em 1896, que a expensas suas realizou as festas de S.
Mamede, da terra que o viu nascer, e contratou a Banda de Freamunde que tocou o
Hymno da Carta”; datas históricas, onde executou, em 1894, o “Hymno do
Centenário” do nascimento do Infante D. Henrique, obra em música de Alfredo
Keil e letra de Henrique Lopes de Mendonça. Sintomaticamente os mesmos autores
que poucos anos antes protestaram contra o “Ultimatum”, com o Hymno “A
Portuguesa”; eventos particulares, baptizados, casamentos de grandes
repercussões, durante os quais repetidas vezes se saudava em música os noivos,
no fim da missa, na boda e à porta da casa nupcial; atrás dos ataúdes nos
funerais de “suas excelências” e de “anjinhos”…lá estava a banda de Augusto
Pereira Gomes, também conhecida por “A Velha”, e já dirigida por mais de que um
mestre: o próprio Augusto Pereira Gomes e, na sua ausência (chegou a reger,
durante dois anos, pelo menos, 1896 a 1897, a Banda Louzadense), Carneiro
Nunes. O que pressupõe ter
ressurgido “A Nova”. É verdade. Primeiro com regência de Francisco Ribeiro
Gomes d’ Aveleda, tendo por contra-mestre Caetano António de Ribas, e depois
António Ferreira Nunes.
“In JPF de
17-8-1896” - «
Festas de S. Mamede
(Seroa): Banda do sr. Augusto Pereira Gomes, de Freamunde, com bandas de
Infantaria nº 6, do Porto; dos Conceições, Negrelos; sr. Nunes, de Freamunde e
sr. Baptista, de Paços».
“In JPF de
19-1-1897” – nº 3, pág. 2” - «
Festa do
Menino de Deus (3-1), em Paços de Ferreira: (…) Quasi à noite a banda regida
pelo sr. António Ferreira Nunes, que vinha não sabemos d’onde, percorreu várias
ruas d’esta localidade subindo também ao ar muito fogo à sua chegada. De
passagem, e para terminarmos porque esta já vai longa, é de justiça darmos os
parabéns aos regentes das duas bandas, snrs. Nunes e Augusto Pereira, sobretudo
este último que, desde que tomou conta da Banda Louzadense, tem ella feito
vantajosíssimos progressos».
António
Ferreira Nunes, com certa perspicácia, acabaria por fundir, já para lá de 1904,
os dois conjuntos num só: Banda do sr. Nunes, incorporada por todos os
elementos que os compunham, acabando definitivamente com as intrigas, com as
costumadas “politiquices".
Com o país à
beira do colapso, os componentes da banda lá continuavam a sua cruzada,
entretendo os espíritos mais exaltados. Mas onde ensaiavam? No salão da ASMF,
sem custos, pois abrilhantavam gratuitamente o 19 de Março, dia comemorativo da
fundação daquela Associação, e os saraus de beneficência. Caso contrário,
teriam que desembolsar 4, 500 reis anuais. E assim se manteve por uns tempos.
Mas…qual o
perfil, afinal, destas “personalidades” que a par das suas actividades
profissionais foram igualmente músicos, regentes e grandes impulsionadores
junto dos jovens instruendos?
JOAQUIM LUÍS
FERREIRA VELHO: Natural de Freamunde, foi casado com Leonarda Nunes Lopes. Duma
casta nobre, o clã Ferreira Velho, foi nomeado avaliador agrimensor do
agricultor, cargo criado em 1864. Exerceu também a função de mestre-escola. Em
1870, segundo acta concelhia pela pena do administrador Joaquim Carneiro Leão
de Queirós, «…
leccionava na escola
primária particular, situada num prédio que lhe pertencia, no lugar da Feira,
Freamunde, frequentada regularmente por 15 alumnos, dos 6 aos 12 anos, todos do
sexo masculino à excepção de 5 do feminino. Não se achava legalmente autorizado
para o ensino, possuindo, contudo, habilitações suficientes para o exercício do
magistério e gozava geralmente de bom comportamento civil e religioso sendo,
igualmente, bom o crédito da escola. (…) Desde 1866 a 1870, regeu dois cursos
nocturnos em Freamunde este professor particular e sustentados pela Câmara Municipal».
Joaquim Luís,
irmão franciscano, gozou de especial consideração entre os seus concidadãos
pela sua cultura, carácter, actividade e esmerada educação.
Pelos factos
expostos, Joaquim Luís foi um dos mais importantes divulgadores da arte dos
sons.
ALBINO LOPES
FERREIRA VELHO (1841 / 1919): Filho de Joaquim Luís Ferreira Velho e de
Leonarda Nunes Lopes, foi casado com Ana Oliveira Martins. Cedo enviuvou,
contraindo matrimónio em segundas núpcias com Ana Alves Monteiro.
Ourives de
profissão, teve o seu estabelecimento montado naquela
que foi, posteriormente, a mercearia de
Alfredo da Silva Cabral, na então Rua do Comércio, hoje Rua D. Mercedes Barros.
Após a sua
morte, sucedeu-lhe na arte um dos filhos, Abel.
AUGUSTO
PEREIRA GOMES ( 14-8-1847 / 22-8-1926): Morador no lugar do Calvário,
consorciou-se com Maria Joaquina da Conceição Gomes de Meireles. Fabricante de
cera, velas, círios…, tinha depósito de bandeiras de aluguer. Tomou este mestre
em tanta conta o novo cargo de regente da “Banda Velha” que acrescentou aos
dizeres das facturas da sua casa de negócios, em linha destacada, a designação
de “Mestre de Música”. Executante distinto, competente, de espírito de
iniciativa, que, com a sua direcção, aprimorou grandemente a filarmónica da
terra que o viu nascer, dando à música, segundo opiniões generalizadas em
jornais da época, uma proficiência de relevo.
Augusto
Pereira Gomes vivia muito para a música – pelos vistos, os freamundenses não
eram duros de ouvidos e muito menos indiferentes à arte dos sons, - para a cultura,
e só assim se explica que arrastasse atrás de si os filhos Américo e Joaquim
Augusto, as filhas, as amigas das filhas, as que sabiam ler. As poucas que
sabiam ler, 5%, aproximadamente, dos 1.500 habitantes existentes em Freamunde.
O filho Américo chegou a ser contra-mestre da Banda, e a filha Brasina
tornou-se na primeira mulher a pisar o palco, a representar peças de teatro que
estavam quase exclusivamente confinadas aos homens, na denominada Troupe de
Amadores Dramáticos de Freamunde, no distinto ano de 1903.
Detentor
de grande espírito altruísta, Augusto Pereira Gomes colaborava gratuitamente em
causas de beneficência. Nos intervalos dos espectáculos de teatro, na
Associação de Socorros Mútuos Freamundense, grupos de músicos compostos por
elementos da filarmónica, e por si dirigidos, “atacavam” com excertos, ou
aberturas, de obras clássicas de compositores de renome, sobretudo Verdi, para
entretimento do respeitável público.
Relacionadas
com a Banda e delas dependentes (em executantes, pois quanto a instrumentos os
mais utilizados, para lá da flauta e pandeireta, eram de corda: violino,
violão, bandolim, banjolim, violoncelo…), proliferaram e conheceram a sua época
áurea no concelho – início do século XX - , as Tunas: “Flor da Citânia”,
Sanfins; “Coração de Jesus” e “Amor à Pátria”, Seroa (esta última de tendência
republicana); “Tuna Fraternidade” e “Boa União”, Paços de Ferreira, sob
presidência do Dr. Leão de Meireles; “Tuna Democrática, PortoCarreiro; e, como
não podia deixar de ser, a “Tuna Freamundense”, sob direcção do mestre Augusto,
coadjuvado aqui e ali por outros entusiastas.
Disso dá conta
o “Jornal de Paços de Ferreira”, na sua edição de 5 de Dezembro de 1903, a
propósito duma das actuações da Troupe Dramática: (…)
a distinta Tuna Freamundense abrilhantará estas récitas com os seus bem
ensaiados e escolhidos acordes.
Logo a seguir,
em 1904 (11 de Junho), do mesmo jornal: (…)
os
exercícios do mês de Maria foram abrilhantados pela Tuna Freamundense,
havendo-se brilhantemente, sendo a parte instrumental e vocal habilmente regida
pelo nosso amigo e activo distribuidor do 3º giro, António Ribeiro de Sousa. Mas a
principal função destes agrupamentos era a visitinha aos amigos com a cantata
dos Reis, nas noites de 5 e 6 de Janeiro de cada ano. As “Noites de Reisadas”,
(…)
onde comia-se e bebia-se à “tripa
forra”. Já alta madrugada sucediam-se os oradores. Não faltavam discursos com
muito calor e pouca gramática. E sobretudo uma barulheira infernal.
O
repertório das Tunas consistia essencialmente em valsas, marchas, contradanças,
mazurcas e corridinhos. Já em 1911 (11
de Fevereiro), Augusto Pereira Gomes elaborou e dedicou hino à Assembleia
Freamundense, na data da inauguração da sala. Hino que depois ofereceu à Banda
do Sr. Nunes, a qual, reconhecida, executou (já estávamos em plena República,
portanto…) “
A Marselhesa”, “A Portuguesa”
(marcha patriótica que havia sido tocada primeiramente nos espectáculos de
repulsa pelo “Ultimatum Inglês”, em 11 de Janeiro de 1890, escrita por Lopes de
Mendonça e composta pelo músico, poeta, arqueólogo, colecionador de arte,
Alfredo Keil), “Hymno do Trabalho” e “Maria da Fonte. «No final, o lanche
oferecido aos músicos foi composto de…vinho e trigo».
O gosto pela
arte musical, que bem cedo lhe havia embebido a alma, acompanhou-o até aos fim
dos seus dias.
FRANCISCO
RIBEIRO GOMES “D’AVELEDA”: D’Aveleda, pois, seguramente, teria nascido na
freguesia com o mesmo nome, do concelho de Lousada.
Foi à porta de
D. Guilhermina Pedra, senhora de avançada idade, que fomos bater. Assim, depois
de rebuscar na memória pormenores interessantes, ficamos a saber que Francisco
Gomes, para além de regente, foi um excelente tocador de violino. É de crer que
tenha integrado também a denominada Tuna Freamundense.
A filha
Delfina, colega de Brasina, já citada, na denominada Troupe de Amadores
Dramáticos de Freamunde, casaria com José Nogueira Nunes, mais tarde
contra-mestre da Banda Freamundense; pais de António Nogueira Nunes, também ele
exímio executante e regente da “Banda” em épocas de alguma instabilidade.
CAETANO
ANTÓNIO RIBAS (1838 / 24-2-1928): De nome completo, Caetano António Ribas
Coelho Ribeiro de Bessa.
Filho de
Joaquim de Bessa e Maria Vieira, contraiu matrimónio com Matilde Alves Gomes,
irmã de Maria Gomes Rego, casada com António Ferreira Rego, do Largo de S.
Francisco. De profissão, distribuidor rural.
ANTÓNIO
FERREIRA NUNES : Natural de Freamunde, escolheu Ana Ferreira de Matos para
mulher da sua vida. Pai de Maximino Ferreira Nunes, desenvolveu a actividade
profissional no ramo da tamancaria. Homem alto e
esguio, conhecido pela alcunha de “O Aranhão” (os dedos das mãos eram
excessivamente prolongados), usava sapato fino, feito com forma própria pois
calçava 47. Em situações de conflito – que os havia e muitos - , coitado daquele
que com ele se metesse!
Durante
vários anos, sob o seu douto saber, a Banda passeou classe em muitas romarias
ou pelas ruelas de Freamunde, onde os apreciadores acorriam em grande número
para a ouvir e muitas vezes aplaudir. Banda que abandonou, em 1918, atormentado
pela doença que lhe conquistara a alma.
Fontes do
“Jornal de Lousada”: (…)
18-8-1907:
Festas do Sr. Do Calvário, em Casais. As músicas de Louzada e Freamunde
degladiaram-se valentemente e agradaram sobremaneira. Assim é que é!
1908 – (Edição
nº 66 de 8-11).
Missa Nova do Reverendo
António Augusto de Castro Meireles (Igreja de S. Vicente de Boim). …A Música de
Freamunde, sob a regência do seu hábil maestro, sr. António Ferreira Nunes,
houve-se, como sempre, à altura dos seus afamados créditos.
1908: (…) Festas da Sra. Do Amparo, Covas: À noite, a
Philarmónica de Freamunde, foi tocar uns trechos do seu belíssimo repertório em
frente ao palacete do Exmº Visconde de Souzela (Dr. Caledónio de Sousa Coelho,
proprietário da casa do Ribeiro, Covas. Bacharel em Direito, culto, amante da
Divina Arte. Tocava violino com perfeição).
Francisco
Gomes, Caetano António e António Ferreira Nunes moraram ali p’rós lados de
Freamunde de Cima. Curiosamente, a rua que vai do “Café Malheiro” pelo
“Casalinho” (hoje rua Pintor Santa Marta), ficou então conhecida pela “Rua dos
Maestros”.