Maria Fernanda Alves da Costa tem 73 anos e mora em Covas, Lousada.
Margarida Moreira de Bessa, natural da freguesia lousadense de
Figueiras, mas uma mulher de Freamunde, é dez anos mais velha.
Ano para
trás, ano para a frente, as duas são das vendedoras de capões mais
antigas da tradicional Feira de Santa Luzia que, na sexta-feira da
semana passada, voltou a levar milhares de pessoas a Freamunde.
Habituadas a este ritual desde novas, Maria Fernanda e Margarida
prometem abandonar a feira e os capões apenas quando a saúde já não lhes
permitir fazer o percurso entre as suas casas e o centro de uma cidade
onde, por estes dias, o capão é rei.
500 frangos capados
A
história destas duas mulheres é semelhante e ter-se-á cruzado algumas
vezes, sobretudo por esta altura do mês de Dezembro. "Vendo capões desde
que eles custavam 150 e 200 escudos. Tinha dez anos e vinha com a minha
mãe a pé desde Figueiras. Trazíamos cerca de 12 capões para vender na
Feira de Santa Luzia", recorda Maria Fernanda Alves da Costa.
Nessa
altura, Margarida Moreira de Bessa também já tinha o seu espaço para
apregoar aquele que dizia ser o melhor capão de toda a feira. "Aos 18
anos casei e vim para Freamunde. Pouco depois experimentei capar os meus
galos e correu bem. Nunca mais parei", refere.
Para
esta octogenária não existe segredo nenhum: "faço um corte à beira do
rabo do frango. Depois meto-o debaixo do braço e tiro os grãos. A
seguir, coso o rasgo e, no fim, corto-lhe a crista e as barbas". Foi
desta forma aparentemente simples que Margarida capou cerca de 500
frangos… só este ano. "As pessoas telefonam-me e eu lá vou capar. Já fui
a Braga, Guimarães, Arcos de Valdevez ou Aveiro. Não levo dinheiro
nenhum. As pessoas só têm de me vir buscar, dar-me o almoço e trazer-me a
casa", garante.
Maria
Fernanda Alves da Costa, mãe e avó, tem a mesma paixão pelos frangos que
não chegaram a galos, mas nunca capou nenhum. "Tenho os dedos curtos e
as mãos inchadas. Não consigo capar", explica. Mesmo assim, assegura que
nunca faltou a uma Feira de Santa Luzia, na qual vende frangos capados
por uma vizinha. Também os vende um pouco por todo o país. Desde
Amarante a Lisboa, passando por Guimarães. "As pessoas ficam com o meu
número de telefone e encomendam. Outras vêem o anúncio em minha casa e
páram para comprar", diz.
50 euros é o preço "justo"
Em
Julho, Maria Fernanda capou 82 frangos comprados em Março. Porém, nem
todos chegaram a capões. Durante o processo de crescimento – que se
alonga por sete, oito meses – 17 morreram devido àquilo que diz ser "uma
operação delicada". "É normal morrerem assim tantos", complementa.
Para a feira
levou 21 capões, mas a meio da tarde só tinha vendido três. "O povo
quer barato, mas eu prefiro vendê-los a um preço justo", sustenta. Preço
justo que estipulou entre os 45 e os 50 euros e que, afiança, não
pagará o trabalho tido com os bichos. "Não fazemos contas às horas que
passamos em volta dos galos", avisa.
Na
Feira de Santa Luzia os capões de Margarida Moreira de Bessa também
estavam à venda por uma quantia a rondar os 50 euros, mas a mais velha
capadora de Freamunde prefere fazer negócio com restaurantes e com quem a
procura em casa. "Só trouxe dois capões para o concurso. Tirei muitas
vezes o prémio, mas percebo que não possa ganhar sempre… os outros
capadores começam a reclamar", afirma.
Com
ou sem prémio, Margarida voltará à Feira de Santa Luzia enquanto as
forças lhe permitirem. Terá ao seu lado Maria Fernanda, que com o pregão
"vai um capão" tentará convencer os fregueses a comprar-lhe um frango
que, por ter sido capado, tem um tamanho anormalmente grande para aquele
tipo de bicho.






