sexta-feira, 30 de agosto de 2013

1001 Quadras ao Vinho

Na boca do Zé Povinho
não desejo nunca andar,
antes prefiro o bom vinho
da boca do meu lagar.

Gosto desta reinação
de beber o meu copinho
mas se eu bufo ao balão
lá vai parte do gostinho.

Se me dão cabo da "pinha"
seja a mulher, seja o filho,
lá vem a desgraça minha
de beber mais um quartilho.

Eu gostei duma tasqueira
que me regou com seu vinho
mas, depois, a bebedeira
fez-me esquecer do caminho.

Saltei na tua fogueira,
em noite de S. João
e foi tal a bebedeira
que o "alho" ficou na mão!...

Passo noites a pensar:
se o vinho se extinguisse,
levava a vida a chorar,
pois morria se sorrisse!...

 Vitorino Ribeiro - "1001 Quadras ao Vinho"
Poesia Colectiva - Novembro de 2009

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Acheira

Virá de Acha que vem do latim assula e significa coisa cortada, isto é o pedaço de lenha cortado e depois passou a significar também o próprio machado com que se cortava a lenha.
Era difícil aos cristãos, daquela época, sair de casa para apanhar lenha, porque nos montes e matas, apareciam os mouros, que os tornavam prisioneiros. Eram escoltados de combatentes.
Uns lutavam, outros apanhavam lenha, com azas os azzas de que deriva acha.
Acheira, assim virá de azária que, no português antigo tinha significado idêntico a fossado.
Acheira poderá também ser uma corrupção de facheiro (aquele que agitava ou acendia o facho nos altos dos montes, para afuguentar os inimigos).
Não tinham os freamundenses, quando cansados de certas alterações, o costume de mandar os outros «pregar para o alto da Acheira?»
António Correia - "Freamunde - Apontamentos para uma monografia"

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Correio de Freamunde

Freamunde, de nome soante, vem sugerir tempos pré-nacionais de águias romanas, desfalecendo ao ímpeto das hordas bárbaras...
Mas é Freamunde nome de paz. De origem germânica, provém de FRID (paz) e MUNDE (boca), segundo o confirmam os eminentes filólofos Carolina de Michaelis e Leite de Vasconcelos.
Das mais antigas terras portuguesas, tem seu assento no termo de Entre-Douro-e-Minho, região do Noroeste, berço da nacionalidade e núcleo donde partiram os varões portucalenses para a epopeia da conquista e da civilização.
A seus foros de antiguidade e nobreza acresce a honra de ser a mais importante freguesia do concelho.
Nas Inquirições de 1288, aparece já mencionada como povoação antiga. Dependeu dos Templários de S. Pedro de Ferreira, e, posteriormente, da Ordem de Cristo, fundada no tempo de D. Dinis em substituição da Ordem do Templo.
Freamunde foi dada aos monges-cavaleiros pelos Marqueses de Vila Real, com tantas honras e privilégios como se a doasse ao Rei. Não tinha, por isso, o soberano, nesse senhorio, direitos por quaisquer benefícios concedidos a ricos-homense no tempo da fundação do Reino. Este território foi, mais tarde, incluído na honra e vila de Sobrosa e, várias vezes, aqui esteve instalada a Câmara.
Após 1641, com a integração das propriedades e foros dos Marqueses de Vila Real na Casa do Infantado, os direitos de senhorio transitaram para aquela Casa. Cessaram assim muitos privilégios da terra.
Mas a gente de Freamunde pôde suprir em desenvolvimento económico o lento desvanecer do velho cunho de antiguidade.
Situada em terreno úbere de aprazível vale, a povoação cresceu e aformoseou-se em feição urbanística, por suas ruas aplanadas, prédios de linhas regulares, novos estabelecimentos, enfim, por todo um fervilhar de vida e aspirações a fomentar auspicioso futuro.
Factor importante da sua economia foi, sem dúvida, a Feira dos Treze, criada por provisão de D. João V. A Feira dos Capões, conforme designa o povo a Feira de Santa Luzia, concita actualmente grande número de visitantes e é indice de grande relevância económica.
Elevada à categoria de Vila em Junho de 1933, Freamunde possui uma população de cerca de 5000 habitantes, vária e importante indústria, como a de mobiliário, e consequente movimento comercial. Electrificada em toda a sua área, é servida por boa rede de comunicações. A marginarem a estrada principal para o Porto e a estrada subsidiária de Vizela, encontram-se bons prédios residenciais e estabelecimentos.
O CORREIO DE FREAMUNDE
O serviço de comunicações postais ascende, na localidade, a recuadas épocas. As malas de correio de Freamunde beneficiavam, então, do transporte dos almocreves da Poupa-Seroa e outros, encarregados da boletinagem régia através dos percursos ligados à estrada do Porto-Bragança.
O correio entre Freamunde e Penafiel, com carácter regular, embora apenas em dias alternados, fazia-se já no ano de 1856. A segurança das malas postais obrigava por vezes, nessa época, ao acompanhamento de guardas à vista, tal a frequência com que eram assaltados os almocreves ou caminheiros incumbidos do respectivo transporte.
A partir de 1882, passou o Correio de Freamunde a depender do núcleo postal da vila de Paços de Ferreira. As malas saíam, ora de Valongo, ora de Paredes.
A estação de Freamunde é relativamente recente. Em 25 de Outubro de 1923, abriu à exploração com a categoria de «regional» e, em 12 de Junho de 1958, foi classificada como Estação de 3ª classe.
O seu funcionamento em edifício demasiado pequeno, sem o mínimo de comodidade, desprovido mesmo de instalações hidráulicas, impunha a urgência de uma reinstalação.
Colaborando com a Junta de Freguesia local, envidaram-se esforços para conseguir-se casa adequada ao Correio e convenientemente situada.
Entabuladas negociações, foi construído, nos moldes do Plano de Instalação e Reinstalação de Estações, um edifício para arrendamento aos CTT pelo Ex.mo Senhor Dr. Fernando Matos de Vasconcelos.
A partir de agora, pode a Vila utilizar os serviços de uma estação apetrechada por forma a garantir a eficiência das comunicações e o bem-estar do público.
CTT - 450. ª Realização do Plano de Instalação e Reinstalação de Estações
Junho / 1970

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Coisas Minhas

TEMPO DE FÉRIAS!
Estamos em Agosto: mês de férias. Férias que eu nunca tive, na verdadeira acepção da palavra…Julgo que a última vez em que estive de férias, ainda eu frequentava a instrução primária…As minhas férias, nessa altura, foram sempre no campo ou em estações termais, que assim o exigiam a debilitada saúde de minha mãe e as recomendações dos médicos que a atendiam. Praias não eram aconselháveis, pelo que nunca a elas me habituei…Não vou dizer que as detesto mas, ao fim de um dia de praia, sinto-me cansado, estou “cheio”…É o bulício da muita gente que a elas acorre, o barulho que me perturba, a fina areia que se infiltra entre os dedos dos pés e em tudo o que é costura ou baínha do vestuário, as bolas que nos atingem, inesperadamente, e que, atrás delas, trazem sempre algum miúdo ou alguma garota, ofegantes, em esfalfada correria, a espalharem areia para todos os lados e que se apoderam do “projectil” quase sem pedirem licença, nem desculpa…Há, ainda, aquele mar de corpos espalhados pelo areal, que quase o faz desaparecer num deplorável espectáculo anatómico, cuja enfadonha visão, eivada de mil e um ridículos, não chega a ser compensada pela agradável existência de um ou outro par de pernas mais roliço, por algum peito mais apetitoso ou abdómen mais equilibrado…Lembro-me, horrorizado, de uma praia em Gijon, na costa asturiana, em que os corpos espalhados pelo areal eram tantos que se tornava impossível atravessá-lo, nem sequer, nele penetrar: uma pessoa tinha de se deitar mesmo ali, forçando o espaço entre dois corpos para lá poder caber, e ali ficando, amarfanhado, a “gozar” o Sol e a brisa marinha, que nos chegava envolta em eflúvios de requentados suores, numa promiscuidade quase indecente, sem sequer se poder voltar sem o perigo de ter de empurrar os corpos vizinhos, ainda por cima todos oleados com cremes e anti- infravermelhos e tostadores epidérmicos, que tudo besuntam e para nada servem…Na costa Algarvia e nas praias cosmopolitas do sul da península, a juntar à incomodidade diurna da multidão, há o barulho nocturno das ruas, “boîtes”, discotecas e outras invenções para a gente nova e alegre impedir o descanso dos que não têm a mesma disposição ou a mesma idade…Estou mesmo em crer que a mocidade aproveita a praia de dia para nela dormir e assim recuperar o descanso que não teve de noite…Não: praias só isoladas, vazias e limpas de todo o tipo de poluição – sonora, humana ou propriamente dita – onde, em silêncio, se possa escutar a voz do mar na sua imensidão, repousada e cogitativamente…Mas onde há hoje um paraíso assim?! Nem as Galápagos, suponho…!
Prefiro, pois, o campo, os montes, com todo o seu delicioso bucolismo, a frescura das manhãs radiosas, riscadas pelo alegre chilrear dos pássaros, os prados, leiras e matas com as mil tonalidades do verde que as veste, os largos horizontes e os “longes” de onde vêm, ao pôr do Sol, as harmoniosas e belas toadas das moças que regressam do trabalho e o dolente gemer dos carros de bois, que rasgam o aveludado silêncio do entardecer…
Mas que estou eu para aqui a escrevinhar?!...Recordações da minha infância?...Só o pode ser, pois, hoje, já não há carros de bois, nem moças a trabalharem nos campos (estão todas nas fábricas e nas “confecções”)… e, as que ainda existem, desconhecem as harmoniosas “vozes” dos belos e simples cantares de antanho e hoje “praticam” os disparates sonoros dos “Xutos e Pontapés”, dos “G. N. R.”, “U. H. F.”e quantas siglas de hodierna loucura por aí mais haja ou apareça, com as habituais chinfrineiras de compassados e enervantes batimentos que elas aprendem aos fins-de-semana na discoteca do lugar, metidas em botas de camurça até ao joelho, em saias de nojenta ganga subidas até ao umbigo e no meio de uma infernal barulheira, numa exigida tonalidade de volume sonoro que, dentro de poucos anos, vai ser a autêntica “sorte grande” dos médicos especialistas dos ouvidos e das fábricas de aparelhos de correcção auditiva…
Ai, Jacinto, Jacinto!!...Onde estão as tuas serras? E até a tua cidade?...Que novo Eça terá de nascer para valer aos Jacintos de hoje…?!
-Estás velho e “démodé”…”- ouço a minha consciência e censurar-me. – “Precisas das tais férias que, há largos anos, não tens…”
E eu concordo com ela: os meus gostos estão ultrapassados, e a minha paciência esgotada, o meu mundo transformado…
E, como vou ficando por cá, procuro, em vão, amigos que não encontro, pois…estão fora, a passar férias. O meu grupo de teatro, está parado, pois a sua gente em férias está…E eu, então, refugio-me no clube da terra, onde, todas as noites, uma roda de “suequeiros” (sempre os mesmos) massacram uma pobre mesa, com as “puxadas” jogadas em descomunais murros, como se ela culpa das “passagens” mal aproveitadas pelos parceiros de jogo e das milhares de asneiras tácticas por estes cometidas…E tudo isto acompanhado por imprecações desvairadas , gritadas justificações impensáveis e descomunais risotas, a que se associa uma não menos ruidosa e numerosa assistência, o que torna o ambiente verdadeiramente ensurdecedor…Às vezes, noutra mesa, mais feliz que a sua irmã, surge uma “bisca” entre jogadores mais pacatos, umas “copas” calculadas, um “rami” emocionante de desconcertantes desfechos. Lá dentro, os poucos adeptos da nossa triste e enfadonha T. V., alheiam-se deste ruidoso ambiente…No “bar” muito poucos se entregavam a amenas conversas, quase sempre de circunstância…E, quando o perturbado ambiente está querer esmorecer e a acalmar, há sempre alguém e largar, em bem sonora voz, umas “bocas” futebolísticas (actividade obssessionante…), proferidas com um ar de quem não admite contestação, um dixit inatacável, sublinhado, por vezes, por despropositadas gargalhadas e tresloucados conceitos, outras vezes por irados comentários e agressivos olhares, se alguém ousa minimizar o assunto…
Então saio e, para não ouvir mais desagrados, refugio-me na “Tocata”, local onde tenho a certeza de não poder escutar asneiras, nem asneiras nem os mais inteligentes conceitos, pois mo não permite o “estrondinhoso” volume de barulho musical tão do agrado dos seus frequentadores…
Mas porque não vou eu para férias? Como toda a gente? Porque me limito a ir, de vez em quando, quatro ou cinco dias aqui ou ali?...Por falta de tempo? Por falta de disposição? Por anos a mais…? Oh! Como eu hoje compreendo a resposta de meu saudoso sogro, quando o animei a ir até Paris e a deixar-nos em paz, sem as suas caturrices e exigências…
- “Agora?!...Não vou: tenho pena!...”
FERNANDO SANTOS - "COISAS MINHAS"

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Apenas uma imagem

Apenas uma imagem de um belíssimo pôr do Sol, algures em Freamunde, num belo e quente 15 de Agosto...

terça-feira, 13 de agosto de 2013

As Pupilas do Sr. Reitor - 1964

Uma peça adptada do célebre romance de Júlio Dinis, por Ricardo Silva, levada a palco em 1964 e 1965  pelo Grupo Teatral Freamundense, com anotaçaões e arranjos de Fernando Santos (Edurisa, Filho) e música do maestro Jaime Martins. Uma opereta em quatro actos que inaugurou a segunda época teatral em Freamunde.
Uma das inúmeras peças de teatro que o GTF levou a palco neste meio século de vida! Bem hajam.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Poesia de Freamundenses

É TEMPO DE DIZER ADEUS
Tu nunca estiveste aí para mim,
Simplesmente estavas ocupado contigo próprio!
É tempo de dizer adeus.
Gastamos tudo: as palavras, os olhos,
As mãos de tanto as apertarmos...
Gastamos tudo menos o silêncio.
Tinhamos tanto para dar um ao outro!
Às vezes dizias coisas tão lindas,
Juntamente com um sorriso aberto
Que só tu tens e que jamais o esquecerei!
Todas as noites estremeciam
Quando murmurava o teu nome
No silêncio da escuridão!
Mas isso foi no tempo do medo,
No tempo da mentira e da conveniência.
Com o passar do tempo,
Voltarei a ter o mesmo brilho,
A mesma alegria e o mesmo jardim
             (à minha porta que uma vez perdi?!
Já não temos nada.
Tudo foi gosto.
Mais uma vez: É tempo de dizer  adeus.
Mariana Ribeiro - "Alma Freamundense" - Julho de 2004